quarta-feira, 27 de junho de 2012

Perfume de Mulher




De arma em punho, a ponto de estourar seus miolos, o Coronel conta.


5, 4, 3, 2, 1... "foda-se!"...

O que se segue é uma luta de dominação. O jovem Charlie Simms tenta dominar o Coronel e tomar finalmente a arma das mãos dele... e o jovem perde, claro. Mesmo cego, o tenente Coronel o domina. Engalfinhados, suando, chorando, eis o que se segue.

Saia daqui!!!
Ele suplica, quer morrer sem ser impedido.

Fodeu as coisas, e daí? Acontece com todos. Siga com a sua vida, está bem?


Que vida? Eu não tenho vida! Estou nas trevas! Entende? Estou nas trevas! - diz o cego Coronel Frank Slade.

Dominado, o jovem Charlie também grita. Vocifera que também vai, se for pra ser assim. Que o Coronel puxe o gatilho e acabe logo com isso. Com os dois.

O jovem Charlie blefa, cuspindo, dominado, arfante, ferido:
Estou pronto!

...

O Coronel, por fim, sussurra:
Você não quer morrer...

...

Nem você... - diz finalmente Charlie.

Como um suspiro de desespero,  como se tentasse alcançar a corda que pende no precipício da vida, o Coronel suplica a ele:
Me dê uma razão pra não me matar...

Eu lhe dou duas - diz Charlie - : dança tango e dirige uma Ferrari melhor do que todos que já vi.

...

Ainda confuso, o Coronel pergunta a ele, como se pedisse ajuda:
– ... o que farei daqui pra frente? ...

E Charlie repete o que o Coronel o ensinou, antes de sentir novamente o Perfume de Mulher na pista de dança...
– "Se se atrapalha no tango, continue dançando"...

Está me tirando pra dançar, Charlie? ... Nunca sentiu vontade de ir... e ao mesmo tempo, vontade de ficar?


Os dois agora choram. E o tango da vida continua.

***

No último post do meu ano velho, lembro que eu não tenho como dirigir uma Ferrari, Coronel.
Por isso, preciso urgentemente ficar bom no tango.



terça-feira, 26 de junho de 2012

Os idos




– Querido! (ela disse)

Foi hoje, não foi ontem.

Fiquei querendo saber o que significa.

Desmembrei a palavra querido. Fatiei em pedaços, fui buscar a receita, os ingredientes, os modos de preparo. Como se prepara um querido? Como se torna um querido? Como se assa, como se grelha, como se deixa um querido marinar?

Eu não queria ter ido.

Tire o querer do presente, eu não quero conviver com isso, viver com isso, conviver. Eu não quero mais chorar, eu não quero chamar o presente de presente, se ele vem desembrulhado, sem laço sem seu cartão. Quero um pingo a mais de emoção.

Nos idos da felicidade, eu descobri o amor assentado ao lado de uma cama, olhando os pêlos de um braço de uma moça que dormia. Era dia, o amor não tinha anoitecido ainda.

Ela me chamou de quervenha. Ela me chamou de quervem. Ela me chamou de quervemlogoqueestoumorrendodesaudadessuas. Ela me chamou de quervindo.

As palavras não me consertam. As palavras me concertam. Me toco, me componho, me dinâmica dos sonhos, as músicas que não quero ouvir atrapalham o meu silêncio oco.

Quer ida?

O tempo não tem volta. Por isso, não devia ter pó. Quando tiramos o pó do tempo, ele vira hoje, vira só TEM, sem pó. E tem é agora, tem sem história, aconteSendo.

O amor cresce como os cabelos do seu braço. Em silêncio e ali, deitados, colados, selados. Alados só se for junto a ti.

No poço dos desejos há des-traídos que se afogaram agarrados às suas moedas.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Encontro de Fátima Bernardes e Lair Rennó





Encontro - com Fátima Bernardes estréia finalmente.

Vi quase todo. Prometi ao Lair Rennó, competente jornalista mineiro que a acompanha que daria minha opinião mais completa sobre o programa, já que a mensagem que mandei pra ele no facebook, foi logo depois de sua primeira entrada, sua primeira participação.

Mais cedo minha mãe me disse que foi a Fátima que o convidou pessoalmente, que ela tinha lido que a Fátima quis chamar não o Lair da Globo News, mas o Lair do camarim, o que fazia sempre piadas, sempre de bom humor, o cara humano, inteligente e bacana que ela pode conhecer, não o que cumpre papel de jornalista apresentador.

Legal isso. Precisamos de humanizar mesmo, ainda que com todo o dispositivo natural que a emissora de televisão imponha.

Lair é um pouco mais novo que eu. 2 anos. Quando começou, também ficava na ante-sala dos produtores de elenco fazendo testes pra comerciais de TV e foi onde nos conhecemos. Meu primeiro registro dele mais forte foi numa dessas ocasiões, quando eu ainda não o conhecia e ele me disse que acompanhava o meu trabalho na TV e no rádio, que gostava do meu trabalho e coisa e tal. Fiquei muito feliz com isso. Lembro que também nos desejamos mutuamente sorte, porque sabíamos que a escolha por esse ramo é árdua e, muitas vezes, ingrata.

Ele se deu bem. Foi para a apresentação do telejornalismo, primeiro aqui em Minas e um tempo depois o vi na Globo News.

"Fala, velho.
Tenho te acompanhado na Globo News. Você tá muito bem, cara. Credibilidade, firmeza, dicção bacana, inteiro no vídeo. Quando tiver de passagem por BH, dá um toque. Vamos tomar um café (ou um chopp) e falar sobre as coisas. "

Foi essa a mensagem que mandei pra ele no dia 14 de junho do ano passado. Ele me respondeu no mesmo dia, sempre simpático.

É assim. Em tempos de amizade falsa no facebook, acho que torcer um pelo outro, reconhecer os pares, manter a cordialidade e o apreço e desejar sucesso de coração é algo muito muito bacana... e o motivo real, pelo menos pra mim, de participar de uma coisa tão complexa e ao mesmo tempo banal como o facebook.

Não tenho muita base pra analisar o Encontro com Fátima Bernardes e Lair Rennó. Porque só vi um programa. O tempo dirá mais, dará mais tempero pra minha opinião.

De bate-pronto, meio irresponsavelmente, vai o comentário do amigo (que gosta de comentários honestos):

...

Bom, eu comecei a escrever e depois de dois parágrafos resolvi apagar. Porque vi que poderia escrever um longo artigo sobre isso. Meu mestrado de interações midiáticas, meu curso de publicidade e meus 21 anos trabalhando com comunicação me dão esse embasamento, tanto teórico quanto prático. Sinceramente, sem falsa modéstia que detesto isso. Mas não sei se é o caso. Até porque, imagino que a grande equipe de profissionais competentes que a Globo deve ter ao redor do programa já deve ter pensado tudo o que pensei sobre o programa. E o percurso do Lair confere a ele o mesmo embasamento, e no caso do jornalismo, um embasamento muito muito maior. Se ele quiser, depois escrevo pra ele, ou digo pessoalmente.

O que posso dizer (aqui) é que fico feliz.

Não sei em que momento da vida está o Lair. Não temos intimidade pra isso. O que imagino é que ele também deve estar muito feliz.

Começar algo novo é sempre estimulante. Um novo projeto, que se pretende grandioso, um projeto ambicioso! (acreditem, não é nada fácil produzir um programa de uma hora e meia todos os dias...) E um projeto que tem ícones de sucesso envolvidos.

Lair passa pro hall da fama e do reconhecimento dos meios de comunicação de massa. Outro degrau que sobe. Bacana. Isso, pra mim, é algo a ser remarcado.

Mas o mais bacana mesmo tem a ver com o que minha mãe me falou. Queria ter lido a matéria, queria até conversar com o Lair pra saber como foi mesmo... o convite da Fátima para ele participar do programa por ele ser ele mesmo.

Sabe? Acho que precisamos mais disso nos dias de hoje.

De menos dispositivos, de menos pirotecnia, de menos véus, de mais revelações. Porque de nada vai adiantar a super produção se a verdade (a pessoal, a do ser humano que ali está) não prevalecer. Porque o nome do programa é ENCONTRO. A Fátima fez mais sucesso porque ela é mãe. Porque ela é casada com o âncora. Porque trouxe a delicadeza pra cena, justamente no Jornal Nacional. Porque ela demonstrava carinho em cena. Sim, carinho. E só demonstra carinho quem é de fato humano, quem se revela, quem tem ESSA coragem, sabe?

O Lair era um bom "projeto de Bonner" no MG TV e na Globo News (até aquele trejeito que o Bonner faz balançando o ombro acho que inconscientemente ele cultivou). Mas fiquei ainda mais feliz ao ver o Lair, do jeito dele em cena. Porque Bonner só tem um. E, olha que bacana, Lair também!

É, amigo, Encontro carinhoso e verdadeiro é bem melhor, mesmo. Acho que o caminho é esse. Aliás, do que o mundo precisa além de mais amor?

Sucesso, cara. Vocês merecem.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A delicadeza e a crueza do amor.





Eu gostaria muito de comentar o filme A Delicadeza do Amor, que vi antes de ontem.

Esperei um dia pra ver se processava. Foi meu assunto da análise. Ainda assim, não dá, não estou conseguindo.

Curiosamente, talvez paradoxalmente, comecei a ler o artigo da Eliane Brum e me deparo com um artigo que, de certo modo, é complementar ao filme... a inteligência dos comentários da Eliane me surpreende. Não sei se Eliane vai entender esse meu comentário sobre "complementaridade". Também não importa. Ela não vai ler meu blog mesmo...

No entanto, preciso me exercitar.
Preciso me exercitar sobre a delicadeza e sobre a crueza. Mas não consigo.
Segundo meu analista, não consigo ainda.
Apesar de estar precisando.
Ops! Mais uma vez a palavra chama a minha atenção. Não é à toa que Lacan foi dono do quadro a que se refere Eliane em seu artigo...
"Precisando"... Pré cisando.
"cisão, fissão, cave, diérese"... antes, pré.
Deus, onde estou indo? Ops de novo! O que tem Deus a ver com isso?
aiaiai...
Acho melhor eu parar. Se não, vai virar outra sessão de análise. Daí não é pra estar aqui, e sim no divã.

Bom. Deixa eu esperar mais um pouco. Talvez hoje, depois da aula de tango, eu vá novamente no filme, que está passando no Belas Artes. Quem sabe vendo de novo o filme, a delicadeza, o quadro, o cru e o cozido eu não consiga orientar o meu pensamento?

Confesso que estou muito mexido com o filme. Muito mesmo.

Veja o filme. Se impressione com o quadro. Preste atenção na delicadeza...

E boa sorte.
Vou tentar voltar no assunto, se conseguir me re-compor.
O cru da delicadeza às vezes impressiona mais que a delicadeza do cru.




terça-feira, 19 de junho de 2012

O que será que será?


O que será que será?

Eu não sei, filha. O papai não sabe um monte de coisas. Aliás, a maioria delas. O que é bom por um lado e ruim por outro. Gosto do novo, filha. De aprender, de descobrir, de revelar. Mas o mundo tá meio assim assim. Eu não queria ter lhe trazido para um mundo do jeito como está, Beatriz. A foto que você vê acima, é de uma manifestação. Veja a explicação:

Hoje, 15 de junho de 2012, cerca de 300 pessoas – entre povos indígenas, agricultores, pescadores, ativistas e moradores afetados pela construção da hidrelétrica de Belo Monte – ocuparam, essa manhã, o local onde a barragem será construída, localizado próximo à vila de Santo Antônio. O protesto pacífico das comunidades tradicionais da Amazônia ocorre no momento em que o Brasil sedia a Rio +20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro. “Energia que não respeita a lei, a população local, violenta direitos indígenas, destrói comunidades e o meio ambiente não pode ser limpa”.

Por enquanto, você só tem um ano e quatro meses. Não sei o que vai ter acontecido quando você tiver a capacidade de ler este post. Se a hidrelétrica já vai ter sido construída, se a população ribeirinha vai ter sido dizimada, se o ecosistema da região já vai ter sido detonado de um jeito irreversível... É tanta coisa sem sentido nesse mundo, minha filha que eu fico até com vergonha, por você.

Olha a outra foto:



O tempo passa tão rápido, filha. Na Eco 92, o papai nem sonhava com tudo que acontece hoje. Acho que foi em 95 ou 96 que o papai comprou o primeiro celular. Ontem, dia 18/06/2012, fizemos a nossa primeira tentativa de falar pelo Skype. Você ainda nem fala "papai" direito... E sua mãe fez a gentileza de lhe colocar na frente do Mac que eu dei pra ela, e você ficou lá, querendo ver backyardigans, ao invés de conversar com o papai. Eles são bem mais coloridos mesmo. E eu querendo chamar a sua atenção com fantoches de dedo, cada um, um bichinho diferente, e cantar "cai-cai-balão". Era assim quando eu era pequeno, filha. Agora, sou muito menor. Não sei lhe chamar a atenção, filha. Não sei fazer com que parem com Belo Monte, não sei fazer com que a Dilma, o Demóstenes, o Cachoeira, o Lula, o Zé Dirceu, o Collor, o Márcio Thomaz Bastos e sua mãe entendam de fato a importância pra você, pra ecologia, pro mundo, pro Universo, que tudo o que eu queria agora era sentir seus 12kg em meus braços. Seu cheiro, suas caretas, seu jeito e seu olhar fugidio e pensativo.

Eu queria parar Belo Monte, filha. Eu queria voltar no tempo. Eu queria não ter errado tanto. Eu queria ter sido melhor filho, ter estudado mais, ter dito a palavra certa na hora certa, ter escolhido outras coisas. Mas a vida é assim, Beatriz. Cheia de Belos Montes. Vários deles belos, vários intransponíveis. Outro dia, Tia Élida mandou uma frase engraçada pro papai: "Gente feia é igual gente bonita. Só que feia". Eu morri de rir. E hoje choro um pouquinho quando penso que poderia dizer pra você: "Ser pai é igual a ser filho. Só que pai." Ou seja, com praticamente os mesmos defeitos que eu tinha, com muitas das mesmas limitações, cometendo erros e acertos, um dia depois do outro...  Não sei bem o que é certo, minha filha: se passar a infância inteira acreditando no sonho e na fantasia como fez seu pai, e depois se deparar com os Belos Montes da vida, ou se ir lhe preparando aos poucos pras tantas usinas hidrelétricas que podem ser construídas a sua volta...

Só uma coisa eu sei: que independente de eu não ter superpoderes, se você quiser, eu coloco uma capa de pano e entro na frente de um trator por sua causa, filha.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quatro e meia




o silêncio chama
e escuto nada

tenho boca
na madrugada




sexta-feira, 15 de junho de 2012

Febre e ecologia humana




A febre das corridas de rua toma conta das capitais. As marcas de produtos esportivos descobriram que assim também se constrói uma marca: em cima da emoção, da vontade de superação, do sonho de ser um vencedor.

Não há como pensar corrida sem me lembrar: comecei a correr mesmo, depois que meu casamento se foi. Encontrei o Amor na corrida. Fiz da corrida minha curtição. Quando a gente corre, tem uma onda que bate que ajuda bastante o sentimento de bem-estar. Não sei se é adrenalina, endorfina, dopamina, estricnina. Sei que funciona.

Sabe? Acho que a gente chora menos quando corre.

Já conhecia a minha equipe de corrida, quando me juntei a eles. Costumava chamá-los de Smurfs, porque vinham sempre num grupinho de 3 ou 4, sempre correndo vestidinhos de azul. E eles me impressionavam muito: rapazes fortes e moças muito bonitas, de corpos bem moldados, sorridentes e simpáticos.

Para meu espanto, venho me superando, até que completei os 42km da minha primeira maratona em Paris, em 2010. Impensável pra mim, há pouco tempo.

Às vésperas do carnaval, um encontro especial. 
A HF Treinamento Esportivo promoveu um evento para seus mais de 100 atletas. Dividiram a turma e incorporaram o espírito de equipe para fazer valer o desafio de 24h de revezamento.

Curioso que as pessoas geralmente não estranham se falamos em passar a madrugada em uma balada nos entupindo de álcool, mas estranham termos passado a madrugada em um desafio esportivo que promove a saúde, o espírito de equipe, a alegria e a diversão. Recebi muitos incentivos da minha equipe, me senti parte de algo maior. Claro, a primeira vista não parece algo grandioso, principalmente em um mundo como o nosso. Afinal, não havia prêmio em dinheiro, não havia um título em jogo...

O verdadeiro prêmio foi justamente esse: a alegria, o sentimento de união, de carinho entre os participantes, a vontade de superação individual em prol do bem comum, quando todos se deram as mãos e motivaram não só a sua equipe, mas cada atleta, torcendo pelo sucesso pessoal e do outro, do igual e do diferente. Porque todos estavam dando o que podiam, com amor.  

No mundo do consumo, ainda existem esportes em que o sucesso não depende do fracasso do outro.


Fomos riso, brincadeira, suor e superação. Fomos muito mais humanos. E essa emoção não é tão breve quanto parece. Talvez a ecologia humana seja bem isso: basta plantar coisa boa no peito de cada um de nós e regar, que floresce. Servindo de exemplo ao próximo. Em tempos de Rio + 20, acho dá pra pensar no planeta e no ser humano. Que tal? Vamos? 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O caçador frouxo e o terror de ser príncipe




Agora é a minha vez.

Eliane Brum fez seu comentário a respeito do filme Branca de Neve e o Caçador. Muito inteligente e muito próprio (ela é demais). Disse ela, no subtítulo:

"Neste conto de fadas para mulheres adultas, uma ruga vale uma alma."

Ok. Mas e a homaiada? O que tem a dizer, pensar, refletir sobre Branca de Neve e o Caçador? Duas coisas me vêm de imediato: a primeira delas foi o comentário da minha amiga e Consultora Para Assuntos Femininos, ao término do filme:

Eis, finalmente, o conto para a mulher contemporânea! Você viu? Ela vai ficar com os dois! (e mais pra frente, quando cada um pagava o seu estacionamento do shopping:) Sabe de uma coisa, Bernardo, as mulheres só ainda não dominaram o mundo por causa da disputa que sempre há entre elas. Mesmo quando são amigas!


Sobre isso, 2 coisas: 1 Eliane Brum tem razão. Sobre as considerações que fez sobre o universo feminino, seu processo de emancipação, seus medos, o embate entre a velhice e a juventude e a busca incessante pelo consumo pela qual estamos (todos) hoje aprisionados. A mulher que se oferece imagem quando poderia se oferecer Mulher... 2 Que pena que ela vai ficar com os dois, Consultora. Os homens não merecem isso.

Nem as mulheres.

O filme não tem nada gratuito. Nem os efeitos especiais, que estão exclusivamente a serviço da trama, da história. O filme tem cenas bem feitas, iluminação interessante, uma trilha que não é interessante, mas não incomoda, figurino bacana, roteiro quase impecável, a não ser por uma ou duas sequências. Ok. E o filme tem os dois homens citados pela minha amiga.

Um é o amigo de infância, o príncipe que tem nome de príncipe, é escovadinho, bonitinho e coisa e tal. O outro é o garanhão. O que tem olhos azuis, que tem a barba mal feita, cara de sujo, de homem, toma umas, faz coisa errada, cara de forte, de espada, de caçador, enfim, escolhido pra ser o Objeto de Desejo Projetado pra Consultora que estava ao meu lado e as outras mulheres que virem o filme.

Pois bem. (se não viu, pare de ler aqui)

Acontece que os dois "ficam" com ela - para usar o jargão disseminado na juventude pegadora. E acontece que nenhum dos dois fica com ela. Esta é a segunda coisa que me vem.

Me explico. Podemos tomar o beijo de cada um deles na princesa como símbolo da pegação. Para mim, o esperado acontece: está tão na cara que o caçador é escolhido pra ser O desejado pelas mulheres que vão ver o filme, que é o beijo dele que vai despertá-la, não o beijo do principe William. Ela, que está dormindo, não pode ser julgada por "ficar" com os dois. E o filme, por mais que indique a possibilidade de escolha da princesa, só deixa óbvia a escolha das mulheres que vêem o filme. Minha Consultora, nesse ponto, tem razão. O filme dá abertura pra análise dela, de que a princesa vai (ou pelo menos pode) ficar com os dois.

Em uma sociedade de consumo, onde o papel do homem está em crise e se relativizam os tantos papéis sociais ligados ao gênero e às escolhas de homens e mulheres, me pergunto o que vem pela frente.

Veja: Os dois entram na floresta negra e vão atrás da princesa. Nenhum dos dois recebe crédito por isso. Enquanto o príncipe William é taxado de bobo e filhinho de papai, o caçador que tem olhos azuis, que tem a barba mal feita, cara de sujo, de homem, toma umas, faz coisa errada, cara de forte, de espada é o mesmo que diz que tudo que ele realmente amou foi tirado dele. Ou seja: ques machos são esses?!?

Vamos parar com a sacanagem! Homens, levantai-vos! Uma amiga comenta que é lindo o big brother "Alemão", pseudo truculento chorar pela mulher amada de saudades na frente das câmeras. O 007 - que devia ser o bastião do homem macho contemporâneo - é morto no último filme e ressuscitado por uma mulher. Agora, o caçador é frágil, o príncipe não tem cavalo branco (nem espada! Só arco e flecha!), a mulher pode ficar com os dois que ainda assim vai ser coroada e ninguém fala nada, parece que ta tudo certo, que agora é assim, e problema meu que não entendo isso... Putz. Só pode ser um complô. Depois a mulherada reclama que tá faltando homem na praça.

A desavisada feminista comentaria de bate-pronto: – Bem-feito! Não eram os homens que ficavam com várias? Agora estão tendo o troco! Sinto muito. Eu não acredito nisso. Acho que as mulheres não perdem nada sendo mulheres, até porque, gostamos delas JUSTAMENTE por isso, enquanto acho que os homens não perdem nada por serem homens. E inteligência e sensibilidade, acredito, não tem nada a ver com ser macho ou fêmea. Acho inteligente abaixar a tampa do vaso porque é educado e respeitoso e acho inteligente abrir a porta do carro porque delicadeza significa cuidado, não gayzisse. Estou cagando pra opções sexuais - me descupem a tosquice do termo, acho que isso nem deveria ser pauta de discussão, cada um sabe de si e merece amar o gênero que lhe atrai, acho óbvio - mas continuo, apesar disso, achando que homem deve ser homem e mulher deve ser mulher. E um deve cuidar do outro. Da maneira que pode, sabe e consegue.

Eu comprei uma espada, mesmo sabendo que nunca vou usá-la. Já fui e já não fui o provedor da mulher amada. E sei que me importa muito o que se passa no coração (no meu e no "dela"). Achava que o filme seria uma sessão da tarde. E está me fazendo pensar muito. Acho que também vou escrever um subtítulo pro meu post menos inteligente e mais visceral que o seu, Eliane:

"Neste conto de fadas para homens adultos, explorar a alma feminina vale uma ruga de preocupação."        



terça-feira, 12 de junho de 2012

Para a enamoradinha do papai



Uma braçada de flores! Quero flores num abraço.
Para minha enamorada, só amor, filha, mais nada.
Quero um naco do seu pensamento, a música da lalação.
Iniciáticas palavras, vôo ouvir o seu papai.
Me nina, minha filha. Sou jardim que espera.
Espero marcado, áspero de saudade, esperta vontade. Soueu.
Vamos marchar juntos, filha, em continência ao há mar.
Sou pensamento, conexão, seu barco de navegar.
Seu rio de sonhos alarga meu bem querer. Infância.
Extensão do papai, explica o mistério do oposto: você está onde estou.
O mundo é assim assim. E a vida, só um milho de pipoca na manteiga quente. Pluft.
São tantas as flores do mundo, minha filha, tantas tantas...
Não vou ser seu namorado, sou só, enamorado, vítima eterna do seu amor.
Promessa de enquanto viver, mesmo entre vindas e idas,
suas flores estão garantidas, minha e terna Bebê.



            

sábado, 9 de junho de 2012

Jusqu'á l'hermione





Em breve, meu barco parte.

Me leva inteiro quando parte.

Em breve, meu barco pedaço.

Porto, barco, mar.

E eu não sei nadar.

Em breve, meu barco parte.

Parte de mim, parte sem mim, parte comigo.

O mar é uma espécie de umbigo.

Em breve, meu parto barco.

Viagem, miragem, ilusão.

Me abarca, coração.

Em breve, meu pedaço barco.

Que mar, que vento, que nuvem.

FraGata nos telhados das ondas.

Seu leite é espuma.

Seu ronronar se ouve nas conchas.

Em pedaço, meu barco parte.

Seu porto, minha rota, meu farol.

Céu ruivém esconde sol.

Em parto, meu pedaço mar.

Tenho medo de secar.

Estou indo.

No porto, na porta, na parte,

ninguém.

Se despede de mim?



quarta-feira, 6 de junho de 2012

JACU EM PÉ



O discípulo sentou-se.

O mestre: – Por que sentou-se aí?
Jacu (digo, discípulo): – Bom, o senhor falou pra sentar...
O mestre: – eu falei pra sentar, não disse onde.

Qual é o seu lugar no mundo?

Foi o que me perguntou ontem.

A pergunta me ecoa até agora. E vai me ecoar por um looongo tempo.

Isso me toma assim, por inteiro, e me desperta pra pensar desejo, pra pensar receio, pra pensar anseio, pra pensar tudo e pensar nada. Tenho medo de não estar no lugar certo.
Já tive insights. De toda ordem.

Por exemplo: quando eu propus fazer um paralelo entre Guimarães Rosa e Raymond Queneau, o papa da semiótica em Minas, meu orientador, Julio Pinto, trucou. Perguntou ele como eu poderia estabelecer esta relação, se não sabia a representatividade do autor francês no que dizia respeito a sua construção semiótica, nem ao menos no que dizia respeito à sua representatividade para a França, em comparação ao que é Guimarães para o Brasil e a literatura.

Pois bem: no mesmo ano, Umberto Eco escreve um livro sobre Tradução e coloca um capítulo inteiro sobre Raymond Queneau...

Ok, Umberto Eco é brilhante, famoso, phoda. Eu, sou só um jacu. Digo, um discípulo. (mas tive a mesma ideia que ele). Foi um insight: estou no lugar certo. Até a minha banca desqualificar o meu trabalho e pedir pra que eu refizesse tudo, mesmo depois do primeiro capítulo e da diretriz proposta aprovada. Ok.

Show do Gil. Maio, agora. Eu tinha tido a mesma ideia pra um novo show meu. Mas ele é o Gil. Ele fez. Eu não. Se eu fizer, agora, sou só um jacu macaco de imitação. Digo, um discípulo (macaco de imitação). Mas tive o mesmo insight: acho que estava no lugar certo.

Quando nasci, achei que estava no lugar certo. Quando entrei pela primeira vez em uma academia de Karate, achei que estava no lugar certo. Quando entrei no palco da sala João Ceschiatti pela primeira vez, de modo amador, achei que estivesse no lugar certo. No palco do Teatro do Sesi, em 1990, profissionalmente, achei que estivesse no lugar certo. Na frente de um microfone no estudio REC, em 1991, achei que estivesse no lugar certo. Quando entrei na igreja do São Bento em 2002, achei que estivesse no lugar certo. Quando comecei a correr no Belvedere, achei que estivesse no lugar certo. Quando vi, no ultra-som, a minha filha, achei que estava no lugar certo. Quando fui atropelado no supermercado, achei mesmo mesmo mesmo que estivesse no lugar certo...

...

Não sei. Minhas reflexões vem e vão e intuo, jacuzisticamente, que talvez não seja, enfim essa, a verdadeira questão. Talvez, não seja bem "o lugar onde estou", a questão. Até agora, só pude constatar que meu lugar no mundo é ser ponte.

Sou, portanto, (até agora) O lugar.

Mas isso é só mais uma jacuzisse insightiana, de um discípulo desestimulado pelo tempo, que escolheu caminhar ao invés de sentar-se.

Podemos caminhar um pouco, mestre? Quem sabe tenho mais um insight...



* para Nelson Nascimento, 
que tem me feito perguntas importantes,
 ao longo do caminho.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

JUNO




Juno que une,
pão que anuncia.
É dia:
escuta, que o tempo vem.
Vislumbra a gota na terra,
o orvalho na planta,
o sol na semente,
outônus da vida.
Renasce, medida,
devagarzinho.
A estação da vida:
plataforma de chegada e partida
dos sonhos secretos de nós.