domingo, 30 de junho de 2013

88 - 14 = 2.500

Nunca fui bom em Matemática. Acho que agora sei o porquê.

Como provar pra minha professora, pesadelo dos idos de menino, que oitenta e oito menos catorze é igual a dois mil e quinhentos?

Foram oitenta e oito dias de provações. De raio a serpente, teve de um tudo. Um dia se aprende que corajoso não é quem não tem medo. É que coragem é só a capacidade de agir de quem tem coração. Devo confessar. Foi fácil: todo dia eu chegava na porta, ao sair, e jogava o meu coração bem distante, na cidade de meu destino. Daí, era só ir buscá-lo pra minha filha. Ela não pode ficar sem ele.

Quando se tem afeto, afeito no sisal do verdadeiro amor, borda-se qualquer caminho, ponto a ponto, passo a passo, linha dourada que pontua: é vida.

Eu vivo. E tenho histórias de há mar pra contar. Mesmo na areia, escrevo com verdade o que a onda do tempo lava, leva, louva. Deus sabe.

Agradeço por não saber fazer contas. As contas que sei, são as que bordo neste mesmo lindo pano. Vou passar um tempo agora tentando bordar um pouco pra que mais gente possa ler. E um dia, quem sabe, ir buscar meu coração de novo, quando ele pedir pra ser jogado novamente, só por divertimento, pra sentir o Vento, amigo que fez ao longo do Caminho...

#88dias, #14kg, #2.500km.


terça-feira, 18 de junho de 2013

2+2+2+2

O Caminho do Pai foi alcançado.

Foi distância que quase não acaba... Dois mil, duzentos e vinte e dois quilômetros completos no dia do aniversário do avô Toi. À pé, de Belo Horizonte a Recife: tem distância de sobra pra muita e muita e muita e muita coisa...

A principal, talvez, o amálgama do Amor. Que cola, adentra os poros semente, brota na gente e nos faz floresta. Saímos por aí, a arvorejar a existência, demonstrando afetos e efeitos do há mar. É árvore de ondas, folhas de espuma, frutos de estrelas, de fazer inveja a qualquer carambola.

Nossa Belo Horizonte foi o Vaticano. Nossa Recife, um lugar chamado Casa dos Deuses.

Para minha surpresa, grata satisfação, lugar de doação que me chamou a atenção no Caminho de Santiago desde 2009, quando passei ali pela primeira vez...

Para a minha surpresa, foi ali que se deu a tal distância, o longepertocolado, pra quem quer saber é da palavra "alcançar". É que "cansar", palavra próxima, é só um passado de luta. Que, passado, nem é mais, só lembrança pra valorizar o pó da estrada que ficou.

Minha filhinha aprendeu a dividir. Seu papai tem andado por tanta gente... É muito passo, muita estrada, muita história, muito nada. Tudo a deriva no mar da existência. Depois da curva da estrada, do Renato Teixeira, tem um pé de araçá. Sabe? Ele pensa que deve ser doce a fruta do coração. Eu sei. Eu sorvi.

Passo a passo, até que minhas botas furassem. Lisas. De tanto carinho que fizeram no mundo.
Faltam duzentos e cinqüenta e uns quilômetros e já perdi treze quilos e meio. Não sou eu mais no espelho. Nem fora dele.

É só um muito humano ser qualquer, que sei, melhor. Que mesmo n-ovo, acredita no Exemplo, na Paz, e nas virtudes do Bem, do Bom, do Belo.

Estou no portão da frente pro resto da minha vida, Beatriz. Você sabe. Não vou tocar a campainha. Saia quando e se quiser. Tem um quintal inteiro florido, aqui, à sua espera, que você pode simplesmente chamar de "- Papai".