terça-feira, 31 de julho de 2012

Makiwara do amor.


O amor bate à porta do hotel simples, na cidade do interior. Janela simples, sem armários, sem banheira, sem sofá, sem decoração. Ainda assim, ouço o amor batendo. Ele bate batendo, toc, totoc-toc... é ele mesmo. Pela batida eu sei quando é. Ele bate quando cumprimento a moça do balcão. Bate quando pergunto o nome da atendente do restaurante do shopping, bate quando a cozinheira ri pra mim, vítima da minha brincadeira de menino. O amor bate. Alguém, algum dia, vai convidar o amor pra participar de um vale-tudo, só pode, um UFC. Porque o amor bate pracaralho. Eu não deveria ter dito assim, pra não perder a poesia, mas não tem jeito não, ele bate demais mesmo. Ele bate de levinho, bate com força, bate em menino, bate em moça, bate em velhinho. O amor bate a qualquer hora do dia ou da noite. O amor bate no banheiro, bate na sacada, bate no sótão, debaixo da escada, o amor bate na goiabeira lá do sul do país. Com ou sem goiaba. O amor é danadinho. O amor é um sacana, ele bate quando a gente nem sabe cama, quando a gente já se esqueceu dele, quando a gente acha que ele morreu pra sempre... Tenho achado. Também, tem amor até no jiló salteado na manteiga, no aperto de mão do Alex Atala na sala de embarque, na dona que achava graça da filha sem-graça na cadeira ao lado. O amor é um tempero do vento. O amor bateu mais cedo, quando comi cará olhando pra foto da minha filha, quando acordei e vi o bercinho dela sem ela no meu quarto, no sítio, quando olhei pro nascer do sol na mata, pelo vidro do banheiro, pros lados de lá... Enquanto escrevo, ouço batendo. Enquanto tomava banho, batia molhado. Dormindo, sonhei com ele. Não, no sonho o amor não me batia, me espancava. O bichinho não cansa. Nem toma ar. E o desamor, coitadinho, até tenta, mas ele não bate não. Com esse chassis de grilo, o desamor não tem chance alguma. Sou saco de pancada do amor. Sou João Bobo. Sou makiwara do amor.
Quando ele bate em mim, agradeço. Às vezes canto, às vezes danço, às vezes choro, às vezes sorrio. O mistério da força do amor move. Fonte inesgotável de energia. Quando estiver preparado, pode saber, ele bate. Pode estar batendo agora mesmo. Você quem não parou e fechou os olhos pra ouvir.



quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para... bem, era para a Fabiana.


Ei, Fabiana Ferraresi.

Levantei 3 da manhã pra lhe escrever isso, porque fiquei pensando no poema V ENTE, que dá título ao meu segundo livro. Isso está forte demais dentro de mim. Acho que a solução que a Designlândia conseguiu com o Motion Graphics, que amplia o sentido do poema, ficou simplesmente incrível. Ou, ficou incrível, simplesmente. Parece a mesma frase, mas não é. Que bom que reafirmamos a nossa sintonia artística em um trabalho cheio de amor e verdade. Amor como poucos, verdade como nenhuma outra.

Para mim, curioso é saber que essa verdade já foi questionada. Curioso é saber que esse amor já foi questionado. Curioso saber (e fazer) artístico, esse meu, que independe do outro, da questão, do amor, da verdade, da curiosidade.

Eu me levantei e peguei o computador, não porque não estou conseguindo dormir. Mas porque preciso dizer que faltou um lettering final, depois dos créditos, dizendo:

"O poema V ENTE dá titulo ao livro de Bê Sant'Anna, de 2012, produzido pela Bê com.arte artecomunicação multimeios. Este é um convite a ventar. Vente."

Queria poder dizer isso a todas as pessoas que conheço. Espero, sinceramente, que ele seja lido, que o poema que dá título ao livro seja visto e ouvido por todas as pessoas importantes pra mim. As que ainda posso fazer esse convite, as que ainda tenho algum contato, as que ainda podem ventar nesse mundo, as que ainda vou conhecer e que, provavelmente vão ventar em minha vida.

Acho que você, como poucas, no fundo sabe a importância que esse livro (e esse poema têm pra mim). É tudo da ordem do vento. Da verdade e do simples, de Deus e do amor, do sutil e do potente, do avassalador, da alma, do que move.

Sou grato a Deus por tê-las encontrado em minha vida. Você e Paola, que ventam com a Designlândia, e que fazem do seu trabalho um ato de amor.

Não sei quantas pessoas vão ler o meu livro. Não sei quantas vão ver e ouvir esse poema que dá título a ele. Mas, pra mim, isso realmente não importa. O que importa é que ele seja um convite de amor verdadeiro a quem for ler.

Curioso você ter encontrado com o objeto de amor que estartou o processo desse livro há poucos dias em um shopping. E que a desculpa do seu contato tenha sido justamente uma ferramenta multimeios como o celular e o instagram. Acho que isso é só mais um sopro de Deus. Só um suspiro Dele, que com isso me diz: fala com o Bernardo pra ficar em paz. Que vamos ventar juntos, e que o vento dele vai ser só um mensageiro do Meu, pra tocar quem precisa de sopro na hora certa, mais uma ponte possível que leva à verdade e ao amor, essas coisinhas sutis e potentes e avassaladoras e da alma, essas coisinhas que Eu inventei, e que movem... nessa coisona (ou coisoni) curiosamente mágica que é a vida...

É bom pensar que Deus fala comigo. Com a intimidade que temos, com o amor que temos, me permito.

E que ele sabe o que faz, por mais que eu não consiga nem por um mo(vi)mento entendê-lo.

Grato, Fa. Agradece a Paola e a equipe da Designlândia por mim. E pode tocar fogo pro livro ir pra gráfica. Acho que esse é o fim. E o início. Portanto, chegou a hora. Tá ventando muito no meu peito.

Bê ijos.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quantas vidas tem o Batman?


Estou cansado de chorar.
E não estou nem aí em confessar minha humanidade.
Ouvir a chamada do jornal, que o ator Christian Bale visitou as vítimas da tragédia nos Estados Unidos me chacoalhou por dentro. Eu, que sempre fui o Batman, me encontro menino, sozinho, no cinema, no limite, na fronteira entre a realidade e o sonho, entregue na cena absurda, quando vejo um vilão da vida real quebrar todo o pacto sensível para matar. Para me matar.
Ele não matou só quem morreu. Ele mata o sonho de todos que ali estavam. Ele mata o sonho de todas as famílias dos que ali estavam. Ele mata o sonho de quem ainda acredita no sonho.
Se Batman pudesse, iria atras dele. Mas ele está do outro lado da fronteira. Na ordem do sonho.
E Batman, então, morre. Foi morto por James Eames Holmes, junto com todos os Superamigos.
Vejo-o ajoelhado na tela, inseguro, atingido, chorando também, em uma tristeza profunda, não por estar morrendo alvejado por balas da vida real, mas por não poder transpor o limite físico que o separa do sonho para a sala do cinema. Nem com a ajuda dos óculos 3D. Se sente um fantasma, um sem poderes, um qualquer, um desamparado, um com buraco, que não se pode valer do Outro, nem do pacto provisório de acreditar no sonho por 2 horas apenas, nem mesmo no dele, do Batman.
"As palavras não podem expressar o horror que sinto" - diz Bale, segundo o Bom dia Brasil.
O ator interrompeu as viagens de promoção do filme na Europa para o ser humano voltar aos Estados Unidos e visitar as vítimas do massacre. Christian Bale tenta salvar o Batman. Tenta restabelecer a ponte que se quebrou naquele dia fatídico.
A ponte sutil por onde passam os sonhos pode sim ser ruída, quebrada, desaparecer para sempre. Ontem, senti um pouco mais de tristeza. Deitado, já na madrugada, lendo o último Rubem Alves que minha amiga Carol me deu de presente: "Fui terapeuta por vários anos. Ouvi sofrimentos de muitas pessoas, cada um de um jeito. Mas por detrás de todas as queixas havia um único desejo: alegria. Quem tem alegria está em paz com o universo, sente que a vida faz sentido." - diz esse outro mestre, em seu livro. Paro um pouco. Me lembro do que disse minha outra amiga, a Kamei: "desde novembro passado você perdeu seu brilho, perdeu a alegria." Acho que é por isso que fiquei um pouco mais triste quando li esse fragmento. Tenho medo de Rubem Alves estar certo nesta última frase sua. Quanto mais em um momento que não posso pedir ajuda ao Batman.
Acho que agora é hora. Preciso desesperadamente salvar o Cavaleiro das Trevas. Precisamos todos salvar os Superamigos. Precisamos salvá-los já, enquanto minha filha tem um ano e cinco meses e ainda cresce, enquanto seu maior herói é a Galinha Pintadinha.
Convoco Christian Bale, Rubem Alves, todo pai, toda mãe, todo ser humano, todo poeta, todo contador de história, quem chora, quem sonha e quem, como eu, já sonhou um dia, para, com alegria, tentar a qualquer custo salvar o Batman.


*na foto, o ator em sua visita, junto aos médicos que cuidam das vítimas .

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bruce Parry, Luciano Hulk, Didi Mocó e eu


2 dias de cama, febre baixa, garganta e humor inflamados.
Mais televisão, um pouco de impaciência pra ler. Nessa hora agradeço a assinatura da NET HD. Mesmo que o custo benefício seja questionável, já que praticamente não vejo televisão, só Bom Dia Brasil, pra falar a verdade. E em uma situação como essa, vejo a BBC HD.
Nela, Bruce Parry.

Quando comecei a ver uma série de documentários da BBC HD, seu nome em português era A Amazônia de Bruce Parry. Não entendi o porquê, já que o título em inglês era Amazon with Bruce Parry. Imagino que um de bom senso deve ter levantado essa lebre na emissora, ou mandado algum email, algo do gênero, até que alguém lá dentro se tocou e mudou pra A Amazônia com Bruce Parry.

O fato é que, da mesma maneira que fico feliz por um lado como a globalização diminui as fronteiras, fico triste em saber que precisamos que um inglês de uma tv inglesa venha até aqui (como se a Amazônia fosse aqui) pra fazer um documentário "mais completo" (entre aspas) sobre a Amazônia e suas várias faces. 

Acho que perdi a conta das vezes que o Globo Repórter usou a Amazônia como tema. No entanto, é impressionante como o documentário de Bruce Parry me parece muito mais próprio. Acredito que pela sua sensibilidade, sobretudo. O olhar de Bruce Parry é fundamentalmente respeitoso. E, como ele mesmo diz, em uma entrevista em um site denominado Tribo tenta não fazer julgamentos.

Bruce Parry é um tremendo apresentador. Fisicamente, uma mistura de Didi Mocó e Luciano Hulk. Suas rugas parecem ser de alegria, de sorriso fácil, se coloca à disposição "pela lente do amor" - como diria Gilberto Gil. Se comunica bem, tem na simpatia seu primeiro aliado. Para os telespectadores não fica claro quais as dificuldades reais enfrenta nem o tamanho real da produção que o acompanha. Nos parece que é ele mais um cinegrafista. No entanto, é claro que bons produtores vão fazendo a "trilha por onde passa", e que deve ter bons tradutores - que não aparecem (são 16 pessoas na equipe, na verdade). No documentário sobre a Amazônia, ele simplesmente saiu da nascente e foi pra foz, vendo toda a realidade do rio, dos ribeirinhos, das comunidades impactadas por ele, que o impactam, ou seja, o meio e seus personagens reais. Com respeito e, sobretudo com humildade, nos convida a observar aquela realidade que tem prós e contras, belezas, fraquezas, coisas boas e ruins... enfim, as coisas como são. E o mais bacana, ele relativiza o julgamento. A cada encontro, participa um pouquinho de sua realidade. Por exemplo: ele encontra e entrevista quem trabalha para o trafico de drogas. Da mesma forma, sai com o exército a procura de traficantes. E por aí vai, encontrando e vivenciando um pouquinho da realidade de índios, prostitutas, garimpeiros, borracheiros, lenhadores, pescadores etc. E participa efetivamente de suas vidas por dois, três dias, uma semana, enfim. De carregar material pra traficantes, cortar árvores, pescar jacarés, tomar ayahuasca, o cara faz de tudo. E faz tudo sem dizer: o garimpeiro é malvado, o lenhador é malvado, o índio é bonzinho, o cara que planta a folha de coca pro traficante é malvado... e assim por diante. Seu personagem principal é o rio. E viver um pouquinho de cada realidade sem preconceito. Hoje está passando um sobre o Ártico, com Bruce Parry. Igualmente interessante! Ver esses documentários é como ir à festa de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, quando fiz a matéria de Antropologia com José Marcio, na PUC, um dos meus maiores mestres.

Bem, o Globo Repórter é só mais um programa de entretenimento, não um programa que seu objetivo final é a informação. Então, como competir com um documentário, onde o cara fica, sei lá, 6 meses vivendo em uma floresta estudando de fato hábitos, costumes, realidades, enfim?

Acredito que os jornalistas, apresentadores, repórteres do Globo repórter sintam o mesmo que eu, quando vejo um documentário como o de Bruce Parry. Um programa semanal de um assunto diferente não pode ter mesmo a mesma profundidade. Ou seja, ficamos só com a superficialidade e com a venda de comerciais. A isso estamos presos. É o capitalismo fazendo vítimas não só nas florestas da região amazônica mas aqui, do outro lado da tela.

Assim como os Estados Unidos fizeram do cinema a principal forma de propagar seu poderio e cultura, alguém de bem e de visão da Globo deveria montar "um canal" - ou programas - que fosse realmente ligado ao conteúdo, não à venda de anúncios e investir nisso, pra conquistar o mundo, já que o Brasil já está conquistado... (na verdade, esse parágrafo mereceria um artigo de 12 páginas, mas vou deixá-lo aqui, assim, raso, pequeno, menor, simples, básico, pouco, uma pílula apenas, como um Globo Repórter sobre a Amazônia... Afinal, não trabalho na BBC, nem na Globo, não sou Bruce Parry, nem o Hulk e nem o Didi.)

sábado, 21 de julho de 2012

A nova mulher de verdade


Ela está definitivamente longe de ser a que era mulher de verdade.

Mulher de verdade agora tem outra definição. A da propaganda da Doriana que me desculpe, mas estou com uma preguiça monumental dela.

Tem uma conhecida minha que é lindíssima. E que resolveu deixar de se cuidar, colocando em primeiro lugar o cuidado com o marido e com os filhos. Lindíssima. Engordou bem uns 8 a 10kg, diminuiu pela metade, pelo menos, a "ida ao cabeleireiro" - lê-se cuidados básicos da mulher contemporânea -. Ok, quando dá uma produzida, vai às festas de aniversário mais arrumada e vê-se que ali dorme uma princesa. Mas, pasme!, sua torre é ela mesma. Fico pensando o quanto seria admirada pelo marido e pelos filhos se cuidasse em primeiro lugar de si. Sim, porque, ao contrário do que esse tipo de princesa aprisionada possa pensar, nós homens-infantis-bestas-eternos, nos fascinamos pelas musas que nos circundam. E delas somos escravos. Essa conhecida minha talvez tenha caído no seguinte círculo vicioso perverso:

o marido, no fundo, sente-se "ameaçado" com sua beleza, ele a quer só pra si. Desse modo, não a incentiva a se cuidar como antes, pra não chamar a atenção dos olhares alheios, achando que assim, ele não "corre perigo" (detalhe: isso é inconsciente). No entanto, dá-se aí a desgraça. Não a procura mais como antes, porque não sente mais tanta atração. Porque ela não está mais viçosa, não pulsa mais nela a energia erótica necessária à conquista, ao mistério, ao inatingível, à atração. Dessa sorte, ela se sente ainda mais desestimulada, muda de subject, Eros passa a não fazer mais parte de seu convívio.

Ela, agora, está definitivamente longe de ser a que é mulher de verdade.

Se minha conhecida quiser, reverte esse quadro em 6 meses. Assim como tantas outras.

Na minha descrição, repare que não houve espaço pra Amélia - no sentido mulherclassiquiano mítico. Não. Acho, sinceramente, que se um pai ou uma mãe quiserem utilizar esse nome em uma filha nos dias de hoje, tem que mudar a grafia pra Amhélia. Sim, a origem etimológica grega explicaria o sentido do sol (hélio - com a inserção da letra H) nesse novo nome da mulher contemporânea. Essa definição fusion dá novamente as mãos da mulher contemporânea ao seu eunuco indispensável, Eros, sem se esquecer daquela mítica entidade feminina que toma conta graciosamente, não necessariamente do lar, mas do sutil, da arte, do encontro, do belo, do doce, do suave, do carinho, do amor, coisinhas absolutamente indispensáveis e por vezes esquecidas nos dias de hoje. Sem que ela deixe de ser o sol. O sol que nos aquece.

Eu confesso que estou apaixonado.

Tem um amigo meu que está igulmente apaixonado por Ela, que está definitivamente longe de ser a que era mulher de verdade. Ele me mandou um email dizendo isso. Mas não estou nem aí pra ele. Nem pra nossa amizade, nesse caso. Vou entrar no Coliseu e duelar com ele até a morte se for preciso. Porque nós, homens-infantis-bestas-eternos viemos aqui pra isso, pra duelar pelo sol que nos aquece até a morte se for preciso. Mesmo que agora sem espada, sem cavalo branco, do nosso límbico lugar agora-indefinido do mundo de hoje. Porque é o que nos resta. Só isso.

Hoje, Amhélia é mais combustão, corre atrás dos sonhos, diz o que quer, é decidida, mas não perdeu o que nos é mais precioso... Minha Amhélia, hoje, se chama Michelle Jenneke. Mas poderia bem ter outro nome.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Mu



Acho que já ouvi minha filha imitando a vaquinha umas 237 vezes de domingo até agora.
É sério.

Não sei o que é isso. Não sei se é vontade de tê-la em meus braços, sentir seu peso, de conversar com ela. Sei que é algo assim, muito forte e melancólico, intrigante.

Dentinhos separados, cara de moleca, cabeluda que só, minha filha é uma espécie de alçapão preparado. Vôo pra ela, sem me preocupar com a gaiola da vida.

A vida do papai é só um vagalume no escuro, filha. Você é a Natureza. E nosso amor é todo o Universo. A minha vida é um tiquinhozinho perto dessa Natureza, é um cisquinho ainda menor diante desse Universo. Ainda assim, quero brilhar no breu. Quero que me veja passando. Quero voar silente e brilhante pra você me perseguir com os olhos, incitar seu sorriso e, quem sabe, esperar que me aponte surpresa, arqueando suas lindas sobrancelhas. Quero iluminar seu caminho. Um pouquinho.

Quero a áura esverdeada da esperança que enfeita com leveza o negrume do mundo.

Escuta o barulhinho da minha asinha batendo, filha. E acompanha minha rota rôta. Minha linha reta faz curva, enquanto encontro o caminho do vento.

Eu posso apagar a qualquer momento, filha. Mas nosso amor é tudo, está em tudo, envolve tudo, contém e está contido. Incontidaverdadeiramente nosso. Vivo. Ovo. Sol.

É difícil dizer assim, filha. Difícil definir o que não é finito. É como meu coração que não vejo. Mas sei que está batendo no peito. Bate tão forte que me machuca por dentro. Abala a estrutura do ser. E dá um sinal de tambor que você ouve daí, em Recife. É doido. E dói.

Acho que você deveria ganhar o Oscar de melhor imitação de vaquinha de 2012. Ou o prêmio Nobel, não sei. Acho que você deveria ganhar alguma coisa muito incrível e representativa por ter imitado tão perfeitamente a vaquinha.

Sua imitação de vaquinha vai gerar um novo padrão de aceitação e reconhecimento mundial sobre os mugidos das fêmeas ruminantes. Em todos os currais, em todos os pastos, por todo o mundo, a partir de hoje, todas as vacas mugem tentando imitar o seu mugido perfeito.

Só pode.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Onde estará o livro que procuro?



Sentado no sofá da sala, em uma visita para o almoço, Vander Lee toca os dois primeiros acordes da música Eu e Ela, de sua autoria.
Eu paro de procurar o livro O Caminho do Sábio e me viro, já começando a chover.
Ele é músico e entende que os dois acordes foram suficientes pra que eu soubesse do que se tratava. Me olhando emocionado, comenta que se lembra perfeitamente de como fez esta música, escolhendo outros acordes que nos leve pra longe dela.
Ele entendeu quando eu disse que desde 11 de novembro não consigo ouvi-la sem que a chuva venha molhar a terra, o sol se esconda e o sal aflore. Há mar além do tempo dos homens, meu amigo.
Somos assim. Humanos. De vez em quando nos encontramos para tentar saber um do outro, pra falar das pontes que atravessamos nos rios baldos da vida, das pontes que nos tornamos quando atraveRssam palavras, sonhos, músicas, sentimentos, pessoas.
Pessoas vão e vêm, como as ondas. Mas há mar, além, muito além de tudo.
Fiquei uns três anos sem conseguir escutar uma música do Vinícius. Não sei quando consigo escutar de novo Eu e Ela. Nem com Vander Lee ao violão, amigo querido sentado ali, ao lado, dando ouvidos à chuva que me faz fechar as janelas, mofa a esperança, alaga a porta da casa e insiste em não passar.
Antes, bem antes de ser artista, Vander Lee, o meu amigo, é humano.

http://www.youtube.com/watch?v=zGi7xEGQwrQ&feature=plcp



quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Trindade do Amor



Quatro de junho de dois mil e doze, hora da lua cheia.

Beatriz olha para o MacBook ligado ao Skype, aponta num sorriso e diz, reconhecendo:
– Papai!

...

Seus dentinhos aparecem na palavra papai. A palavra papai termina num sorriso.

A palavra papai sou eu, sou eu quem aparece no MacBook, sou eu quem desaparece no MacBook. Sou eu a 2.200km de distância dentro, nada mais perto, tudo mais pele, nada mais suor, saliva e lágrima. Água. Nosso líquido oceano particular. Há mar, Beatriz.

Senti a mesma coisa duas vezes. No momento em que cheguei e avistei a Catedral em Santiago de Compostela. No momento em que vi Beatriz pela primeira vez, no ultra-som.

Um pontinho pulsante, um coração batendo, uma palavra, nada mais do que isso. Apontei para a tela do computador de dentro de mim no consultório num sorriso e disse, reconhecendo:
– Filha!

Foi como assim. De lados opostos mesmos nos apontamos. O tempo e seu hiato misterioso, ligado por um fio invisível de prata, uniu meu coração que olhava para a Catedral, o coração de Beatriz na tela do consultório, o eupai que aparecia coração na tela de Beatriz. Eu só, um pontinho pulsante.

Toquei violão para Beatriz, pedi ajuda ao Bob Esponja, pedi ajuda às bonecas que ficam em cima da cama dela, quero um pouquinho de atenção, quero o dedo do amor apontado pra mim. Só, um pouquinho.

Amor!, ela também disse. Escolheu essa palavra reconhecida, quando eu disse a ela, como de costume:
Cadê o Amor de papai?

E ela:
– Amor!

Isso, Amor!, aprovou a mãe do outro lado, sem aparecer na tela.

Beatriz tem um olhar profundo. Na minha fantasia de pai, ela pensa em mim, se questiona o que estarei fazendo naquele momento, no momento do olhar, dentro. A resposta é fácil, filha. Estou pensando em ti. Lhe abençoando, lhe carregando num abraço, me fazendo ninho, sozinho, solzinho, seu sofá quente de amor. Na minha fantasia de pai, Beatriz espera no portão. Quando olha lá fora me procura, sabe da estrada escura, sabe da estrada, é cura, pra pequenice dos adultos.

O sol aquece o poleiro do peito, lugar onde escolheu pousar a palavra que voa da boca de Beatriz.

Sou grato, Filha. Sou grato, Deus.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sou só um Mehari que sonha


Medei de presente de anivarsóvia uma leitura. (de um livro que eu já tinha)

Aqui abro um parênteses:

(Fico triste como as grandes corporações vêm pra avacalhar certas coisas. Sábado, fui comprar um livro em uma "grande" rede e disse ao "livreiro": – Quero dar ao meu primo de presente o livro "Zen e a arte da manutenção de motocicletas". Ele foi procurar se tinha o livro e digitou: "Zem"... preciso dizer mais alguma coisa? É por isso que gosto de comprar livros com a Simone na Ouvidor, ou com o Sr Van Damme, na livraria de mesmo nome (Van Damme, digo). Assim como quase não temos mais livreiros, na drogaria Araujo só temos um jalequinho branco querendo me dar um cartão com o código de barras pra ele ganhar comissão. E eu fico puto da Araujo abrir uma loja a 500 metros da outra, só pra se instalar na frente de uma farmacinha de bairro e matar o cara que está lá há 30 anos. Mas isso é outra história, meu parênteses tá grande demais.)

Eu já tinha comprado o livro Tuareg há uns 4 ou 5 anos. E ele estava na beirada da minha cama. Mas com livro eu tenho esse lance. Eu sabia que ele seria um "livro de cabeceira", mas não estava na hora certa de ler...

No dia 01 de julho, quando completei 39 anos de idade (mas com um corpinho de 33, diga-se de passagem) eu havia pegado La Sombra del Viento, de Carlos Ruiz Zafón, pra continuar finalmente minha leitura que interrompi em 11 de novembro do ano passado. Tenho tido o hábito de almoçar sábado ou domingo na companhia de algum livro de meu interesse e esse livro foi me dado em uma situação muito especial, mas tive que parar de lê-lo por algum tempo.

Acontece, que quando estava saindo do quarto, o targuí* me chamou. Bati o olho nele e ele disse: – É hoje. Você precisa me ler hoje, no dia do seu reveillon particular.

Pois bem, atendi ao seu chamado e, não foi surpresa pra mim, do almoço de domingo ao almoço de segunda, dia 02 já o havia lido por completo.

Não tenho o hábito de falar de livros aqui no blog. Na verdade, não sei o porquê. Mas quis falar sobre esse.

Ao lado de Grande Sertão: Veredas, do meu amigo João Guimarães Rosa, e Musashi, de Eiji Yoshikawa, Tuareg, de Alberto Vázquez-Figueroa, se apresenta como uma obra prima irmã de rara beleza e intensidade. Acho que posso usar esses adjetivos. São os três livros mais bacanudos que eu já li, cada um com sua potência, sua nuance, seu brilho, sua sutileza... Acho que se eu tiver que escolher 3 livros, posso escolher estes. Não sou um leitor muito voraz. Leio com certa frequência, sempre uns 4 ou 5 livros de cada vez - porque sou entediado por natureza. E dificilmente pego um e vou até o fim sem pegar em outro (ou outros) no meio. Mas Tuareg foi assim e de um dia pro outro. Não vou aqui avacalhar quem não leu, como costumo fazer com filmes. Só vou deixar a dica, pra quem ainda não teve a oportunidade, aproveitando pra dizer que os três tratam de uma história de amor que não se vê mais nos dias de hoje.

Ou... até se vê. Mas não é difícil que não dêem crédito a ela, pensando que é coisa utópica, romanceada, da ordem da imaginação, ideal (a que é só da ordem da ideia) ou que não pode existir... É por isso que não vai pra frente, acaba assim, triste, sofrida, e precisa que a sombra do vento se vá pra desejar voltar um dia e, junto com o vento, que voltem as leituras novamente...

Se for comprar algum deles, leve o nome por escrito. Ou procure a Simone ou Sr Van Damme. Porque eu até imagino como o vendedor da "Grande" rede vai digitar o nome do autor de Musashi...

Ah, e por favor não se estranhe se disser: "Eu gostaria de comprar Grande Sertão: Veredas" e o vendedor lhe responder:
Sabe o nome do autor?


*targuí - forma singular da palavra árabe tuareg, designando um indivíduo habitante do Saara