quarta-feira, 31 de julho de 2013

A cor do perdão



A doidinha da minha filha adora capacete.

Agora, arrumou um rosa. Com uns bichinhos desenhados, uma viseira enorme, uma coisa. E fica ela ali, a olhar as coisas de capacete.

Talvez esteja certa. A gente precisa mesmo de um capacete no mundo de hoje. Pra ser homem-bala, pra aguentar as pauladas, pra bater nos postes que nem sempre pareciam estar ali, no caminho.
Quem tem um capacete?

Eu tenho 3. E nem assim eles evitaram que eu me pusesse em rota de colisão total. A gente bate no muro, a gente bate na cerca, a gente toma paulada de tudo quanto é lado. Fora as pauladas que a gente mesmo dá.

O capacete é uma forma de perdão. Perdão adiantado, quando a gente sabe que ainda vai bater a cabeça. Perdão presumido, quando a gente pensa... "é, é capaz de eu ainda bater a cabeça". Perdão confesso: "eu já bati a cabeça e pelo visto ainda vou bater mais... deixa esse capacete aí, onde está".

No caso da minha filha seu perdão tem gatinho e cachorrinho. Eu sei o porquê.

O perdão da minha filha é rosa - como deve ser o perdão de toda criança, mesmo. Um ingênuo perdão.
Por isso, peça logo desculpas para a criança ao lado. Aproveite que seu perdão ainda é rosa.

Ah, aproveitando o ensejo: qual a cor do seu perdão?



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Nós não temos limites






"Sr. Anderson, posso fazer uma pergunta?"
"Pode", disse o professor de literatura.
"Porque as pessoas bacanas escolhem as pessoas erradas pra sair?", perguntou Charlie.
"Estamos falando de um alguém específico?"
Charlie fez que sim com a cabeça.
"Aceitamos o amor que achamos que merecemos." - pontuou o professor.
"Podemos fazer com que saibam que merecem mais?", continuou Charlie.
"Podemos tentar." - disse Sr. Anderson.
(sorriso)

Leia de novo a resposta do professor, inspire e expire uma vez, antes de prosseguir:
"Aceitamos o amor que achamos que merecemos."

Imagino que o livro aclamado pela crítica seja bacana. Não imaginei que o filme pudesse ser. Mas tem dois momentos muito específicos que me tomaram por inteiro. Um, esse. O outro, vejam vocês mesmos (e quem me conhece vai saber na hora), se tiverem vontade de assistir a uma sessão da tarde. Claro, porque o filme não passa muito disso. Mas o mais legal é que pode se confirmar que sem pré - conceito, ganha-se muito.

Quando estamos abertos, disponíveis, com o coração limpo e entregue, pode-se ser surpreendido com mais facilidade. E encontrar momentos de arrebatamento poético. Afinal, a gente só encontra mesmo o que procura. Por isso, quando procuramos o Bem, o Bom, o Belo, fica muito mais fácil de achar. Seja no filme simples, seja no encontro simples, seja no dia-a-dia simples, a simplicidade de se colocar à disposição e de se entregar, simplesmente, é algo transformador.
Já reparou que "simples" começa com um "sim"? 
(sorriso - agora meu) É simples, né?

É assim com o beijo, seja ele o primeiro ou o último, é assim com o abraço, é assim com o carinho, é assim com a reunião de trabalho, com o encontro com os pais, com o encontro com a ex, com o desafeto e com a aula de natação. É assim com a espera no consultório e com a fila de banco. Com o que de legal e de chato o mundo parecer lhe oferecer. O olhar que procura faz toda a diferença.

É assim que pode-se finalmente começar a enxergar o invisível.






sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ficar, pensar, dizer.




Fico pensando que não há o que dizer. Fico falando que não há o que pensar. Penso dizendo que não há porquê ficar.

E escrevo. E decido solamente andar. Sem lamentar. Porque é chato. Principalmente porque é chato. Hoje não sei mais sofrer. Hoje nada me dói. As pessoas podem entender que rir é melhor que chorar. Que amar é melhor que brigar. Que no fundo no fundo, todo mundo só quer um abraço. E um carinho. E um sorriso. E uma gargalhada de tarde, antes do sol se pôr, ouvindo uma coisa engraçada e simples, e depois do sorriso só dar aquela suspiradinha gostosa e rir com os olhos pro outro que está na nossa frente.
O outro pode estar fora e estar dentro, um dia a gente descobre que isso não importa. Não importa nada, de fato. Cabe um encontro com a solidão verdadeira, com o muro de nós mesmos pra que conheçamos a vastidão de sua altura, a concretude de sua largura, a força de sua imponência. E vale soprar o muro. De levinho, devagarinho, com o Vento da palavra amor que decidimos dizer e que sopra mais na vogal "o", hálito divino da vontade de conectar-se com o universo, pedra jogada no lago da existência, que amplifica:
amor. 
a m o r. 
a   m   o   r. 
a     m     o     r. 
a         m         o         r. 
a           m            o           r.
a                  m                   o                      r.

E assim vai palavra, pá lavra, cavando sentidos no muro do eu, tirando os tijolos desnecessários do ser, ampliando nossa presença pensada, dita, no universo em movimento.
Que vontade de dar um abraço em mim mesmo agora. E dizer que estou aqui. Andando. E amplificando a palavra amor pela enorme plantação de corações que vejo à minha volta, uns escondidos, outros esquecidos, a maioria fortes, brotando, sementes que só esperam um tantico d'água para renascer.
Sem ficar, sem pensar, sem dizer, sem escrever, amo. Não importa a crença. Importa o amor.



terça-feira, 23 de julho de 2013

Abra-se


O sentimento do mundo cabe num abraço.
Abraço apertado,
abraço profundo,
abraço de fé, de amor,
abraço, laço do peito.

O abraço abre o aço.

Abraço,
quando nossas gaiolas do peito se trançam.
Somos passarinho a nadar juntos no mesmo baldinho.
Ato de entrega, selo da amizade verdadeira,
no abraço se deita no colo de Deus.

Volto à infância.

Sopro divino, no abraço se alinham dois corações.
No abraço se aninham almas que se pretendem irmãs. Ímãs
Hiato do conceito, quebra da dor,
Abraço é coisa que faz o Tempo parar.

Há mar, e cabe num abraço.
O abraço compreende todo O universo.

Poesia dos corpos, o abraço é a moldura do encontro.
Nada a dizer, tudo a querer, o abraço é a verdade tangenciável do ser.

Abra-se. Abrace. Agora.

E experimente o ato sublime da criação conjunta.

Há braço. E forte, apoio da sutil existência humana.




Para o Peregrino e Cavaleiro Ramiro Maia que, descalço, 
vestindo uma camisa com um peixe estampado, 
atravessou o oceano por causa de um Abraço.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Nosso rumo


Ele, menino, intuiu que era esse o Caminho a seguir.

Descobriu que a amava quando ela se encontrava deitada, enferma, aninhada em suas mãos, passarinha de penugem clara e bico forte, selvagem por natureza.

Percebeu que o peito da gente é só é uma gaiola. Soube que se deixasse ela voar, mantendo sua gaiolinha aberta, quem sabe, ela teria vontade de voltar pra fazer ninho? Os peixes são mais peixes quando n'água nadam.

Ele, nada. E descobre em seu Caminho, muito caminho a andar. Ela voa. Ele, não. Ele caminha. Mas seus pensamentos podem voar.

Seus pensamentos e seu coração.

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Rainha e o Cavaleiro.



Cavaleiro Templário contemporâneo ainda ajoelha diante de sua Queen.

Uma de dois anos de idade.

Ela, filha, o abençoa em sua jornada. Odisséia pessoal universal única, se é que isso é possível, sai seu fiel cavaleiro andante pelas linhas tortas de seu destino, rumo ao nada. A ideia primeira, era andar de Belo Horizonte a Recife, ou seja, a distância de 2.222km entre sua casa e a casa onde mora sua filha, pra mostrar que "Pai é só uma seta amarela". Pai é exemplo, e só. Nesse caso, o exemplo de paz. Em busca das virtudes perdidas do Bem, do Bom e do Belo, alvos tangenciados tantas vezes e dificilmente alcançados.

Não foi fácil, posso dizer. Fui eu. Foram 88 dias de caminhada, 14kg que se foram pra sempre, deixados, escorridos por cada uma das gotas de suor. Bagagem extra desnecessária na vida da gente. Acho que vou lançar um Best Seller: "Emagreça 14kg em 88 dias". O mais difícil é só a caminhada do Vaticano a Santiago de Compostela. Os detalhes são fáceis. Afinal, são os tão pequenos de nós dois.

Chuva, vento, sol, calor, frio, fome, dor, tempestade, raio, vazio, silêncio, serpentes. O dragão do medo. O gigante da indecisão. Cindido, ferido. É forte a pele de réptil que cresce escudo pela ordem da fé. Chega uma hora que a fé vira certeza. Chega uma hora que o verbo crer se transmuta em saber.

Foram 3 meses de treinamento intensivo: o olhar atento dos preparadores da HF Treinamento Esportivo no chamado Funcional, aliado à corrida e caminhada com peso e equipamentos. Treinamento da mente: a verdade não mente. E um dia e depois outro, e um passo e depois outro, e o exercício da compreensão do AGORA eu posso. E vou.

E assim se faz um Cavaleiro Fiel.

Quando o rabino Nilton Bonder discute a "Tradição" e a "Traição" em seu best seller, é seta amarela para que eu empreenda o Caminho e discuta "Fidelidade".

A Queen contemporânea sabe o valor da fidelidade?

O Houaiss parece saber. Característica, atributo do que é fiel, do que demonstra zelo, respeito quase venerável por alguém ou algo; lealdade; observância da fé jurada ou devida; constância nos compromissos assumidos com outrem; compromisso que pressupõe dedicação amorosa à pessoa com quem se estabeleceu um vínculo afetivo de alguma natureza; característica de um sentimento que não esmorece com o tempo;... e assim vai, até terminar a definição na física: em uma balança, propriedade que esta tem de assumir uma única posição, ou fornecer a mesma leitura quando submetida repetidas vezes, à mesmas forças.

As forças do amor da minha pequena se submeteram repetidas vezes em meu coração, até que toda medida não fosse mais possível. E que eu me tornasse finalmente um com suas forças. Com as forças do amor da minha legítima pequenina Queen.

Deus salve a Rainha.




sábado, 13 de julho de 2013

pé de silêncio



Silêncio é escola 
onde se aprende a ouvir.

Silêncio é mola
onde se joga a fala.

Silêncio é oco
oca da ideia da gente.

Silêncio é árvore
folhas, páginas em branco.

Pé do silêncio, a inspiração.
Seu passo, sopro. Se eu passo, silencio.
Pé de silêncio, meu livro em branco.

Quando fala falo, 
o estupro da orelha, 
calo.






quinta-feira, 11 de julho de 2013

Será fim?



Do alto, lá, de dentro, pude observar.
Onde não encontro, onde não procuro, onde nenhum lugar.
Quando em oração, o silêncio de quem anda.
A areia que o Vento sopra escolhe minha ampulheta.
No cantinho das unhas dos meus pés, na costura dos panos, todos, ela quer pousar. Dormir seu sono do Tempo, seu sonho Castelo de Areia, vontade de completar algum vazio destino. Quem sabe o nome do cavalo de São Jorge?
Eu sei.

Serafim veio, encontrou caído, Homem que chora na Capadócia. Chorava rios destinos, estrada rasgada aos calcanhares, fissuras no asfalto da vida. Sua bile era piche a tentar remendar desatinos. O negro da noite cobriu seus olhos todos. Véu que mata, asfixia.

Serafim tem dedos delicados. Pontudos. Pontua. Seis asas, seis contos, seis casos. Santa Clara naneou por um instante e ajudou Serafim a limpar seus olhos. Todos. Soprou em sua boca o Espírito Santo esquecido num canto. Onde vassoura alguma consegue varrer. Assim, segurou ombros. Levantou queixo. Ouviu queixas. Orelhou-se. Desvelou, em abraço, carinhos fraternos de mulheranjo.
Inspirou. E com novo ar, decidiu:

- É agora! Vôo.


Para Danielle Michel Serafim