sábado, 31 de março de 2012

Quadros



Fiz molduras para várias fotos. Fiz molduras para quadros.

Gastei um monte de dinheiro pra fazer as molduras. 

Misturas. Quadros que penduro na parede da mente.

São fotos, quadros, momentos, lembranças. São ritos da passagem, das marcas emolduradas do ser.

Eu tinha pessoas penduradas na geladeira. Mas fui obrigado a jogá-las no rio do esquecimento. 

Foram-se fotos, bilhetes, anotações, lembranças. Foram-se as danças. Talvez eu não chegue mais a dançar novamente. Talvez eu só dance na moldura do esquecimento. O rancor é o cimento da lembrança.

O meu desejo é que dança. Antes da primeira foto, antes do primeiro passo, antes de qualquer coisa, a escolha da moldura. Onde vamos emoldurar nossos corações? Em qual moldura vou colocar o meu último amor? Em qual moldura se coloca uma dor? Às vezes penso que as pessoas passam mais tempo escolhendo as molduras que  fazendo suas fotos, que pintando seus quadros, que vivendo algo a ser marcado pelo tempo do olhar. Quero um mundo sem molduras, uma vida sem molduras, um amor desenmoldurado, quero devolver meus quadros, minhas fotos, quero libertar as pinturas, os momentos, as pessoas, as estátuas da lembrança e ser só movimento, sem lembrança, só quero minha dança, quero que as músicas entendam de uma vez por todas que não é preciso acabar.


quarta-feira, 28 de março de 2012

O Quartinho de Criança


Amor de pai,
falta marcar na parede que você já está com 80 cm, com um ano e um mês.
Falta ficar em pé na marquinha pra me ajudar a marcar, que você já sabe como ficar em pé. Seus pés paralelos equilibram seu corpinho, seus bracinhos paralelos equilibram as coisas todas, sua risada equilibra seu pai. Ri que eu não caio, minha filha. Falta pegar os dadinhos e ver os números, ver os personagens da parede, pintados nele, falta esparramar os lápis da canequinha do Pernalonga no chão pro papai catar. Falta você sentir o peso do seu cofrinho de porquinho, que papai ainda não levou na Caixa pra abrir sua poupança de moedas. Nesse um ano, coloquei religiosamente todas as moedas de troco lá dentro e ele está gordinho como você, filha. Falta ver como a bonequinha da Tia Brenda Ligia dança alegre e venta sua cabeleira doidinha, igual a titia. Falta a gente fazer uma oração olhando pro oratório que aninha o espírito santo, minha filha. Tia Guigui pintou, papai colocou o espírito santo e pendurou uma seta do Caminho de Santiago. Falta experimentar sua poltrona roxa, que não tem graça a bunda do papai ficar entalada de novo, esperando sentado nela por horas, você entrar pela porta.


 Falta você pegar o Horácio grandão que a Tia Biba deu e papai pegar o pequenininho, pra você ver como o papai e o filhinho podem ser iguais sendo totalmente diferentes. Como podem ser diferentes, sendo totalmente iguais. Seu franzido da testa vai examinar o livrinho do Zoo de Guimarães Rosa, que ainda está no plástico enquanto volta a escutar sua caixinha de música que papai colocava no carro pra gente passear. Falta pegar de novo o barquinho amarelo, se lembrar do submarino e perceber que é um urso que está pilotando. Bernardo é urso forte minha filha. E sabe nadar. Nada o oceano inteiro se for preciso, nada até afogar se for preciso, continua nadando, nadando, nadando.


Falta o dragão correr atrás do sapo, falta o sapo virar príncipe na sua frente e eu ser seu príncipe até você crescer mais um pouco e achar os outros que tem por aí, bem mais interessantes, divertidos e atraentes que esse pai careta, quadrado, ciumento e medroso. Falta você descobrir que o papai não é o sapo, e sim o coelho, que corre atrás de você, minha chapeuzinho vermelho, enquanto caminha pelo seu, muito seu, Caminho de Santiago da vida, com setas amarelas de amor, que vou tentar colocar na sua frente sempre que puder. Falta deitar no travesseirinho do anjinho, brincar com a bonequinha preta de chuquinha, arrancar a cabeça da bonequinha mais feia e eu
te xingar um pouquinho pra ver você fazer biquinho.

Falta você pedir pra fechar a cortina verde, que tá muito claro, falta pedir pra abrir a verde, que tá muito escuro, falta a gente conversar sobre o claro e o escuro do quarto, do mundo, da vida, da gente, dos outros. Falta a gente brincar de passar por cima da bola, a independer do claro e do escuro do mundo. E inventar histórias, e desenhar na sua mesa amarela, que amarelo é legal pra incitar a criatividade. Ainda faltam as nuvens, minha filha, que decidi desenhar ontem quando fiquei brincando sozinhocomvocê no seu quarto. Acho que você vai gostar das nuvens que vou desenhar no teto e nas bordas das paredes.

Falta a gente mudar as letras de lugar, aprender a ler, escrever junto, escrever sozinho, mostrar e esconder os escritos, as palavras, as letras. Falta você descobrir que Beatriz começa com Bê, que Bernardo começa com Bê, que o amarelo combina com o azul escuro e o verde e o roxo só são escolhas, outras escolhas da vida...
Você gosta de girafa, minha filha? Papai vai levar você no zoológico pra gente ver a girafa de perto. Vamos ver ela tirar meleca com a língua e vou te lambuzar pra você ter nojo de mim quando eu imitar a girafa.

Tem um santíssimo na sua porta, minha filha. Tudo colocou ele ali. Tem um coração branco, pra não faltar pureza, tem um espírito santo pra não faltar o vento, tem um monte de pérolas pra falar que é rico, que o coração é nobre, tem o pingente pra não faltar o que move, o que brilha, o que encanta.
Tem o que não falta e um monte de coisa que falta, filha. Seu quartinho é um bom exemplo da vida. A gente faz a vida com amor, filha. Com o que falta e com o que não falta. Ainda bem que não falta um monte de coisa. Ainda bem que falta um monte de coisa. E é uma pena que, hoje, justo hoje, falte você. Mesmo assim, abri a cortina verde pra entrar bastante luz, tá?

terça-feira, 27 de março de 2012

O Ninho da Coruja




Tem um ninho de Coruja no meu coração. 

Da Grande nasceu uma Corujinha que acabou de acordar e alçou seu voo do mais alto despenhadeiro. De Corujinha, virou Coruja. E sua mãe, de Coruja virou Corujona. Eu, lagarto, não sei voar. Ousei querer acompanhar a troca de penas, a muda, o novo viço, o pio, o grito, enquanto suas pupilas se contraiam pela luminosidade do sol, que veio pra esquentar as asas. Quando voou, sua mãe leu pra mim o texto que achou no ninho, e me pediu pra cravar aqui, na minha montanha de sonhos, como homenagem da mãe à jovem e bela Coruja em curva perfeita no céu:

"Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Quero muito ser. Ser sempre.
Eu gosto muito. Eu gosto muito de tudo, de todos. Me perco! Vivo num fluxo gigante de idéias que carregam meus pensamentos e os levam para uma dimensão que nem eu mesma entendo. Da maciez de todos os atos, da pele vem a música, a poesia que completam um todo, um meio e o redor.
Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Ser sempre.
Quero tanto pecar e não sofrer. Eu não sofro. Quero soprar velas infinitas em bolos de coberturas doces. Ah, como é grande a minha vontade de estudar todas as línguas. Como é grande a minha vontade de passear no passado. Como é grande a minha vontade de entender a física quântica. Como é grande a minha vontade. Tenho tanta vontade. Tenho tanta vontade que não cabe. Não cabe mais nada dentro de mim. Não consigo prestar atenção em nada. Minha vontade é tão grande. Tenho muita vontade. Dentro do meu peito tem uma borboleta que bate as asas e voa até onde os olhos se perdem. Sou feita de líquido vermelho, quente, ardente. Corrente de vento, de água. Corrente corrente que corre. De saias floridas, óculos escuros, verão, inverno, primavera, ontem, hoje e amanhã. Todas elas, todos eles, tudo aquilo, isso, outro. Sem ver. Sem ouvir. Quero sentir, ah. Quero não precisar respirar, não precisar pensar em nada. Que se danem as minhas necessidades humanas, que se dane a minha humanidade. Que vontade que eu sinto de tocar e não pensar.
Que vontade que eu tenho. Não quero promessas, promessas são dívidas e eu quero me livrar disso tudo. Me encontra no seu passado, me faz seu futuro, me engole no presente. Todos os dias fundidos no ontem, no amanhã, no depois. Dia de nascer, expulsar-se para o mundo, cantar e chorar pra todo mundo ver. Que toda manhã seja um novo nascimento. Que todos os dias me acordem sem lembrar de nada, lembrar é muito bom. Esquecer também.
Passar debaixo da escada dá um medo. Tenho medo de escuro, pavor de altura e horror de cobra, escorpião. Tenho um medo absurdo de que meu dentro saia por um poro. Que meu carnaval interno se transforme numa poeira colorida brilhante para todo mundo pisar e se banhar.
Quero me banhar no banho dos outros. Quero ser os outros, eu sou os outros, sou todo mundo. Todo mundo tem um pedaço meu. Quero meu nome tatuado em todos os pescoços, minha tinta gravada nas paredes e muros. Quero ser eu e ninguém. Casa, comida, roupa e cara lavada.
 Mensagem no celular, eu te amo. Eu amo muito, amo tanto, amo tanto, quero tanto. Amo tudo. Não quero virar estatua no meio da praça, quero virar um buquê de flores. Ler todos os pensamentos e não saber de nenhum. Viver pra sempre é um pesadelo, o fim é inevitável. O fim longe, isso sim. Ter tempo é muito bom. Ter tempo para pensar sobre os homens das cavernas. Quero ver no escuro, seguir meu cheiro no final do túnel.  Canalizar.
 Tudo o que eu quero nessa vida é ser. Quero muito ser. Ser sempre. Eu gosto muito. "

Ah, que voo lindo é esse, que não me é permitido acompanhar... ouso apenas amar o curso, acompanhar as parábolas perfeitas que voam vento na simplicidade entusiasmante de ser. 

Coruja, não queira mais ser. Porque é. Sempre foi. Estava lá. Está hoje. Queira, por isso, só estar. O Presente do ser é o estar. Por isso vem no embrulho com laço. Se o fim é inevitável, o estar. Aprendi isso a duras penas... e olha que sou lagarto. Queira sempre e só ESTAR.

E, talvez, a pista semântica e fonética nos dê o caminho... Star! 

Encontrei a palavra EU em sEU voo. De longe perto, lhe fito com o meu carinho.


domingo, 25 de março de 2012

A receita do inferno




Terceira série do primário, aula de religião, e um aluno comenta, após a explanação do professor:
 - Ah, professor, mas toda vez que eu deito na cama à noite e começo a rezar, eu durmo.
E o professor:
 - Ótimo, quer dizer que você dormiu em oração!

***

Em outra aula, indagado pelo o quê era o inferno:
 - Acho que a melhor maneira de se entender o inferno é pensar em uma mesa posta. Sabe, daquelas mesas de natal mais lindas do mundo? Pois então! Com peru suculento, um delicioso pernil, um arroz de forno, o melhor vinho tinto servido nas taças, uma farofa de frutas bem rica, uma bela e sortida salada, todas as castanhas, uma tábua de frios como nunca foi vista, um grande filé com um molho de cogumelos, os pratos todos já servidos, o melhor linho, os melhores cristais, os talheres de prata e você ali, sentado, com muita fome. Acontece que, inexplicavelmente, já que suas mãos não estão atadas, você não consegue apanhar nenhum alimento, não consegue pegar sua taça, não consegue pegar o seu prato, não consegue fatiar nada, não consegue encostar em uma travessa sequer. Sente o cheiro de tudo, está faminto, sua boca se enche d'água, mas por mais força que faça, algo lhe impede de saborear toda e qualquer iguaria em sua frente...
Pensei muito sobre isso durante muito, muito tempo.

***

Uma coisa é entender. Outra é compreender. À época, depois de refletir, entendi bem o que o professor de religião havia dito. Hoje, compreendo perfeitamente.

Da grade da vida, vejo-a de perto.
E para o jantar de hoje, Ora pro nobis.


sexta-feira, 23 de março de 2012

Em Breve




Quase quase pronto, meu livro 2 me chacoalha.
Escrito, revisado, zelado, carinhado, se apresenta pro que veio.
Veio por você. Tem você no agradecimento. Tem quem me faz ouvir, quem me faz falar, quem me faz pensar, quem me faz calar. Tem um pouco da minha filha, um pouco do meu amor, um pouco do medo, um pouco da dor, tem um pouco muito de muito pouco.
Mas de uma verdade que me interessa. Aprendamos com Robert Frost na estrada amarela de outono.
Eu, folha seca, me desprendo da árvore a empreender a espera.
Sou fera. Besta mesmo.
E através do conceito difundido na mente, somente, quem precisa.
Quem vai comprar meu livro? Quem vai ler? Quem vai escutar o que ali pulsa, a independer dos humores alheios? Quem vai dizer obrigado? Quem vai pedir perdão? Quem vai pensar que o amor merece amor, merece amor, merece amor? Há risadas no mundo deliciosas. Deliciosas como você nunca viu ainda, pode crer. Sonho, acordo, faço café, acordo. Escrevo. O verbo crer é conjugado no meio da escrita. O pretérito perfeito veio antes de abrir o meu laptop.
Olho por vários minutos, as mesmas fotos da minha filha. O dia começa sem tudo que quero. Tudo dentro, tudo centro, tudo equilibro e equilivro, a poesia está no meu dia-a-dia. Basta olhar. Você já procurou a sua?
Vou ali correr, depois trabalhar e no intervalo entre uma respiração e outra, ouso sonhar.
Bom dia.

terça-feira, 20 de março de 2012

Haikai do espelho




o sal da idade se chama saudade



domingo, 18 de março de 2012

Se O acaso me quiseres



Acordei a primeira vez 1:00h. Virei, abracei minha filha e dormi. Depois, 5:00h.
Tateei, e você não estava do meu lado direito. Abracei você e dormi novamente.

Levantei às 7:00h. Pra quem tinha ido deitar 21:30h no sábado, tinha sido quase um recorde mundial. Coloquei a blusa branca comprida, a camiseta do grupo de corrida, uma sunga, a bermuda de correr por cima, meias sem cano, tênis que sua mãe me deu, óculos de correr que minha irmã me deu, o Ipod que ganhei de sua última viagem, boné e estava pronto pra tomar meu café. Fiz um ovo quente. Lembrei que há 5 meses não levo um café na cama. Café na xícara nova do Neruda, que o Peregrino me deu de uma viagem que fez, sanduba de queijo no pão invertido, criação minha, uma espiada na janela pra ver em que pé que tava o clima externo, já que o interno tava nublado.

Bê ijo na Beatriz de bom dia e lá vou eu, pro tratamento psiquiátrico matinal, 15km no Belvedere, dessa vez sem passar nas quaresmeiras da Zuzu Angel.

Mínimo de 6:15, máximo de 4:40. Peguei 40% de subida. É que fui na portaria da Vale, peguei a estradinha do meu sonho, passado presente, inspiro, expiro e suspiro.

A cadência me fala da vontade de não morrer hoje. O pai da Elke Maravilha, amiga antiga, dizia que a gente não morre no dia que espirra, contava ela. Hoje eu não espirrei. Mas corri 15km. Acho que 15km valem um espirro.

A chuva interna passou pra fora. E quando terminei, suado, tomado de vida, vívido de sangue corrente, torrente de mim que acredita, começa a tocar. Quando olhei finalmente pra cima, e vi os prédios todos em prece, enquanto a chuva pingava suas bênçãos pra quem deixa no shuffle sem preconceito e espera o recado do acaso: http://www.youtube.com/watch?v=iQ_W22lnzLQ&feature=related

Domingo mínguo, e o acaso me chama. A chama.

Sou grato, meu Deus, por poder correr e saber de amar.


sexta-feira, 16 de março de 2012

Quando Esgarça




são letras que esperam ser digitadas.
palavras que escapam da ponta dos dedos.
frases ocultas, reveladas pelo mistério da escolha.
em todas as letras, procuro seu nome.
as construções verbificam minha dor.
os versos palavreiam sua falta.
as estrofes me contam nada, o sono do ser.
vontade de deitar, de dormir, de sonhar pra sempre o sono de não ser.
há água fria, há comida gelada, há falta de sal.
o abraço no travesseiro atravessa a madrugada de um carro que passa lá no longe.
um ônibus.
um gato.
um cachorro que pasta, pastoreando as ovelhas que não pulam minha cerca.
o primeiro passarinho bem que podia ser a cotovia.
mas é só o pardal que anuncia.
mais um dia vazio, mais um dia esperança.
mais um dia sem dança.
mais um dia sem graça, sem garça, sem praça.
mais um dia sem a poesia de amanhecer com você.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Adiós Noniño

o resto do tempo aproveita a sobra do almoço.
o sangue da vida resolve a medida das dores que sente.
o lado ferido mela o encontro
que pranto
foi, sem sentido, encontro marcado
com nada, nada não
sapato vermelho, camisa azul
o melhor do melhor pra mulher que mulher
e só.
em conto, só na mente, solamente
sol lá mente: nada de luz, o br eu da ag oni a 
nem um dia
e nunca m ais m ia...




segunda-feira, 12 de março de 2012

O Tempo e as Asas




as asas do tempo se abrem.

querem voar, querem bater, 
planar longe do estar.

as asas do tempo vastas, 
as asas do tempo amplas,
distantetensas, lembranças
tácitas, húmidas, túrgidas.

as asas do tempo brotam nas costas do menino.

as penas do mundo nas asas do tempo.
as penas do humano,
o insano,
o pequenino.

são dores de nascimento, as asas que brotam,
que rompem a pele nos olhos das costas,
que rasgam e crescem, avolumam-se destino e o peso das asas,
as asas do tempo,
o tempo das asas
e o vento...

vento que sopra, asas do tempo,
distância e ânsia, as asas do tempo.
são brancas, são leite, vermelhas, são sangue.

são do meu tamanho as asas do tempo.

o voo que anuncio,  o mar da distância
vai ser o caminho das asas do tempo.

o trigo, o pão, a água, a carne...
o sal do meu corpo, nas asas do tempo,
temperam a espera do hoje do amor:
um dia é presente, um dia que chega,
um diadestino de comemorar.

as asas do tempo a me partir novamente,
eu semente, espero brotar.




sábado, 10 de março de 2012

O Arco-íris da Lua




20km/h.

A estrada da Matinha está escura. A lua ainda não nasceu, a noite sim, e passo bem devagar pra sentir seu cheiro e seu breu. Fui antes da lua, fiquei com medo que aparecesse e fizesse o que fez comigo essa semana.

Ouvindo meu pai tocar acordeón, pensei nas ausências ali tão presentes, pensei nos presentes da vida, nos que comprei, nos que ganhei. Nos de grego, eu, troiano, aceitando, de coração.

O coração é uma espécie de baú da gente.

A estrada da Matinha está escura e não ligo o rádio.

Ainda ouço Marcela cantando El Dia Que Me Quieras. Ainda lembro o que pensei quando ouvi Marcela cantando El Dia Que Me Quieras.

Transe.

A música me tomando a alma, começo a meditar. Começo a me ditar. A música, a alma, a voz, o acordeón, a língua, os sentidos, as respirações em volta, o nada entre as respirações, o tudo no nada. O corpo relaxado, o sentido desperto, a razão se vai, a consciência...
De repente, a rede amarela pesa com o tranco: é você sentando em meu colo abruptamente. De azul. Já num abraço, num beijo, no cheiro, no balanço... como se viesse dizendo: demorei?... ou: surpresa!... ou: cheguei! ... átimo.

Um salto e a música volta, a voz volta, a respiração de todos voltam, inclusive a minha. Pêlos eriçados e um  suspiro. Consciência que vem deitar comigo na rede e deita em meu ombro sem ser convidada.

Vejo os olhares do bem a me confortar, vejo, olhar de bem a me conformar, vejo... viejo.

Relendo ontem Guimarães: "Toda saudade é uma espécie de velhice..."

É, talvez seja isso, ao lado de tantos viejos, vejo, saudoso, que envelheci. Mais um pouco.

E, curiosamente, Deus brinca de malvado comigo, pedindo pra bela Marcela a próxima música, que ela canta fabulosamente bem:


Somewhere Over the Rainbow...


E minha mãe ainda pediu pra eu esperar a lua.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Sobre mulheres e marcas




Cada uma a seu jeito, algumas marcaram. Me marcaram, marcaram rumo, caminho, mundo, destino, desatino, medida, mesmo que desmedida de ser.

São elas, as mulheres, que fazem do dia de hoje um dia igual ao de ontem: um dia mais cheiroso e gostoso.

Claro, porque... o que seria do mundo sem as mulheres?

Certamente, menos dramático, menos intenso, menos tagarela, menos fricotento, menos fresco, menos chato, menos irracional, menos conflituoso, menos surpreendente.

E também menos colorido, perfumado, lindo, sedutor, mágico, suave, amoroso, zeloso, delicado, sexy, erótico, forte e transformador.

O mundo sem as mulheres não dá. Numa boa, não dá mesmo. Mesmo de burca, conseguem encher o mundo de charme. Porque, por mais que tenhamos dificuldades em entendê-las, são elas que nos movem, a verdade é essa. Por um motivo ou outro, elas são o nosso verdadeiro motivo. E encantam.

A mala, a lama e a alma: foram as mulheres que me marcaram, cada uma por uma razão, ou falta dela. Talvez alguma que me marcou esteja lendo este post neste exato momento. Talvez ela pense: marquei ele porque o fiz feliz. Ou o marquei porque o fiz mais intenso, ou porque o fiz pensar, ou porque o fiz se transformar, ou porque nos transformamos juntos, ou porque o fiz mais verdadeiro, ou menos medroso, ou porque o ensinei a não falar de boca cheia (não, se bem que minha mãe não lê meu blog). Talvez seja uma mulher que não me conheça e pense: eu também poderia marcá-lo, como marquei fulano... em suma, acho que as marcas do mundo tem muito a ver com a presença das mulheres. Sulcos profundos, rugas de expressão, feridas abertas ou fechadas, feridas cicatrizadas. As mulheres e suas espadas. As mulheres e seus escudos. Seus ninhos, suas asas. Suas madeixas e suas me deixas.

Tenho tentado, sem sucesso, entendê-las, ser parte e tomar parte de suas vidas. Sou só parte. Partido, tenho partido muito. E não queria que fosse assim. Não mesmo. Tudo que queria. Que parte fosse inteiro, inédito, novo, suave e com pouco tropeço. Peço: que as marcas sejam na areia. Como as que fiz, talvez, como as que fiz...


terça-feira, 6 de março de 2012

As sépalas da guajava




a goiabeira da flor
dá goiabeira,
dá flor,
dá vento de qualquer maneira,
dá pro meu amor a noite inteira
e adormece.
a goiabeira da flor dá goiabeira,
beira da borda, da margem,
Davi da vida, videira,
e os cachos de dedenrolar.
a flor que venta dos cachos,
as uvas do vento, o sinal,
o tempo das ilhas no mar,
mar austral,
que brinca de atravessar,
seu farol.
é doce a flor de goiaba
é dúvida a uva,
é luz
que conduz,
estrada da lua no mar.
é só seguir,
navegando,
sentindo as ondas,
a mando.
o papel, o lápis,
e os tantos desejos molhados,
que brincam na areia do ser.

(para a ilha que tem uma goiabeira em flor, lá no sul do Brasil)
*imagem de flor de goiabeira de sonia brandão capturada na internet para ilustrar o poema

domingo, 4 de março de 2012

Sobre Janelas e Penas




O menino do adulto fechou a porta. Mas deixou a janela aberta.

Quer que o passarinho atravesse a expectativa do tempo, e voe quarto a disparar o coração dos sentidos.

Ele ali. Menino, adulto, menino. Olhando coração na boca, enquanto o passarinho se debate parede, ofega batente da porta, a questionar os sentidos.

Não sabe se voa, não sabe se lançar pela janela, não sabe se a janela é pequena demais pro tamanho do mundo.

Que aguarda.

Não, o menino não voa. Dizia do passarinho.

O passarinho menino é adulto, a janelar esse mundo.

A porta fechada do ser, adulteia o voo do menino, à espera do gato, que do muro da noite reclama as penas do mundo.


quinta-feira, 1 de março de 2012

o que são três pontinhos no cantinho do quarto




ela demorar no banho ser vidrada em cotonete abraçar o meu tamanho que menor, um desperdício despedir-se num sorriso encontrar o que preciso me presentear com o sonho do meu beijo em sua boca despir-se num sorriso ser preciso que preciso puxar o cabelo da vida pra não morrer mais à noite porque desfeito porque defeito porque não feito conciso algo mais do que o destino tudo que eu necessito ela escolher o chá saber tudo da viagem viajar e retornar e cuidar porque bagagem disparar o coração na dança, envolvimento no passo do nosso encontro o choro desse momento pão preto, queijo de cabra cerveja gelada e risada encontro minha jornada do lado aquela porta atravesso e do avesso fiz-me tudo para tudo morto vivo, sou escudo pra tudo que desconheço sou só, velejar nesse mar que o amor soube mostrar e que profundo sem luz sinto a presença dos peixes peixões, paixões se misturam gritar na água é só bolhas de onde respiro o ar? pra onde devo nadar? afogado na lembrança de estar, de conviver escova o dente até sangrar e virar vento pra lua meu São Francisco dos peixes é mar de choro essa dor na feliz cidade morar pra sempre, com meu amor e encanto, lhe canto só no canto da existência com fundo, dor e alegria é só você minha essência doente que quer doutor ferida que cura, amor, estudo porque és tudo e sinto o desespero de há mar por todos os lados, por todos os poros, por todos os sonhos, por todos os gostos, por mim, pelo euvocê que vocêu me amedronta e escuto as estrelas à noite que me dizem que há caminho, porque quando atropelado da vida pelado pra sempre em si e de dia e de noite e entardecendo, entardescendo, entardesendo muito com vontade de ser só uma pessoa melhor, menos burra, menos turra, mesmo sua porque esse mundo é muito melhor porque, e só porque tem uma pessoa chamada você.