sábado, 10 de março de 2012

O Arco-íris da Lua




20km/h.

A estrada da Matinha está escura. A lua ainda não nasceu, a noite sim, e passo bem devagar pra sentir seu cheiro e seu breu. Fui antes da lua, fiquei com medo que aparecesse e fizesse o que fez comigo essa semana.

Ouvindo meu pai tocar acordeón, pensei nas ausências ali tão presentes, pensei nos presentes da vida, nos que comprei, nos que ganhei. Nos de grego, eu, troiano, aceitando, de coração.

O coração é uma espécie de baú da gente.

A estrada da Matinha está escura e não ligo o rádio.

Ainda ouço Marcela cantando El Dia Que Me Quieras. Ainda lembro o que pensei quando ouvi Marcela cantando El Dia Que Me Quieras.

Transe.

A música me tomando a alma, começo a meditar. Começo a me ditar. A música, a alma, a voz, o acordeón, a língua, os sentidos, as respirações em volta, o nada entre as respirações, o tudo no nada. O corpo relaxado, o sentido desperto, a razão se vai, a consciência...
De repente, a rede amarela pesa com o tranco: é você sentando em meu colo abruptamente. De azul. Já num abraço, num beijo, no cheiro, no balanço... como se viesse dizendo: demorei?... ou: surpresa!... ou: cheguei! ... átimo.

Um salto e a música volta, a voz volta, a respiração de todos voltam, inclusive a minha. Pêlos eriçados e um  suspiro. Consciência que vem deitar comigo na rede e deita em meu ombro sem ser convidada.

Vejo os olhares do bem a me confortar, vejo, olhar de bem a me conformar, vejo... viejo.

Relendo ontem Guimarães: "Toda saudade é uma espécie de velhice..."

É, talvez seja isso, ao lado de tantos viejos, vejo, saudoso, que envelheci. Mais um pouco.

E, curiosamente, Deus brinca de malvado comigo, pedindo pra bela Marcela a próxima música, que ela canta fabulosamente bem:


Somewhere Over the Rainbow...


E minha mãe ainda pediu pra eu esperar a lua.


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