terça-feira, 19 de junho de 2012

O que será que será?


O que será que será?

Eu não sei, filha. O papai não sabe um monte de coisas. Aliás, a maioria delas. O que é bom por um lado e ruim por outro. Gosto do novo, filha. De aprender, de descobrir, de revelar. Mas o mundo tá meio assim assim. Eu não queria ter lhe trazido para um mundo do jeito como está, Beatriz. A foto que você vê acima, é de uma manifestação. Veja a explicação:

Hoje, 15 de junho de 2012, cerca de 300 pessoas – entre povos indígenas, agricultores, pescadores, ativistas e moradores afetados pela construção da hidrelétrica de Belo Monte – ocuparam, essa manhã, o local onde a barragem será construída, localizado próximo à vila de Santo Antônio. O protesto pacífico das comunidades tradicionais da Amazônia ocorre no momento em que o Brasil sedia a Rio +20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro. “Energia que não respeita a lei, a população local, violenta direitos indígenas, destrói comunidades e o meio ambiente não pode ser limpa”.

Por enquanto, você só tem um ano e quatro meses. Não sei o que vai ter acontecido quando você tiver a capacidade de ler este post. Se a hidrelétrica já vai ter sido construída, se a população ribeirinha vai ter sido dizimada, se o ecosistema da região já vai ter sido detonado de um jeito irreversível... É tanta coisa sem sentido nesse mundo, minha filha que eu fico até com vergonha, por você.

Olha a outra foto:



O tempo passa tão rápido, filha. Na Eco 92, o papai nem sonhava com tudo que acontece hoje. Acho que foi em 95 ou 96 que o papai comprou o primeiro celular. Ontem, dia 18/06/2012, fizemos a nossa primeira tentativa de falar pelo Skype. Você ainda nem fala "papai" direito... E sua mãe fez a gentileza de lhe colocar na frente do Mac que eu dei pra ela, e você ficou lá, querendo ver backyardigans, ao invés de conversar com o papai. Eles são bem mais coloridos mesmo. E eu querendo chamar a sua atenção com fantoches de dedo, cada um, um bichinho diferente, e cantar "cai-cai-balão". Era assim quando eu era pequeno, filha. Agora, sou muito menor. Não sei lhe chamar a atenção, filha. Não sei fazer com que parem com Belo Monte, não sei fazer com que a Dilma, o Demóstenes, o Cachoeira, o Lula, o Zé Dirceu, o Collor, o Márcio Thomaz Bastos e sua mãe entendam de fato a importância pra você, pra ecologia, pro mundo, pro Universo, que tudo o que eu queria agora era sentir seus 12kg em meus braços. Seu cheiro, suas caretas, seu jeito e seu olhar fugidio e pensativo.

Eu queria parar Belo Monte, filha. Eu queria voltar no tempo. Eu queria não ter errado tanto. Eu queria ter sido melhor filho, ter estudado mais, ter dito a palavra certa na hora certa, ter escolhido outras coisas. Mas a vida é assim, Beatriz. Cheia de Belos Montes. Vários deles belos, vários intransponíveis. Outro dia, Tia Élida mandou uma frase engraçada pro papai: "Gente feia é igual gente bonita. Só que feia". Eu morri de rir. E hoje choro um pouquinho quando penso que poderia dizer pra você: "Ser pai é igual a ser filho. Só que pai." Ou seja, com praticamente os mesmos defeitos que eu tinha, com muitas das mesmas limitações, cometendo erros e acertos, um dia depois do outro...  Não sei bem o que é certo, minha filha: se passar a infância inteira acreditando no sonho e na fantasia como fez seu pai, e depois se deparar com os Belos Montes da vida, ou se ir lhe preparando aos poucos pras tantas usinas hidrelétricas que podem ser construídas a sua volta...

Só uma coisa eu sei: que independente de eu não ter superpoderes, se você quiser, eu coloco uma capa de pano e entro na frente de um trator por sua causa, filha.


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