quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tango




Tango.
Eu Tango.
Tango escolha, marcação, ando marcado pelas mazelas do tempo.
Só sentimento, só pulsação.
Na milonga da vida, o círculo do nosso salão ainda chega ao lugar onde nos encontramos.
Sapatos de couro, o couro da pele, seu salto nos deixando pra sempre no piso da pista.
Delicadamente desenho com o bico do pé: espora que fere gillette o terreirão de minh'alma.
Bandoneón que chora.
Que grita silêncio com a mão no vidro do ser.
Encarcerado, pra sempre, no tango sangrento da gente.
O violino me empurra, suplica, aperto seu coração contra o meu. Síncope e ar rarefeito.
Peitos, desejos de arder.
Voltamos pra avançar, têmporas coladas, pessoas imantadas que sabem amar.
O Tango é escolha.
Anda comigo, anda.
O repique rascante da música para o tempo, mão aberta, dedos prensados contra a seda penugem delicada das costas.
Faço um oito com você. Eternamente num passo, o laço dos dois que anuncia, o nosso vazio, o tom do querer. O Tango é um jeito de ser.
Eu Tango.
Eu marco por onde passo. Eu laço. Eu terno.
Eu rasgo do seu vestido.
Outono inverno de mim, que escuto o vermelho do medo.
É cedo
pra parar de dançar.



imagem - pintura de Kathryn Renee: http://katrenee.com/gallery/painting/tango

2 comentários:

Bê Sant Anna disse...

Faço tango as quintas, com uma professora maravilhosa (e muito paciente) que se chama Kina.
Há uma filosofia própria no tango. Um misto de romantismo e drama que fazem o sangue correr. A beleza dos movimentos associados à música de personalidade ímpar fazem do tango uma arte dentro da arte, acredito.
O acordeón e o bandoneón não precisam do vento, do sopro à toa.
Ouça e veja tango. E se puder, dance. Acho que é um bom jeito de se sentir mais humano.

Bê Sant Anna disse...

Não é isso, Cristiana Rezende Kina?