quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Trindade do Amor



Quatro de junho de dois mil e doze, hora da lua cheia.

Beatriz olha para o MacBook ligado ao Skype, aponta num sorriso e diz, reconhecendo:
– Papai!

...

Seus dentinhos aparecem na palavra papai. A palavra papai termina num sorriso.

A palavra papai sou eu, sou eu quem aparece no MacBook, sou eu quem desaparece no MacBook. Sou eu a 2.200km de distância dentro, nada mais perto, tudo mais pele, nada mais suor, saliva e lágrima. Água. Nosso líquido oceano particular. Há mar, Beatriz.

Senti a mesma coisa duas vezes. No momento em que cheguei e avistei a Catedral em Santiago de Compostela. No momento em que vi Beatriz pela primeira vez, no ultra-som.

Um pontinho pulsante, um coração batendo, uma palavra, nada mais do que isso. Apontei para a tela do computador de dentro de mim no consultório num sorriso e disse, reconhecendo:
– Filha!

Foi como assim. De lados opostos mesmos nos apontamos. O tempo e seu hiato misterioso, ligado por um fio invisível de prata, uniu meu coração que olhava para a Catedral, o coração de Beatriz na tela do consultório, o eupai que aparecia coração na tela de Beatriz. Eu só, um pontinho pulsante.

Toquei violão para Beatriz, pedi ajuda ao Bob Esponja, pedi ajuda às bonecas que ficam em cima da cama dela, quero um pouquinho de atenção, quero o dedo do amor apontado pra mim. Só, um pouquinho.

Amor!, ela também disse. Escolheu essa palavra reconhecida, quando eu disse a ela, como de costume:
Cadê o Amor de papai?

E ela:
– Amor!

Isso, Amor!, aprovou a mãe do outro lado, sem aparecer na tela.

Beatriz tem um olhar profundo. Na minha fantasia de pai, ela pensa em mim, se questiona o que estarei fazendo naquele momento, no momento do olhar, dentro. A resposta é fácil, filha. Estou pensando em ti. Lhe abençoando, lhe carregando num abraço, me fazendo ninho, sozinho, solzinho, seu sofá quente de amor. Na minha fantasia de pai, Beatriz espera no portão. Quando olha lá fora me procura, sabe da estrada escura, sabe da estrada, é cura, pra pequenice dos adultos.

O sol aquece o poleiro do peito, lugar onde escolheu pousar a palavra que voa da boca de Beatriz.

Sou grato, Filha. Sou grato, Deus.

Um comentário:

Rachel Sant'Anna Murta disse...

Que lindeza é isso tudo! Que amor é esse todo!