quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ondas do mar, do há mar do meu pai







Pai,
olho do mar de mim. Atravesso. Escuto o barulho das ondas. Sei do abraço, sei do laço, sei do querer. Foi me dada a faculdade de ver. O vento balanceia meus cabelos. Meu olhar é lânguido assim, sou assim, pai. Essa sou eu. Atrás do vidro, atrás da rede de proteção, atrás da grade, atrás do seu olhar estou. Você vai chegar pelo mar? Da barriga da mamãe eu escutava você cantar. Quando chega a noite, procuro a estrelinha da música, a que você vai trazer pra mim quando eu crescer e você comprar um avião. Você vem, afinal, de avião ou barco, papai? É você ali, correndo na areia? Onde você está agora? Trabalhando? Pensando em mim? Sentado no box? Querendo um abraço? Há mar dentro de ti, pai. Posso sentir. Há mar dentro de mim, posso sentir. Por isso que quando a gente chora de saudade, nossa lágrima é salgada. É um pouquinho do há mar que transborda, em ondas que ouço, barulho das ondas revoltas, há mar, nós dois. O vento atiça as ondas do seu peito, pai. Daqui lhe vejo. Daqui lhe sinto. Seu barco pequenino que sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce sem medo do há mar. Miserinha do Mar é seu nome. - Capitão Bogeder, venha me buscar! Vai e vem... vai e vem... vai e vem... é molhada a expectativa. E minha boca, seca. Tento palavras, tanto, mas a sopa de letrinhas faz tempestade indizível no prato fundo de mim. Da próxima vez que escrever na areia, escreva algo que o mar apague, mas o há mar deixe inscrito, pra sempre, na sua areia de ser. O perdão é como o mar na areia, pai. Olho do mar de mim. Escuto o arrulho das ondas. São pombas espumas, milhares que voam do há mar de mim, pombas peixes de águas salgadas que molham seus sonhos à noite, e brincam, e pegam, e rolam vento e aspergem cosquinha na sua nuca, areia de ser. Mergulha pra sempre, papai. Fura as ondas. No oceano de nós, desatamos à vontade, brindamos com nossos corpos copos, cheios de há mar e alegria. Nus, cirandas, cantigas de rodas, transbordamos. Na banheira da vovó Lili, também aprendi que "esperança é uma menina de trança". Seu pensamento, meu nome, vem dito baixinho em uma bolha de sabão, pai. E seu trejeito é meu jeito, nosso, sempre, brinco no espelho de te achar enquanto você não chega.
- Adê? Assô!


por Beatriz.





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