domingo, 29 de abril de 2012

A pureza e a fome do perdão.




Sob o céu do cerrado, onde o horizonte é mais verdadeiro, me situo. Sítio.

Tem um quê de meu aqui, tem algo que me diz da minha verdade, das minhas escolhas, dos meus desejos, estando eles pertolonge ou longeperto.

Na casa que é muito minha, por paixão completa, por pai-chão completo, respiro.

Clara está com fome.

Com 5 meses e meio, encontra um jeito de se comunicar não só com a mãe, desde cedo me conhece. Sou irmão do pai dela, sou irmão da mãe dela, sou tio mais velho, gasto de amor e de saudades.
Clara me fala da fonte da juventude. Clara me fala da fome da juventude.

Clara é generosa, sabe que Beatriz não está nos meus braços agora, que as notícias que chegam são sempre suadas, molhadas das tantas correntes torrentes que passam por nós, e decide doar-se de amor, pra mim, pelo tempo do sempreagora, enquanto estiver em meus braços.

A fome da vida pede que esse tio dê mamadeira pra ela.

Depois da mamadeira, dançamos suavemente pela sala, embalamos um ao outro, enquanto ouvimos nossos corações que batem.

Batem tanto que machucam.

O pai da Clara sabe de tudo. Seus pais sabem de tudo.

Passam e fazem sinal sem fazer sinal: – Que saudades da Beatriz! – eles também sentem. Nunca estiveram com ela, mas sabem...

O pai da Clara entra pro dentro da casa e sai de dentro dele trazendo um violão. Com ele, vai embalar a filha, o tio, o irmão, o pai, o amor.

Inexplicavelmente, ele começa a tocar a única música que parece ser possível, que me faz chorar em silêncio e derramar esperança no ombrinho da Clara, enquanto continuamos embalados um pelo outro...

Hino, tapa, chacoalhada.

Despertador.

Fonte de inspiração, suspiro.

Essa música é atadura pra coração que é espera, é ponte pra quem, da outra margem, molha os pés enquanto aguarda.

Juntos, cantamos em dueto enquanto somos mais humanos, mais pais, mais irmãos um do outro:

Quem me chamou?
Quem vai querer voltar pro ninho?
Redescobrir seu lugar...
Pra retornar e enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar...
Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
continua sempre que você responde "sim"
A sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz "não"...
Você verá que a emoção começa agora
agora é brincar de viver...
Não esquecer: ninguém é o centro do Universo
Assim é maior o prazer...

Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
continua sempre que você responde "sim"
A sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz "não"...
E eu desejo amar a todos que eu cruzar pelo meu Caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz quem andar comigo...
Vem!
Agora é brincar de viver...

Talvez eu cante hoje à noite, antes de dormir, mesmo sozinho, outra música de Guilherme Arantes: "Amanhã". 

Tal vez.

sábado, 28 de abril de 2012

Cabeça baixa.





19:03h ela desliga a luz da varanda.
Ele aguarda.
Aguarda mais um pouco.
Talvez seja hora de voltar pra casa, chorar um pouco e entender que tudo não passou de um sonho.
No dentro dele, um grito silencioso rasga os dias, fere as noites, borra a existência sem a presença dela.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Reynaldo Gianecchini X Banco Itaú Personalité



Hoje, ela me disse bom dia. Eu disse: "bom não, ótimo!"

Deitado na cama, 00:45h penso no dia pra saber que dia foi. Estou voltando do cinema, fui ver Pina e me lembrei muito de você. Minha professora de dança finalmente voltou, amanhã retomo as aulas de tango.

Mais cedo, uma hora inteira no Banco Itaú Personalité. Ninguém entende porque acho eu estranho ter pedido um cartão de crédito em novembro e ele até hoje não ter chegado. Ninguém acha estranho eu ter tido uns 3 gerentes no último ano, ninguém acha estranho me avisarem isso quando chego lá pra resolver alguma coisa pendente e o gerente que estava resolvendo ter sumido sem dar notícias pra sempre. Acho que eu devo ser mesmo muito estranho. Afinal, eu continuo achando estranho a gente não poder resolver nada com uma pessoa. Tem sempre uma "entidade itaú" que é o responsável por tudo e o simples jacu que está na minha frente não pode se responsabilizar por nada. Afinal, ele só tem "acesso ao sistema..." Nessas horas eu queria ser o Luciano Hulk. Aposto que ele fala com o presidente quando quer.

Fico questionando porque um indivíduo entra em uma escolinha infantil e sai atirando pra tudo quanto é lado e matando criancinhas. E olha que elas nem trabalham no itaú. Nem na VIVO. E eu continuo achando tudo muito estranho.

Mais cedo, uma entrevista repetida da Marília Gabriela com o Reynaldo Gianecchini. Fiquei muito emocionado na entrevista. Tirando a Marília ter ficado chamando ele de "Baixinho" - acredito que seja este o apelido cuti-cuti que eles têm, porque ele revidava de modo igual -, a entrevista foi muito bacana, com o entrevistado em evidência, ao contrário das entrevistas do Jô. Enfim.

Lá pelas tantas, ela: – Qual o sentido da vida?

Ele: – Aprender a amar.

Ducaralho. É isso mesmo, Reynaldo. Eu tenho um ano a menos que você e, até hoje, foi exatamente o que intuí que fosse. Afinal, tudo aqui é muito estranho. Sabe, me emocionei muito quando disse que pediu perdão pro seu pai, por não ter sido o amigo que desejaria... Me bateu profundo você ter dito que alegria é "viver com leveza a vida" e que "você só não pode negociar com o sentimento"(eu acrescentaria que nem com o Banco Itaú e nem com a VIVO ou a NET, mas perderia substancialmente a poesia do momento).

Poxa, sério, creio que seja difícil mesmo. Tenho tentado sem sucesso.
(negociar com o sentimento, é claro!)

Curiosamente, você deixou os dizeres de um email como mensagem final pra sua entrevistadora, que tem igualmente me batido muito: desde que minha filha foi pra Recife com a mãe dela para passar somente a semana da criança e descobri, finalmente em janeiro, que tinha na verdade se mudado (desde outubro tinha feito um plano da UNIMED pra ela em Recife)... você disse: "para estar junto, não é preciso estar perto, e sim, do lado de dentro."

Putz, penso nisso todo dia. Toda hora. De diversas maneiras e não só pra minha filha.

Acho, Reynaldo, que a felicidade completa se resume nisso: Aprender a amar, ter alguém do lado de dentro e ser o Luciano Hulk.

Pensando bem, talvez o dia amanhã seja ótimo!: vai terminar comigo dançando tango com uma vassoura...


Obs.: sou grato, muito grato, por se tornar mais um exemplo, Reynaldo Gianecchini.





quarta-feira, 25 de abril de 2012

Haikai da alfaBêtização





Beatriz escreve paixão trocando o x.





segunda-feira, 23 de abril de 2012

Seus dedos





Seus dedos mágicos despertam a sutileza do meu olhar.
Move-os em baile.
É pó de pirlimpimpim que tilinta espaço, que orna o tempo.
Colar de pérolas invisíveis, espalha ao vento os desígnios de existir.
Faz cosquinha na nuca da paixão, chama a minha atenção, hipnose múltipla.
Respiro o compasso das ondas dos dedos. É cedo. O sol vai nascer.
O voil da vida balança, enquanto espero a hora que dança.
Adorna e torna a me confundir, levita ser, conduz estar, renova querer.
Seus dedos envolvem a tramela do basculante do peito.
Seus dedos entornam óleos motivos nas gretas que levam ao coração.
Seus dedos arranham a espera do encontro.
Em baixo da unha, minha pele que pede pelo apelo.
Sou zelo. Sou selo. Sou só, eu, em busca da ponta apontada do seu dedo para mim.



sábado, 21 de abril de 2012

Haikai da princesa contemporânea



No colo dele
seu nome sem sobrenome 
era sapatinho de cristal.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Flor de Sal



Ela: – Diz belamente Mia Couto: 
"Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas retinas desatentas..."

Eu: – Putz.

Ela: – como eu faço pra me comunicar nos dias de hoje?

Eu: – Acho que desligando tudo.

Ela: – A paz não basta?

Eu: – Eu não sei. Estou sabendo de nada, disso tenho sabido muito. O nada tem me acompanhado tão de perto que sobre o nada pode me perguntar... mas da paz?

Ela: – é que eu tô em dúvida... fala sobre razão e emoção, vai.

Eu: – Olha, eu não sei, mas acho que uma boa pista é pensar que a razão crê que sabe os porquês e a emoção acha que da conta do como. Mas uma só crê, a outra só acha. Acho que nos contos de fadas e nas fábulas podemos achar mais pistas...

Ela: – Detesto uma coisa e outra. Coisa pra fraco de espírito. Aliás, espírito é uma coisa que não me convence. Eu gosto é de resposta.

Eu: – Talvez a resposta esteja sempre ao redor das fogueiras, no crepitar das chamas, na subida das fagulhas pro céu, em sua ordem caótica de insultar a (sua) razão...

Ela: – não entendi nada.

Eu: – Quando fechamos um pouquinho os olhos, confundimos finalmente as estrelas com as fagulhas e tudo se torna uma coisa só. O que é mais e menos real? O que é mais ou menos palpável?

Ela: – mas uma coisa acaba a outra é para sempre. Aliás, tenho um pouco de dificuldade de engolir essa história de para sempre...

Eu: – Separa que você entende: para sem-pre. Sem antes. Sem depois. A única coisa para sempre é o agora: lembra que vai ser sempre AGORA, não importa quando. Ontem, agora de ontem. Amanhã, agora de quando chegarmos lá. SEMPRE AGORA. Por isso o para sempre pode existir. Sem antes, sem depois... no eterno agora existencial onde o infinito é o puro movimento. Por isso a forma do miobius... me lembrei da Alice de Lewis Carrol:

"Alice: quanto tempo dura o eterno?
Coelho: às vezes apenas um segundo."

Sabe, tenho encontrado muito com Tudo no Nada. Se procuro Tudo é porque conheço, sei de Tudo, sei que não está lá, no vazio desse Nada. Curioso me deparar com Tudo o tempo todo, sem cessar, se lá não está. É como sentir a presença de alguém que morreu. Às vezes, esse alguém lhe acompanha o tempo todo. É... Mia Couto está correto... penso no que aconteceu comigo-mar: não dá mais pra retirar o sal que me habitava. Minha água já está toda salgada.
Talvez eu não sirva nunca mais pra cozinhar...



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Se eu tivesse uma avó com o nome de flor




Se eu tivesse uma avó com o nome de flor eu comprava um vinho, e coberto de amor bordaria um poema, gema sem dilema pra ornar seu colar e poder conjugar o sentido confuso desse verbo amar. Se eu tivesse uma avó com o nome de flor estudava italiano (talvez um piano) e encantava seu canto, suas dores, seu pranto e cantava seu manto, seu santo acalanto. Se eu tivesse uma avó com o nome de flor ia à pé caminhando pra rua do Ouro pra comprar um presente que ela merece, pra dizer que esse neto na sua vida tece muitos gestos e gostos, sonhos amanhece, na esperança divina do tempo encontrar a resposta que busca nas noites insones, das noites escuras que envolvem o luar. Se buscasse na Ouro, no 292, revelasse a Cum Panio do doce Camilo, eu faria a surpresa, e um tempo depois eu viria em sigilo, pra mesa, pois sois a avó favorita!, a pessoa aflita que conhece o caminho do encontro e do olhar. Para esta vovó, de nome pequenino, o mais nobre carinho. Do ninho, a mistura, e seu pão reinventa. Delicada, reclamenta, vovó que alimenta: chocolate, loucura, paixão movimenta! Estou vivo no sonho de lhe abraçar. São tantos pães, e tantas histórias felizes que por magia, quem sabe um dia, amanheça e eu me esqueça que foi pura agonia...
Que frágil sabe que meu abraço é eterno. Que ágil entende que meu calor é paterno. Que inverno é tempo de acordar e acolher. Que o ensinamento é de plantar e colher. Que o meu momento é só de amar mas sofrer...

(Na Cum Panio eu reconheci a companhia do seu jeito, e do jeito que você faria, pra agradar sem medida a vovó Querida, que eu teria, se tivesse, ela, o nome de flor.)


terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma equação e três macetes importantes




Ei, papai! Como vai, minha filha?
Que saudades...
Sabe, ontem cheguei em casa e fui direto pro seu quarto, lhe mostrar a placa que ganhei em homenagem à minha participação na criação do Vozes de Minas, a associação dos profissionais da voz que trabalham com publicidade, minha filha. Parece que a vida é assim, tem hora que a gente começa a fazer a curva do tempo.
O que você vai ser quando crescer, meu amor? Fiquei conversando com você, pra saber das suas escolhas. A vida é escolha, filha. A gente escolhe o que quer ser, a gente escolhe o que fazer, a gente escolhe escolher. A vida tem sim e tem não, de um lado e de outro. E tem as escolhas da gente frente as respostas que a vida nos dá.
Tem uma matemática aí, que é importante demais, filha: em saber a relação entre QUERER, ESCOLHER e ASSUMIR. É mais ou menos assim:
querer + escolher = assumir.
Agora, cuidado! Nem sempre essa regra é igual a matemática. Acho que é por isso que papai já tomou bomba. Às vezes a vida é meio pentelha. Ela confunde a gente com essas variáveis. Vou lhe dar um exemplo:
De vez em quando a gente QUER uma coisa, mas não ESCOLHE. Daí, mesmo assim, temos que ASSUMIR o que não escolhemos.
Outras vezes, a gente não QUER uma coisa, mas ESCOLHE, porque acha que a vida está mandando. Daí temos que ASSUMIR o que não queremos... por isso temos que tentar conjugar o querer com a escolha, sempre que nos for possível. E ESCOLHER, sobretudo, filha, ESCOLHER sempre. Porque é muito mais fácil assumir o que escolheu do que ter que assumir o que a vida nos empurra porque tivemos medo, dúvida, fraqueza.
OK, a gente sente medo, dúvida e fraqueza, filha. Muitas vezes. Mas a vida, além de ser escolha, é aprendizado. A vida é exercício. E não caia nessa de que temos que cair pra aprender. Sim, podemos aprender quando caímos. Aliás, é fundamental que isso aconteça. Mas podemos aprender observando.
Bom, vamos deixar uma coisa clara, de uma vez por todas. Afinal, você já tem um ano e quase dois meses, já é hora de aprender isso:
Aprende-se de 3 maneiras.

  1. Experimentando
  2. Observando
  3. Meditando
Vou ser mais claro que, afinal, os pais às vezes têm essa obrigação: "experimentando" quer dizer vivenciando. Caindo, vamos ser óbvios. Tomando pancada, curtindo, vivendo, vivenciando... Pode ser bom, pode ser rico, mas pode ser extremamente doloroso (eu ia dizer foda, mas isso não seria exatamente didático, no sentido clássico da palavra). "Observando" e "meditando" você já nasceu sabendo o que é. 
Agora o seu LUDO começa a ficar mais interessante... porque conjugar QUERER, ESCOLHER e ASSUMIR com esses 3 truques que papai ensinou, vão fazer TODA a diferença. 
Talvez seja a diferença entre ter uma vida mais fácil ou mais difícil. Mais simples ou mais complexa.
E é assim.
Bom, isso é o que eu posso lhe dizer hoje. Vou aguardar você aprender a conversar (com a boca) pra nos determos mais neste assunto. Só mais uma dica: não acredite em quem lhe disser que "no final, vai valer a pena". Mentira. Vale a pena hoje. Não é no final. Vale a pena porque é com AMOR. E amor, meu bebê, é como o curinga da vida. Na dúvida, use-o. E o bom é que essa carta não acaba. 
Bem, me desculpe se o papai mudou de assunto. É porque quando você fica em silêncio quando eu falo, eu começo a passar pra fase 3, a da meditação, daí me perco mesmo (ou me acho, mas isso é outra história). Quanto mais, se você está a 2.200 km de distância... daí seu silêncio parece um pouco maior...
Enfim... bom, sei lá, pense nisso. Talvez lhe ajude a entender um pouco mais as coisas. Mas se, de tudo isso, quiser guardar só uma coisa, que seja o comecinho, quando eu lhe disse: "que saudades..."
Bê ijos do papai, que lhe ama, lhe guarda e lhe aguarda. 



segunda-feira, 16 de abril de 2012

O silêncio e o dia mundial da voz




Dia 16 de abril é o dia mundial da voz.

Herder, filósofo que tem uma produção belíssima sobre a origem da linguagem defende a audição como sentido central aos demais, seu elemento de ligação. Na verdade, cala em mim toda a admiração por estes profissionais e amantes do que nos torna, sem dívida, mais humanos. Das impressões primitivas - de que fala Herder - às elaborações de todo vulto, da fala e o silêncio, do canto e o hiato somam-se os princípios do ser, muito humano, em busca de (seus) significados.

Hoje é um dia que se pretende especial.

Para mim, sem dúvida. Não recebi parabéns, não recebi um email, não me ligaram pra me dar um beijo pelo dia de hoje. Mas hoje pode ser considerado um dia bem meu. Ainda mais neste ano, um ano especial nesta área: há 21 anos, eu fazia minha primeira locução publicitária na REC estúdios de gravação, com o talentoso Alexandre Martins, profissional competente que veio, ao longo de 21 anos, se tornar um amigo, por vezes confidente, nessa seara profissional, nem sempre fértil, nem sempre vasta, mas sempre regada e cultivada. Há 25 anos, eu fazia minha primeira locução artística, em uma peça premiada: "Na Pontinha do Sonho".

Não foi exatamente fácil que um roteiro chegasse a um estúdio com a indicação do meu nome. Demorou 8 anos pra que isso acontecesse. Hoje, ainda sou obrigado a ouvir  desavisados ou ignorantes que fazem o comentário:

 –Você só demorou 1 minuto pra gravar isso... gravou de primeira ou de segunda! Isso sim é um dinheiro fácil...

A essas pessoas, minha resposta é sempre a mesma:

– Sinto, mas você está completamente enganado. Não demorei só um minuto. Demorei 25 anos.

Poderia dizer que fiz sete anos de aula de canto, uns 4 anos de aula de interpretação, 8 meses de tratamento com fonoaudióloga por causa de um calo, que fiz um curso de publicidade, uma pós em gestão cultural, um mestrado ainda sem defesa em interações midiáticas, curso de circo... e por aí vai... mas a vida é assim: as pessoas vêem as pingas que tomamos, mas não vêem os tombos que levamos. Ainda hoje, concorro com quem cobra metade do que eu cobro, com quem não tem um terço da minha formação, esbarro com a falta de profissionalismo do meio, e com o dia-a-dia de quem faz (também) da voz seu ganha pão.

Sempre, fui mais adepto ao silêncio. Em 25 anos, aprendi o valor do tempo. Aprendi a importância de ouvir. E uma coisa de que ouso me orgulhar: acredito que sei do valor da palavra.

Aos meus amigos, aos meus pares, aos entusiastas da palavra, aos amantes da voz, do canto, do encanto, o meu abraço, fraterno, respeitoso, carinhoso. É tudo que minha voz me permite dizer no dia de hoje.

Visite o site http://www.vozesdeminas.com.br/ e conheça um pouco da associação que ajudei a fundar e de que fui diretor do conselho de ética por algumas gestões. Com orgulho.

http://www.youtube.com/watch?v=EL0Z8_CelSo


domingo, 15 de abril de 2012

A explosão está prestes a acontecer




Ela não dá notícia, não sabe como está.
Se assassina na espera do carinho de uma palavra.
A solidão do verbo não conjuga a paz.
O desespero é conjugado na falta de ar que anuncia o rasgo do peito.
Nada do que sente, tudo do que quer, nada do que faz, tudo desse amor, o clique do relógio desvenda a solidão das horas, a cabeça se esquece que um dia iria explodir a qualquer momento, o sentimento mente, a solitudinega, o casamento inventa, o berimbau contesta... há uma onda inesperada que vai resolver tudo afogando as mágoas.
Um caminhão pode passar por cima de um carro, uma veia pode estourar no corpo, um desejo pode enlouquecer o santo, um espelho pode contar a verdade para ela, o rato pode roer os lábios de quem dorme um sono tranquilo de não dar notícias.
Os incêndios, às vezes, são inexplicáveis. E os acidentes, uma fatalidade.

Às vezes, fico pensando que as pessoas são corajosas sem os motivos verdadeiros de ser. Às vezes não.

sábado, 14 de abril de 2012

Trovinha amarela.




no quarto
             o carinho espera
                                     o carrinho espera
                                                              o caminho é espera




quinta-feira, 12 de abril de 2012

Rodrigo Santoro é assim e pronto.




"Amor não é merecimento. É assim e pronto." – ela escreveu.
O diálogo que precedeu foi:

– Eu amo.
– Quem?
– O Rodrigo Santoro e você.
– Ele merece. Eu não.

Daí veio a citação que começa esse texto.

Fico pensando: eu não conheço o Rodrigo Santoro. Acho que ele é um cara bonito para os padrões estéticos estabelecidos na virada do século vinte pro vinte e um. Ok. Mas não sei bem se ele merece. Talvez mereça se tomarmos no diálogo o "amor" e trocarmos por "desejo". Se ela tivesse dito "eu desejo", talvez a resposta do "ele merece, eu não" fosse realmente acertada. Talvez não. Possivelmente, até o Rodrigo Santoro seja um cara bom de cama por ter a oportunidade de praticar muito, tendo em vista que um boa pinta consagrado como ele tem essa possibilidade – mas isso não passa de uma ilação. Não tenho dados que afirmem uma coisa ou outra nesta análise, a independer do que acha a esmagadora porcentagem das mulheres brasileiras.

Na verdade, a questão aqui se depara não com o Rodrigo Santoro, mas com a troca da palavra "amor" por "desejo", ou pela palavra "quero", ou por "cobiço".

Seria o "amor" confundido assim por nós com tanta frequência? Seria o "desejo" colocado no mesmo saco do "querer" e da "cobiça"?

Isso pressupõe que o TER envolve a questão?

Será que seria justo dizer: "Eu quero ter" no lugar de "Eu amo"?

Se a resposta for afirmativa, talvez estejamos diante da resposta a uma das confusões clássicas que, acho, estão rondando o Mundo do Consumo em que vivemos...

Porque, se for, está explicado porque se troca de "amor" como se troca de roupa.

De carro, de casa, de sapato, de bolsa. Talvez, até por isso, seja possível querer dois carros, duas casas, duas roupas... um "Rodrigo Santoro" e um "você". Ou o seu marido e o marido da outra. Ou o seu namorado e o namorado da outra. Ou o seu namorado e o cara da mesa ao lado.

Pensando assim, eu realmente não mereço. Nem o Rodrigo Santoro. Nem ninguém.

...

Me dá um frio na barriga pensar que encontrei a palavra cimento em merecimento. Mas isso é só outra reflexão contígua a essa...

Já o amor verdadeiro, sim, acho que é "assim e pronto".

terça-feira, 10 de abril de 2012

EM BREVE, UM LIVRO NOVO




Este post é um TEASER, como os publicitários gostam de dizer.

É só pra dizer que "está esquentando...", ou seja, vem aí o meu segundo livro.

O meu primeiro, pra quem não conhece, foi lançado em 2008. Um livroCD, com um conceito novo à época, onde pude costurar um pouco de música, poemas, crônicas, ilustrações, sonhos... o que a interação midiática me permitiu. Foi muito bacana poder visitar cada uma dessas bordas do ser poético, pra falar um pouco sobre o amor e o infinito. Seu nome? 8

Sim, o numeral 8. O símbolo do infinito, que traduzia, ou tradizia sobre o movimento...

Meu segundo livro vem agora: um livro de poemas, feito com MUITO amor, muita luta, muita dor, muito sangue, muita crença. Muito desejo, muito tesão. E dessa vez, uma escolha nova: vou fazer uma pré-venda pela internet. No Facebook e aqui no blog, os amigos, leitores, curiosos vão ter a possibilidade de comprar antecipadamente, por um preço bem convidativo e um bônus! Quem comprar antecipadamente retira no dia do lançamento, já autografado, sem filas e com um ótimo desconto!

Êba. Acho que até eu vou comprar um.

Se você mora em Belo Horizonte, pode comprar o livroCD 8 na livraria do Ponteio ou pelo meu email: besantanna@gmail.com

Se você mora em outro lugar, me mande um email que lhe passo uma conta, você deposita e lhe envio pelo correio. Simples assim. No ritmo da poesia.

Acho que vale aguardar. O projeto gráfico foi assinado também pela Designlândia, da Fabiana Ferraresi e da Paola Menezes e ficou igualmente lindo. http://www.designlandia.com.br/

Este mês rodando na gráfica e, espero, em breve na sua cabeceira.

P.S.: O que essa foto tem a ver com o post?
Nada. É só uma foto que tirei de um simpático vendedor de castanhas de caju na praia de Boa Viagem. Ele vende castanhas, eu, o meu segundo livro.



domingo, 8 de abril de 2012

Sobre idas, vindas e o silêncio água de Deus


Na ida conversamos quase que todo o tempo em francês. Minha prima tem um francês intermediário como o meu, apesar do meu estar mais destreinado. Tenho cuidado disso. Na volta, continuamos os assuntos da ida, com mais pausas dramáticas, silêncios confortantes e desconfortantes, revelações e confissões simples de quem tem intimidade pra isso e sabe do desejo do Bem. Sobre um assunto que durou muito, já na volta:

– Sabe uma coisa que não me acostumei ainda?... é que pra mim, tudo bem ir ao Sushinaka sozinho, ir a um boteco sozinho, ao cinema sozinho (aliás, até prefiro, dependendo do tipo do filme)... mas uma coisa me incomoda muito muito mesmo. É justamente isso... é chegar de uma viagem. A minha maior depressão é quando chego de qualquer lugar (principalmente de uma viagem mais longa) e tenho, instintivamente o reflexo de pegar o celular pra ligar, avisando que cheguei...

...

É aí que me dá o maior vazio, é aí que o real se apresenta mais cru, mais real, mais oco, mais menos:
pra quem? Pra quem mesmo eu devo ligar? Eu até sei pra quem quero, mas pra quem devo? Pra quem vou? Quem espera a minha ligação?

Silêncio no carro.

Este, nem confortante, nem desconfortante, apenas claro, límpido, verdadeiro, transparente.

Um silêncio água.

Toca o celular. Atendo e é Alessandra, esposa do meu primo:

–Ei Lê! Que saudade! Vocês voltaram de viagem? Aqui, deixa eu te ligar assim que chegar! Estou na estrada, pode ser?

Desligo. E minha prima:

–Hoje você tem pra quem ligar.

Outro silêncio água.

Engraçado como Deus liga pra gente até pelo celular, né?

terça-feira, 3 de abril de 2012

um pouco da nossa páscoa

Beatriz,
como papai não pode passar a páscoa com você ainda, vou pra fazenda da Tia Cenira, passar com o afilhado do papai. Sua mãe já recebeu a caixa que enviamos, com o cartão acima, e todos os presentes da nossa família. Tudo que tenho pra lhe dizer nessa páscoa está no cartão que sua mãe leu pra você, e que está na foto acima. Sua Tia Guigui lhe deu de presente um carrinho lindo, amarelo, o que mandei a foto pra sua mãe lhe mostrar. Coloquei ele no seu quarto, está uma coisa! Dá vontade de ver você em cima, brincando e curtindo. Estou levando 3 livros pra ler e um caderninho pra escrever umas coisas, que as coisas vão comigo, não deixo pra trás. Tudo vai comigo por onde ando, minha filha. Tudo me acompanha. Espero que a páscoa faça sentido, pra mim, pros outros, pra quem interessa, pra quem deveria saber o que significa páscoa.
Fique bem e em paz e saiba que por onde for, levo nosso amor. Que você tenha muitas histórias lindas pra contar, mesmo em sonho, nessa páscoa que Deus nos deu.
Um bê ijo do seu pai que lhe ama.

As cartas não mentem




Fui numa cartomante.
Ela me disse pra esquecer você.
Disse que tudo vai dar certo, que o amor é deserto, que o bem é o bom da gente.
A gente sente.
Sente na soleira da porta, sente na cama vazia, sente na mesa sem companhia.
Sente e espere o tempo mandar.
O tempo tem pó.
Voltei a sentir asma, voltei a saber dos meus pulmões,
a cartomante não vende balão de oxigênio.
Ô eu que suspiro.
Quando falta ar, é melhor se sentar.
Corre o vazio de existir pra fazer sentido e vira vento com seu movimento.
Somos só músculos, ossos, troços em fricção.
A cartomante não tem a cura não.
Cartas que adivinho, sopros da mente,
inspiro e piro, que suspiro é só da gente.
Meu coração é baralho, me embaralho esperando você cortar.
Aprendi a fazer mágica com as cartas do coração.
Em todas, sua foto pra quando você escolher tirar.
Quando tiro uma carta do peito, o jogo banguelo grita,
a criança chora, o velho agita,
e a brincadeira acaba para todo o sempre.

No baralho da cartomante, ninguém ninguém dá o morto.