quarta-feira, 13 de março de 2013

há call me




Filha,
liguei pra você hoje, de novo.

Você atendeu, mas não quis falar comigo. Sim, você já fala. Tem dois anos, já falou "papai" algumas vezes, mas não quando lhe peço. Nem quando suplico em silêncio. Nem quando acordo cinco horas da manhã, com saudades de você, nem quando sonho, nem quando rezo, nem quando choro, nem quando ando. Nem quando paro, com desejo de nunca mais andar.

Respiro.

Espero.

Não tenho você em meu colo desde novembro passado, quando senti o pesinho do seu corpo sentada em minha coxa direita, cabelos no pescoço, bracinhos e ombrinhos serelepes que diziam mais do que sua mãe achava que eu captava.

Não lhe vi nascer. Não lhe vi dar o primeiro passo. Não lhe vi falar a primeira palavra. Não lhe vi engatinhar pela primeira vez. Nada disso. Minha única experiência inovadora com você até hoje foi: a primeira vez que experimentou açaí, você estava em meu colo.

Há tanta coisa que não sei, minha filha... e que sei que você sabe.

Há tanta coisa que seu pai gostaria de saber...

Só sei do mar, Beatriz, meu corpo sentimento.
Só sei do mar, Beatriz, meu silêncio.
Só sei do mar, Beatriz, o ânimo que me move.

Alma do papai, você é uma espécie de extensão melhorada de mim - que quem sou eu pra ser assim...

Uma que ainda não sabe o que sinto, conscientemente, e intui o meu desconforto poético de existir.
Enquanto exercito o desapego da simples vontade de um abraço seu, sorriso, brilho no olhar, murcho planta, perco a rima, nunca o rumo, e sigo. Caminho. Não tenho a mínima pretensão de conseguir chegar. Mas uma coisa eu garanto: meu próximo passo me deixa ainda mais junto a você.

Há mar, Beatriz. Sempre hoje.





2 comentários:

val disse...

Lindas palavras!!! Tudo muito belo.
Seu texto me emocionou muito.

Carol Nogueira Gama disse...

Amigo Bê,
tem outra experiência inovadora com ela Bê, a de ser PAI e por ela, a experiência de ser filha.
bjo!