sábado, 31 de março de 2012

Quadros



Fiz molduras para várias fotos. Fiz molduras para quadros.

Gastei um monte de dinheiro pra fazer as molduras. 

Misturas. Quadros que penduro na parede da mente.

São fotos, quadros, momentos, lembranças. São ritos da passagem, das marcas emolduradas do ser.

Eu tinha pessoas penduradas na geladeira. Mas fui obrigado a jogá-las no rio do esquecimento. 

Foram-se fotos, bilhetes, anotações, lembranças. Foram-se as danças. Talvez eu não chegue mais a dançar novamente. Talvez eu só dance na moldura do esquecimento. O rancor é o cimento da lembrança.

O meu desejo é que dança. Antes da primeira foto, antes do primeiro passo, antes de qualquer coisa, a escolha da moldura. Onde vamos emoldurar nossos corações? Em qual moldura vou colocar o meu último amor? Em qual moldura se coloca uma dor? Às vezes penso que as pessoas passam mais tempo escolhendo as molduras que  fazendo suas fotos, que pintando seus quadros, que vivendo algo a ser marcado pelo tempo do olhar. Quero um mundo sem molduras, uma vida sem molduras, um amor desenmoldurado, quero devolver meus quadros, minhas fotos, quero libertar as pinturas, os momentos, as pessoas, as estátuas da lembrança e ser só movimento, sem lembrança, só quero minha dança, quero que as músicas entendam de uma vez por todas que não é preciso acabar.


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