sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Wagner Moura, Claudio Manoel e os bonobos



Na página 48 da Revista Alfa desse mês, que tem Wagner Moura na capa, uma matéria de Claudio Manoel me chama a atenção ontem, quando li.

"Everybody macacada" foi o título escolhido. Ilustrando o artigo, uma foto (melhor do que essa que achei na internet) dos macacos bonobos que, quando correm perigo, sua estratégia de defesa é: ficarem abraçados.



Segundo Claudio Manoel, "só dá pra ser bondoso na paz e na fartura. No resto do tempo, bom é ter testosterona e saber lutar." Eis o que defende o colunista, nas poucas palavras a que tem direito no seu espaço de uma página. Entendo o que quer dizer, ou melhor, entendo o porquê de ter dito isso. Mas optei por pensar diferente. E fazer disso bandeira.

E de ontem pra hoje, sonhei com minha filha. No sonho, ela ria pra mim, me abraçava, brincávamos juntos, conversávamos. Ela, com um ano e seis meses. Ao final do sonho, minha filha me trazia uma banana...

Acordei feliz.

Quero crer que Mahatma Gandhi não concorde com Claudio Manoel. Que por mais duro que seja, o amor deve prevalecer. Que o amor vence a guerra. Que quem acredita nisso não vai caminhar para a beira da extinção, como os bonobos. Por mais cruel que a selva seja. Quero crer que Thomas Mann está certo, ao dizer que "É o amor, não a razão, que é mais forte que a morte." Porque morre-se de muitas formas. Morre-se em vida. Aliás, o pior suicídio é aquele em que a pessoa não vai pro outro lado. Fica aqui, vivinho da silva, morto, desenterrado. Se a razão manda brigar, mostrar as garras, agredir, lutar, brigar, o amor manda arrefecer, exercitar o perdão, virar mar, oceanar-se. Meus 25 anos de Karate me fizeram incorporar o Dojo Kun, que decoramos já no primeiro mês: "Esforçar-se pela formação da personalidade; Seguir o caminho da sinceridade; Cultivar o espírito de empenho; Dar importância à cortesia; Reprimir atos brutais..." 

Me dito o koan zen budista que pro-voca: da margem onde está, mova o barco que desliza sobre as águas... 

Detesto a visão de dar a outra face como sendo para bater. Dar a outra face, mostrar o outro lado, expor o que ainda não foi visto, isso sim. Com amor.

Saiba que não estou na capa da revista. Estou na matéria do Claudio Manoel, abraçado. Um macaquinho que quer fazer macaquices pra minha filha se divertir. No sonho, eu não pedi a ela uma banana. Eu só lhe disse que estava com fome. Lá, no fundo de mim, acredito que minha filha me acha um bonobo.

No bobo: bonobo.

E aproveitando o ensejo, filha, apesar de ter Moura no sobrenome, eu e o Wagner da capa temos 3 diferenças básicas:

  1. o talento
  2. o cachê
  3. a beleza (mas eu sou mais bonito*) 


(foto de celular do amigo e mestre Sérgio Mastrocola)

*segundo minha mãe.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Haikai da vontade de correr




A lua.

Ah, lua.
Não faz isso comigo.




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Vai uma Dica


Acho que muito pai, muito filho e muita mãe deveria conhecer os belos textos desse poeta sonhador que, sábio, é sabiá.



sábado, 25 de agosto de 2012

Paula Toller. 50 anos que valem por 1 ano e 6 meses.*


(gravação, hoje, na Escola Estadual EMEI Maria Augusta, 
quando me sentei com as crianças da idade da minha filha)

No Twitter do Estadão, se não me engano, li, há 2 dias:

A cantora Paula Toller, acredite, faz 50 anos hoje.

É assim. Tem coisa que é ruim mas é bom. A Paula Toller ter feito 50 anos pra ela pode ser ruim, mas com um corpinho de 30, pra ela pode ser bom. Pra mim é, certamente. Acho gata. Gata e gostosa, com todo respeito. Kid Abelha: é ruim mas é bom. Nos anos oitenta então, foi um barato! Bom demais. E as músicas? Tudo ruim. Mas tudo bom. Delícia! Paula cantava mal com força. Desafinava com mais força ainda. Tudo bem, Paula, já vi o Milton Nascimento desafinando no Faustão que fiquei com vergonha alheia... Tom Jobim já foi vaiado cantando e tocando Sabiá (não vou entrar no mérito do motivo, que foi, foi). Hoje, Paula Toller, "acredite", canta bem (pra aproveitar esse aposto ousado e bem colocado do Estadão). Além de ser uma simpatia - pelo menos no que vi dela, no seu jeito no palco, sorriso, tal e coisa.

Por que me lembrei dela? Porque estou sentado sozinho na esquina da rua Edson de Barros com av. Rondon Pacheco, em um boteco de nome... que não me lembro, e a moça que toca um violão e canta afinado está neste momento cantando "Eu quero você, como eu quero...". Daí me lembrei que ontem li isso no Twitter do Estadão, daí pensei em quem eu quereria... e cheguei à imagem da Beatriz, minha filha, nos meus braços, segurando meu colar com um pingente chamado Love Knox, o nó do amor, o símbolo do amor-infinito, os corações entrelaçados como lemniscata... nossos corações muito nossos.

"Longe do meu domínio, cê vai de mal a pior... vem que eu te ensino, como ser bem melhor..."

Não, Beatriz, não acho que seja o nosso caso. No nosso caso, só a segunda parte é a mais pura verdade. Quero lhe ensinar a ser bem melhor do que eu, filha. E penso que assim como o Kid Abelha e a Paula Toller, é ruim, mas é bom: é ruim saber que Beatriz está há dois mil km de distância perto, dentro, em cada poro do meu corpo, em cada luz dessa muitíssima alma. Tanto que eu a quero, ...ah, como quero. Mas é bom. Mesmo não recebendo notícias de Beatriz desde o dia 11 de agosto. No último email, textualmente escrito que não seriam enviadas notícias diárias e só seriam dadas segundo disponibilidade. Ainda bem que disponibilidade pra mandar a fatura do plano de saúde há.

É ruim, mas é bom. Em Pernambuco, os Mamulengos não tem voz. Não tomam nenhuma atitude sem o Mestre Mamulengo mandar. Ele fala, o mamulengo fala. Ele mexe, o mamulengo mexe. E não é ruim, é bom demais. Se todo estado brasileiro fosse como Pernambuco, eu não estaria fazendo campanha política em Uberlândia alvejado a cada 5 minutos por um carro com subwoofer estourado com breganejo universitário no talo. A cultura em nosso país seria bem menos massificante, massificada e pasteurizada... Quando eu tinha 15 anos fiz uma peça de teatro em que eu era um mamulengo. "As Grandes Lonas do Céu", do Teatrólogo, diretor e Mestre Mamulengo Fernando Limoeiro. Nela, o eu Simão, o mamulengo, era só um garoto que queria ganhar vida. E se transformar em uma criança livre. Uma criança que pudesse amar integralmente. Amar não só pela metade. Curiosamente, a origem do nome Simão é do hebraico, "aquele que ouve". Talvez meu próximo filho tenha esse nome, em homenagem a Simão, o mamulengo criança que queria ser livre para amar. Na peça, o palhaço do pai de Simão era quem o movia. Era quem mandava nele. Coitado. Não sabia o final óbvio dessa linda história de amor.

"Nossos destinos foram traçados na maternidade..." - já canta a morena enquanto meu pensamento voa.

Enquanto Paula Toller faz 50 anos de um pseudo ruim que é bom, minha filha faz um ano e seis meses de vida. Hoje, dia 25 de agosto. É como a linda Paula Toller e o Kid Abelha, filha, é ruim mas é bom. Mesmo sem ter recebido nenhuma notícia sua, nem hoje, nem no dia dos pais, sinto-te bem, presente, amante da vida e do sonho, uma criança que quer ser livre para amar. Amar muito, filha. Esse é o destino dos grandes.

Ontem sua avó Lili me mandou um email:

"Hoje sonhei com Beatriz. Foi maravilhoso. Eu perguntei a ela quem eu era e ela falou: vovó. Só. Mas deu pra matar a minha saudade.
Parabéns por 1 ano e seis meses de Beatriz nossa netinha querida. Estamos juntos com você e com ela sempre. Carinho. Mami."

Acho que Deus sabe o que faz. Deve ter sido ele Quem colocou no setlist da cantora do boteco a próxima música:

"Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais..."

Puxa, ela tá contando bonito essa...


(equipe durante as gravações, hoje, no dia do meio aniversário da minha filha)

*Para minha filha Beatriz de Castro Maia e Sant'Anna, que faz hoje 1 ano e 6 meses de idade.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

excolha



A música não desiste
de nós.
Quando pausas afônicas contratempos, contra templos.
A prendo. E escorre pelos dedos.
Todas as letras. Mudifico-me. Emudeço-me. Mudo e fico. Mudo fico.
O espelho não mente, omite. Fatia os sonhos da gente em silêncios.
Reflexiona, une verso, represa em teia.
É muita água, minha gente. É muito laço de gente. Muita corda acordada. Muita lã novelada.
Milhares de gotículas uni das presas pela tramelas das tramas.
É como a trema.
Delicada, confunde. Ninguém sabe ao certo o que é aquilo ou pra quê serve.
Eu sirvo.
Trema. Com medo. Abra a janela no alto do prédio ou da letra u. E feche os olhos.
Quando tremer e sentir sua mão suando, saiba que sei. Que sirvo.
E estou pronto, vocacionado, chamado, em chamas.
Nas flamas, o presente do indicativo pergunta a tu.
Tua resposta é confusa.
Porque sabes que é sim, queria que fosse não, e sofres.
Sofres nos cofres da alma, tu sentencias.
Est ás coberta com o manto do silêncio. Mas querias que este veste nua.
Escutando a música que escolhi
pra nós.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A palavra SUICIDA não termina em volta





lambo o limbo 
lumen lânguido persigo

e a corda no pescoço do suicida coça um pouquinho, às vezes



sábado, 18 de agosto de 2012

Sofreu



Filha, que saLdade! Que vontade de lhe ver, pegar você em meus braços, sentir o seu cheiro, brincar com seu cabelo de mola, rir sem medida das suas caretas e seu jeito de olhar o mundo. Como a saudade é de sal, minha filha... Viver tem sido caminhar na praia: ao lado, há mar. Imenso, vasto, profundo, infinito. Sob os pés, areia quente. Por todos os lados, o sol que esquenta, mas castiga. Sem sombra, sou só Tuareg que, só, quer defender seu código de honra, mesmo que o mundo não se saiba, mesmo que mais não saiba um mundo sobre o que é ser-ter-estar, um só código de honra.
Leia Nilton Bonder, minha filha.

Há vento, Beatriz. Mesmo que a gente não veja, ele balança as folhas do coqueiro. Sentimos sua presença. O vento fustiga as ondas do amor. Se há mar e há vento, há ondas. E o mistério inexpugnável  da presença da lua. Assim sou eu, assim sou seu pai, assim é o nosso amor. Inquebrantável presença pulsante. Indomável. No espelho, no jeito de suspirar, no jeito de olhar, na fuga do mundo, na foto. Nossa presença mútua e ávida, é sofreu. Passado difícil, é passarinho. Que voa, passarinho lindo que canta lindo.

Hoje, cometo a indiscreta revel-ação de aqui colocar o que seu avô Toi nos escreveu esta manhã, espero que ele não fique chateado por isso:

"Minha gente querida, Deus nos abençoe. Família interessante a nossa. Somos 5, apenas. Na verdade, somos muitos e tantos e tantos e tantos, mas nosso núcleo soma 5, e hoje estamos mais juntos que nunca, embora muito distantes (...). Importa que seja, como é, fina a nossa sintonia, fino o nosso timbre energético e espiritual, imenso o nosso bem querer. O que queremos mais? Na canção, o tempo e a distância dizem não. Em nós, nos unem. (...)"

O integral está no seu email, Beatriz. É assim, filha. Seu avô também morre de saudades de você. Desde o dia 11 de agosto não recebo nenhuma notícia sua. No dia 04 pedi um contato via Skype, mas não foi possível. Nosso contato tem sido na reza, durante as corridas, no abraço do travesseiro, no olhar pro céu e no olhar pra dentro. William Shakespeare disse que "poderia viver recluso em uma casca de noz, e ainda assim, ser rei do espaço infinito." Eu digo que poderia viver recluso na casca de nós, e ainda assim, ser rei do amor infinito, Beatriz.

Nosso amor é encontro, filha.

É disso que seu avô Toi estava falando no seu bilhete para nós. Como disse Drummond, "vamos de mãos dadas". Mesmo que nossos dedos só estejam entrelaçados na vontade profunda. Deus nos abençoe mesmo. Deus nos abençoa mesmos. No mínimo, interessantes. Seus avós e sua tia esperam para poder ir lhe visitar, assim como eu.

Tenho meditado muito sobre um pensamento meu. Lá vai:

A espera se torna mais fácil quando se desenvolve a contemplação.

Sim, filha. Tenho me ditado muito isso, sobre isso, sobre seu significado. É como olhar o mar, filha. O bonito é que você já nasceu sabendo isso. Seu pai demorou mais de 30 anos (na verdade, mais um pouco, deixa assim pra não render) pra aprender. É como olhar o mar. Aliás, detesto "mar" ser do gênero masculino em português.

Quando olho a mar, sinto sua maresia. Saboreio seu iodo. Me salgo brisa, enquanto me ofusca sua claridade em reflexo. Seu som penetra gostoso os meus ouvidos. Me abro pro som. Me entrego pra ela. A mar tem peixes. E mesmo quando não mergulho, me banho.

Assim, do mesmo modo, olho pro céu e pra mim pra me encontrar todo dia contigo, filha. A areia quente não pode com suas ondas infinitas. Mesmo quando há algo escrito nela.

Ops! Não há mais. Se foi para sempre, enquanto escuto o canto lindo do sofreu.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Meu coração é uma caixinha de música




Caixinha de música.

Música tema da infância perdida. A bailarina quebrada, saia rasgada, guardava o sono da menina. Em um minuto se entregava. Em um minuto dormia. Eu ouvia a música que tocava vindo de dentro do escuro daquele quarto. A casa finalmente silenciava. Elástico, pegador, boneca. Casinha e aulinha. O universo infantil conjugado criança, na mistura da dança dos meninos que pulsam. Pulsão.

A música do dar corda na caixinha de música me acorda.

Meu coração é uma caixinha de música que acabou de tocar.

É preciso ser acordado com a música do dar corda na caixinha de música.

O coração pede, o coração re-clama. O coração re-clama calado, esperando a música do dar corda na caixinha de música. Na minha caixinha toca uma música de cada vez. Foram algumas. Se foram algumas. Enquanto fico na expectativa de que a corda seja dada, sonho ouvir só uma música, pra sempre, música tema do adulto perdido, bailarino quebrado, saio rasgado, mas guardo o sono da menina que der corda. Em um minuto me entrego. Em um minuto nunca mais durmo. E ouço pra sempre a música que toca vindo de dentro do quarto escuro do peito, minha casa de caranguejo finalmente silenciada, meu corpo, minha e terna morada, meu santuário elástico, pensador, pulsante. Casa da morada da amada, meu universo renovado conjugado adolescente, na mistura carente da dança da verdadeira relação. Relo. Ralação. Rumo.

Para sempre rumado, remado, remando, somando, a mando da música que vai tocar.

Toca em mim. Pra sempre.

E mistura a graça do novo com o sabor do esperado, o tempero da vida da gente, nas receitas possíveis de amar.

A corda. É preciso dar para a música tocar.
A corda. É preciso dar para saber ouvir.


domingo, 12 de agosto de 2012

O dia dos pais com minha filha

Ei, filha!
Que dia lindo que passamos juntos...
Começamos cedo, corremos 17km. Como você corre, filha. Ao meu lado, sobre mim, sobre tudo, sobre todas as coisas do mundo. Você corre como o vento, sopra no meu peito, sobra sentimento. Derrama, amor. Corremos no Parque do Sabiá.
Na volta, nosso café, amor em suco, querer quentinho, fruta boa.


Que delícia tomar café com você olhando nos meus olhos, filha. 
Sabe, recebi da sua vovó Lili, do seu Vô Toi e da sua Tia Biba, o meu presente de dia dos pais, que eles fizeram em seu nome. Um álbum lindo! Um afago na saudade, um carinho no suspiro da gente, filha. Tantas, mas tantas fotos, todas nossas, nos curtindo!















Sabe, filha, fui hoje no clube, tive uma folga que nem esperava. Ninguém entendeu quando comecei a empurrar um balanço no parquinho. Só você. Você ria tanto, minha filha, que nem lhe conto. E a gente se abraçou tanto, foi tanto amor, que transbordou pra sempre. Mesmo não estando um ao lado do outro, mesmo que sua mãe não tenha retirado a liminar que me impede de vê-la fora da casa do seu avô. Não lhe vi no meu aniversário e agora não lhe vi no dia dos pais. Mas isso não é nada. Nosso amor é muito maior que tudo. Que a pequenez humana, que qualquer mágoa, que qualquer recalque, que orgulho desmedido, que medo da perda, que medo de assumir os próprios atos. Sabe, filha, as pessoas julgam as outras pelo que elas são. Por isso, o mundo está assim, difícil, sem amor.... Ame, filha, ame muito e sempre, e aprenda o perdão. Esse é um excelente truque pra saber sorrir. Nesse dia dos pais, quando não nos foi permitido encontrar, abrace o seu avô materno. Dê todo carinho e amor a ele. Ele merece. Merece porque graças a ele, sua mãe teve oportunidade de nascer, e graças ao nascimento da sua mãe, você também pode vir ao mundo. O certo, era você ter passado o dia dos pais comigo. Mas a gente tem todo o tempo do mundo pra isso. Um dia vamos voltar a passar o dia dos pais juntos, eu, você e seu avô paterno, que também lhe ama e está com muitas, mas muitas saudades suas. Fique com Deus, minha filha. Não tem como estarmos mais perto. Você VIVE dentro de mim, assim como vivo dentro de você. Aliás, estou estampado na sua cara, meu amor. Do seu papai que lhe ama e que sabe, verdadeiramente, o que é mais importante pra você.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Gilberto Gil, 70 anos.




Tenho muito a escrever para Gilberto Gil.

Mas não vou, não posso. Gil encantou minha vida inteira. Ele merece o mesmo, e não posso lhe prometer isso por meio das palavras.

Aos 3 anos de idade, eu cantava "Refazenda" (que chamava de "Abacateiro") inteirinha. Sempre sonhei em ouvir minha filha cantando a mesma música. Nas férias, o disco novo do Gil era ouvido na fita K7 colocada no carro, quando a família viajava pra Bahia, ao longo dos anos. De Panorama, de Opala, de Monza.

Amores embalados por Gil, tristezas abrandadas por Gil. Aprendi que a depressão até encosta, mas não faz morada quando ouvimos sua música talismã no último volume, preferencialmente a gravação do CD Quanta Gente Veio Ver, de 1998 - emendada com a introdução do CD."A gente escolhe uma música pra ser um talismã. No meu caso, escolhi Palco." - diz Gilberto Gil, em entrevista a Globo News. Acho que os médicos deveriam prescrever esse CD aos que sofrem de amor. Sim, porque nada me tira da cabeça que a depressão está ligada a isso, à falta de amor, independentemente do tipo de amor (você sabe, são vários).

Gil, música tema. Gil, música nossa. Gil, lembrança do amor que se foi e Gil pro amor que ainda virá. Ou pro amor que está aí e a gente ainda nem consegue ver. Gil é um artista do amor. E escrevo isso sem medo de ser piegas, sem medo das críticas, sem me preocupar com os críticos que olham para os seus umbigos e não pro primeiro beijo embalado por "Estrela", de Gil (tem no mesmo CD!: médicos da alma e depressivos de plantão, ouçam minha dica!).

Eu poderia buscar nas 523 músicas que constam em seu site excelentes argumentos, argumentos de fundo, que embasassem meu ponto de vista, que calaria a boca dos críticos beócios, que não respeitam os 70 anos de um artista, como vi um deles falar sobre o Caetano essa semana, mas não. Acho absurdo que não possamos falar só bem de alguém. Que é falta de amor. Que podemos espalhar o que achamos de bom, que muitas vezes se pode suprimir o que é ruim, em prol do bem, do bom, do belo. Ninguém é 100% genial. Não me interessa que existam músicas ruins dentre as 523 músicas do Gil. O que me interessa são as que ouço dessas 523. As que me fizeram sonhar, as que embalaram meu sono, as que calaram minha dor, as que me consolaram no desespero, quando não pude ligar pra ninguém, chorando, doendo, deitado sozinho no quarto. As que me abraçam, quando sinto saudades da minha filha, a 2.200km de distância... Gil sempre esteve ao meu lado, Gil nunca me abandonou. O artista constrói suas pontes com palitos de picolé, pontes que nos levam ao sonho, ao desejo, ao orgasmo, ao riso simples e frouxo, à febre de nos sentirmos vivos.

Gil, com 70 anos, só vai morrer quando eu morrer.

Flora Gil, na mesma entrevista, diz de seu jeito Zen, que "O que ele gosta é de sombra e agua fresca mesmo..., coisas simples.". Eu, penso que poderia escolher pelo menos uma música, que ilustrasse bem esse simples comentário amoroso do Blog, ao meu amigo de 70 anos, em tom de homenagem. Acho que uma boa música seria "Amarra o teu arado a uma estrela". Não, acho que poderia ser "A linha e o linho". Não, não, acredito que "Estrela", que já citei, seria bacana. Ah, não, "Queremos saber". Se bem que "Aqui e agora" seria um maravilhoso exemplo... Ou, quem sabe, "Deixar você", pra abordar outra linha? É que eu queria fugir de "Drão", "Superhomem, a canção", "Se eu quiser falar com Deus", entende?

Bem, acho que me fiz entender. No último show que fui de meu amigo Gil, estive com ele, lhe dei um abraço e lhe entreguei meu primeiro livro CD, de nome 8, que foi dedicado a ele. Demorei 35 anos pra fazer esse trabalho, e Gil tem uma parcela grande de responsabilidade nisso. Tanto de ter feito, quanto de ter demorado a fazer. Já comentei isso aqui no Blog. Do mesmo ano do meu trabalho, 2008, Gil tira de sua cesta mais uma dessas músicas que ele colheu nas estrelas. Uma música que ainda quero cantar pra minha filha, se Deus me der saúde. Uma das que me emocionou muito no seu último show: "Não tenho medo da morte".

Penso que, em última instância, esse texto não é só pro Gil, é pra minha filha de um ano e quase seis meses, há 2 dias do Dia dos Pais que não vamos poder passar juntos: que eu possa lhe mostrar as músicas de Gilberto Gil que gosto, filha. Todas. Que a gente possa escutar juntos, sonhar juntos, rir juntos, chorar juntos, e continuar o aprendizado eterno de amar. Encontrei o verbo untar na palavra JUNTOS. Unto do mel do amor essa palavra importante pra nós, filha. Na companhia bonita e encantada do Gil.

Parabéns, querido Gilberto Passos Gil Moreira.
E feliz Dia dos Pais para o meu pai, para o Gil, para quem é pai e para mim.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Sincericídio do poema prósico





Poema Prósico.

Nunca ouvi esse termo. Achei, imodestamente, que iria propô-lo, mas googlei e já haviam cunhado essa óbvia relação, ilação, enfim. Não sei, na verdade, se o termo existe na academia, vou perguntar a minha mestre para assuntos linguísticos, a maravilhosa Luciana Wrege Rassier. Mas não importa, é só curiosidade. Porque bem mais que prosa poética, com toda licença que tem, o que Pablo Nobel faz é um poema prósico bacanérrimo em Sincericídio
(Sincericídio / Pablo Nobel. São Paulo: Ofício das Palavras Editora, 2012).

Pablo, "Como alguém ousa não gostar de mim?

Fico imaginando como nosso lado narcísico tantas vezes se pergunta isso. E é um barato que sincericidiamente se pergunte, sem medo da morte, do julgamento, do fim de algo que não sabemos bem o que é... 

Pablo escreve como a carne mal passada argentina. Sua poesia é Ojo de Bife com Chimichurri, sangue suculento escorrendo no prato. Salivo.

Pablo, chorei com "Febre", gargalhei com "Charutos". 

Quero lhe dizer que adorei a "Receita". Vou aqui pedir licença pra citar um, dois fragmentos, pra me fazer entender. Ou pra me desentender por completo, só compreender - que a poesia é bem isso.
Em Um dia a mais:
"Invejo a habilidade de algumas pessoas de viver como se fizesse sentido."
Em Febre:
"Pedi a Deus que existisse. E se existisse, que permitisse a dor migrar daquele corpo pequeno, para o meu, imenso. Corpo de pai."

Interessante que por mais que eu tenha tentado imaginar o amigo Pablo enquanto lia, o escritor tomava o seu lugar, e me jogava pra longe, e me perdia na distância do autor, e me perdia na proximidade das palavras como sendo minhas, verdadeiras, quentes. Acho que Pablo pode ser definido como um milongueiro das palavras. Nos convida (charmoso) a dançar um tango nas páginas de seu Sincericídio. Com ele. Conosco. Parejas PeligrosasChamuyo perspicaz, intenta la salida, la caminada, el giro, el cierre. E quando abrimos os olhos, estamos ali, sós, sentados na pista, enquanto um bandoneón toca o solo de Adiós Nonino.

"Roubo", "Diferença", "Lupa", "Distração": SENSACIONAIS, no sentido mais próprio da palavra.

Ah, que a "Fada" da Ana não nos ouça, Nobel, mas foi seu ato falho que pediu a Deus que existisse, escrevendo "Deus" com letra maiúscula. Vou ser ousado pra lhe dizer o que achei do seu primeiro livro, lhe citando: "O mar agradece. E eu também."

Um abraço fraterno do agora fã do autor, Bê.






segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Haikai fluido



A vida é água, o tempo é sonho.
Meu sonho molhado não seca.





sexta-feira, 3 de agosto de 2012

DOR MIO




Sonhou o que não esperava. Sentada ali, na ponta da cama, nua, mexia em um dos pés, com a perna encolhida em cima da cama. Ficava particularmente linda ali, na ponta da cama, nua, mexendo em um dos pés, o da perna encolhida em cima da cama. Talvez passasse um creme de amêndoas, talvez só mexesse curiosa em um dos pés, o da perna que se encolhia em cima da cama.
Que bela coxa, que bela perna. Os nós dos dedos só eram marcas do dia, reafirmações da feminilidade enfatizada com o salto.
Saltou.
Pra cima dela, se jogou primeiro com os olhos. Viu a boca, lábios entreabertos, o sangue vívido que lhe pintava contrastes. Signo, fálico, bélico, dúctil, táctil.
Contralto contraste, canta a firmeza de suplantar seu delicado corpo. Mas o usa: uzi.
Metralhado, morto, ferido, sengrando, decide-se solto e salta. Sobre ela, sobre si, sobre as crenças todas, dança sendo sempre seu. E intui... Eros poderá lhe salvar?
Enquanto sonha desejos reprimidos, se suicida só, um pouquinho, só um pouquinho enquanto é escuro, ainda, e o sol do dia não veio lhe salvar.
Por que a noite veio lhe acordar?