quarta-feira, 28 de março de 2012

O Quartinho de Criança


Amor de pai,
falta marcar na parede que você já está com 80 cm, com um ano e um mês.
Falta ficar em pé na marquinha pra me ajudar a marcar, que você já sabe como ficar em pé. Seus pés paralelos equilibram seu corpinho, seus bracinhos paralelos equilibram as coisas todas, sua risada equilibra seu pai. Ri que eu não caio, minha filha. Falta pegar os dadinhos e ver os números, ver os personagens da parede, pintados nele, falta esparramar os lápis da canequinha do Pernalonga no chão pro papai catar. Falta você sentir o peso do seu cofrinho de porquinho, que papai ainda não levou na Caixa pra abrir sua poupança de moedas. Nesse um ano, coloquei religiosamente todas as moedas de troco lá dentro e ele está gordinho como você, filha. Falta ver como a bonequinha da Tia Brenda Ligia dança alegre e venta sua cabeleira doidinha, igual a titia. Falta a gente fazer uma oração olhando pro oratório que aninha o espírito santo, minha filha. Tia Guigui pintou, papai colocou o espírito santo e pendurou uma seta do Caminho de Santiago. Falta experimentar sua poltrona roxa, que não tem graça a bunda do papai ficar entalada de novo, esperando sentado nela por horas, você entrar pela porta.


 Falta você pegar o Horácio grandão que a Tia Biba deu e papai pegar o pequenininho, pra você ver como o papai e o filhinho podem ser iguais sendo totalmente diferentes. Como podem ser diferentes, sendo totalmente iguais. Seu franzido da testa vai examinar o livrinho do Zoo de Guimarães Rosa, que ainda está no plástico enquanto volta a escutar sua caixinha de música que papai colocava no carro pra gente passear. Falta pegar de novo o barquinho amarelo, se lembrar do submarino e perceber que é um urso que está pilotando. Bernardo é urso forte minha filha. E sabe nadar. Nada o oceano inteiro se for preciso, nada até afogar se for preciso, continua nadando, nadando, nadando.


Falta o dragão correr atrás do sapo, falta o sapo virar príncipe na sua frente e eu ser seu príncipe até você crescer mais um pouco e achar os outros que tem por aí, bem mais interessantes, divertidos e atraentes que esse pai careta, quadrado, ciumento e medroso. Falta você descobrir que o papai não é o sapo, e sim o coelho, que corre atrás de você, minha chapeuzinho vermelho, enquanto caminha pelo seu, muito seu, Caminho de Santiago da vida, com setas amarelas de amor, que vou tentar colocar na sua frente sempre que puder. Falta deitar no travesseirinho do anjinho, brincar com a bonequinha preta de chuquinha, arrancar a cabeça da bonequinha mais feia e eu
te xingar um pouquinho pra ver você fazer biquinho.

Falta você pedir pra fechar a cortina verde, que tá muito claro, falta pedir pra abrir a verde, que tá muito escuro, falta a gente conversar sobre o claro e o escuro do quarto, do mundo, da vida, da gente, dos outros. Falta a gente brincar de passar por cima da bola, a independer do claro e do escuro do mundo. E inventar histórias, e desenhar na sua mesa amarela, que amarelo é legal pra incitar a criatividade. Ainda faltam as nuvens, minha filha, que decidi desenhar ontem quando fiquei brincando sozinhocomvocê no seu quarto. Acho que você vai gostar das nuvens que vou desenhar no teto e nas bordas das paredes.

Falta a gente mudar as letras de lugar, aprender a ler, escrever junto, escrever sozinho, mostrar e esconder os escritos, as palavras, as letras. Falta você descobrir que Beatriz começa com Bê, que Bernardo começa com Bê, que o amarelo combina com o azul escuro e o verde e o roxo só são escolhas, outras escolhas da vida...
Você gosta de girafa, minha filha? Papai vai levar você no zoológico pra gente ver a girafa de perto. Vamos ver ela tirar meleca com a língua e vou te lambuzar pra você ter nojo de mim quando eu imitar a girafa.

Tem um santíssimo na sua porta, minha filha. Tudo colocou ele ali. Tem um coração branco, pra não faltar pureza, tem um espírito santo pra não faltar o vento, tem um monte de pérolas pra falar que é rico, que o coração é nobre, tem o pingente pra não faltar o que move, o que brilha, o que encanta.
Tem o que não falta e um monte de coisa que falta, filha. Seu quartinho é um bom exemplo da vida. A gente faz a vida com amor, filha. Com o que falta e com o que não falta. Ainda bem que não falta um monte de coisa. Ainda bem que falta um monte de coisa. E é uma pena que, hoje, justo hoje, falte você. Mesmo assim, abri a cortina verde pra entrar bastante luz, tá?

4 comentários:

Brenda Ligia disse...

Isso, meu filho... abra mesmo as cortininhas verdes da Bia. Aliás, verde é esperança, né? Esperança de que não falte mais nada, um dia, em breve. E que seja enquanto ela ainda tá na casa dos centímetros marcados na parede. Esperança de que o AMOR entre no coração daquela que te priva dessa sua embriaguez de amor pela sua filha, B. Ter um filho é aceitar que um pedaço de você vai andar pra fora do seu corpo a vida inteira... agora taí o resultado, meu amigo: não tem mais jeito, você não é mais completo sem ela. Só metade, agora. Então, escreva. Poetize. Desenhe. AME. Bê, escuta o que tô te falando: NADA, mas NADA MESMO nessa vida inteira pode apagar o AMOR VERDADEIRO do coração de um pai. Ainda mais sendo você. Que menina de sorte, essa Beatriz... eu queria ter nascido sua filha, amigo amado. Que saudade!

Rachel Sant'Anna Murta disse...

Chorei, rindo, e ri, chorando de ver tanto amor. Beijinhos

Carla Vergara disse...

Pequena Beatriz,

O amor do homem é bruto.
O amor do homem no tempo sofre corrosão.
Mas teu pai é poeta e conserva um frescor de primeiro dia.
A tinta é fresca no teu quarto que eu vejo pela tela cibernética.
Presença que eu não dispenso é o jeito dele me olhar sempre novo,
mesmo quando meu cabelo não está novo e está desgrenhado
Falo com ele sem maquiagem. Faz tempo isso.
Falo com ele sem pena de mim e sem pena dele,
mesmo com todo sofrimento.
Lembro do dia em que ele me contou que você brotou.
Você brotou dele, Beatriz, da barriga dele, das entranhas dele, da vontade dele de amar corpo todo.
Seu pai era grávido, gravitava, alargou, voou.
Eu até quis ser dele, ser você.
Imaginando que isso fosse real, era tanto espaço de amor que eu até tinha medo de me perder, mas eu queria experimentar isso, todo este espaço.
Você sabe, Beatriz, que o seu pai desembrutece o meu amor?
Mesmo quando ele me chama de besta eu desembruteço, porque ele pode me chamar de qualquer coisa nesse sentimento todo. É bom poder ser todas as coisas ao lado de um homem. Muito mais de dentro de um pai.
Beatriz, você é pequena mas dentro dele é enorme. É mais que um quarto, é mais que uma casa, é mais que um corpo, é mais que as estradas, que os botecos que ele frequente, que as comidas que ele prepara e que um dia você vai se fartar, brindando uma taça de vinho e o amor que pode ser sempre novo.
Eu queria te dar um beijo de mãe agora. Um beijo de mãe que ama o seu pai. Queria que ele sentisse a gratidão de ter me proporcionado um filho. E queria botar o seu pai no colo e amamentar desse amor que escorre, escorre, escorre, nunca acaba, infinito, inundado de vida, afeto e cura.
Beatriz grande. Pai pequeno.
Pequena Beatriz. Grande pai.
O amor não tem esta hierarquia que te apresenta o mundo. Não tem.
O amor é livre, Beatriz. E lindo.
O amor é vento sem distância sem tempo sem idade sem brutalidade.
O amor nasce todo dia.
Feche os olhos se alimente do desejo desse pai de te ter ver criar brincar.
Você é cada palavra que ele profere para um mundo melhor.

Amor.

Bê Sant Anna disse...

Sou grato pelos comentários amorosos. Tia Brenda, ainda vamos brincar muito com a bonequinha linda! Carla, que texto poético lindo!!! Minha pequena já nasceu filósofa! Precisa ver que olhar é aquele! Aposto que vai curtir sua poesia e ir pra praia com o Lucas, menino do Rio! :)
Bê ijos carinhosos nas três!