terça-feira, 26 de junho de 2012

Os idos




– Querido! (ela disse)

Foi hoje, não foi ontem.

Fiquei querendo saber o que significa.

Desmembrei a palavra querido. Fatiei em pedaços, fui buscar a receita, os ingredientes, os modos de preparo. Como se prepara um querido? Como se torna um querido? Como se assa, como se grelha, como se deixa um querido marinar?

Eu não queria ter ido.

Tire o querer do presente, eu não quero conviver com isso, viver com isso, conviver. Eu não quero mais chorar, eu não quero chamar o presente de presente, se ele vem desembrulhado, sem laço sem seu cartão. Quero um pingo a mais de emoção.

Nos idos da felicidade, eu descobri o amor assentado ao lado de uma cama, olhando os pêlos de um braço de uma moça que dormia. Era dia, o amor não tinha anoitecido ainda.

Ela me chamou de quervenha. Ela me chamou de quervem. Ela me chamou de quervemlogoqueestoumorrendodesaudadessuas. Ela me chamou de quervindo.

As palavras não me consertam. As palavras me concertam. Me toco, me componho, me dinâmica dos sonhos, as músicas que não quero ouvir atrapalham o meu silêncio oco.

Quer ida?

O tempo não tem volta. Por isso, não devia ter pó. Quando tiramos o pó do tempo, ele vira hoje, vira só TEM, sem pó. E tem é agora, tem sem história, aconteSendo.

O amor cresce como os cabelos do seu braço. Em silêncio e ali, deitados, colados, selados. Alados só se for junto a ti.

No poço dos desejos há des-traídos que se afogaram agarrados às suas moedas.



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