quarta-feira, 6 de junho de 2012

JACU EM PÉ



O discípulo sentou-se.

O mestre: – Por que sentou-se aí?
Jacu (digo, discípulo): – Bom, o senhor falou pra sentar...
O mestre: – eu falei pra sentar, não disse onde.

Qual é o seu lugar no mundo?

Foi o que me perguntou ontem.

A pergunta me ecoa até agora. E vai me ecoar por um looongo tempo.

Isso me toma assim, por inteiro, e me desperta pra pensar desejo, pra pensar receio, pra pensar anseio, pra pensar tudo e pensar nada. Tenho medo de não estar no lugar certo.
Já tive insights. De toda ordem.

Por exemplo: quando eu propus fazer um paralelo entre Guimarães Rosa e Raymond Queneau, o papa da semiótica em Minas, meu orientador, Julio Pinto, trucou. Perguntou ele como eu poderia estabelecer esta relação, se não sabia a representatividade do autor francês no que dizia respeito a sua construção semiótica, nem ao menos no que dizia respeito à sua representatividade para a França, em comparação ao que é Guimarães para o Brasil e a literatura.

Pois bem: no mesmo ano, Umberto Eco escreve um livro sobre Tradução e coloca um capítulo inteiro sobre Raymond Queneau...

Ok, Umberto Eco é brilhante, famoso, phoda. Eu, sou só um jacu. Digo, um discípulo. (mas tive a mesma ideia que ele). Foi um insight: estou no lugar certo. Até a minha banca desqualificar o meu trabalho e pedir pra que eu refizesse tudo, mesmo depois do primeiro capítulo e da diretriz proposta aprovada. Ok.

Show do Gil. Maio, agora. Eu tinha tido a mesma ideia pra um novo show meu. Mas ele é o Gil. Ele fez. Eu não. Se eu fizer, agora, sou só um jacu macaco de imitação. Digo, um discípulo (macaco de imitação). Mas tive o mesmo insight: acho que estava no lugar certo.

Quando nasci, achei que estava no lugar certo. Quando entrei pela primeira vez em uma academia de Karate, achei que estava no lugar certo. Quando entrei no palco da sala João Ceschiatti pela primeira vez, de modo amador, achei que estivesse no lugar certo. No palco do Teatro do Sesi, em 1990, profissionalmente, achei que estivesse no lugar certo. Na frente de um microfone no estudio REC, em 1991, achei que estivesse no lugar certo. Quando entrei na igreja do São Bento em 2002, achei que estivesse no lugar certo. Quando comecei a correr no Belvedere, achei que estivesse no lugar certo. Quando vi, no ultra-som, a minha filha, achei que estava no lugar certo. Quando fui atropelado no supermercado, achei mesmo mesmo mesmo que estivesse no lugar certo...

...

Não sei. Minhas reflexões vem e vão e intuo, jacuzisticamente, que talvez não seja, enfim essa, a verdadeira questão. Talvez, não seja bem "o lugar onde estou", a questão. Até agora, só pude constatar que meu lugar no mundo é ser ponte.

Sou, portanto, (até agora) O lugar.

Mas isso é só mais uma jacuzisse insightiana, de um discípulo desestimulado pelo tempo, que escolheu caminhar ao invés de sentar-se.

Podemos caminhar um pouco, mestre? Quem sabe tenho mais um insight...



* para Nelson Nascimento, 
que tem me feito perguntas importantes,
 ao longo do caminho.

2 comentários:

Bê Sant Anna disse...

Ou quem sabe você tem mais alguma pergunta?

Bangayana disse...

Sim...temos escolha?
Mesmo quando nao sei se estou no lugar certo, no momento certo...eu teria escolha?
é o que eu tenho, é onde estou! e como o Gil diz: "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". Nao é forçar nao...é sabedoria! Ja que estou aqui, vou considerar como melhor!como certo!
Uma confluencia! Um monte de coisas que fiz, (consciente ou nao), que pensei, desejei, confundi, esprei...enfim...me trouxeram para aqui! Estou no lugar certo!