terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Rosa Intocável




Entrei no quartinho que fiz pra minha filha e deixei sobre a cama uma rosa pra ela.

Ela nunca entrou no quarto dela. Ainda não viu as bonecas em cima da cama, ou as fotos ampliadas sobre o travesseiro. Nem os conjuntos lindos de lençol que estão ali para embalar seus sonhos. Ela não tocou no Horácio pai, sequer encostou no filhotinho dele. Um a cara do outro. O jeito igual de ser diferente. A rosa de Maria deitou na cama da minha filha. Fiz minha prece. Ela vai esperar por ela. Ela.

É lá, aonde se é, femininamente pequena, sutilmente menina, docemente me nina enquanto durmo de olhos abertos na minha espera. É como no lindo filme Intocáveis.

O sorriso muda o mundo. A palavra encanta e promove a dança.

Sou só um observador a chorar sozinho em uma sala escura. Um ninguém de quem nunca vão ouvir falar, um que sonha.

Meus sonhos, sim, são mágicos. Meus sonhos, sim, transformam o mundo e fazem florir. Nos meus sonhos, minha filha entra pela porta, me abraça num abraço de urso, de bear, de bearnardo, e sorrindo diz meu nome: "papai". Daí levanto da minha cadeira de rodas, daí levanto da minha cadeira de rosas e corro com ela em nosso jardim.

No jardim dos sonhos que fiz pra minha filha, tem Ipês, de todas as cores. Tem as quaresmeiras que florescem pra ver quando passo correndo, tem caramanchão com parreiras e pergolados com maracujás doces. No meu jardim dos sonhos a grama não coça. Os peixes me esperam. E o sabiá faz um ninho, pra Beatriz olhar admirada pros seus ovinhos, fazendo biquinho, enquanto arregala os olhos emoldurados por seus cílios que envolvem seu pai jardineiro.

Não há espinho que macule a beleza envolvente de uma rosa no travesseiro da filha de um pai sonhador.





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