terça-feira, 7 de maio de 2013

Chão, onde se caminha.

Querida Nisia. Que bom que me acompanha. Você me pergunta sobre meus passos. Onde estou, aonde vou. Eu não sei. Só estou caminhando. Como diz o outro Cavaleiro Templário, Ramiro Maia, sabiamente, "levanta e anda". Ele pegou a minha mão no Caminho de Santiago em 2009, quando fizemos juntos o Caminho Francês de Roncesvalles a Santiago. Somos dois. Mas pode ser que ainda existam outros.
Meu caminho é de paz. É o Caminho de Francisco. E de São Bernardo, seu amigo que foi com ele até Santiago (sabia?). Não sei se você sabe, não tenho podido ter o contato saudável de um pai com a minha filha. É que quiseram levar a guarda dela para a justiça. Eu lhe pergunto, Nisia: que pai pode ver sua filha até dois anos de idade por apenas duas horas, a cada quinze dias, desde que dentro da casa do avô materno?
Bom, eu não posso. E quero crer que todo o senso comum, sensato, julgue que não. Eis o começo do imbróglio: julgamento.
Enquanto caminho, penso no advogado "que defendeu" a minha filha. Que, durante meu pouco contato com ele, estava com um filho na barriga da esposa e com o pai em fase terminal em São Paulo. Assim me disse. E tenho compaixão (repare bem nesta palavra... com pai, chão). Quero crer que ele saiba o que é ser um bom pai. O que é ser um bom filho. Quero crer que ele saiba que tentar aumentar a pensão em troca de mais contato com uma filha é perverso, não é do meu mundo. Do mundo em que acredito viver. Quero crer que todo pai saiba disso. Mas quem sou eu? Isso não representa a verdade, só o que EU quero crer. Tenho esse direito assegurado por lei?
Sou apenas um pai, Nisia. E aprendi com meu pai, que não se faz qualquer coisa por um filho. Se faz o que deve ser feito. O que é melhor pra ele. O que tangencia a Verdade - valor tão complicado de se compreender hoje em dia. Não "disse" entender, "disse" compreender. E, pra isso, compreensão, você sabe, demanda experiência, sentimento.
Meu pai vendeu a casa onde eu morava. A minha casa. A casa de um canceriano.
Por quê? Porque era o certo a se fazer. Porque era a verdade de 1991. Hoje, em 2013, lembro que não estou há 6 meses sem me encontrar com minha filha de dois anos e quase três meses à toa. É porque é o certo a se fazer. Porque é isso que um pai faz. Mesmo que o filho só entenda alguns, às vezes muitos, anos depois.
Eu só sou um Cavaleiro Templário, Nisia. Que decidiu não ir pelo caminho da guerra. Da batalha judicial. Decidiu ir pelo Caminho da paz. Por isso, quando minha filha foi levada pra Recife, a 2.200km de distância, eu decidi que nenhuma distância seria capaz de nos separar.
Sabe, Nisia, nós, Cavaleiros Templários somos assim. Eu, como sou um dos últimos, decidi ser mais ousado. Buscar não o Santo Graal. Buscar o seu conteúdo. E o que é o conteúdo do Santo Graal? É o Sangue de Cristo: seus descendentes.
A minha é Beatriz. Meu sangue.
Por isso, comecei a minha odisséia particular de paz e amor, em busca unicamente de dar o exemplo pra minha filha. Mostrar o que um pai deve fazer. Tive esse exemplo em casa. Decidi unir o Caminho de São Francisco ao Caminho de Santiago, o caminho da paz, o caminho do amor. E ouvi O chamado, como Templário que aceita sua contenda de amor, lutando como prega o Karatê, que fiz por 25 anos: "de mãos vazias". Nosso Dojo kun é 1-esforçar-se na formação da personalidade, 2-seguir o caminho da sinceridade, 3-cultivar o espírito de empenho, 4-dar importância à cortesia, 5-reprimir atos brutais.
Acho brutal um pai poder se encontrar com sua filha cheio de restrições. Minha repreensão é "dar a outra face" - mostrar o outro lado, revelar o que não foi visto: o lado do amor.
Assim, caminho. Só. Sem pedir nada. Só pra dar o exemplo pro conteúdo do meu Santo Graal.
São já 1.020km pelas contas do Google maps. Faltam ainda 1.480. Hoje (ontem) dormi nos braços de Maria Madalena. Rezei pras mulheres da família. Todas. A Basílica aqui em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume é linda, de um poder fabuloso. Em pouco mais de 1.000km já são centenas de mãos abanando, centenas de sorrisos, centenas de desejos de bom caminho, dezenas de abraços, alguns beijos, muitos e muitos pedidos de oração, dezenas de histórias de fé e amor. Comecei só. Agora, tenho que caminhar pelos tantos que me abanaram a mão, me pagaram café, lanches inteiros, hospedagem, que pedem e precisam de oração, e que, em alguns casos, estão em sofrimento profundo...
Nisia, mais uma lição a ser dada pra minha filha: aprender a compartilhar. Este caminho não é mais só dela e meu. É de todos estes que eu encontrei e que precisam e pedem um pouco mais de paz e amor e sabe-se lá o que vem pela frente... Afinal, pra quê mesmo vale a vida?
Sou grato por caminhar comigo. Espero lhe encontrar na nossa aula de culinária de agosto, querida amiga. E mais notícias ou histórias do Caminho? Bom, quem sabe não vem um terceiro livro, né?
Fique com Deus e em paz. Um Bê ijo carinhoso.

3 comentários:

Lucia Luz disse...

Bê querido, esse é o verdadeiro caminho.
Conte com minhas orações.
Beijo carinhoso

Fé e força

Lucia Luz

Ana Cabral disse...

Uma curiosidade...
Por que não o caminho Belo Horizonte a Recife? Pensou nisso alguma vez?

Bê Sant Anna disse...

O Caminho de Francisco é na Itália e o de Santiago na Espanha, o tradicional. E O Vaticano e Santiago são as principais rotas de peregrinação, além de que a idéia era fazer o Caminho feito por São Francisco.