domingo, 30 de setembro de 2012

Mesmo




Meus escritos
não são belos como a Gabriela, inteligentes como a Serpa, mágicos como as histórias da Guiomar, fortes como a minha irmã. Não são amantes da vida como o Mastrocola, sensíveis como a Raquel, indignados como a Rachel, exemplos como o Wernek. Nem de longe coloridos como a minha mãe, audazes como o meu pai, profundos como a Izabelle, ricos como o Eike. Não são pops como o Michael, jazzísticos como o Nelson ou brasileiros como o Adelson. Meus escritos não são páreo para o humor da Laura, não são filosóficos como Rubem, não são densos como Zezito. Ou rápidos como a Menina Vento, ou céticos como a Yara, ou frágeis como as flores do meu bonsai... Meus escritos não conseguem captar o hiato das viagens criativas de Beatriz, minha filha de um ano e sete meses. Meus escritos não são nada se não o amor perdido. Escrevo para encontrá-lo. Escrevo como quem corre uma meia maratona para ganhar a oportunidade de um namoro. Escrevo para ser evo, o eterno, o masculino da eva, a completude da beleza feminina, a faca no queijo, o leite no café, o ovo no pão, o azeite no tomate. Meus escritos não são nada. Nem sei porque leu até aqui. Meus escritos são o desejo da beleza indizível da Gabi, da perspicácia ousada da Serpa, da fantasia expansiva de Guiomar, da potência firme da minha irmã. Meus escritos querem alcançar o amor da vida do Mastrocola, a sutileza equivocada da Raquel, a indignação impossível da Rachel, a beleza do pai Wernek. Meus escritos queriam ser o lápis de cor da minha mãe, queriam ser o jeep do meu pai, o lago da Izabelle, o iate do Eike. O Billie Jean do Michael, a Ella do Nelson, o brinquedo de linha e latinha do Adelson. Meus escritos queriam ser a picância da Laura, a velhice do Rubem, a sabedoria do Zé Coelho. Queriam meus escritos ter os pés e o coração da Menina Vento, os cabelos da Yara, a seiva do amor de um pai que dói. Meus escritos são para Beatriz ler. Meus escritos são minha peregrinação pelas palavras me dadas por Deus. Que compilo, que empilho, que empalho, que, paspalho, só sei chorando escrever.

Nas páginas em branco, meu amor consegue ser ainda maior. Mas muito mesmo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Você joga xadrez?




Deus parece que joga xadrez, eu disse.
Ela respondeu: se é xadrez que ele joga, tem um adversário.

Detesto gente inteligente, porque eu amo gente inteligente. O bom do amor é que ele é diferente da cesta de laranja. Quando a gente distribui laranja, a cesta esvazia. A cesta do amor parece que enche.

Com quem Deus joga xadrez? Ela falou que é com o "Não-Sei-Que-Diga*". Será? Será com a gente?

Ou será que sou só peão?

Eu, peão, vou pro embate. Morro primeiro. Eu, peão, não tenho problema em ficar no quadrado branco ou preto. O problema do eu, peão, é que não sei voltar.

Eu, cavalo, não ando reto. Passo por cima, mas não sigo o mesmo caminho. Mudo sempre pra outra direção, difícil saber onde minha estrada vai dar.

Eu, torre, não sou flexível. A cruz do meu caminho é ir pra frente ou pra trás, pra um lado ou pro outro. Sou muro. Escudo, sou vulnerável.

Eu, bispo, tangencio. Meu olhar enviesado não vê o mundo de frente.

Não sou rei, muito menos rainha. Não sou fim. Nem meta.

...

Não, Deus não joga comigo, muito menos contra mim. Pensando bem, sou eu, o tabuleiro.

Assim, cabem as perguntas: você estaria na parte branca ou preta? E como você se move?

Ops.... espera: quem move é você?




*um dos tantos nomes do Coisa-Ruim por Guimarães Rosa.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para Fernando Netto


A bela e delicada maquiadora pingou uma gota em cada olho. De olhos fechados, elas bem que puderam se multiplicar um pouquinho, sem causar curiosidade ou estranheza.

Mais cedo, no elevador panorâmico, colou no vidro e levantou os dois braços até o teto. A subida induziu a lembrança. A lembrança da fantasia trouxe a emoção correlativa, incitando a saudade. Se lembrou do carnaval de 1977, vestido de Batman, quando reconheceu o seu melhor amigo, o Superman. Não, não era o Robin. O Superman tinha um redemoinho na testa, cabelo escorrido e nariz de batatinha, uma alegria pacífica, mar em calmaria que induz o sorriso.

Ainda bem que existe o John Williams pra orquestrar as músicas tema dos sonhos infantis, que não se resumem a cantigas de roda. A grandiosidade sinfônica alcança, na ponta do pé, quase pulando, o tamanho do sonho de menino.

Pensar na lembrança, se entregar de corpo e alma, é volver ao sonho, se conectar com o clima, fazer amor com a saudade. Re-viver.

A saudade também tem o seu valor. Pra isso, ela serve bem. É farta, terra fértil. Quando a gente molha a  terra preta da saudade, brotam sentimentosementes, avivam, florescem. O menino corre atrás da pipa, cai de bicicleta e rala o joelho, pique-pega, rouba-bandeira e gato-mia. A polícia e ladrão sacode o escondido em nós: a inocência da primeira namorada, as mãos dadas podem dedos entrelaçar... O tempo do crescimento, da construção, das folhas que caem e que se renovam. Os amores que vem pra ficar. Os que se foram e o que ainda esperamos. No tabuleiro do ludo da vida, somos pininhos coloridos olhando pro dado que anima-se à revelia do nosso plano-secreto de ser super-herói.

Nas crianças que nascem, a clara vontade da perpetuação da amizade eterna amante nossa.

Sabe? Somos eternidade em sonho e desejo. E voamos como o Superman.







segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Metonímia




Rubem Alves é um pai. Tipo. Ou um avô.

Adoro ler seus livros. Adoro seu jeito de falar sempre a mesma coisa, de maneira diferente. Um Alfredo Volpi das palavras. Suas palavras são bandeirinhas coloridas na minha mente. Não, não mente. Fala a verdade. Flamulam. Um Amílcar de Castro que me desgeometriza geometrizando. Se é que isso é possível.

Já li uns 6 livros dele. Gostava de citá-lo em sala de aula. Meus alunos se lembram disso (espero). Ganhei de presente de um sonho de amiga um livro dele de aniversário. Aliás, ganhei 2. Já li os dois. Acho que são 8, agora, os livros que li dele. Hoje cedo, me lembrei dele no café da manhã. Diz o Rubem Alves que o peso de papel da escrivaninha dele faz lembrar seu pai. Era o peso de papel do pai dele, claro. Como diz ele, não podia ser metáfora, que o peso não se parece com o pai. É metonímia.

Me lembrei dessa passagem do seu livro "Ostra feliz não faz pérola" quando peguei duas fatias de queijo minas e coloquei mel.

Dos 11 aos 14 anos, por aí, meu pai trabalhava na ACESITA. O escritório era em Belo Horizonte,  mas ele ia com muita regularidade a Timóteo, no Vale do Aço. Lá, em Acesita, como a gente chamava, tinha um hotel só de funcionários. Nele, um café da manhã. Eu ia dizer "um café da manhã gostoso, farto, bacana", mas acho que nem era. Só que o julgamento da gente é quase sempre balizado pelo humor. Não devia ter nada demais naquele café. Devia ser um lugar simples, com um café simples, com uma mesa sem muita variedade. Mas na minha cabeça era especial. Antes de viajar com meu pai, eu já me lembrava do queijo minas que eles serviam em fatias grandes e que a gente colocava KARO - nem mel era - toda vez que tomávamos café lá naquele hotel. E ia pra Acesita com expectativa do café, do queijo e do KARO. O queijo era realmente gostoso. Tanto que descobrimos o fornecedor e parávamos na estrada pra comprar o queijo, antes de voltar pra casa. Mas o que era caro pra mim, o que realmente tinha valor, era viajar com meu pai. Sozinho. E receber um pouco da sua atenção. E eu não imaginava que o queijo com KARO era só uma metonímia do Encontro.

Toda vez que me sinto só em Uberlândia, como queijo minas com mel. Fico pensando quantas formas de nos aproximar verdadeiramente de quem amamos temos, fico pensando no quanto somos privilegiados por poder estabelecer pontes que nos são verdadeiramente caras, mel da nossa existência, proteína das relações.

Cuido do Bonsai da minha filha, de um ano e sete meses (amanhã) quem não vejo desde maio. Entro no quartinho dela todo dia. Ando de escada rolante e quando coloco a mão no corrimão, me encontro com minha irmã (caso nosso...). Durmo com a colcha de tricot colorida e me encontro com minha madrinha. Vejo as cores do mundo e me encontro com a minha mãe.

Assim eu sento no box, escovo os dentes, ponho um segundo travesseiro no meu peito, cozinho, danço, faço supermercado, leio, ouço música, caminho... assim eu vivo. Dando rasteiras no sofrimento. Sou mais esperto que ele.

Como Rubem, Volpi, Amílcar, decidi amar sempre, e de maneiras diferentes.




P.S.: Às vezes, me pergunto quais pontes minha filha vai encontrar pra me levar até ela.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ondas do mar, do há mar do meu pai







Pai,
olho do mar de mim. Atravesso. Escuto o barulho das ondas. Sei do abraço, sei do laço, sei do querer. Foi me dada a faculdade de ver. O vento balanceia meus cabelos. Meu olhar é lânguido assim, sou assim, pai. Essa sou eu. Atrás do vidro, atrás da rede de proteção, atrás da grade, atrás do seu olhar estou. Você vai chegar pelo mar? Da barriga da mamãe eu escutava você cantar. Quando chega a noite, procuro a estrelinha da música, a que você vai trazer pra mim quando eu crescer e você comprar um avião. Você vem, afinal, de avião ou barco, papai? É você ali, correndo na areia? Onde você está agora? Trabalhando? Pensando em mim? Sentado no box? Querendo um abraço? Há mar dentro de ti, pai. Posso sentir. Há mar dentro de mim, posso sentir. Por isso que quando a gente chora de saudade, nossa lágrima é salgada. É um pouquinho do há mar que transborda, em ondas que ouço, barulho das ondas revoltas, há mar, nós dois. O vento atiça as ondas do seu peito, pai. Daqui lhe vejo. Daqui lhe sinto. Seu barco pequenino que sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce sem medo do há mar. Miserinha do Mar é seu nome. - Capitão Bogeder, venha me buscar! Vai e vem... vai e vem... vai e vem... é molhada a expectativa. E minha boca, seca. Tento palavras, tanto, mas a sopa de letrinhas faz tempestade indizível no prato fundo de mim. Da próxima vez que escrever na areia, escreva algo que o mar apague, mas o há mar deixe inscrito, pra sempre, na sua areia de ser. O perdão é como o mar na areia, pai. Olho do mar de mim. Escuto o arrulho das ondas. São pombas espumas, milhares que voam do há mar de mim, pombas peixes de águas salgadas que molham seus sonhos à noite, e brincam, e pegam, e rolam vento e aspergem cosquinha na sua nuca, areia de ser. Mergulha pra sempre, papai. Fura as ondas. No oceano de nós, desatamos à vontade, brindamos com nossos corpos copos, cheios de há mar e alegria. Nus, cirandas, cantigas de rodas, transbordamos. Na banheira da vovó Lili, também aprendi que "esperança é uma menina de trança". Seu pensamento, meu nome, vem dito baixinho em uma bolha de sabão, pai. E seu trejeito é meu jeito, nosso, sempre, brinco no espelho de te achar enquanto você não chega.
- Adê? Assô!


por Beatriz.





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Vamos ventar juntos?



V ente.

Este é o título do meu livro 2, que já está na gráfica. Hoje, pela manhã, a terceira revisão foi feita, pela Trema, que tem nas mãos a prova da gráfica, e aprovada pela Designlândia. Vamos rodar!

Dia 01 de novembro de 2012, o lançamento no lindo Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, que faz parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade (conheça!!!). O horário eu conto depois.

Encomendei 1.000 cópias iniciais.

E fico feliz de ter recebido um email da Karina Militão, do Novo Céu, aceitando gentilmente a parceria que propus, em nome da Beatriz, Dudu e Clara.

O valor das primeiras 500 cópias vendidas do livro serão revertidas integralmente ao Projeto Assistencial Novo Céu. Poderia fazer assim: 50% pro Novo Céu, e 50% para os custos. Mas dessa forma, destinando 100% do valor das primeiras 500 unidades, temos mais chance de realizar essa ajuda da Beatriz, do Dudu e da Clara.

Pelos cálculos, o livro teve um custo unitário de R$ 12,50 reais a unidade.
(Só de gráfica, R$ 8,50)

Isso quer dizer que vou vender o livro a R$ 25,00. Metade para tentar cobrir os custos de produção e metade para ser doado integralmente ao Projeto Assistencial Novo Céu.

Karina me foi apresentada por um anjinho que é locutora e jornalista da Rádio Guarani FM, a bela Ana Luisa Alves. Em sua delicadeza costumeira, me enviou uma referência de custo do que representa R$ 12.500,00 (doze mil e quinhentos reais) ao Projeto (valor que Beatriz, Dudu e Clara querem doar com a nossa ajuda para instituição).

A cada mês, o Novo Céu gasta R$ 2.500,00 reais só com medicamentos;
R$ 6.000,00 reais só com plano de saúde;
R$ 30.000,00 reais com folha de pagamento para 40 cuidadoras;
R$ 1.000,00 só com luvas de procedimento;
e R$ 3.000 reais com dieta alimentar;

Ou seja: cada criança tem o custo mensal de aproximadamente R$1.500,00 reais mensais.

Visto assim, R$12.500,00 reais pode parecer pouco. Mas pergunte às crianças que podem, com esse valor, se sentir assistidas com seu plano de saúde por 2 meses o que isso significa. Ou ter uma alimentação saudável por 4 meses o que isso significa. Ou ter garantidos 5 meses de seus medicamentos...

Vou fazer uma pré-venda do livro aqui pelo blog, facebook, twitter e email. E o Novo Céu vai me ajudar na divulgação. Quem sabe não nos surpreendemos e conseguimos vender as 1.000 unidades? Isso faria com que fizéssemos mais 1.000... e quem sabe mais 1.000... e mais 1.000...

Pra quem não sabe, Beatriz é minha filha de um ano e seis meses. O nome "Beatriz", além de ser "a viajante" é "aquela que traz felicidade". Viajar ela ainda não viaja, só na maionese. Mas trazer a felicidade, ela já nasceu fazendo isso pra minha família. Mas ela quer mais. E agora, com a ajuda dos amiguinhos Dudu e Clara e de todos os amigos e leitores do papai, pode trazer um pouco dessa felicidade pros anjinhos do Novo Céu.

Aguardem os detalhes. Para saber mais, acesse os links do Novo Céu que coloquei nesta página ou escreva para novoceucomunica@yahoo.com.br

Ou pra mim, que respondo com o maior prazer! besantanna@gmail.com

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

#brotoquesou

foto*


Árvore ceifada na copa.
É tronco.
Perde suas folhas, perde seus galhos, perde seu viço.
Dá broto.
Cadê o balanço que estava aqui?
Cadê a sombra, cadê o vento, cadê as folhas que caem mansas?
Cadê o ninho, cadê forquilha, cadê os líquens, cadê o musgo,
cadê gato?
Árvore ceifada na copa é tronco.
Dá broto.
O tronco que bóia na água é balsa. Abarca.
Pensamentos que correm molhados nas margens de mim.
Eu rio, eu tronco, eu árvore ceifado na copa.
Broteu.
Nasce broto, meu plexo solar.
Rompe pendão, meu dedo de viver.
Raízes se espalham em mim, capilares que envolvem meu coração.
Cresce pendão,  meu dedo de viver.
Deus me aponta, sou tronco quase seco de um broto só.
Floresta desejo, gramíneas vicejo,
orquídeas dependuradas nas minhas esquinas.
Brota, na grota, o profundo do ser.
É lodo molhado, caverna pingando, ecoo lamento, eu sinto muito.
No dedo que tenta, a seiva do amor não desiste, em si. Insiste?


*na foto acima, o bonsai de Beatriz, comprado logo que minha filha nasceu, de férias na casa da tia Rê, do Terra Bonsai, cuidada com carinho pra pequena do pai, enquanto estou fora...



Beatriz, cuido todos os dias da sua árvore, até que possa cuidar você mesma, filha. Sua árvore é bem mais forte do que a do papai. Suas raízes, firmes, tronco forte, o vento balança você por dentro. Estou em sintonia constante, meu bem. Flôre-se.



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Olhe dentro do armário quando for dormir




Posso falar sobre a solidão?
Sólida ida, hão de dizer, para sem-pre-ferida instalada na alma da gente.
A gente sente. Que há outro. Couro. Canto. Choro.
Meu couro curtido não curte. Terra batida não mente. O sol seca o caminho por onde passo. É quente o solo, é quente eu solo. Solo que trinco nas beiradas do ser, no encontro com o outro. A água escorre entre nós sem que saibamos molhar-nos-nus, revestidos da chita da ingênua incompreensão.
Meu pensamento é uma cortina de fuxico. Não sei se abro. Não sei, se abre.
Há um pedaço de mim no mundo que cresce sem que eu estrague.
Há um vazio no mim profundo que eu sem medida-de-ser.
Há um jeito de olhar no caminho que diz: pais agem.
Ficar parado nunca foi fazer nada.
Ouço passar, todos os dias, os passos que a levaram para de mim distante, para sempre.
E o berço vazio grita na noite sem bicho-pai-pão.








sábado, 8 de setembro de 2012

O estribilho do amor




Já comentei aqui sobre o diálogo de Jodie Foster e Matthew McConaughey (putz, conferi 3 vezes o nome desse famigerado pra escrever aqui no blog - imagino ele aprendendo a escrever o nome na escola, tadinho). Ele, reverendo. Ela, cientista. O embate entre ciência e religião posto à mesa. Zapeando, depois de suspirar com a Sharapova, caio justamente na cena que já vi várias vezes:

Festa, filme Contato, ele diz:
- Não imagino viver num mundo sem Deus.
Ela: - eu preciso de provas
Ele: - provas? você ama seu pai?
Ela: - sim, muito.
Ele: - prove.

É assim. Amor não se prova. Deus se prova. Tem gosto de amor. Amor se prova. Tem o tempero de Deus.

No filme, dentro da máquina espaço temporal em que faz a viagem extra terrestre, ela finalmente encontra galáxias, vislumbra o espaço, toda a criação, o uni-verso palavra de Deus, prova o sabor de saber além da crença, e diz:

- deviam tem mandado um poeta! eu não tinha ideia!...

Não, ninguém tem. Porque não passa pela ideia, pela razão, pelo raciocínio: o discurso lógico. A linguagem final mente, falta. E só o poeta, o músico, o artista plástico, só a arte, a poesia, a música. Só na fronteira entre a linguagem e o etéreo, a linguagem e o amor, a linguagem e Deus...

O ET conversa com ela. E diz que é assim. Que a vida é assim. São só sonhos e pesadelos. E que o vazio insuportável da existência só se cura com o Outro. E tudo termina em um beijo. Nesse caso, na testa dela. Me lembrei da dona Rosinha. Morava sozinha em um barracão no meio da estrada de terra indo para o meu sítio. A gente parava lá, minha mãe levava comida, biscoito, suco. E dona Rosinha despedia dela dizendo: dá um beijo na testa do seu marido, em sinal de respeito. Fico pensando se dona Rosinha assistiu Contato. Ou se o roteirista de Contato conhecia dona Rosinha.

A noite vem, e finalmente eu sonho. No sonho, minha avó paterna. Meu avô paterno (o poeta). Minha madrinha e meu padrinho. Meu padrinho me ajudava a reformar minha casa. Ele arrancava a janela principal. Peço ao meu avô: - o vô, faz um verso pra mim? E ele responde: - um verso não, um estribilho...

A diferença dos dois é que o estribilho também é um verso, mas uma espécie de refrão. Um que se repete ao longo do poema, que dá o tom, que retorna ao tema, que induz o ritmo, um mantra dentro do poema, acho que posso assim definir.

Sim, vô. Me faz um estribilho. Pedi a bênção pra minha madrinha com um beijo na testa, enquanto meu padrinho me ajudava a refazer a minha casa. Nela, um pé direito alto, sem paredes externas, aberta para o mundo.

No estribilho da construção poética da minha casa, a prova de Deus é o tempero do amor.

E a vida segue, seus mistérios.




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

One for two



Osso esse ofício de agradar, eu disse a ela em uma de nossas conversas.

Difícil "ter que".

Se superar a todo instante, difícil esperar, difícil querer, difícil escolher, dofícil amar.

Quando Pessoa anuncia, meu dia amanhece.

Fiz um Haikai pra Laura Barreto, a amante dona do blog Ócio do Ofício:

Haikai para Laura

Na lua da Laura
respiro.

Eu dizia desse jeito de ser meio alegrefusivo, que no meu caso, muitas vezes, vem com aquele dizer: -– - Suas balas não me atingem! Meu humor é como uma couraça de aço!
Mas essa é uma história compriiiiida, que não vem ao caso aqui...

Conheci Laura - ela não sabe - por "indicação".  A melhor amiga de uma paquerada no Verde Mar me mandou o link ("Vai sair hoje? Não, vou pro Verde Mar!"), por ter achado divertido ter acontecido comigo e com a amiga dela algo semelhante ao que Laura divertidamente anuncia em seu blog. De outra vez, ela usou uma foto minha em um post dela. E eu não a conhecia, já a reconhecia, trabalhamos em áridas afins.
...
Ainda não conheci Laura. Pessoalmente.
Pessoal mente. Quero a verdade. Quem sabe não deveria conhecê-la? E ficar só com minha impressão não impressa, mas marcada, minha não expectativa, minha relaxada sintonia ideativa?

No post do primeiro link acima, de 4 de setembro, "Keep the faith", o que ela cita Pessoa, me encontro.
Me encontro em vários posts dessa moça. Mas sobre esse específico, ouso responder a Laura duas coisas em desafio...

Uma que a prendi com Gilberto Gil: "Andar com Fé eu vo-ou, que a fé não costuma a faiá!".

Outra, que me dito e anuncio, quando depois de ler seu post. Segura que lá vai:

O Apego é gêmeo bivitelino da Expectativa.

Mas a Expectativa nasce primeiro. O fórceps do desejo é dispositivo crudelíssimo. Quando vemos, está em nossas mãos. Já diria aquele moço budista que anda com aquela camisola laranja e lança um monte de livro que o desapego é o caminho da felicidade. A desexpectativa deve ser o caminho da paz.

Pimenta: sobre o Keep the Faith, o comentário machista (sim, machista!, pensa aí) que a autora se refere, dizendo que

"...o cara vai fazer você se apaixonar, te usar e depois, quando cansar da novidade, te largará...",

acho cheio dos gêmeos referidos. A versão masculina machista poderia ser:

"...a mulher vai te seduzir, te colocar um anel no dedo e depois, quando você tiver caido nessa, se entregar ao desleixo da dona de casa e se esquecer da sedução..."

Ou quem sabe a versão masculina feminista:

"... a mulher vai te seduzir, fazer você se apaixonar, te usar e depois, quando cansar da novidade, vai te colocar um (um?) par de chifres..."

Qualquer um dos comentários acima são cheios da brega dupla sertaneja. A "Jane e Herondi" do pseudo-amor, a "Expectativa e o Apego". Talvez, minha amiga virtual tenha, justamente, que meditar um pouco sobre a Expectativa, assim como tenho tentado, não sem uma boa dose de dificuldade, declarar independência do seu irmão mais novo, o Apego.

De qualquer modo, antes de pensar se vamos todos escolher escrever de forma feminista ou machista, cabe nos lembrar que "Leves you, darling, if you don't care for it" e, é sempre bom grifar na alma que "One life you got to do what you should"... Por isso, uso o mesmo vídeo para servir de taça de vinho e brinco de brindar com minha amiga, até que o encontro se faça, o dia 01 de novembro chegue (dia do lançamento do meu novo livro, quando sua presença já foi confirmada), ou decidamos por algo realmente inovador e inesperado:


Vou encerrar, fazendo outro Haikai aqui, Laura, já que você disse que "sobre beijos e abraços" dava um bom post filosófico (prometo render na frente...):

Haikai do encontro 2

o beijo é a fruta da árvore do abraço








segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre a maravilhosa propriedade farmacológica do picolé de milho verde



Ingredientes: Água. Do mar. De todo o oceano. Com seus peixes, arraias, tartarugas marinhas, golfinhos, monstros do mar. Com suas tormentas e sua calmaria. Com um novo dia. Com lua brotando molhada, riscando de luz nossa estrada líquida, nítida, mística, cíclica. Açúcar. Doce do mel das mãos de minha avó. Suas unhas vermelhas que confeitavam o bolo. Olhar de bala puxa-puxa. Maçã espetada no palito esperando do lado do fogão pra caramelada-se-ar. Um pouco de amar. Polpa do seu bumbum durinho de menina, cheirinho de neném de fraldinha, me um-milho verde, cru, pai de primeira viagem.
Vi. Agem. Também ajo. Parar e esperar é diferente de não fazer nada. Acho. Ajo. Gordura vegetal, êita que a natureza tá precisando de um regime. Nem sabia que vegetal tava gordinho. Leite em pó das tardes de menino, misturado com Nescau pra jogar seco na boca e fazer confusão, quando via desenho sentado no puf. Pluft, o Fantasminha. Onde tudo começou. Já tinha vocação pra Tio Gerúndio... Xarope de glicose pra grudar a gente, criança só sabe apontar pro coração, mesmo quando aponta uma estrelinha. Olha a luz... Luz! Maltodextrina-me que desnorteado, sou um ignorante de profissão. Sigo meu coração. Soro de leite. Só vi mamar na mamadeira. Mas dormiu em minha mão, na barriga da mamãe. Estabilizantes goma jataí e carragena, muito prazer, Bernardo Sant'Anna. Sou o pai de quem me chama, enquanto aponta o dedinho, minha foto no celular do vovô Toi. Tenho excesso de estabilizante. Sou seu, amante, caminhante do Campo das Estrelas onde nos conhecemos. Emulsificante mono e diglicerídeos de ácidos graxos, pra brincar de lambuzar. Aromatizante e corantes tartrazina e ponceau 4R, se é que você me entende, minha flor. Não contém glúten, seja lá o que isso represente pra nós.
Curado. Eu também estou.
Jaboatão dos Guararapes - PE. Pe ou pé? À pé, se vai ao longe.
Não contém quantidade significativa de gorduras trans e fibra alimentar.
O Picolé de milho verde colorido artificialmente. Contém aromatizante sintético idêntico ao natural. Não sabia que o aroma natural de milho verde tinha cheiro de biscoito maizena.
Somos assim. Conectados pra sempre. Enquanto saudoso de minha filha, faço pontes com seus gostos, energia pura, artificial-mente em cantos, superficial-mente, que é profundo, que nos une em sonhos, nos  gestos, nos trejeitos, dos jeitos de ser e de estar, um no outro. Remédio poético transcende a distância, filha. Somos unidos, nosso castelo de pauzinho de picolé*.
Curiosamente, na embalagem diz: sabor do coração.


*de madeira de reflorestamento