quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para Fernando Netto


A bela e delicada maquiadora pingou uma gota em cada olho. De olhos fechados, elas bem que puderam se multiplicar um pouquinho, sem causar curiosidade ou estranheza.

Mais cedo, no elevador panorâmico, colou no vidro e levantou os dois braços até o teto. A subida induziu a lembrança. A lembrança da fantasia trouxe a emoção correlativa, incitando a saudade. Se lembrou do carnaval de 1977, vestido de Batman, quando reconheceu o seu melhor amigo, o Superman. Não, não era o Robin. O Superman tinha um redemoinho na testa, cabelo escorrido e nariz de batatinha, uma alegria pacífica, mar em calmaria que induz o sorriso.

Ainda bem que existe o John Williams pra orquestrar as músicas tema dos sonhos infantis, que não se resumem a cantigas de roda. A grandiosidade sinfônica alcança, na ponta do pé, quase pulando, o tamanho do sonho de menino.

Pensar na lembrança, se entregar de corpo e alma, é volver ao sonho, se conectar com o clima, fazer amor com a saudade. Re-viver.

A saudade também tem o seu valor. Pra isso, ela serve bem. É farta, terra fértil. Quando a gente molha a  terra preta da saudade, brotam sentimentosementes, avivam, florescem. O menino corre atrás da pipa, cai de bicicleta e rala o joelho, pique-pega, rouba-bandeira e gato-mia. A polícia e ladrão sacode o escondido em nós: a inocência da primeira namorada, as mãos dadas podem dedos entrelaçar... O tempo do crescimento, da construção, das folhas que caem e que se renovam. Os amores que vem pra ficar. Os que se foram e o que ainda esperamos. No tabuleiro do ludo da vida, somos pininhos coloridos olhando pro dado que anima-se à revelia do nosso plano-secreto de ser super-herói.

Nas crianças que nascem, a clara vontade da perpetuação da amizade eterna amante nossa.

Sabe? Somos eternidade em sonho e desejo. E voamos como o Superman.







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