segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

João Bosco é quem tem razão


Tenho muito a dizer sobre o Cobra Coral. 

Minhas palavras não serão tão impactantes como as de João Bosco, impressionadíssimo com o som afinado e costurado do quarteto, mas vão dizer mais do que sobre o bom gosto que acompanha o grupo. O conjunto, melhor dizendo. Termo mais próprio, levando em conta sua unidade sonora e o zelo coletivo com que elaboram, tecem e apresentam suas tantas qualidades em cena.

Já não sei mais se devo ser breve e por isso atingir um número maior de leitores, ou se me detenho mais minuciosamente, com medo de, sendo breve, não deixar claro o quanto a qualidade individual e a soma de suas cores são festa em meus sentidos, e nos sentidos de quem os dá a oportunidade do encontro.

Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna, Pedro Morais - na ordem da foto. 

Do Flávio, posso dizer de suas composições consistentes, seu poder sutil de articulação artística - quem é do ramo pode entender - , sua harmonia elaborada e seu bom gosto estético-musical, pra ficar só na cobertura do bolo. Já se encontra no andar onde moram os medalhões da mpb brasileira, com humildade e continua apaixonado pelo Caminho. Capitão da equipe?

Da Mariana, posso dizer de sua voz aveludada e precisa, sua graciosidade cativante, seu toque erótico-angelical no grupo - se é que essa fusão é possível. Peter Pan não seria nada sem a Sininho, isso é fato. Quando joga o cabelo pro lado, tombam todas as cabeças do mundo, deitados em hipnose num travesseiro de capim dourado de madeixas, ao som de uma voz inexplicável de gostosa. Sinto muito, mas o adjetivo melhor é esse mesmo. É um trem. 

Do Kadu, posso dizer, sem sombra de dúvida, que é um dos maiores talentos que vi nas últimas décadas. E, me desculpem os que acham que estou exagerando, mas eu tenho conhecimento acima da média, trabalho com isso desde 1990 e sei bem o que estou falando: não tiro uma vírgula do que acabei de dizer. A última pessoa que me impressionou como o Kadu, foi Vander Lee, bem antes de ficar conhecido, reconhecido e famoso nos circuitos que nos interessam. Kadu é sábio musicalmente. E sabe aplicar sua sabedoria e bom gosto. Se Flávio é o capitão, ele é o artilheiro. E quer saber? Sabe como ninguém somar em conjunto, se preocupa com o time. Passa a bola, mesmo quando está na cara do gol, pra que o jogo fique mais atraente e prazeroso. Foda (leia pausadamente, pro impacto ser maior, vou repetir: FO-DA. Foi mal, mas a palavra é essa mesmo.

Do Pedro, posso dizer que seu talento impressiona. Ritmo, potência, qualidade vocal, swing, são sua assinatura. É o "menino prodígio" da parada. Seu timbre é um caso, muito sério, à parte. E o cara nasceu pro palco. Encaixa igual dedo no nariz. Ao lado da Mariana, trazem uma dicotomia Yin Yang pro conjunto equilibrada em ondas de força e sutileza, mordidas e sopros sonoros. 

Posso falar do show e posso falar do CD - que já está quase todo vendido. Mas vai ficar meio grande isso aqui. Por isso, só vou dizer uma coisinha de cada: do show, digo que quem sabe, faz ao vivo. Por mais bobo e batido que possa parecer. Ah, e que o clima de bate-papo envolve a gente mesmo. Delícia. E sobre o CD, putz, vai escutar, vai. Porque eu já tô ficando chato de tanto elogiar. 

Se Deus pudesse me ouvir, queria que ele mostrasse duas músicas pra uma pessoa. A 7 e a 8 do CD. A 7, coloco a letra aqui. Linda. Deve ser do Magno Mello, filósofo contemporâneo da melhor qualidade. Vou até grifar um pedaço que puxa minha perna toda noite, desde que o ouvi pela primeira vez. E a 8... porra, vê se faz alguma coisa e entra em contato com o Cobra Coral pra saber onde você consegue comprar o CD, né?
clique em Cobra Coral

QUALQUER PALAVRA
Kadu Vianna / Pedro Morais / Magno Mello

Qualquer palavra diz
Toda palavra diz
Ou quer dizer
Algo em você

Qualquer distância é
Maior distância até
Para esquecer ou se esquecer
Lembra daquela dor
Se transformou em outra dor, mas
Outra cor revela o claro do céu
E isso é viver
Toda saudade traz
Uma vontade a mais
Tudo que não se perdeu
Nenhuma lágrima
Pode desarrepender
Só ser o novo relicário de alguém

Nós ainda temos desse amor o medo
Que faz o que nenhum outro querer se atreve
Quem sai em busca dessa ilusão desvenda
Sem mais, te deixo aqui um beijo e me despeço

Qualquer palavra diz
Toda palavra diz
Ou quer dizer algo em você




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre medos e campainhas




Ontem à tarde, passei no BH Shopping para olhar alguma coisa para o natal.

As pessoas já em clima de festa, de compras, a ansiedade de alguma forma no ar.

De repente, de roupas vermelhas com detalhes brancos, cabelo comprido, barbas longas e brancas, botas pretas, ele, o Papai Noel! Vinha caminhando lentamente pelo mall do shopping. Me chamou a atenção, tanto pelas duas "noeletes" que o acompanhavam, cada uma segurando um dos seus braços, como também o terço de madeira em suas mãos. Ele vinha lentamente, acredito que se elas não lá estivessem, viria um tanto debilitado.

E foi como um impulso. Pensei: acho que não vou ter outra chance! Ele já tinha dobrado a esquina do mall quando eu toquei seu ombro, gentilmente, e o diálogo seguinte se deu:

Papai Noel!, Papai Noel, com sua licença...

Ele se voltou, ainda de braços dados com as moças que o acompanhavam, e com um sorriso no rosto me ouviu indagá-lo.

Me desculpe, Papai Noel, mas eu poderia lhe fazer um pedido?

Sim. O que você quer? - disse o bom velhinho.

Papai Noel, traz minha filha pra mim? 

...

E Papai Noel franziu finalmente o cenho, acompanhado pelas noeletes:

Onde ela está? - ele perguntou.

Em Recife, Papai Noel.

Então é fácil: você me dá o seu cartão de crédito, a sua senha e eu compro uma passagem pra ir lá buscá-la pra você. - disse o bom velhinho.

...

Sorri, agradeci, ele se virou e voltou a caminhar.

Eu fiquei ali, só, parado e me lembrei do meu último encontro com ele, em Brasília, quando eu tinha apenas 5 anos de idade. Toca a campainha, eu escondo debaixo da mesa. Minha mãe me convence a abrir a porta. Com muito medo, é o que faço. E pra minha surpresa, Papai Noel não mais estava. Apenas um saco vermelho quase do meu tamanho, que eu trouxe com certa dificuldade pra dentro de casa e que espalhei pela sala de estar, enquanto abria tantos presentes.

Não sei bem se tenho sido um bom menino... Mas vai ver que é assim: Só com uma cartinha se pode pedir algo ao Papai Noel.

De qualquer forma, vou ficar atento neste natal. Vai que a campainha da minha casa toca?


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Rubi



quando
descobriu que amor
era tarde
demais
quando
descobriu que amor
era tarde
dê mais
não há pacote que sustente o vazio
há dor por um fio
o rito de perder-se pode ser
se
e somente se
se
mentir
a bordar sem ti
mentes
nos furos do pano que a linha atravessa
as cicatrizes que se colorem
marcas vermelhas
azuis
ama, relas
atesta consentido o que o toque apela
os pontos marcados pelas linhas que escolhemos
traduzem nudez, os nossos caminhos
por mais que haja tesoura
por mais que haja tempo
imprimem-se histórias, bordados, nossa memória
há sempre uma linha sem nó
a irritar os sentidos
solta
que sinos desfaz
desmancha
apaga
some
quero apagar os caminhos das linhas
que se embolaram por traz dos panos
desenganos
desencantos
nus
cantos escondidos da linha da vida
um dia
vou raiar agulha de amor
vou conduzir linha de luz
e mergulhar no pano do perdão
tecendo com gosto
o amor verdadeiro que espero
ponto que não desata
há mar
ela
a seta
desenha novo
coração rubi








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Já à venda



Já à venda:


Livraria Mineiriana

Livraria Floriano

Livraria Canto do Livro



Valor: R$25,00 reais. Mesmo valor do lançamento.

Aproveite.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De finições ou de iniciações



Senti que é de perdas, porque acumulou muito
É de sobras, porque se doou demais
E só tem sobras quem não se guarda em nada
Só tem para dar quem nunca se negou
E vive do bem e do mal de se entregar.
Se entrega permanentemente, mesmo que em vão,
para não ficar no guarda-roupa feito roupa de frio em tempo de calor
Para não virar mofo em gavetas de sobrevivência
Se entrega para não virar passado
Quem sabe quantos passos?
Quem sabe se não foram nos passos perdidos que se encontrou?
Quem sabe se não foi ao se perder que se capturou? 

Quando você planta muita estrada pelo caminho
É natural que colha algumas lições.
São nas passadas que imprimimos nossa marca.
Ás vezes, os rastros são de asas em vôos que inventamos na viagem
Por outras, deixamos palmos impressos no chão,
Trechos percorridos
Passo a passo, como convém a quem anda todo dia.
E anda todo dia atrás do seu próprio sonho sem parar.
E aprendeu a amar a estrada, a viagem, a caminhada.
Foi amando como quem não sabe o roteiro, mas seguindo a viagem
Foi sangrando sentimentos,
Abrindo trilhas, desenhando atalhos.
Caminhará sempre porque esse é seu jeito de não ficar cansado.


Assim me definiu, com um só encontro.
Assim me definiu com muitos textos lidos.
Quantos somos? Quem somos? Quantos eus nos acompanham?
Conversamos sobre dEUs, sobre o nada, sobre o vazio, sobre o medo.
Conversamos sobre o encontro dos dedos.
"Rapte-me, camaleoa", diria Caetano Veloso sobre este encontro sutil.
De certo modo, raptou. Com sentimento.
Quando abrimos nossa caixinha de pandora, descobrimos: era só caixinha de música.
O encontro com o som, as pálpebras naturalmente abraçaram os olhos e a noite se fez, campo das estrelas.
O vento alisa as estrelas, vento do espaço.
A resignação nos faz lembrar quem partiu, declarando nunca mais voltar. Com sentimento.
Quando o dia amanhecer, vai ser mais uma estrela que vai brilhar nos meus sonhos, acordados ou não, de cor, certamente, e colorida como o reflexo dessa bola de sabão de nome Encontro.

(ilustrando o bilhete e meu comentário, um petisco do talento de Kadu Vianna - músico, mágico, artista sensível e antenado, pai, ser muito muito muito humano)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Voo



Quando cheguei a Santiago de Compostela, em 2009, imaginava que meu segundo livro seria sobre o Caminho. 80 páginas depois, descobri que não. Que ainda havia muito a caminhar para que esse livro fosse escrito.

2012: dia primeiro de novembro, dia de todos os santos, dia do lançamento de V ENTE, meu segundo livro, esse de poemas. Uma emoção muito forte toma conta de mim.

Dois meses antes, recebo um email que mudaria tudo, que me indicaria um novo caminho a seguir, o Caminho do Coração.

O lançamento de V ENTE foi muito bacana. Até o final dessa semana, ele chega a algumas livrarias de Belo Horizonte:

Floriano - Av. Cônsul Antônio Cadar, 147, Santa Lúcia.
Livraria Belas Artes - Café Belas Artes Liberdade, R. Gonçalves Dias, 1581, Lourdes.
Canto do Livro - Ponteio Lar Shopping.
Mineiriana - Rua Paraíba, 1419, Savassi.
Livraria Ouvidor Savassi - R. Fernandes Tourinho 253, Savassi.

(por enquanto!) E até o momento, 310 livros vendidos, o valor dos 500 livros doados ao Novo Céu, muitos emails, telefonemas, matérias de jornal e revista positivas... tá que tá ventando!

Nesse último final de semana, iniciei minha Odisséia. Ulisses mambembe, passarinho que mora na gaiola aberta por opção, quer voar, acorda 5:20h. Amanheci. Raiei com o sol, peguei minha mochila que fiz o Caminho de Santiago, minha velha e boa bota que percorreu comigo 830km à pé, meu ânimo que estava no fundo da terceira gaveta, do lado direito do armário, e fui ter com a vida, ser com a estrada, sentir que ainda há tempo. Não foram precisos nem 2 km para que a emoção tomasse conta de mim, na ladeira que levava ao hospital de nome São Francisco...

Sim, coincidências não são à parte pra quem já fez ou faz Seu Caminho. Fazem parte. Participam. Caminhei 13km em 2 horas e meia, percurso muito íngreme. Ao voltar, me troquei e corri 6km. Preciso perder algum peso e tenho pouco tempo pra isso. Tenho pouco templo pra isso. A viagem está marcada na minha cabeça.

Serão mais de 2.500km caminhando. O Caminho de Assis, o Caminho de Santiago e o elo entre os dois: Eu. Serão três meses de caminhada: o Caminho do Coração. No domingo, a foto tirada revela que o horizonte é belo, o céu azul, e que, por mais morros, vales, rios, travessias, fronteiras que tenha, não há limite para o que traduz o suor de meu rosto. Sabe, não me interessam as cicatrizes, não são elas que me movem. No meu peito bate um Coração de Peregrino.

Como bem disse Robert Frost, duas estradas divergiam no bosque no outono. Como ele, decidi trilhar a menos percorrida. Afinal, sou só um único viajante. Confesso, espero que isso também faça a diferença, poeta.

Você é convidado a acompanhar a preparação dessa saga pessoal. Quem sabe quais sementes irão ser deixadas ou encontradas no Caminho?

Voo com Deus. Vento.