quinta-feira, 19 de abril de 2012

Flor de Sal



Ela: – Diz belamente Mia Couto: 
"Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas retinas desatentas..."

Eu: – Putz.

Ela: – como eu faço pra me comunicar nos dias de hoje?

Eu: – Acho que desligando tudo.

Ela: – A paz não basta?

Eu: – Eu não sei. Estou sabendo de nada, disso tenho sabido muito. O nada tem me acompanhado tão de perto que sobre o nada pode me perguntar... mas da paz?

Ela: – é que eu tô em dúvida... fala sobre razão e emoção, vai.

Eu: – Olha, eu não sei, mas acho que uma boa pista é pensar que a razão crê que sabe os porquês e a emoção acha que da conta do como. Mas uma só crê, a outra só acha. Acho que nos contos de fadas e nas fábulas podemos achar mais pistas...

Ela: – Detesto uma coisa e outra. Coisa pra fraco de espírito. Aliás, espírito é uma coisa que não me convence. Eu gosto é de resposta.

Eu: – Talvez a resposta esteja sempre ao redor das fogueiras, no crepitar das chamas, na subida das fagulhas pro céu, em sua ordem caótica de insultar a (sua) razão...

Ela: – não entendi nada.

Eu: – Quando fechamos um pouquinho os olhos, confundimos finalmente as estrelas com as fagulhas e tudo se torna uma coisa só. O que é mais e menos real? O que é mais ou menos palpável?

Ela: – mas uma coisa acaba a outra é para sempre. Aliás, tenho um pouco de dificuldade de engolir essa história de para sempre...

Eu: – Separa que você entende: para sem-pre. Sem antes. Sem depois. A única coisa para sempre é o agora: lembra que vai ser sempre AGORA, não importa quando. Ontem, agora de ontem. Amanhã, agora de quando chegarmos lá. SEMPRE AGORA. Por isso o para sempre pode existir. Sem antes, sem depois... no eterno agora existencial onde o infinito é o puro movimento. Por isso a forma do miobius... me lembrei da Alice de Lewis Carrol:

"Alice: quanto tempo dura o eterno?
Coelho: às vezes apenas um segundo."

Sabe, tenho encontrado muito com Tudo no Nada. Se procuro Tudo é porque conheço, sei de Tudo, sei que não está lá, no vazio desse Nada. Curioso me deparar com Tudo o tempo todo, sem cessar, se lá não está. É como sentir a presença de alguém que morreu. Às vezes, esse alguém lhe acompanha o tempo todo. É... Mia Couto está correto... penso no que aconteceu comigo-mar: não dá mais pra retirar o sal que me habitava. Minha água já está toda salgada.
Talvez eu não sirva nunca mais pra cozinhar...



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