sexta-feira, 22 de março de 2013

até há volta


Enquanto Beatriz dá seu primeiro passo, dou meu primeiro passo.

Sociabilização: a mãe da escolha. Sim, Beatriz vai aprender a escolher. Vai aprender dizer sim e não, vai saber se impor no que é certo e errado, vai ter voz e vez. Já usa o humor como arma, é reflexiva, pensadora, mesmo com 2 anos. Beatriz dá seu primeiro passo rumo a autonomia. Dá o primeiro passo na descoberta da alteridade.

Quanto tempo vai demorar? Quanto vai ter que andar?

Não importa. Como diz Paul Mulders, peregrino que conheci embaixo de uma figueira no Camino de Santiago, "lembre-se: o passo mais importante, é o primeiro".

Me lembro sempre, amigo Paul. Lembro das conversas que tive, dos passos que dei, do barulho das pedras maceradas por meu cajado. Lembro das horas, de me ditar enquanto andava, da vontade que tinha de aprender a ler. Sou atento aos sinais.

Encontrei o perdão no Caminho de Santiago. Me perdoei. Talvez a face mais difícil do perdão: o próprio. Quero crer que Robert Frost estava certo, pois minha estrada bifurcou tantas vezes... e tantas pessoas especiais ficaram nas não trilhadas por mim. Não sei se essas aprenderam o perdão. Custei a entender que isso não diz respeito a mim. Talvez todo até tenha volta. Talvez todo até seja limite a ser ultrapassado. Talvez.

Não sei quanto vai ter que andar, filha. Não importa. Nem eu. Nada importa. No nada, a potência de tudo. Se importe com o Nada. Vou caminhar agora, rumo a ti, rumo até onde o nada deixar, existir, navegar. Vou até onde o até não me encontre. Porque meu encontro é contigo. Comigo. Com quem de coração limpo e bom vier, compartilhar, somar, plantar, regar, colher.

Há mar, Beatriz, sempre. Por isso navegamos. Por isso caminhamos. Passo a passo.

Eu passo. Fica o meu Caminho, onde há mar.


Até a volta. Até há volta.




Roteiro, gravação, edição e produção: Vanderlei Timóteo



segunda-feira, 18 de março de 2013

Trem Dele

Caminhamos por cerca de 5 horas.
Algo chama. Queima.
É o pé no asfalto, é o que falta, nada pela frente a pedir: venha!
Fomos.
Falta pouco agora.
O balão da esperança vai subir pra sempre na crosta lunar que grita casa, grita quem é você, grita raiz!
Escuto o sussurro de Beatriz.
Quando no ar, voo finalmente virando vento. E caminho no rumo do coração que compassa o passo atrelado ao trem do tempo...

quarta-feira, 13 de março de 2013

há call me




Filha,
liguei pra você hoje, de novo.

Você atendeu, mas não quis falar comigo. Sim, você já fala. Tem dois anos, já falou "papai" algumas vezes, mas não quando lhe peço. Nem quando suplico em silêncio. Nem quando acordo cinco horas da manhã, com saudades de você, nem quando sonho, nem quando rezo, nem quando choro, nem quando ando. Nem quando paro, com desejo de nunca mais andar.

Respiro.

Espero.

Não tenho você em meu colo desde novembro passado, quando senti o pesinho do seu corpo sentada em minha coxa direita, cabelos no pescoço, bracinhos e ombrinhos serelepes que diziam mais do que sua mãe achava que eu captava.

Não lhe vi nascer. Não lhe vi dar o primeiro passo. Não lhe vi falar a primeira palavra. Não lhe vi engatinhar pela primeira vez. Nada disso. Minha única experiência inovadora com você até hoje foi: a primeira vez que experimentou açaí, você estava em meu colo.

Há tanta coisa que não sei, minha filha... e que sei que você sabe.

Há tanta coisa que seu pai gostaria de saber...

Só sei do mar, Beatriz, meu corpo sentimento.
Só sei do mar, Beatriz, meu silêncio.
Só sei do mar, Beatriz, o ânimo que me move.

Alma do papai, você é uma espécie de extensão melhorada de mim - que quem sou eu pra ser assim...

Uma que ainda não sabe o que sinto, conscientemente, e intui o meu desconforto poético de existir.
Enquanto exercito o desapego da simples vontade de um abraço seu, sorriso, brilho no olhar, murcho planta, perco a rima, nunca o rumo, e sigo. Caminho. Não tenho a mínima pretensão de conseguir chegar. Mas uma coisa eu garanto: meu próximo passo me deixa ainda mais junto a você.

Há mar, Beatriz. Sempre hoje.





segunda-feira, 4 de março de 2013

Dentro da cabeça, ela sabe o lugar do meu discurso



Está chegando a hora do a Deus.
Lugar do vazio, onde por um fio, espaço entre um passo e outro. Espasso. És passo.
Sei de cá, tornar meu, cá minhar.
Nem sempre se esperam paisagens azuis, nem sempre se encontra o dourado dos girassóis.
Às vezes ele é só cabisbaixo, taciturno, meditativo, circunspecto, recolhido, moribundo.
Nessas, ele é só semente.
Vamos aguardar os campos. Neles há vento. Com o vento, a chuva.
Vamos saber esperar. E colher, a tempo, o amanhã que virá.