segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ombro a ombro



Daí, vira a japonesa e fala pra mim:

... – será que esses caras não sacam que o verso mais bonito de Soneto de Fidelidade é o primeiro, e não o último?

Fico mudo. Não porque não tinha pensado nisso. Porque sempre achei isso. E ela sabe. Faço uma cara de "mas é óbvio ululante" e seguimos.

Conversamos muito. Um dia no ombro de um, um dia no ombro de outro, as palavras escorrem até formar poças no chão. Já são rios de discursos, mares de silêncios.

Eu já fui casado uma vez. Noivo outra (do noivado, só eu sabia). Tenho uma filha que não mora comigo. Que mora a 2.200km de distância, dentro de mim, no coração de um pai que é espera.
As pessoas só querem ser felizes, que mal há nisso?

Caminhamos por uma estrada que parece não ter sido escolhida. Mas há sempre um jeito de atravessá-la, de voltar, de tomar outro rumo, de sentar e esperar. De desistir de caminhar. Ou de andar mais depressa, pra ver quem está na próxima encruzilhada.

Veja você, onde é que o barco foi desaguar...

Sim, a gente não só queria o amor, mas ainda quer. Quer assistir filme no domingo à tarde comendo pipoca debaixo da coberta, corações e pés entrelaçados. Quer reencontros incendiários, quebrar taças, regras, expectativas. Quer mais nenhuma ferida.

Acordar pensando, ir dormir pensando. Cuidado, carinho. Quer brindar com uma boa garrafa de vinho.
Queremos não passar, simplesmente. Ficar em movimento. Andar junto.

Quem sabe até de mãos dadas... Daí vira a japa e diz: – tem alguma coisa mais íntima que andar de mãos dadas?

Novo silêncio.

Por mais estranho que possa parecer, hoje é mais íntimo dar as mãos do que fazer sexo, me parece.
Eu gosto de abraço, Japa. Acho que quando o abraço é verdadeiro, não importa nada. Nem o mundo, nem a vida, nem o tempo, nem o calor, nem o frio. Abraço é o laço do coração. Colhido, escolhido. É um afago de alma, um movimento de encontro, sem medo, compartilhado.

O abraço é o suspiro conjunto.

Eu sei abraçar.

Abraçar começa com o verbo abrir. E não termina com enlaçar. Termina com um novo começo. E, quem sabe, com um novo caminhar?

"diz, quem é maior que o amor? 
me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora. 
vem vamos além.
vão dizer que a vida é passageira
sem notar que a nossa estrela vai cair..."




Um comentário:

Ana disse...

"E se o longe existir, eu sou maior do que a distância pode ser nesse lugar"

http://www.youtube.com/watch?v=hqVIeScwp2M