quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Eu também, Clarice Falcão. Eu também.




Só preciso dizer que o amor supera quase tudo: a saudade, a descrença, a dúvida, o erro, o medo.
Que coragem tem esse nome porque os do Cor agem.
A independer das críticas, do clima, da bomba de Hiroshima, do tempo.
Que existe suicídio amoroso. E o pior deles, Falcão, é o suicida que vive pra contar.
Mesmo que seja a sua patética ou perversa versão.





Zé Miguel é quem tem razão.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Pequeno Prazer




Deixa chuva chegar.
Molhar sua expectativa.

Deixa chuva chover.
Banhar seu medo torrão.

Deixa chuva chamar.
Que vou ter com ela, animado, húmido encanto.

Deixa chuva chiar.
Cosquinha soprada sobre os umbigos.

Deixa chuva, deixa.
Chá, chalé, xeque, choro.

Chama: paixão pra que seque.

Poça, reflexo, desejo, flerte.
Que possa.

Haja toalha pra secar o mundo líquido de quem ama.







segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

a barca, o tempo e o Vento




Filha,
hoje é dia 25 de fevereiro de 2013. Dia em que completa 2 anos.
Ouvi sua voz através do aparelho móvel. Não lhe vi ainda. Espero que sua mãe mande fotos do seu dia de hoje. Aqui no sítio, onde decidi passar o seu aniversário, na companhia da sua avó e seu avô paternos, tudo me lembra você.
Sua tia avó, Yara, também está aqui. Ela está com 88 anos e, do alto da sua sabedoria, fez a oração que pedi antes do almoço, em sua intenção. Ela disse palavras lindas e completou pedindo que ela tivesse saúde para vivenciar de pertinho as tantas alegrias que ainda vamos juntos compartilhar.
Na hora do parabéns que sua mãe vai cantar pra você ao lado dos seus coleguinhas de escola, o papai vai acender as suas duas velinhas. Vamos cantar juntos. E comer o bolo de chocolate que ainda vai ser um dos seus preferidos, que pedi pra vovó fazer.
Já lhe mandamos uma caixa cheia de presentes para este seu aniversário. Mas o mais importante, pra mim, ainda não foi enviado. Como fiquei mal durante 3 dias, na semana passada, não consegui completar a última parte do presente que planejei pra você nestes seus dois anos. Estou bordando um vestido pra você, minha filha.
A cada ponto, fortalece o nosso laço. Rosa, vermelho, laranja, branco, tudo me lembra a minha caixinha de lápis de cor chamada Beatriz.
Hoje, não tenho muito a dizer. Tenho a agradecer. Por ser essa menina linda, alegre, amável, sensível, saudável, engraçada, espirituosa. Por me ensinar a olhar a vida com outros olhos. Por me ensinar a ver a vida de um outro ângulo. Por confirmar que, a despeito de tudo, a verdade deve prevalecer. Doa a quem doer, onde e quando for. Agradecer o quanto nosso álbum de fotografias juntos está vazio. Agradecer as viagens que ainda não fizemos, as gargalhadas que ainda não demos, os brindes que estão por vir, os sonhos que estão por brotar, os caminhos a percorrer.
Deus está nesse nada, filha. Vamos, juntos, semear, regar, deixar brotar, cuidar com afeto, deixar florir. Somos jardim e pomar, ponto a ponto. A espera das nossas tantas e tantas flores, frutos, perfumes, sabores e cores.
Que Deus lhe abençoe, meu amor. Há mar, Beatriz. Sempre.




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Para Tatá Werneck e Beatriz




Acordei às 2:30h morrendo.
Em uma fração de segundo, veio à consciência que eu estava afogando. Em um pulo, estava na pia do banheiro, acendendo a luz, implorando pelo ar que não chegava. Eu estava sufocando.
Havia vomitado a noite, antes de dormir. Sem crase mesmo. Não consegui comer nada. O remédio que misturei na água para me hidratar, quase não tomei. Pus pra fora o gatorade, o açaí, a esperança, tudo.
Há quem diga que foi aflição, depressão, tristeza, mania, grito. Há quem diga que foi só mais um pesadelo, acompanhado da dor de barriga, dor no corpo, vômito, susto, saudade, medo.
Depois de alguns minutos, consegui respirar calmamente, sem que o desespero ritmasse a cadência do meu existir. Era eu no espelho. Suado, molhado, pelado, olhos vermelhos.
Olhos fundos, ninguém ao lado.
Fui dormir rezando. Implorei a Deus que me ajudasse, que abrisse os caminhos, que não me deixasse à deriva, que me levasse pra ela.
Quase que o lençol me mata. Se eu não tivesse conseguido me levantar, eu não estaria aqui, com medo de dormir novamente, às 4:57h tentando explicar que sufoquei no final da expiração, peito cheio, dor de garganta, refluxo. A densidade de mim mesmo quase me mata. E meus pés enrolados no lençol para pular no escuro breu do meio do pesadelo de mim, sem ajuda.
Ligo o computador. Pedi ajuda a Tatá Werneck. Talvez o humor me mantenha vivo, digo, acordado.
Pergunta capciosa, de frente pra Gabi, ela emenda:
"Meu medo é que meus sonhos sejam maiores que minhas capacidades".
...
Conversa comigo, Tatá. Não vamos dormir essa noite.
Vamos lembrar que uma das raizes do humor é a descrença, a revolta, o lapso de querer que tudo fosse diferente.  Onde quando não há medo, não há falta de amor, não há inverdade, não há reflexo de perversão nem de egoísmo, a sufocar um pai, à noite, enquanto sua filha dorme no quarto ao lado da existência, em seu sonho, em seu abraço vazio, em sua lembrança do cheiro. Feliz com o primeiro dia de aula a 2.200km de distância.
Talvez eu não tenha morrido hoje pra conhecer Tatá Werneck e contar pra ela, sentado à sombra de um pé de fruta, os meus tantos sonhos lindos, harmônicos, teológicos, naturais. Talvez não. É que eu sonho que o trem da vida se liquefaz, fica transparente, e os peixes, que nadam embaixo dos batentes, que bóiam firmes n'água, são lindos, tantos, multicores, belos. Peixes de luz, que fazem amor com minha expectativa em sonho de menino...


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sapatinho de Cristal



Alheia à cortina da vida, o esconde-esconde da alegria, de dia, ela insiste em sonhar. Sonha a música preferida da avó, que acorda três, quatro vezes à noite, pro sol, em formato de menina, ninar seu sonho infantil. Onde não há maldade, idade, distância, mentira. Onde há só um pezinho no chão frio, em busca do colo quente que vem, e pode vir, ninar, no tempo da gente, a alegria explosiva da palavra dita exclamada: "achou".

Meu colo é o mais lindo sapatinho de cristal inventado por Deus.




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ponto Cruz





Nada de novo sob o céu.

Tem gente que ama, tem gente que deixa de ser amado. Tem gente só, tem gente amargurado. Tem gente bem, tem gente mal, gente com dor de dente, gente com dentadura. Tem gente que não se mistura. Tem gente boa, gente má, tem gente que não sabe do canto do sabiá. Tem gente séria, gente que ri, gente que sabe, gente que não tá nem aí. Gente que não quer que a gente encontre o amor da gente, gente que não sabe que amor que a gente sente. Gente em terra, gente no ar, ainda quem saiba que, mesmo assim, há mar. Tem gente a doer por aí.
Tem gente que saiu essa semana do facebook, gente que está simplesmente de saco cheio. Gente que quer viver, gente que quer morrer, gente que queria ser considerado gente, tem gente, tem agente e tem a gente. Gente bela, gente feia, gente gostosa, gente alheia. Tem gente que a gente nem sabe que tem. E gente que sabe que tem, que nem parece gente. Tem gente. Por isso, sempre bato na porta.
Tem gente calma, gente veloz, gente que viveu com a gente, gente atroz, gente que finge que é gente, gente que nem sei.
Tem gente no Brasil, gente na Holanda, gente em Uganda, gente em Luanda, gente no espaço, gente no laço, gente na vida da gente. Gente no twitter, gente no linkedin, gente de mentira, gente da verdade, gente que nem tem idade. Tem gente que me escreve, tem gente que me liga, gente que não sabe que está com saudade de mim, gente que não sabe que olho pra foto dela todo santo dia, gente da noite, gente de bom dia, gente: substantivo que nos define e nos mistura, nos embola e nos iguala, nos deixa no anonimato. Tem gente aqui, gente em Brasília, gente no Rio, gente da Ilha, gente em Recife, pequena, imensa, linda, gente que às vezes me chama de moço, às vezes me chama de papai.
Tem gente que mora dentro de mim.
Gente que não sai do meu sonho, gente que quer ser pesadelo, gente chata, gente assim mesmo. Tem gente que vai morrer hoje.
Gente que nasce, gente que cresce, gente que aprende a ler, a falar, gente que aprende a escolher, a ligar, gente que quer conhecer, quer gostar, quer curtir, quer amar. Gente que não quer saber de gente que insiste em não mudar.
É que a vida é sonho, a vida é só o tempo de um abraço, um sopro, um beijo, um passo, a espera de um meteoro que não caia na russia, e sim, na gente.



Vídeo 1: uma ínfima amostra de quão enganados estamos sobre nossa presunçosa eternidade.
Vídeo 2: uma infinita amostra de quão enganados estamos sobre nossa incapacidade de amar.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Resma

Não há exatamente o que dizer.
Acostumo-me à não palavra. Mudo.
Silencio-me. Atenho-me à não análise verbal, meu silêncio existencial, minha sentença única de ser.
Descer, eis uma ideia plena. Encontrar a terra, a areia, o sal, quem semeia. Sentar. Assentar. Decantar-me.
Quando tiver decantado todo, decantado tudo, encantado, nudo, nada serei. Se não, a porção dEUs de existir. In-si-sto.
Insisto porque sei. Lá dentro, na alma ignorante e sem cultura, sem análise, sem barulho e sem mistura, que Deus.
Deus verbo, Deus substantivo, Deus infinitivo amante, Deus.
Deus.
Docês.
Dnossos.
Quaresmo-me para, ao final, me lembrar: as pessoas encontram o que procuram.

Fardo poético:
A resma de papel é levada pelo Vento.
O demo do redemoinho se irrita:
descobre, na dança, que não sabe ler.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O lado bom de ser livre



Não sei, saí deprimido do cinema.
O Lado Bom da Vida é muito bom (eu digo, o filme), muito divertido, uma comédia que mistura um drama no meio, e não é totalmente comprometida pelos exageros que a gente vê normalmente nos pastelões americanos. Os atores estão muito bem, principalmente a gatinha do filme, Jennifer Lawrence e a bola da vez, Bradley Cooper.
Nas partes que o roteiro não estraga o papel dos coadjuvantes, eles também batem um bolão, na verdade.
Ainda estou querendo entender o filme. Claro, não tem nada para ser entendido. Eu é que fico querendo entender o que nem sei se é pra ser entendido.
O fato é que ainda não sei se o drama é só escada da comédia, ou se ele tem um fundo de reflexão, sabe? Existem muitas e muitas pessoas que sofrem com a dificuldade abordada no filme. Uns velados, uns abertamente, outros nem sabem que têm essa dificuldade. Eu não sei (exatamente) até que ponto foi retratado com a máxima fidelidade esse transtorno - que hoje é comum -, mas no que me diz respeito, fui compelido a sentir compaixão pelo personagem principal. Do alto da minha santa ignorância, acredito que existam muitos níveis dos mesmos transtornos retratados no filme, que atingem a gente, diagnosticados ou não.
Eis um aspecto humano do filme digno de nota.
Pelo menos pra mim, que tangenciei, de modo solidário, de algum modo, sentimentos difíceis de serem trabalhados pelo personagem principal.
Confesso que quase chorei (o que deve ser lido aqui como algo bizarro, acho que ninguém choraria num filme como esse. Ou choraria?).
Ah, quero aqui levantar um paralelo, justamente com o título e a oportunidade que esse filme me parece ter perdido, com outro filme que também está em cartaz: Django Livre.
Sim, acho que o lado bom da vida, seria justamente o que busca o Django. Mas, sejamos sinceros, quem parece ter encontrado foi Quentin Tarantino.
Enquanto O Lado Bom da Vida não é totalmente livre, e por este motivo perde a oportunidade de ser um filme 10 vezes melhor do que é, Django Livre é efetivamente livre, e das mãos de Tarantino, saiu uma nova obra prima. Pode não ser o melhor filme do diretor, mas é uma obra da sétima arte, sem dúvida. Não foi, como o Lado Bom da Vida, cerceado pelo jeito americano de se fazer cinema. Pelas soluções fáceis e já óbvias americanas com o intuito de tornar-se um caça níqueis.
O Lado Bom da Vida poderia se tornar um filme da prateleira A, mas bate na trave. O roteiro e o diretor escolhem fazer um filme americano. Quando poderia ser um filme universal.
Bom, eu acho.
Agora, vamos nos levantar e bater palmas: em primeiro lugar para o Tarantino.
Primeiro pela cena da reunião dos encapuzados (putz, veja o filme. E vá de fraldas geriátricas pra não mijar na calça, como eu).
Segundo, porque, inclusive, Tarantino disse que seria o seu último filme - já que estão dispostos a "enquadrar" seus filmes, assim como "enquadraram" O Lado Bom da Vida -.
E, por último, mas não menos importante, ovacionar quem merece de fato, de todo mundo que apareceu aí nessa pseudo-crítica até agora: Christoph Waltz.
O cara bateu o recorde. Sen-sa-cio-nal.
Quase me fez esquecer do tanto que a Jennifer Lawrence é sensacional.
Eu disse "quase".
O lado bom da vida, mesmo, é assistir a um filme em que o cara mete os peitos e faz o que acha que deve. Livremente. Ou seria "livrerdadeiramente"?








segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ombro a ombro



Daí, vira a japonesa e fala pra mim:

... – será que esses caras não sacam que o verso mais bonito de Soneto de Fidelidade é o primeiro, e não o último?

Fico mudo. Não porque não tinha pensado nisso. Porque sempre achei isso. E ela sabe. Faço uma cara de "mas é óbvio ululante" e seguimos.

Conversamos muito. Um dia no ombro de um, um dia no ombro de outro, as palavras escorrem até formar poças no chão. Já são rios de discursos, mares de silêncios.

Eu já fui casado uma vez. Noivo outra (do noivado, só eu sabia). Tenho uma filha que não mora comigo. Que mora a 2.200km de distância, dentro de mim, no coração de um pai que é espera.
As pessoas só querem ser felizes, que mal há nisso?

Caminhamos por uma estrada que parece não ter sido escolhida. Mas há sempre um jeito de atravessá-la, de voltar, de tomar outro rumo, de sentar e esperar. De desistir de caminhar. Ou de andar mais depressa, pra ver quem está na próxima encruzilhada.

Veja você, onde é que o barco foi desaguar...

Sim, a gente não só queria o amor, mas ainda quer. Quer assistir filme no domingo à tarde comendo pipoca debaixo da coberta, corações e pés entrelaçados. Quer reencontros incendiários, quebrar taças, regras, expectativas. Quer mais nenhuma ferida.

Acordar pensando, ir dormir pensando. Cuidado, carinho. Quer brindar com uma boa garrafa de vinho.
Queremos não passar, simplesmente. Ficar em movimento. Andar junto.

Quem sabe até de mãos dadas... Daí vira a japa e diz: – tem alguma coisa mais íntima que andar de mãos dadas?

Novo silêncio.

Por mais estranho que possa parecer, hoje é mais íntimo dar as mãos do que fazer sexo, me parece.
Eu gosto de abraço, Japa. Acho que quando o abraço é verdadeiro, não importa nada. Nem o mundo, nem a vida, nem o tempo, nem o calor, nem o frio. Abraço é o laço do coração. Colhido, escolhido. É um afago de alma, um movimento de encontro, sem medo, compartilhado.

O abraço é o suspiro conjunto.

Eu sei abraçar.

Abraçar começa com o verbo abrir. E não termina com enlaçar. Termina com um novo começo. E, quem sabe, com um novo caminhar?

"diz, quem é maior que o amor? 
me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora. 
vem vamos além.
vão dizer que a vida é passageira
sem notar que a nossa estrela vai cair..."