terça-feira, 17 de dezembro de 2013

2013



2013 foi bom?

O café queima minha boca, fst!. Deito a xícara no pratinho.

Olho o vazio e vejo Tempo. Esse ano foi bom?

Puxa.

Foi um ano como nenhum outro, como tinha que ser. Ano de fé, de superação, de prova, de dor e de amor profundos. Em 2013, voei de balão com São Jorge e o Arcanjo Serafim na Capadócia. Encontrei o Papa Francisco no Vaticano. De lá, andei o mundo. Refiz o Caminho de São Bernardo e São Francisco peregrino até Assis, encontrei-me com Santa Clara e São Francisco na Porziuncola e me ditei Caminhos.

Pedi perdão.

Andei até Chiusi Della Verna, onde as chagas de Francisco brotaram dor do mundo, compaixão pelo semelhante. Aceitei os desígnios do Mistério da Fé. Ouvi.
Pus-me a andar. Atravessei a Itália. Atravessei a França. Atravessei a Espanha. Atravessei a minha própria expectativa e cheguei a Santiago de Compostela.

Recebi tantas cruzes e preces, que não era mais eu quem caminhava. Era uma legião de amor, de prece. Cruzada de compaixão pela dor original. O romper da semente. A vontade da vida.

Fui sopro na ferida de muita gente. Fui, somente.

E mesmo chegando, descobri que não está lá. Me encontrei com Deus e com o Diabo, resenhamos juntos o tempo que correu de 1973 a 2013. Quarenta anos de espera.

Até chegar numa igrejinha de Recife, onde uma menininha de cabelos esvoaçantes encaracolados esperava para receber o Espírito Santo em meu nome, tocar sorriso o coração de velhos e iludidos, e num olhar ternura declarar ao mundo seu encanto doce:

– Papai!

Assim, completou-se a minha saga.

E eu, simples Samurai Peregrino, rompi casulo para sempre. O pai mais amoroso de todo o mundo.

É. 2013 foi como tinha que estar.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EU Acredito em Papai-Noel





Estou com saudades de um adesivo dos anos 80 que víamos nos carros dos saudosos do Musical Hair:

Eu acredito em duende!” – E uma ilustração muito feia de um duende modelo europeu, roupinha de Oktoberfest, suspensório, gorro verde. Só faltava o caneco de cerveja.

E você, acredita em quê?, ou, em quem?

Nos seus pais? Na fidelidade da sua esposa? Nos pensamentos puros do seu marido? Nas bruxas? Em dias melhores? Na paz mundial? Em Deus? Em você? E no Papai-Noel?

Meu professor de física, em 1992, citou um pensador – não me lembro o nome – que disse, ao ser perguntado se ele acreditava em Deus:

–“Se eu ‘acredito’ em Deus? Eu ‘sei’ Deus.”


Hoje, depois de caminhar 2.500km a pé, acredito, ou melhor, “sei” da dimensão do que ele me disse. Quando a fé vira certeza, é o grão de mostarda na palma da sua mão. Ele remove montanhas. O “Eis o mistério da fé” – o questionamento zen budista corriqueiro da igreja católica – indica o caminho para que possamos atravessar vendados o vale de dúvidas e incertezas que se encontra à frente de todo aquele que busca.

Posso dizer que vale buscar. Ouso dizer do outro lado, para onde atravessamos cegos, sem corrimão na certeza exclusiva do Nada.

O Nada é a barriga de Deus. Onde a gestação começa. No nada, brota. No nada, surge. No nada, cresce. Nonada, como bem disse Guimarães Rosa... É preciso que se saiba: escolha a semente certa. Porque Papai-Noel pode bem ser o velho, a sabedoria, o que traz presentes, novidades, prosperidade, boa nova. O vermelho sangue que representa vida, que não se sabe de onde vem, mas encanta as crianças, reparte o amor, molha a plantinha da esperança, faz florir em nossos corações. Eis o Papai Natal que sei.

Renascemos juntos a cada ano.

Existem vagas disponíveis no meu trenó.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Olhos puxados



Do lado do meu computador, uma girafa de pelúcia me olha atenta.

Não sei por quais mãos passou. Não sei se quem fez foi um chinês, vítima de abusos trabalhistas. Não sei se esse chinês tem uma filha que mora há 2.222km de distância de sua casa. Não sei se ainda há em seu pêlo céluas mortas da mão desse mesmo chinês saudoso. Não sei se esse chinês por um instante parou para olhar os olhos atentos da girafa que ajudou a fazer. Não sei se esse chinês sabe que do outro lado do mundo tem um pai brincando com a girafa e com uma filha pelo Face Time. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar da girafa. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar de uma filha. Não sei se esse chinês tem a dimensão do olhar de um pai. Não sei se olhares são dimensionados, como são dimensionadas as distâncias entre o chinês, o pai, a filha, a girafa. Talvez, o olhar do chinês seja o mesmo olhar da girafa. Talvez, o olhar da filha seja o mesmo olhar do chinês.

Gira, faz de conta, girafa, pescoço que busca alcançar, quer ver além, acima, olha o horizonte distante e sabe: o mundo é redondo demais.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Bushido




Aos nove anos de idade, pedi pra minha mãe:

– Mãe, me coloca no Karatê?
 
Eis o inusitado. E o Dojo kun passou a fazer parte da minha vida. Na “traduzadaptação”, termo cunhado pelo Musashi dos Sertões, Guimarães Rosa, o Dojo Kun seria:

1. Esforçar-se na formação da personalidade;
2. Seguir o caminho da sinceridade;
3. Cultivar o espírito de empenho;
4. Dar importância à cortesia;
5. Reprimir atos brutais;

Assim, fui ensinado, ou melhor, comecei meu ensinamento... Nesta crônica curta ou curtida, quero me ater ao quarto “mandamento”. Talvez a tradução não seja exatamente essa. Me ditei que talvez a tradução mais correta fosse “dar importância ao Rito”. Qual? Não interessa, ao Rito. Qualquer um. Da cerimônia do chá, dos japas, ao chá das 5 dos ingleses. Da cerveja de terça com os amigos ao almoço de domingo com a vovó. Da missa das 7 ao café na cama, pra acordar o amor com beijinhos nos olhos, depois de abrir a cortina no sábado de manhã. Do jeito de colocar o chinelo paralelo ao lado da cama, ao jeito de dobrar o guardanapo do lado do prato do pai de família. Todo rito, se tem a ver com a cortesia, com o aprimoramento, com o estabelecimento de forças, regras, atitudes, cultura, deve ser preservado. Marcialmente falando. O rito é como o fogo que forja a espada.

Por 25 anos fiz Karatê formalmente. Hoje, uso meu Karatê ao atravessar a rua, para não brigar no trânsito, ao concentrar no trabalho, quando cortejo minha gueixa pequena, de riso fácil. O rito preservado ajuda, sim, na formação da personalidade, no caminho da sinceridade ou da verdade – acho que pode estar mais certa esta tradução -, na resiliência do espírito de empenho, também chamado de ALMA e, até, pra reprimir nossos próprios atos brutais...

Que gueixa não gostaria de entreter um guerreiro assim? Enquanto estiver no Bushido, o Caminho do Guerreiro, eis porquê lutar, eis o bom motivo para minha espada brincar com o vento. Mesmo que Karatê signifique "mãos vazias"... Sob o quimono do guerreiro se esconde o homem. Sob o quimono da gueixa se esconde a mulher. Que os ritos possam preservar o encontro.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O verbo é cevar



O Amor Alimenta a Alma?

Amo-te muito, como as flores amam o frio orvalho que o infinito chora”, diz o sertanejo. E o amor derrama mel na expectativa do apaixonado. Sabe, o amor é um bocado de coisa... Daí me perguntam: o amor alimenta a alma?

Hum...

Alma. Vem de ânimus, aquilo que move. Camões estaria um pouco enganado? É ferida que dói e se sente, sim, obrigado. Ou seja, é obrigatório sentir. Sente-se muito, aliás. E dói. E é difícil. E passa.

Quantos tem com quem nos mata lealdade? Eis uma pegadinha filosófica de primeira grandeza, seu Luís. Talvez possamos escutar Rubem Alves. Diz ele mais ou menos assim: que árvore é igual poema. A gente não explica uma árvore. A gente deita à sua sombra. Acho que amor tá no mesmo cesto da árvore e do poema. A gente tenta e mais tenta definir, e quanto mais aproxima, mais ele escapole.

O amor é passarinho. A gente é só poleiro.

Será que é o amor que alimenta a alma? Eu penso que é o contrário. Que é a alma que alimenta o amor. Só caminhando, andando, movendo, mudando, transformando que pode o amor (   ) cada vez mais forte. Alma não é aquilo que move? Mova o amor. Se tudo muda, nada perdura, como diz o danadinho do Heráclito, aquele veinho da Grécia, que o amor vá mudando muda, broto, florescendo e florindo. Você pode achar que no parênteses acima faltou a palavra “ficar”. Mas não. Esse é um erro clássico. O amor não fica. Ele vai. Ou se vai junto, ou se perde, achando que é possível aprisionar o amor...

O amor voa vento, feliz da gente que aprendeu a ser saci.

Eu vou e voo em seu redemoinho. E resolvi caminhar pra dar de comer ao meu amor. Daí bebo com ele, viro alma, almo. Amo.

Durante muito tempo, sofri. Mas vou contar um segredo. Só agora descobri o jeito certo de escrever a palavra pai-chão.

É no chão que se anda. É no chão que se move. No onde caminho. Lugar, portanto, onde se ceva o amor.

Dê comidinha ao seu amor. Comece caminhando.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tocando em Frente



quando  andamos
o presente de amar
caminhamos
entrelaçados
apaixonados
soube  Odisseu
voltar



terça-feira, 5 de novembro de 2013

#moda



De vez em quando me desafiam. E, de vez em quando, aceito.

É pra eu falar de Moda?

De viola?

Me sinto muito mais confortável pra falar de moda de viola do que de moda, pura e simples... Como se a moda fosse algo simples. Acho que a vez que mais me aproximei da moda foi num lindo desfile do Ronaldo Fraga, amigo querido que, este sim, faz Moda.

Eu não. A moda que faço está muito mais ligada à intenção do que algo ligado ao vestir. Essa forma de expressão me tange com certa restrição. Sou da calça jeans e da blusa Hering branca, sou da calça modelo bata africana e sandália franciscana, sou do menos é mais, ou do confortável a serviço da vida. Aliás, imagino que se moda fosse uma coisa puramente lógica, seria melhor que os homens usassem saia, fisiologicamente falando. Afinal, ... bom, não preciso explicar.

Sobre moda, moda mesmo, posso render no máximo um ou três comentários. Evidentemente, ligados à presidência que ocupo, da OMBS – Organização Mundial do Bom Senso. No entanto, vou fazer melhor. Vou logo declarar os 10 mandamentos iniciáticos da MODA, que toda mulher deveria saber:

1 – Se você não sabe usar salto, aprenda. Ou não use. O mais comum é vermos mulheres que parecem que cagaram na calça quando não sabem andar de salto. No entanto, saiba que mulher de salto já larga na frente;
2 – Homem que é homem não gosta de saia modelo “Cinto”. Ou tamanho Cinto – se não tem este nome, deveria ter, porque tem muita microsaia que mais parece Cinto. Sinto muito, mas é a mais pura verdade (vamos ser realistas, só serve pra calcinha participar do evento);
3 – Maiô é mais sexy que biquini. Desculpa mulherada, eu sei que vou causar polêmica, mas é a mais pura verdade. Em contrapartida, há de se ter em mente que uma marca de biquini estilo “cortininha” agrada muito mais do que aquela marquinha estilo “olho de ET” (se é que vocês me entendem – aquele biquini tomara que caia sem cordinha de amarrar em cima).
4 – “Um ombro só” é o fim da feira. A não ser que a feira seja na periferia (Agora sim causei polêmica. E polêmica preconceituosa, o que é mais interessante. Ou não, como diria Caetano Veloso);
5 – “Calça branca dá tesão até no varal” – essa, devo dizer, não é minha, estou só citando.
6 – Mulher não veste pensando em homem, veste pensando em mulher. Se vestisse pensando em homem, se daria bem melhor, certamente (agora sim, você, mulher, para de ler essas pérolas);
7 – O tipo de sandália ou tamanco de nome “MULE” merece pena de morte. Se você tem, não comente com ninguém, vá lá correndo no armário e jogue no lixo embrulhado no jornal, para que nem o lixeiro perceba que você teve isso. Ou levante escondida meia-noite, encapuzada, e jogue no rio mais próximo (e também não comente a ninguém);
8 – Coque nunca foi sexy. Parece um cocô na cabeça da mulher.#prontofalei
9 – Não vou comentar nada sobre calça saruel. Ela, em si, já é polêmica. Assim como a Franja de retardada da Thaila Ayala (não é roupa mas infelizmente tá na moda). Seria muito óbvio da minha parte.
10 – Não importa o que esteja vestindo. O que importa, é que você deixe o seu parceiro tirar. Essa é matadora e definitiva.

Por hora é só. Na dúvida, saiba que moda é só o embrulho. Os homens gostam mesmo é do presente.

Mais dicas fundamentais a qualquer momento em besantanna.blogspot.com


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Caminho in verso



À noite vem, coaxar de sapos. Um curiango pia no mato, na grota que é só breu e perguntas. O vento venta bailar das folhas das pontas, as estrelas estrelam o estrear dos pontos de luzes, ouço a corrente que arrasta impaciência no cimento do canil.

A lenha já é espera, paus secos, folhas mortas, pau ferro, candeia que arderá. Ascendo aos céus, acendo na terra a fogueira que começa, divagar, devagar a vontade de crepitar. Fogueio.

Meu pai é vem. Ele já vovô: – Filho, pega o acordeón pra mim. Pego, pai.

– Pai, faz a volta ao mundo? Peço. E me sento do outro lado do fogo, na linha de vê-lo à luz laranja e negra do existir poético noturno. Ele tec o couro que prende o fole. Fuuuu. E arrasta a palma da mão no teclado, cabeça baixa, como se carinhasse o instrumento olhando de por sobre.

Aos 11 anos, meu pai dava aulas de acordeón. Antes, tocava no piano de mentira, teclas desenhadas sobre a mesa, de quem não tinha dinheiro pra comprar um instrumento. Foi imaginando os sons das notas que completava toda música dentro de si. De dó. De sol. Aos sessenta e muitos é viajante que vai em busca da música própria de existir apesar de.

Somos só sombras com nesgas de brilho em forma de música.

Astor Piazzolla. Ennio Morricone. Frank Sinatra. Charles Aznavour. Gianni Morandi. La Cumparsita de Gerardo Matos Rodríguez. Garota de Ipanema, de Vinícius de Moraes. Umas do oriente, que não conheço o nome ou autor. Só sei o que evocam da minha fantasia de menino. De Neil Diamond passando por Ravel e terminando em Maysa, tem de um tudo. Tem clássica, tem de São João, tem de Carrossel. Tem a volta ao mundo em forma de músicas, lembranças, filmes, culturas, humores, amores. Tem de a a zê.

É que, de mochila, cruzei três países e mapeei um coração. A mochila do meu pai é seu acordeón de 120 baixos. A música, seu Caminho. Quem senta ao seu lado, na noite estrelada do sítio, viaja com ele, acordes pra ser levado aos quatro cantos do mundo...

E as fagulhas viajam estrelas, em partitura pro céu.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Time is Money?




O maior luxo do mundo: Time is money.

Paro. Penso. Afinal, tenho tempo de sobra pra isso. Ócio criativo? Tal qual filósofo? Yes, bebê. Mas será que a máxima procede? Time is money? O que é tempo pra você? E luxo? E qual é afinal o seu conceito de valor? Você já parou pra pensar nisso?

O meu parece divergir em algum ponto do prisma social. Tenho que responder de bate-pronto. Afinal, o meu espaço aqui é limitado pela falta de tempo de quem só corre o olho, não lê, vamos falar a verdade.

Então vamos lá:

Vendi minha TR4 pra ficar 3 meses caminhando, dormindo boa parte de favor e comendo basicamente uma refeição completa por dia. O que é luxo? A Pajero ou 3 meses de tempo? Eu faria os 2.500km que fiz a pé, em 88 dias, em 2 dias, se fosse de Pajero. Curiosamente, Pajero, pela origem da palavra, é ou “o mentiroso” ou “o punheteiro” – hispanicamente falando. Pras duas coisas, precisa-se de tempo.

Tempo, para mim, não está ligado ao Estar. Mas sim, ao Ser. Esse é o verdadeiro fenômeno. Não o Ser pelo Ser – das ding an sich – mas o Ser em estado de observação. Ok, isso deveria ser o Estar, mas se o Ser pode ser observável, é onde (ou quando) se encontra com o Estar. Com o fenômeno de Ser. Aí o Tempo verdadeiramente é. Onde (ou quando) Está. É o que me parece. Podemos desdobrar essa reflexão filosófica um pouco mais, mas aí demanda mais tempo...

Sabe, o meu conceito de valor, transcende o luxo. Acho que não tem nada de luxo a sua bolsa Louis Vuitton. Independentemente dela ser falsificada ou verdadeira. Acho brega. Acho que tanto a falsificada quando a verdadeira são falsas. Porque no que tangem o conceito de valor, não representam nada, senão dinheiro. Ou ter, ou a vontade de Ter. E Ter é diferente de Estar ou Ser. E Tempo pode ser discutido em relação ao Estar ou ao Ser. Não ao Ter. O Tempo é fugidio. Volátil, uma parecência-instantânea relativa à observação. Sua bolsa não. Quando você morrer, ela vai estar aí, com toda a sua breguice a falar da atemporalidade do luxo do lixo. Ou seria do lixo do luxo?

É, pelo visto temos que ter tempo para pensar. Acho que, filosoficamente, podemos propor outros conceitos:

“O maior lixo do mundo: Time is money.”

Ou, se formos mais audazes...

“O maior luxo do mundo: Time is time.”



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Antídoto



Zapeando a mente, dá de cara com um filme antigo.

Um filme assim requentado, sessão da tarde, daqueles que tem cachorro e que faz a gente chorar. O nome do cachorro já dizia tudo.

Tinha o herói, afeito a provações, tinha a mocinha princesa, dona do cachorro, digo, do dragão alado, tinha a mãe da mocinha, a dona Rainha, tinha o Rei, tinha tudo. Tinha um palácio ecologicamente correto, com um jardim de tirar o fôlego, com chifre de veado, orquídeas raras, gazebo, piscina, digo, lago, tinha tudo.

Tinha uma história bonita a ser contada. Tinha uma história bonita a ser cantada.

Daí, música se fez, veio a bruxa, veio o tempo e o mato cresceu ao redor. O príncipe, mais parecido com sapo, não se fez de rogado. Voltou ao palácio e tentou de um tudo, menos o beijo.

E a bela adormecida não arredou o pé.

Mesmo linda, mesmo pintura, mesmo musa, mesmo sonho, não se fez real. Preferiu ficar dormindo a descer da torre. Nem quando a lágrima palavra tocou seu rosto, escorreu em seu peito e molhou seu coração.

Mais uma história de amor que brinda com a taça de Romeu e Julieta. Dessa vez, por escolha.

Talvez tenha faltado o beijo. O antídoto de todo sono de amor.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outubro Rosa



Salve gente.

O Outubro rosa tá com tudo. Todo mundo rosáceo pra justificar o tema. As mulheres precisam se conscientizar. E cá pra nós, não só sobre a importância do exame do câncer de mama. Tem muita coisa importante pra ser lembrada.

O Papa Nicolau, por exemplo. Importantíssimo.

O Papa Francisco, idem.

Aquela coisa dos soutiens, the same.

Não, eu não falo da importância de queimar, eu falo da importância de se usar. O chão tá frio, minha gente. E não adianta nada não morrer de câncer e morrer gripado. Afinal, a gripe também tá matando.

Vocês sabem, nem só de conscientização feminina vive o mundo. Os homens também tem que fazer a sua parte e se conscientizar. Ir lá fazer o exame do toque depois dos quarenta. Importante. PSA, só, parece que não resolve.

E tá todo mundo numa conscientização danada. O time do Toque da Raposa também resolveu se conscientizar: e o Outubro rosa começou com tudo, meninas!

Mas, chegando o dia 13, você sabe, 13 é galo. Mas nem por isso vamos crucificar alguém. Não vamos diminuir todo o esforço, toda a conquista, todos os bigodinhos pretinhos, todos os pontos ganhos do time do Toque da Raposa.

Levanta a cabeça, menina. Dá a volta por cima, ajeita a saia, dá um tapa no pó de arroz, passa um batom que o outubro é de vocês. O futebol mineiro precisa do seu apoio pra galgar este pico, o cume, enfim. O Galo não quer ser campeão da libertadores sozinho e nem disputar o campeonato mundial alone.

Mas não há de ser nada. Eu sou mais vocês. Como diria a sabedoria poética de Milton e Brant, “...Mas é preciso ter força, É preciso ter raça, É preciso ter gana sempre, Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, Mistura a dor e a alegria...”

Ouvi dizer que tem uma corrente forte, de ouro com strass, e uns pingentes chiquérrimos (um de lápis lázuli pra combinar com o uniforme, inclusive) dentro do Toque da Raposa que está numa campanha do babado pra mudar o mascote Raposinha azul para Pantera Cor de Rosa. Afinal, é outubro, né gente? ;)


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A força do bem



Neste sábado, a força do bem se multiplica.

Você vai, come uma feijoada deliciosa do Nutreal, toma cerva gelada à vontade, caipis sensacionais, vê gente bacana - eu ia dizer bonita, mas só posso garantir 5 que conheço - , encontra gente do bem, curte uns shows na medida do sabadão e ainda sai com a certeza que ajudou uma criançada que precisa. Bom, né?

Se todo sábado, tudo que a gente gastasse ainda se revertesse em boa ação a vida seria ainda melhor.
Vale conhecer o trabalho gentil, cuidadoso e amoroso da turma da Força do Bem. O nome já diz tudo. Procura lá no Facebook e vamos encontrar a galera lá na Feijuca.

Faz bem pro coração. Pro seu e pro de muitas crianças. ;)



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Dedentropradentro

Na tela, o cursor pisca esperando a escolha da primeira letra, da primeira palavra, da primeira frase. Do tema, do assunto, do tom. Da construção semântica que dê sentido à próxima meia hora da vida. Nada que será lido por muitos, nada que fará sentido à existência outra que não minha, um lamento, um coro, um grito, um chute no balde, uma pista.
As palavras silenciam a beleza do nada.
Escrevo o que acredito, dou nó na minha expectativa, repenso um, outro, relembro delas. As faço renascer e mato-as em sequência. Lembranças. Guardadas em caixas no sótão da mente, onde tábuas rangem a cada passo. Meu medo é que não aguentem o peso. E que o estalar da madeira termine nas tábuas partidas, e eu venha a cair na luz do vazio que lambe as gretas da passarela onde ando.
Onde ando. Nhec.
Onde ando. Nhec.
...
Odiando, nheeeeeeeec. Crack. O-ou!


AH
AH
AH

AH



AH





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ah













ah




















ah

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Faustão é o Antonio Tabet de amanhã?

– O Porta dos Fundos é o Casseta e Planeta antes de virar Zorra Total. - Profetizei feicibuquiando.

Daí me perguntaram: – E o TV Pirata?

– Era ducaralho, respondi de bate-pronto.

Antonio Tabet tem razão numa coisa: hoje a TV não tem liberdade para um TV Pirata. E justificou comentando sobre um quadro em que a Regina Casé ateava fogo em um bebê. 

Pausa:
Na Época do TV Pirata, ela era A Regina Casé, feia e engraçada, não a Regina Casé feiajeitada do "Esquenta"(Observe a apresentação dela no hotlink do programa que postei ao lado: "a identificação com a periferia (!!!) é a sua marca registrada" - vê-se pelo visual...) 

Continuo:
Talvez porque à época do TV Pirata atear fogo em índio não parecia ser nem politicamente correto, muito menos possível...

Em entrevista ao Roda Viva, dois dos criadores do Porta dos Fundos, Tabet e Ian comentam do sucesso do Porta, dizem que estão bem, obrigado, e que ainda assim não dispensam de sentar e conversar com a Globo, ou com quem quer que seja, apesar de achar difícil o formato emplacar dessa forma dentro de uma estrutura engessada como a da Globo, de outra TV aberta ou de um canal a cabo, enfim.

Penso um pouco. Acho que eles têm razão. Mas acho que eles possivelmente não vão aguentar muito tempo nessa. Vamos ver quanto vale a liberdade...

Não que eu não deseje, muito antes pelo contrário. Podemos desde avaliar o rumo idiota do Politicamente Correto - afinal, só falta chamar a filha do Gil de "Afro-descendente Gil", já que tem gênio querendo vetar Monteiro Lobato e cantar "Não atire o pau no gato" - a pesquisar o sem número de artistas, programas, formatos que cresceram à margem da babá da mass media no Brasil e que se rendeu a ela porque os Titãs é que tem razão: "homem primata, capitalismo selvagem".

Numa boa, quero que o Tabet tenha razão em mais coisas. Quero que a página vire de vez e que o eixo Rio São Paulo deixe-me continuar resistindo e morando em BH, e ainda assim continuar pagando pensão pra minha filha em Recife. Quero que finalmente "não estar na Globo" não seja "sinônimo de fracasso". Porque 9 entre 10 amigos meus não usam Lux de Luxo, mas sim, dizem: – porra, você tinha que estar na Globo.

Me pergunto: Por quê? Por que temos que "fazer sucesso"? Por que temos que ficar milionários? Por que meu trabalho não pode ser bem reconhecido em um cidade de aproximadamente 3 milhões de habitantes e eu ficar satisfeito com isso? Tudo bem, se cada habitante de Belo Horizonte me desse um real pelo meu trabalho, o futuro da minha filha ficaria mais confortável, mas o quê fazer? Como sobreviver à perversão do mercado, da massa ingênua que continua achando divertidíssimo Anitta e Naldo? Será que tudo que todo mundo quer é ficar bêbado em casamento pra dançar dando vexame? Tenha santa paciência, tenho certeza que o ser humano é melhor que isso. (ou não?)

Outro dia, o Cobra Coral fez apresentação na Praça da Liberdade e acredito que no mínimo umas 800 pessoas entre jovens, velhos, crianças curtiram seu som nada mass media, que tem uma qualidade musical ducaralho e que duvideodó que vai se apresentar no Faustão. Duvideodó. 

Quero estar errado. Quero que o Faustão chame o Cobra Coral e que eles vendam metade do Padre Fábio de Melo. Metade já está bom. E mais metade do que vende a Paula Fernandes. E olha que eu já gravei tanto com o Padre Fábio, quanto com a Paula Fernandes. Pra ganhar um troco.

Sei lá, essa discussão é muito comprida e meus dedos estão longe de fazer cosquinha na expectativa de Deus, quanto mais ver o dedo dele apontado pra mim. Quisera eu me sentir como se estivesse pelado no teto da Capela Sistina, profissionalmente falando. Uso o Porta dos Fundos como referência para que observemos. Vamos ficar atentos.

Faustão já teve o Perdidos na Noite. Ele deve preferir os milhões que ganha hoje. Agora é a vez do Porta dos Fundos, em um momento em que o Youtube começa arranhar a tela plana da TV Aberta.

"O cabo entrando pede licença, não adianta antena em pé / saiu pela culatra a imagem, só pega agora com grana e fé" foi só uma estrofe de uma música que fiz com Vander Lee: à época, a TV a cabo começava a transformação em curso e os pastores iniciavam a polpuda poupança que agora tem reflexos na câmara dos deputados e no senado federal. Claro, ninguém nos ouviu. Não passou no Faustão. Hoje, o verso seria outro. Talvez de apelo aos "Youtubíus" de plantão, pra que dêem força de fato pra uma futura democracia imagética. Uma que ainda não conhecemos. Mas que depende dos que agora tentam virar a mesa pra que aconteça. Talvez o Tabet saiba o que tem em mãos, talvez não.

O que posso esperar mesmo, é que o Tabet não compre um blazer roxo.






Tempero pro fim de ano



As festas de fim de ano estão na área. Se derrubar é penalty. Já está tudo o olho da cara. Das viagens, das passagens aéreas às estadias, tudo um horror. Os brasileiros descobriram o valor que damos às festas de fim de ano e o turismo abusa. Abusa muito. O valor triplica no final de ano e há jacu que pague.
O Brasil vai mal, obrigado. Aliás, não é obrigado, é só se a gente deixar. Mas a gente deixa. É mais caro ir visitar minha filha em Recife do que ir pra Miami. É mais caro ir pra Manaus do que pra Lisboa. Mais caro ir pro nordeste do que pro Caribe. E assim o Brasil quer que o Turismo gere riqueza. Fui 7 vezes a Europa e não conheço Pipa.
Fato é que damos muito valor para o reveillon, por exemplo, e não há essa comoção toda mundial pela passagem do ano. Já passei reveillon em Paris, na Torre Eiffel. Nem de longe emociona como Copacabana.

Pra mim, uma verdade inquestionável: as companhias fazem a alegria (não as aéreas). Independentemente de estar em Mateus Leme, Goiânia, Barcelona, Amsterdam.
Um dos melhores reveillons que tive: sozinho na praia, em Caraíva. Outro: sozinho na praia em Trancoso. Ver o dia nascer, o ano nascer, a esperança raiar. É a companhia melhor que se pode ter, a sua. Mesmo quando se está acompanhado do amor, do amor escolhido, se você não está bem, nada resolve. Tudo é chato, tudo é sem sentido, o amoroso perde o A e vira moroso...
Por isso, para encontrar o outro, vale primeiro se encontrar. Seja só, seja na festa de fim de ano da viagem ridiculamente cara ou no encontro entre amigos absurdamente simples e especial.

Quando você se descobre tempero e aprende a dosar, as refeições da vida passam a ter outro sabor. Bom apetite.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As ondas fazem carinho na areia do tempo



Há quem espere sentado, há quem espere em pé.
Há quem desista de esperar.
Há quem medite a espera e quem espere meditando.

– És père.

Enunciado de há mar.





quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Storm


Resolvi tomar banho.

Mas não foi um banho assim compromisso, um banho assim o que eu vou fazer depois, um banho assim que roupa que eu vou usar quando eu sair daqui, um banho assim o que é que eu faço com relação a x, y ou z.

Foi um banho banho.

Daí, peguei a vela, coloquei na lanterna marroquina, acendi, ascendi, desliguei a luz, desliguei o ego, liguei o ipod no mantra de renascimento que ganhei de um amigo mestre e fui ter com a água a certeza do encontro.

Lá, no breu clarividente da mente silenciosa, que escorria perdão e pequeninas sujeirinhas do dia-a-dia, limpei-me.

De olhos fechados, pude ver o cheiro do sabonete, o molhado da água, o quente que me envolvia acalanto, embalando meu desejo de renovação. Tudo foi embora. Nada ficou. Nada ficou limpo, límpido, nítido, brilhante.

Alegria efusiva.

Estava acompanhado do bem que me quer bem. Decidi lavar seus cabelos. Seu corpo, seu jeito, seu sem jeito. Nos lavamos, lafomos e, ao final, chegamos-nus.

Pelado a lado, essências da natureza nudeza plena. Desnudados a dois, o Um.

Música, água, fragrâncias, texturas. Pela pele, pelos pêlos, o caminho do carinho. Cuidado. Cuidando. Cuinadando.

O mundo agora é água saborosa onde nado ondas de existir.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O dia em que morri




Morri hoje, pela manhã.

Sem que esperasse, sem que soubesse, 

sem dar notícia, 

sem palco, sem terno, sem lastro, 

sem medo, sem tudo, 

morri.

Fui hoje noite, de dia.

Amanheci, tomei café e fui morrer logo cedo.

Morri feliz.

Não tinha flor, não tinha odor e nem platéia.

Não tinha médico, não tinha cético, não havia crente.

Me fiz semente, morri somente.

Morri.

Me fiz maior, mor, 

ri de mim mesmo.

Foi num átimo, préstimo, servi pra algo: morri.

Morri eu, comigo, mesmamente,

morto completamente em vida. Morte.

Quando vi VIDA e MORTE juntas pela primeira vez eu li:

vidAMORte.

Ciclo tímico, tácito, 

me vi pétala em sua mão.

Minha filha flor e eu

arrancada vida em sua palma com um simples gesto de amor:

– Te amo, papai!

E eu, nada, escorri. 

Esvaí-me sentidos todos, múltiplos, numa morte linda e pura e louca e intensa e imensa.

Nudação.

E renasci pelado pai, sorriso só, 

na boca menina de minha filha

Beatriz.






quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gente em volta

 
 foto: abril de 2010
O momento da solidão. Quem disse que é preciso de gente à sua volta o tempo todo? – instiga em tom de desafio.

Em mundo pautado por Facebook, solidão tem outra dimensão, cara amiga. Eis o que penso. Cabe um exercício...

Me faz lembrar que há tempos, uma outra amiga, à época com seus 45 anos, filhos de 23 e 21 anos, teve o susto de ser surpreendida com um “pedido” de separação. O ano havia sido difícil e resultou num natal e reveillon inesperado: uma viagem sozinha para Londres.

– Vai ser bom pra eu colocar os pensamentos no lugar, colocar meus valores na balança, repensar minha vida, sabe? Foi ótimo eu ter decidido viajar. Dizia ela.

Claro, a conhecendo bem como eu conhecia, estava esperando que completasse o que ainda faltava dizer, mesmo que o discurso estivesse coerente... Na verdade, estava em pânico. Se esta era a fala que tinha treinado pra tranquilizar os amigos próximos, os muito próximos sabiam que ela estava aterrorizada com a ideia de ficar sozinha.

Depois que veio à tona a confissão reservada, coube a mim a reflexão: Sabe, vou lhe dizer uma coisa, pra você refletir. A melhor companhia que você pode ter na vida é a sua. Quando descobrir isso, sua perspectiva sobre as relações passa a ter um sentido novo, eu disse.

Assim, partiu. E quando voltou, me contou que dentro da St. Paul’s Cathedral, na noite de natal, qual foi sua surpresa ao chorar de emoção tendo finalmente se reconhecido como companhia possível, prazerosa, divertida, saudável. E me agradeceu num abraço, lágrimas nos olhos.

Ficar só e se sentir só são coisas distintas. O Amor – em seu sentido mais amplo – tem seus mistérios. Quando se descobre que Richard Bach está certo ao postular “Longe é um lugar que não existe”, fica até mais fácil compreender a coexistência em nós de pais, filhos, irmãos, amigos, Deus...

...e para os mais escolados, cabe a compreensão filosófica do encontro com os nossos tantos eus... mas isso já é pauta pra outra postagem.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lis tras

Faz tempo.
Faz semente.
Faz vento.

Faço.

Entrelaço aço no meu jeito, pai, topai, que sei o que faço.

Venha.

Traga-me a senha.
Busque-me sentido.
Sinta-me zunido estranho em seu ouvido.
Ente.
Sou este.
Incomoda o fato.
Ato. Relato.
To, e movo.
Para sempre novo, novo de sentidos seus.

Renda-se. Rende-se conforme a trama do que alinhavamos,
vamos, amo, somos mais que a linha, nunca és só minha,
sominha de uma matemáticazinha sem sentido prático.

Loga ritmo.
E dança.

Eu, que sou cheio de nós, serpentome minhas escamas,
noite, dia, antes
asfalto duro, manta de minha neoexistência.

Lembre-se, filha, do Amor e do em lá se.

E que eu sou, indubitavelmente, recheio na palavra seus.




terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Durex de Deus


Não foi à toa que Lulu das Ilhas me deu um cata-vento de presente.

No dia do lançamento do livro V ENTE, meu segundo livro publicado, ela trouxe esse cata-vento da Ilha de Florianópolis pra mim, regalo simbólico, mágico, místico, lindo.

Pois bem: no dia mesmo, quebrou uma pá.

A azul (sintomaticamente). Na volta, depois de ventar comigo no lançamento, com o apoio de quase trezentas pessoas que lá foram prestigiar o Novo Céu, a instituição apoiada pelo lançamento do livro e este autor aqui, que vos tecla.

A vida tem disso. Muitas pás se quebram assim, pelo excesso de energia. Até de amor. Acontece que coloquei o cata-vento do lado do computador, na mesa do meu escritório e ele nunca mais tinha ventado. Ou, melhor dizendo, nunca mais tinha catado vento algum. Com a pá quebrada, estava aqui pra que eu o visse todos os dias e 1– servisse de inspiração, por ter sido dado com tanto carinho por uma amiga muito especial, uma referência de ser humano muito ligada às Virtudes maiores que todos almejamos e 2– servisse de pulga, que atrás da orelha do real, me dissesse todo dia sobre a imperfeição das coisas. Até das mais lindas, das mais puras, dos sonhos, e dos mesmos Valores que, perfeitos, são inatingíveis por nós, cheios de defeitos... Um lembrete da falta. Do buraco existencial.

Interessante é que hoje, depois de quase um ano vendo esse totem do afeto partido, decidi intervir, finalmente. Com um movimento simples, abri a primeira gaveta da escrivaninha e ao alcance das mãos e dos olhos, um DUREX me fitava óbvio, jocoso, a espera da constatação da minha idiotice plena. Por mais que não quisesse colocar um DUREX na pá, pra não deixar marcado ali o "defeito" do meu Sonho em forma de objeto, eu esperei um ano pra constatar, surpreso, que, com o Vento, o DUREX some.

Atônito, percebi o quanto isso me serve de exemplo. Eu não queria colocar o DUREX pra não marcar ainda mais o Quebrado, Partido, Defeito que ali estava e me incomodava. Em compensação, com o Quebrado, Partido, Defeito, meu cata-vento não servia a sua função primeira: catar vento... Sendo o Vento, pra mim, metáfora óbvia de dEUs, faça você, agora, seu exercício filosófico pra estabelecer sentidos ao movimento pessoal que às vezes nos passa obliterado por nossa visão turva da realidade próxima.

Alguns pontos me causam estrelas:
Às vezes (?), assumir um Defeito é sinônimo de movimento.
A imobilidade é mesmo inimiga do possível.
Posso, sim, amar um DUREX.

Sigo. Agora ventando de novo.




sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nada é tudo.

*foto do arquivo público mineiro

Mesmo grogue, se virou na maca quando apontou na porta, vindo do corredor do hospital:
– Sabia que você estava aqui. Senti seu cheiro. Disse ela.

Os enfermeiros emparelharam a maca com a cama do quarto do hospital. 

"No três", disse um deles. E a colocaram por sobre a cama, ainda de camisola e touca cirúrgica. "Se precisar de nós, estamos no final do corredor. Ela ainda vai dormir um tempo. A anestesia é forte."

Saíram.

Só ele e ela.

E durante longas cinco horas, permaneceu ali, sentado ao seu lado.

O mundo era só. Silêncio.

Metro e meio e seus olhos, dali, caminharam carinho, lentamente, pelas trilhas do corpo quente que descansava.

Sem maquiagem, sem vestido decotado, sem óculos de marca. Sem produção no cabelo, sem batom. Sem salto, sem bolsa, sem carteira.

Sem tudo. Com nada.

Assim, ele a viu pela primeira vez. Haver.

E, inexplicavelmente, foi olhando os pêlos do braço dela, aqueles pêlos negros em contraste com aquela pele branquinha dos braços que repousavam inertes junto ao corpo coberto pelo lençol verde claro do hospital, que soube, teve a mais nítida e clara certeza de sua vida: é isso.

O Amor é isso.

Teve plena certeza que a amava. E que nada, nunca, nada poderia mudar isso.

Nem os anos, nem os planos, nem os danos. Nem mesmo os desenganos.

Quando amor, o Tempo sabe parar pra sempre e toda espera é nada.

Na vida, pra muita gente, nada é tudo.





terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pra mim, chega.


Ela ligou e ele atendeu. Estava pensando em comer um hambúrguer. Ia passar no supermercado gourmet e comprar alguns ingredientes. Alface, hambúrguer feito com carne especial, ovo caipira, pão com gergelim, queijo, presunto. Bacon não, decidimos pelo presunto pra ficar um pouco mais light... 

Uma cerveja especial pra agradar, surpresa de quem quer ser notada.

Uma segunda-feira com gosto de quinta. Mais ou menos esse o objetivo. 

Tudo pronto, tudo lindo, tudo arrumado na bancada da cozinha. 

Quando o sandwich estava pronto, pronto: ele pensou em postar a foto daquele lindo sanduba no Instagram. Daí, quando armou o celular pra clicar, um clique: pra quê mesmo eu estou fazendo isso? 

Com quem mesmo eu quero COMPARTILHAR?

Tenho uns 550 seguidores no Instagram. Tenho mais uns 150 pedidos pra me seguir no Instagram. 
Curioso que não convidei nenhuma das 700 pessoas relacionadas para estar em minha casa comendo aquele sanduba. Simplesmente especial, simplesmente nosso, simplesmente real. 

Engraçado: nunca comi o sandwich que vejo na foto do Big Mac. Ele é lindo, apetitoso, perfeito, magicamente saboroso. O que o atendente sempre me entrega tem o hambúrguer mais fino, menos brilhante, menos suculento, o alface não tem cara de fresquinho, o queijo é sempre meio embolado, meio menor que o sanduba, não abraça o hambúrguer como o queijo da foto, os gergelins parece que estão de greve e foram pra passeata ao invés de vir trabalhar, e por aí vai... 

Sabe: o meu hambúrguer de ontem tinha cara de um sanduba da foto do Big Mac. Só que o meu era real. 

Tentamos, a todo instante, aprisionar o real. Como se o tempo ali pudesse parar. E desistir de seguir, inexoravelmente, seu destino final. O vazio que o tempo nos traz só fala de Deus, e da possibilidade de surgir algo novo. Talvez, até, um outro sandwich, com menos ou mais maionese. De qualquer forma, um que se possa comer. Não um sanduba que vejo em meu celular que meu amiguinho postou que é tão real quanto uma foto de um Big Mac...

Será que chega o dia em que vou lamber a foto do sanduba do meu amiguinho no Instagram? 

Chega. Ah, pra mim chega. 


Di cadê leitura?





Vou contar um caso.

O exemplar exemplar de Grande Sertão: Veredas, edição de aniversário, ficou em cima do meu Baú de Sonhos Realizáveis na sala da minha casa por quase dois anos.

Sim. Tenho um baú de sonhos realizáveis. E um molho de chaves, na mesma sala. Nele, não conte a ninguém, tem a chave desse baú. E a chave do Universo. E mais duas outras chaves. Uma abre meu cofre vazio.

Nessa sala, uma estante de livros, um oratório que fiz solzinho, flores. Nessala exala meu gosto pelo simplesmentemeu. E de quem quiser chegar, mas com respeito. Nessala, entre chaves mágicas, ora tô rio, oratório, leio. Mar. E me em canto com os livros. De filosofia a gastronominha. Nossos sabores e os sabores do mundo que não cabem nessala.

Um dia, depois de tanto passar do lado desse livro mistério, abri o Grande Sertão: Veredas pra nunca mais fechar. É um livro tão mágico, que ele só abre. Abre tanto, que quando a capa encosta na contra capa, forma um círculo de páginas infinitas. E causos infinitos. Nonada.

Poderia dar aqui algumas dicas de leituras. Acho que seria bom.

Musashi, de Eiji Yoshikawa, a história do maior samurai de todos os tempos.

Um dos 5 +. Épico. Bom, deixa eu dar uma olhadinha na estante da mente:

O Andarilho das Estrelas, de Jack London. Delícia.

O Caminho do Sábio, de Jean Biès. Luz no escuro.

A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder. Mudou minha vida.

A Sangue Frio, de Truman Capote. Impossível ler à noite.

Portões de Fogo, de Steven Pressfield. Outro épico.

Estórias Abensonhadas, de Mia Couto. Outro delícia. (aos desavisados: Mia vem de Emílio)

O Poder do Mito, de Joseph Campbell. Argila minha.

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Compte-Sponville. Quando eu reler novamente, eu faço meu comentário.

A Menina que Roubava Livros, de Markus Suzak. Enredo bacana. Tipo Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom.

Um Dia, de David Nicholls. Sessão da tarde.

O Gênio do Crime, João Carlos Marinho. Adorei quando menino. Me fez lembrar a Série A Inspetora, de Santos de Oliveira. Ê ingenuidade boa.

Alta Fidelidade, de Nick Hornby. O filme é lixo perto do livro.

O Retorno e Terno, de Rubem Alves. Ou outro do Rubem Alves. Conversa de café com broa inteligente.

Manoel de Barros Poesia Completa. Ah, para.

O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Puatz. #semcomentarios.

Ah, e por aí vai. Ou por aí fui. Um bom começo, acredito.

Pergunta: quantos livros você já leu esse ano? Sabe?

Leitura é o remédio certo pra quem não tem cura. E tenho dito. Ou melhor, lido.





P.S.: sobre o Grande Sertão, vai a dica: só deve ler quem gosta de música...







quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre fidelidade, verdade e hábito.



Acho que André Compte-Sponville foi extremamente sábio ao digerir:

"A fidelidade é a virtude do mesmo, pela qual o mesmo existe ou resiste."

Na verdade, resumiu com maestria o que está em Montaigne et la philosophie:

"O fundamento de meu ser e de minha identidade é puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu."

Fato é, que fiel é uma palavra muito próxima de fel. A letra i, de indivíduo, é o que faz toda a diferença. Assim, o conceito genérico depende do indivíduo para se fazer tangenciável, possível, real. É como o conceito de verdade. Por mais lindo que seja, independente das inúmeras tentativas de se chegar a um enunciado que abarque mais completamente eou sucintamente esta magistral abstração, verdade, como a palavra mesmo diz, depende do olhar. Não é à toa que começa com "ver"...

Você sabe a importância do indivíduo na fidelidade? Você me ditou sobre a importância do olhar em verdade?

Eis um Caminho de busca. E, em todo Caminho, a importância definitiva do hábito.

Triste de quem se acostuma com o outro lado...




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

É logo ali.

*imagem search google "olinda"



– É logo ali, tem paciência que já tá chegando.

disse o namorado resiliente...


Pudera, ela arma um bico toda vez que não tem controle da situação. Se não fosse resiliente, já tinha chutado o balde.

Saíram cedo. Foram almoçar em Ouro Preto. Ela emburrada e ele tentando colocar uma cereja em cima da torta-do-cotidiano.

É assim. Às vezes, a gente tem que fazer do limão uma limonada. Nem sempre conseguimos agradar. Mas o jeito de olhar faz o dia-a-dia mudar sua cara. E existem alguns artifícios simples que podem fazer da tentativa de respiro, verdadeira inspiração, em seu sentido mais poético. Por que almoçar todo sábado no self-service-pra-não-dar-trabalho, se é possível inovar um tiquinho? Ouro Preto tá ali, pra quem mora em BH. Petrópolis tá ali, pra quem mora no Rio. Olinda tá ali, pra quem mora em Recife, e por aí vai. Ou por aí podemos ir.

Uma olhadinha no amigo google ou uma dica do colega de trabalho pode fazer a diferença quando se quer colocar tempero na relação, fugir da rotina, diminuir os gastos com remédios ou buscar fazer a vida mais gostosa. Eu sei, eu também adoro ir pro sítio da mamãe, eu também adoro almoçar com a sua mãe, meu amor, mas minha sogra não vai morrer se nesse final de semana a gente deixar ela inventar seu final de semana, pra gente inventar o nosso.

Mais Platão, Menos Prozac, o livro do Lou Marinoff (achei bem interessante), defende o uso da filosofia como corrimão, no lugar do remédio. Eu defendo a criatividade. Seja pra melhorar sua vida, pra melhorar sua relação conjugal, sua amizade, seu dia-a-dia. A vida é chata mesmo. Sua mulher é chata mesmo (a minha não), seu patrão é um pé no saco mesmo (o meu não), mas tudo isso tem cura. Basta olhar diferente e ter um pouquinho de criatividade.

Você já fez aula de remo? Equitação? Já almoçou em Garopaba? Já foi a Inhotim? Conhece os museus da sua cidade? E os botecos do seu bairro? Já deu uma volta à pé em toda a avenida do Contorno?

Depois quer trocar de marido e continua achando que a culpa é dele, né? Desarma esse bico e dá oportunidade pro programa diferente que ele propôs.

Convite: essa semana vamos propor alguma coisa diferente pra rotina?

Saiba que uma vida criativa e sem grande expectativa pode lhe surpreender, e muito... ;)

Pronto, meu bem, chegamos.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Uma pincelada sobre mitos e verdades no Caminho.



Mito ou Verdade?

Existem muitos mitos e verdades acerca do Caminho de Santiago. E isso certamente daria pano não para um post, mas para um livro. É, sem dúvida, uma curiosidade recorrente. Principalmente para quem quer fazer o Caminho ou se sente de algum modo atraído por ele. Elenco aqui, alguns pontos que considero importantes, cinco somente, a pedido da minha amiga Ana Crepaldi – para um grupo que tem muita gente disposta a fazer do seu caminho, Um Caminho.

O Caminho de Santiago é um caminho místico religioso. – Verdade.

Mas para isso, é importante estar aberto. Vale conhecer a música “Lente do Amor”, de Gilberto Gil, que é uma boa pista para sintonizar essa experiência. Muita gente faz o Caminho sem ter uma única experiência mística / religiosa. Por quê? Porque não está aberto. Existe uma lei do universo conhecida que diz: “Aquilo que você procura também o está procurando.” Para isso, existe um modo mais fácil. Caminhar em silêncio, ouvir a natureza, meditar ou rezar em momentos quando se está só são um bom começo. Para quem tem a formação religiosa, cabe entrar em cada igreja do Caminho e fazer dele também um caminho de fé. Existe muitas e muitas maneiras de se conversar com Deus. A certa é a que você escolher.

O Caminho de Santiago tem uma energia diferente. – Verdade.

Independentemente de ser você uma pessoa religiosa, existem coisas que são leis da física, do Universo. Quem entende uma bobina e a corrente magnética que se forma por uma energia circulando na mesma direção, vai entender do que estou falando. Conheço (e isso é muitíssimo comum) pessoas absolutamente céticas, descrentes, agnósticas e até ateus que se transformaram totalmente pelas experiências energéticas, místicas e por vezes religiosas que experenciaram no Caminho. E digo “experenciaram” por um motivo muito simples. É como a diferença entre “entendimento” e “compreensão”. Uma coisa é “entender”. Outra coisa é entender, sentir, vivenciar, transformar-se pela experiência.

O Caminho de Santiago só faz quem está preparado fisicamente. – Mito.

O que é estar preparado fisicamente? Não é incomum atletas saírem do caminho já em sua primeira etapa. Não é incomum pessoas com mais de 70 anos completarem o caminho inteiro sem problema físico algum. 30% aproximadamente desistem já na primeira etapa, mas não por não estarem bem fisicamente. Há muito além do preparo físico. “Con pan e vino se hace el Camino” é um ditado que deve ser ouvido. Pão e vinho representam muitas e muitas coisas. Alimento e líquido. Disposição e alegria. Humildade. Simplicidade. O denso e o sutil. O concreto e o abstrato. A matéria e o espírito. Jesus Cristo. E por aí vai.

O Caminho de Santiago é só pra quem é religioso. – Mito.

Não importa se você o (a) chama de Deus, Alá, Javé, יהוה, Elohim, Budah, Tupã, Adonai, Jehová, Universo, Oxalá, Braman, Natureza, Amor, Humanidade ou Poesia. Uma das formas mais antigas de se meditar é caminhando. E a meditação, o encontro com o eu, em si, é uma forma de oração. Para Deus, para você, para seus propósitos, ou para crescer pessoalmente. São Tiago só lhe convida a caminhar no Campo das Estrelas – Compostela. São muitas estrelas que brilham em seus campos enquanto caminham. Religiosos ou não.

Todo mundo deveria fazer o Caminho de Santiago uma vez na vida. – Mito.

Cada um está em um momento de sua evolução pessoal. Uns rezam, outros oram, outros meditam, outros banham-se no mar, outros fazem o bem, não importa a quem, outros trabalhos voluntários, outros estudam, outros trabalham, outros criam seus filhos, outros participam ativamente de sua comunidade, outros dizem bom dia e são educados, e por aí vai... Existem muitas formas de ser humano de verdade. E encontrar o Seu Caminho. Seja ele de Santiago de Compostela ou o do dia-a-dia. De aproximar dos Ensinamentos Superiores, independente de sua crença. Uns têm questões pessoais importantes a resolver. Outros problemas que parecem insolúveis! Outros problemas de saúde, outros graças recebidas em forma de milagre. Em suma, quem deve fazer o Caminho de Santiago é quem for chamado... de uma forma ou de outra...

Assim como existem mitos improváveis, existem verdades impressionantes. Vale ouvir e lembrar-se do mais importante: seja como for, faça com todo o seu Amor. Esteja aberto ao Amor em todas as suas formas. Leve-o como moeda de troca. O Amor como moeda é tão forte que quanto mais você dá, mais ganha. Essa, sim, é a que tem Valor. Em seu sentido mais amplo, vasto, inteiro, positivo.


No mais, – Buen Camino!