sábado, 18 de agosto de 2012

Sofreu



Filha, que saLdade! Que vontade de lhe ver, pegar você em meus braços, sentir o seu cheiro, brincar com seu cabelo de mola, rir sem medida das suas caretas e seu jeito de olhar o mundo. Como a saudade é de sal, minha filha... Viver tem sido caminhar na praia: ao lado, há mar. Imenso, vasto, profundo, infinito. Sob os pés, areia quente. Por todos os lados, o sol que esquenta, mas castiga. Sem sombra, sou só Tuareg que, só, quer defender seu código de honra, mesmo que o mundo não se saiba, mesmo que mais não saiba um mundo sobre o que é ser-ter-estar, um só código de honra.
Leia Nilton Bonder, minha filha.

Há vento, Beatriz. Mesmo que a gente não veja, ele balança as folhas do coqueiro. Sentimos sua presença. O vento fustiga as ondas do amor. Se há mar e há vento, há ondas. E o mistério inexpugnável  da presença da lua. Assim sou eu, assim sou seu pai, assim é o nosso amor. Inquebrantável presença pulsante. Indomável. No espelho, no jeito de suspirar, no jeito de olhar, na fuga do mundo, na foto. Nossa presença mútua e ávida, é sofreu. Passado difícil, é passarinho. Que voa, passarinho lindo que canta lindo.

Hoje, cometo a indiscreta revel-ação de aqui colocar o que seu avô Toi nos escreveu esta manhã, espero que ele não fique chateado por isso:

"Minha gente querida, Deus nos abençoe. Família interessante a nossa. Somos 5, apenas. Na verdade, somos muitos e tantos e tantos e tantos, mas nosso núcleo soma 5, e hoje estamos mais juntos que nunca, embora muito distantes (...). Importa que seja, como é, fina a nossa sintonia, fino o nosso timbre energético e espiritual, imenso o nosso bem querer. O que queremos mais? Na canção, o tempo e a distância dizem não. Em nós, nos unem. (...)"

O integral está no seu email, Beatriz. É assim, filha. Seu avô também morre de saudades de você. Desde o dia 11 de agosto não recebo nenhuma notícia sua. No dia 04 pedi um contato via Skype, mas não foi possível. Nosso contato tem sido na reza, durante as corridas, no abraço do travesseiro, no olhar pro céu e no olhar pra dentro. William Shakespeare disse que "poderia viver recluso em uma casca de noz, e ainda assim, ser rei do espaço infinito." Eu digo que poderia viver recluso na casca de nós, e ainda assim, ser rei do amor infinito, Beatriz.

Nosso amor é encontro, filha.

É disso que seu avô Toi estava falando no seu bilhete para nós. Como disse Drummond, "vamos de mãos dadas". Mesmo que nossos dedos só estejam entrelaçados na vontade profunda. Deus nos abençoe mesmo. Deus nos abençoa mesmos. No mínimo, interessantes. Seus avós e sua tia esperam para poder ir lhe visitar, assim como eu.

Tenho meditado muito sobre um pensamento meu. Lá vai:

A espera se torna mais fácil quando se desenvolve a contemplação.

Sim, filha. Tenho me ditado muito isso, sobre isso, sobre seu significado. É como olhar o mar, filha. O bonito é que você já nasceu sabendo isso. Seu pai demorou mais de 30 anos (na verdade, mais um pouco, deixa assim pra não render) pra aprender. É como olhar o mar. Aliás, detesto "mar" ser do gênero masculino em português.

Quando olho a mar, sinto sua maresia. Saboreio seu iodo. Me salgo brisa, enquanto me ofusca sua claridade em reflexo. Seu som penetra gostoso os meus ouvidos. Me abro pro som. Me entrego pra ela. A mar tem peixes. E mesmo quando não mergulho, me banho.

Assim, do mesmo modo, olho pro céu e pra mim pra me encontrar todo dia contigo, filha. A areia quente não pode com suas ondas infinitas. Mesmo quando há algo escrito nela.

Ops! Não há mais. Se foi para sempre, enquanto escuto o canto lindo do sofreu.


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