segunda-feira, 27 de maio de 2013

Refazenda

Sou grato por ter recebido durante esses dois meses, praticamente, o apoio de tantas pessoas. Uns mais evidentes, outros mais sutis, todos carinhosos para mim na mesma medida.

Escrevo porque já não tenho crédito no meu IPad para postar ou receber nada, e me programei que no Caminho, de Saint Jean Pied Port a Santiago de Compostela, eu só iria conversar com os Peregrinos. Agora, é um momento mais ainda meu e da minha filha, que caminha comigo.

Combinei com meus pais que iria dar notícias nesses dois terços. Onde nunca tinha ido, nunca tinha estado, não sabia das dificuldades ou desafios a encontrar. Sobretudo para a tranqüilidade de quem fica, e que não sabe como efetivamente estão as coisas pra quem foi. E, claro, recebi muito muito muito apoio dos dois.

A partir de amanhã, se eu conseguir fazer os 38km que me separam Mauléon Licharre de Saint Jean Pied Port, vou fazer o meu voto de silêncio também externo, porque o interno tenho feito ao longo das 6 a 8 horas em média que tenho caminhado só, em oração com Deus, minha filha, e meus amigos no coração.

Sou grato de corpo e alma.

Alma vem de animus, ânimo, aquilo que move.

Fui movido por centenas de tchaus, sorrisos, abraços, alguns beijos, desejos de bom caminho, centenas de curtidas no facebook, dezenas de comentários, espirituosos e/ou espirituais e energias mágicas, transmitidas e sentidas com todo amor que tenho em mim. Até o silêncio de quem torce chegou em boa hora, pode crer.

Amanhã, no dia do aniversário da minha mãe, vou tentar completar a segunda etapa do meu Caminho da Paz, o Caminho do Pai, o Caminho do Exemplo e das Bênçãos para o Meu Abacate, que se chama Beatriz.


sábado, 18 de maio de 2013

Mais, bem mais da metade

1.392km pelas contas do Google.

Saí de Belo Horizonte, rumo a Recife e estou em Santo Amaro, na Bahia. Sim, à pé. A Salomon está de parabéns. O vendedor da bota francesa, marca líder no mercado de tracking mundial, me disse que dificilmente uma bota conseguiria agüentar 1.000km. Que fatalmente eu iria ter que comprar outra antes da metade do Caminho. E, estupefato, vejo que estou quase com dois terços da rota completos. E a bichinha tá afinando mas tá firme. Igual a mim, que há uma semana e meia, aproximadamente, já tinha perdido 9kg.

Veremos quem perde tudo primeiro, a bota ou eu.

Posso aqui travar discursos inteiros sobre dores, receios, dificuldades, anseios, dúvidas, mapas, planos, decepções, conquistas, superações, assombros, encontros, desencontros, fé, paixão, saudade, amor, amar, choro, pranto, soluços, busca, desejo, compaixão... Mas prefiro deixar ao sabor do vento. Pelo menos, por enquanto. Cabe a ele e ao sonho dizer como ando, da fé, do amor, da superação, da luta diária de foco e ânimo, motivados por uma menininha linda cabeluda, que ainda não sabe o quê o papai está fazendo por e pra ela.

Estou chegando, filha. De Santo Amaro a Recife é um nada. E o nada se preenche com amor, filha. Vasto, perene, certo, pleno. Verdadeiro. E, contra isso, nem o medo pode. Nem a inveja pode. Nem mesmo a Ignorância. Santa ou não.

O amor é conteúdo absoluto e definitivo nosso, filha. Saiba. Seiva. Salva.

Por isso, em meu caminho, vôo. Com fé e certezas.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cesinha

Podia ser Cesão, pelo tamanho. Mas e o carinho, onde é que fica?
Tem tanto carinho envolvido, que tem gente que lhe chama de Cé. Não basta só o Cesinha.
Ou Mô, que, pro mais desatento, pode parecer diminutivo de Amor, mas pra quem lhe conhece, sabe que Mô = Amor + Carinho + Ternura + o Ser Muito Humano que você é.
Não dá pra falar de você, Peregrino, sem pensar no quanto já vivemos juntos. Filho de José, você é o verdadeiro marceneiro. E serralheiro! Como não pensar nas tantas vezes que brincamos juntos, em tantos quintais pelo mundão afora, de Belo Horizonte, Teófilo Otoni, Brasília, Alcobaça... A vida nos parecia O quintal. E travamos juntos muitas batalhas de menino. Capa e espada, carrinho de rolimã, Clubinho, bicicleta, futebol, polícia e ladrão, desenho, cavalo. Voltávamos juntos do Barão do Rio Branco, a Escola Estadual que estudamos por um bom tempo. Aprendemos juntos a ficar amigo do mais forte pra não apanhar na escola. Éramos esmirrados. Pequeninos. Crescemos depois dos 16 anos. Acho que foi a vontade de estender a infância. O que mais me impressiona é que nossas brincadeiras sempre tinham algo a construir. Juntos, construímos sonhos.
Hoje, você caminhou bastante. E não foi só o Caminho de Santiago que fez, junto com o Beato Canário e Léo, seu irmão 12 anos mais velho que você. Foi o percurso da vida, meu irmão. Dois filhos lindos - quer dizer, um muito mais lindo, o meu afilhado! O outro, uma peça rara! A simpatia em pessoa! E uma mulher brava pra daná, que sonhadores do nosso tipo, tem que mexer é com mulher brava mesmo, se não, tá lascado!... Enfim, hoje sou mais feliz por ter você Cesinha, ao meu lado, caminhando junto comigo nessa peregrinação que faço. E você sabe que ela só estará completa quando chegar a Santiago, voltar ao Brasil, chegar a Teófilo Otoni e caminhar até a Fazenda América, não sabe?
Afinal, as bênçãos de Liginha e Cenira são o que selam, pra nós, as grandes Odisséias.
Parabéns pelos seus quarenta anos, meu irmão. Daqui a 6 anos, quando fizer 40 também, quero estar tão forte, feliz e bem como você (com menos barriga, um pouco)
Fica com Deus e em paz.
Que Deus ilumine seus caminhos, que sempre serão nossos.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Chão, onde se caminha.

Querida Nisia. Que bom que me acompanha. Você me pergunta sobre meus passos. Onde estou, aonde vou. Eu não sei. Só estou caminhando. Como diz o outro Cavaleiro Templário, Ramiro Maia, sabiamente, "levanta e anda". Ele pegou a minha mão no Caminho de Santiago em 2009, quando fizemos juntos o Caminho Francês de Roncesvalles a Santiago. Somos dois. Mas pode ser que ainda existam outros.
Meu caminho é de paz. É o Caminho de Francisco. E de São Bernardo, seu amigo que foi com ele até Santiago (sabia?). Não sei se você sabe, não tenho podido ter o contato saudável de um pai com a minha filha. É que quiseram levar a guarda dela para a justiça. Eu lhe pergunto, Nisia: que pai pode ver sua filha até dois anos de idade por apenas duas horas, a cada quinze dias, desde que dentro da casa do avô materno?
Bom, eu não posso. E quero crer que todo o senso comum, sensato, julgue que não. Eis o começo do imbróglio: julgamento.
Enquanto caminho, penso no advogado "que defendeu" a minha filha. Que, durante meu pouco contato com ele, estava com um filho na barriga da esposa e com o pai em fase terminal em São Paulo. Assim me disse. E tenho compaixão (repare bem nesta palavra... com pai, chão). Quero crer que ele saiba o que é ser um bom pai. O que é ser um bom filho. Quero crer que ele saiba que tentar aumentar a pensão em troca de mais contato com uma filha é perverso, não é do meu mundo. Do mundo em que acredito viver. Quero crer que todo pai saiba disso. Mas quem sou eu? Isso não representa a verdade, só o que EU quero crer. Tenho esse direito assegurado por lei?
Sou apenas um pai, Nisia. E aprendi com meu pai, que não se faz qualquer coisa por um filho. Se faz o que deve ser feito. O que é melhor pra ele. O que tangencia a Verdade - valor tão complicado de se compreender hoje em dia. Não "disse" entender, "disse" compreender. E, pra isso, compreensão, você sabe, demanda experiência, sentimento.
Meu pai vendeu a casa onde eu morava. A minha casa. A casa de um canceriano.
Por quê? Porque era o certo a se fazer. Porque era a verdade de 1991. Hoje, em 2013, lembro que não estou há 6 meses sem me encontrar com minha filha de dois anos e quase três meses à toa. É porque é o certo a se fazer. Porque é isso que um pai faz. Mesmo que o filho só entenda alguns, às vezes muitos, anos depois.
Eu só sou um Cavaleiro Templário, Nisia. Que decidiu não ir pelo caminho da guerra. Da batalha judicial. Decidiu ir pelo Caminho da paz. Por isso, quando minha filha foi levada pra Recife, a 2.200km de distância, eu decidi que nenhuma distância seria capaz de nos separar.
Sabe, Nisia, nós, Cavaleiros Templários somos assim. Eu, como sou um dos últimos, decidi ser mais ousado. Buscar não o Santo Graal. Buscar o seu conteúdo. E o que é o conteúdo do Santo Graal? É o Sangue de Cristo: seus descendentes.
A minha é Beatriz. Meu sangue.
Por isso, comecei a minha odisséia particular de paz e amor, em busca unicamente de dar o exemplo pra minha filha. Mostrar o que um pai deve fazer. Tive esse exemplo em casa. Decidi unir o Caminho de São Francisco ao Caminho de Santiago, o caminho da paz, o caminho do amor. E ouvi O chamado, como Templário que aceita sua contenda de amor, lutando como prega o Karatê, que fiz por 25 anos: "de mãos vazias". Nosso Dojo kun é 1-esforçar-se na formação da personalidade, 2-seguir o caminho da sinceridade, 3-cultivar o espírito de empenho, 4-dar importância à cortesia, 5-reprimir atos brutais.
Acho brutal um pai poder se encontrar com sua filha cheio de restrições. Minha repreensão é "dar a outra face" - mostrar o outro lado, revelar o que não foi visto: o lado do amor.
Assim, caminho. Só. Sem pedir nada. Só pra dar o exemplo pro conteúdo do meu Santo Graal.
São já 1.020km pelas contas do Google maps. Faltam ainda 1.480. Hoje (ontem) dormi nos braços de Maria Madalena. Rezei pras mulheres da família. Todas. A Basílica aqui em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume é linda, de um poder fabuloso. Em pouco mais de 1.000km já são centenas de mãos abanando, centenas de sorrisos, centenas de desejos de bom caminho, dezenas de abraços, alguns beijos, muitos e muitos pedidos de oração, dezenas de histórias de fé e amor. Comecei só. Agora, tenho que caminhar pelos tantos que me abanaram a mão, me pagaram café, lanches inteiros, hospedagem, que pedem e precisam de oração, e que, em alguns casos, estão em sofrimento profundo...
Nisia, mais uma lição a ser dada pra minha filha: aprender a compartilhar. Este caminho não é mais só dela e meu. É de todos estes que eu encontrei e que precisam e pedem um pouco mais de paz e amor e sabe-se lá o que vem pela frente... Afinal, pra quê mesmo vale a vida?
Sou grato por caminhar comigo. Espero lhe encontrar na nossa aula de culinária de agosto, querida amiga. E mais notícias ou histórias do Caminho? Bom, quem sabe não vem um terceiro livro, né?
Fique com Deus e em paz. Um Bê ijo carinhoso.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ciao, Itália.

Passei dos 800km, Beatriz.
Estou na divisa da Itália com a França, um terço, praticamente, pra não dizer a cada dia.
Há dores de toda sorte. Há dores de todo azar. Já aprendi a pensar no dia, não na semana, não no mês, não na distância, não no tempo que a gente não senta no colo um do outro.
Hoje, fiquei vendo um pai balançando sua filha no parquinho. Na minha fantasia, ele se chamava Marco. Na minha fantasia, ela se chamava Júlia. Marco de pai, posto, bandeira fincada que flamula a paz de um território conhecido. Júlia de julho, de meu ano novo, de dia primeiro que renova a vida pra mim todo ano.
Hoje, andei 39km. Ontem, 34km. Antes de ontem, 52km.
Como diz uma das pessoas mágicas que torcem por mim, citando um compositor de quem não me lembro o nome, "de tanto não parar, acabei chegando"...
Sou assim. Não paro de saber que independente de qualquer coisa, dos ânimos, da bondade ou da maldade, há mar.
Vasto. Ôndico. Molhágico.
E meus pés, que dóem, nem são os meus pra você. Os meus, pra você, são os de pai. Já vem com bota. Afinal, pai, de verdade, usa capa.
E o pai que está aqui é este. Sem tirar nem pôr.
Vôo, filha. E vento.