quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Balanço das horas



Mais um filme para ser avacalhado por mim em um post. Ou melhor, mais um pra não ler se não tiver visto o filme "tão forte e tão perto".

Sou pai. Esse já seria um motivo suficientemente bom pra que eu me tocasse com o filme, independentemente da tradução do título ser, pra variar, uma agressão. Aliás, eu gostaria muito de saber quem são os gênios que traduzem os nomes dos filmes pro Brasil. Gostaria de prestar a minha homenagem particular a eles. Entre quatro paredes, se for possível. Mas vamos voltar ao mote do post.

Sou pai e estou vivo. Sou pai, estou vivo, tive avô, tenho traumas, já tive dificuldade de relacionamento com meu pai, estou a 2300km de distância da minha filhinha de apenas um aninho de idade, não faço a mínima ideia de quando me será possível reencontrá-la... esses já seriam motivos suficientemente bons pra que eu fosse tocado com o filme.

Mas vai além disso.

Na cena do balanço, uma revelação.

Pra mim.

Não foi fácil ficar (literalmente) entalado no balanço na quinta antes do carnaval, quando tive a oportunidade de ver minha filha pela última vez, mas foi mais difícil ainda perceber a ausência do pai, na cena do filme e sentir uma relação muito minha com esta cena. Perceber que, por mais que eu queira, não depende só de mim para que eu esteja presente naquele balanço. Quero tanto, tanto, tanto balançar a minha filha... e me encontro muitas vezes só, na praça, a balançar um balanço sozinho, sem gargalhadas infantis, sem perda de fôlego, sem peso, sem cor. Fica só um barulhinho do ferro enferrujado, fundido e fudido, que vai e que volta esganiçado, na areia sem menino, sem luz, sem vida... Às vezes, não sei se sou só o balanço, a esperar que ela venha e se sente, que estou ali pra isso mesmo.

Nossos elos são tão fortes, minha filha, que posso esperar a vida inteira. Quando chegar, estarei pronto pra balançar. Daí, você vai sentir o vento por inteiro. Isso eu garanto.

Os elos do tempo são nada, perto do elo do amor.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

30 EMPADAS




Acordou com um desejo incrível de comer empadas.
Viu o sol, decidiu aceitar seu brilho. Mesmo pela sombra, caminhou até a praia, onde o mar a aguardava.
Inspirou. E começou a observar a vida: a menina gostosa que passava de patins e rabo de cavalo, o desdentado sorridente que varria a areia do calçadão, o casal americano de meia até a canela e tensão nos ombros, a menininha que queimava o pé na areia, o vendedor de mate, o grupinho de amigas excitadas, o solteiro, simples e solzinho que passava, o solteiro simples e sozinho que não passava, o vigia, o seu guarda, o au-au. No posto de sempre, no barulho de sempre, entre as bicicletas de sempre, perto das aposentadas de sempre, decidiu não sair dali até que o dia acabasse. E que o tempo a fizesse companhia, enquanto ardia o mormaço das horas e o menino fosse e voltasse vinte vezes na borda das ondas.
De vez em quando, abria a vasilha velha de sorvete e tirava uma empada. Todas douradas. Todas de frango. Todas com recheio molhado, com bem pouca azeitona pra não roubar o sabor, feitas com massa podre que esfarinhava na boca e caía um pouquinho nos seios e era preciso bater, pra não agarrar em cima do sutiã de redinha vermelho ou da tanga do biquini.
Preciso emagrecer, pensou ela. E pedir uma água de coco pra não entalar.
Enquanto o mar fazia carinho na praia, pensava no horizonte. Na linha reta, fina, reta, fina, longe, reta, fina. E em quanta empada ainda há pra se comer no mundo...




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Você faz Amor em 15 minutos?



Escreveria um livro sobre este carnaval.

Mas vou escrever só um post. A Árvore do Amor, de Zhang Yimou, filme que vi sozinho em Brasília, lugar para onde fugi, foi um presente mágico desses dias.

Fiquei com um pouco de pena do casal, que deveria ter aproximadamente 21 anos, cada, que saiu 15 minutos depois do filme começar. Fiquei com pena do mundo onde esse casal vive, mundo onde as relações são todas de consumo. Até as interpessoais. É difícil ver um filme como A Árvore do Amor quando as referências todas são balizadas pelo mundo do consumo. Há quatro meses sozinho, penso o quão difícil é estabelecer uma relação hoje em dia, em que não sejamos perpassados em algum nível pela tutela do consumismo. A roupa, o presente, a viagem, a pessoa, o status, o programa, consome-se tudo. E tem que ser rápido. O mundo do consumo não pode esperar. Aliás, não se pode esperar nem 15 minutos... onde já se viu? Em 15 minutos de filme um não consumiu o outro? Que saco... Deve ser chato mesmo.

Ela, Jing. Ele, Sun.

Meu lado fonético, linguístico e poético já fica com vontade de brincar e só consigo ouvir e ver "Jing" como um sino, um tilintar, um estalo, um flash que brilha... enquanto Sun, pra mim, vira o sol mesmo, iluminando a vida de Jing...

No filme, várias cenas maravilhosas. E olha que nem gosto de usar esse adjetivo.
E se você não viu o filme (e quiser ver) pare de ler agora.

A cena das mãos que se dão são poema à parte. A solução do graveto é incrivelmente bela. A lavagem dos pés, indescritível. A vontade do beijo, fascinante. Mas o que mais me tocou, sem dúvida alguma, foi seu abraço distante. Sun e Jing se abraçam em margens opostas em um rio. Há um rio entre eles, que corre, que lava, que leva. Da margem, do limite físico que os impele à distância um abraço comovido os une, pra sempre. Ninguém aparta esse abraço. Nem o rio, nem o tempo, nem a mãe, nem a dor, nem a doença, nem a morte. Foi Thomas Mann que disse que é o amor, não a razão, que é mais forte do que a morte. E esse abraço prova isso. Me senti abraçando minha filha, que vive a um rio de 2.300 km de extensão de distância. Me senti abraçando um amor que se foi, e que se foi nadando pro outro lado do rio, me senti abraçando as justiças do mundo, que sem elas não há, não pode, não dá. Abracei a mãe que quer o filho saudável, o pai que quer um emprego, a vó que só faz se maravilhar com a neta, a mãe que defende a filha sem saber a filha que tem, o menino que está com medo, a menina que não assume os erros, o amante que não sabe o que faz, o padre que acredita, o músico que ama seu trabalho, o casal que não sabe o que perdeu por ter saído tão cedo do filme e que não sabe que quando um tiver consumido o outro, tudo vai se acabar... Terminei por abraçar um espelho que, na outra margem, fincado na areia, reflete uma pessoa simples, só, cheia de defeitos, mas que sabe esperar mais que 15 minutos para amar pra sempre.

E vale ver o filme de novo, pra ver novamente o espelho e ficar atento à última fala...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre a finitude das coisas




O bom do meu segundo livro ainda não ter ido pra gráfica é que posso trocar a única dedicatória.






sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sol ela.














Céus do Planalto Central. 

Voando, vejo o pôr-do-sol. 

A terra negra, o céu azul acima das nuvens, o cinza das nuvens, o dorso alaranjado do mundo. O finíssimo contorno das nuvens brilhando luz, delineando formas. Há sombra, há luz, há clarão. O Sol escondido aparece em tudo que toca. Maravilhei-me de tudo. Penso vastidão do mundo, penso planalto central, penso visão além do alcance, penso vasto, profundo, eternamente momentâneo. Penso no amor presente nas coisas todas. 

Essa luz é amor, penso. Essa sombra é amor. Penso. A janelinha do avião é janela pra minha alma, que vasteia sem medida quando nada o rio abaixo, a correnteza me levando. 

Quão extenso é o mundo, quão misturado, quanta terra, quanto ar. Quanta imensidão de nada onde o tudo insiste em incomodar. Quanta beleza há? Um outro rio é outro, é mais bonito, é mais laranja e prateado agora, daqui, do céu da tarde que vai pra Brasília anoitecer. Penso níssimo. 

Como tudo pode ser tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, frente ao tamaninho enlouquecedor da minha muito filha? Será que Deus não vê que a fez do tamanho do mundo? O sol agora me sorri. Ele já pode iluminar a minha filha.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O único texto único.




Da mãe, estica os bracinhos. Abre e fecha a mãozinha, querendo pegar. Vou com meu pai, ela diz. Onda em meu peito em praia, Beatriz me cala, me calo, me colo. Soul solo. Ela não sabe do medo e da vergonha, das escolhas profanas, da pequenez dos homens. Não sabe das diferenças tantas, ela sabe de mim. Me tem e me vem, me voa e sou tudo aquilo que ela pode querer quando estica os bracinhos agora:
Sou sem demora.
Há mar, Beatriz. Independente de tudo. Preceitos refeitos, tenho a seta amarela do amor a apontar Santiago, que insiste em pedir: - Anda!
Ando.
Faço índiozinho batendo a mão na boca, estico a língua pra ela pegar, tiro e coloco os meus óculos vinte vezes vinte vezes, ela escolhe o símbolo do amor infinito que trago em meu peito pra brincar. Ela é sábia e sabe da sebe de Deus. Entrelaça caminhos, entrelaça destinos, entrelaça o há mar de ser menino.
Sou sino. Pranava Om.
Morte e vida, Severina, sou sina, sou só estar sem demora. No tempo do ser. Kairoz é noz que vigia, sou cria, sou pai, harmonia. Sou só oito, oitamante, a vibrar em festa, no tempo da dança da minha criança que estica os bracinhos. Ela veio sabida. E morri no abraço da minha filha ontem, biscoito de maizena que cato em cima da geladeira, brigadeiro de colher vendo sessão da tarde, banho de mangueira na garagem nas férias escolares, os lares, os ares, os suspiros do não ser. Sou só desejo, eu sejo, a mór.
Sou teu e meu, filha. E sei esperar pelo tempo dos homens.
Eu Caminho.






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Haikai da superação e aprendizado





O degrau que desafilha é despenhadeiro pro pai.



sábado, 11 de fevereiro de 2012

ENCONTRO




Folha em branco.

Do avião se ouve o vento. Recife continua distante, e meu coração perto longe atravessa a ponte da expectativa. Vou com ele. Um anjo me segue, me guia, me leva, me toca. São muitos desejos de bem, muitas mensagens de carinho, muita torcida pra que tudo dê tudo certo. Tudo sempre agora. Tenho asas no coração e na mente, voo pra perto pra sentir e ver que está tudo bem.
Tudo bem comigo, tudo bem com ela, o Eu Caminho mantra do Caminho de Santiago a me guiar cada passo.

Guias. Os anjos do caminho aparecem e vão mostrando a seta amarela que inspira e sacode a gente. Há pouca bagagem. Há pouco a levar, há pouco a buscar. Levo somente uma pedra de coração no meu bolso, que me achou no monte do perdão no Caminho de Santiago.
Lá.

Onde não sei. Não há mais o onde, não há mais o tempo, não há mais nada. No fragmento do tempo, o desejo do ser. Estando. Não há o que levar. Não há o que esperar. Há o amor em mim e o amor da minha filha que vai me ter um pouco num abraço nosso. Me tem por inteiro. Pode ser um gritinho agudo, pode ser um chorinho, pode ser um riso, pode ser uma carinha fechada com cenho franzido. Pode ser só abrigo. Pode ser um suspirinho, dos que ela cansou de dar em meu colo.

Pode ser que cale, pode ser que calo, pode ser que colo.

Pode ser que eu morra num beijo de Beatriz ou num sorriso do meu bem. Pode ser só o mar. E a borboletinha do mar a brincar ondas no meu peito em praia...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

No Castelo da Suiça se ouve Maracatu.



Cem anos.

Aniversário da minha avó Lygia.

Unhas vermelhas, brinco dourado, alegria incontestável. Meio espanhola (no espírito, porque ela na verdade é Neuschwander - Suiça), gosta de festa. Foi de quem puxei. Vovó traz na alegria o jeito de ver o mundo.

Mesmo depois de ter partido, me ensina. Sua filha, minha tia Margarida, viveu na França por muitos anos, quando não havia internet, quando o telefone era difícil, quando a França não era dentro do Skype. Era em outro planeta. Ela sabiamente, sabia que Longe é um lugar que não existe, como Richard Bach. E sabia que o importante é que sua filha estava dentro dela, independentemente da distância, e com saúde, e bem, e feliz. Mais uma lição que me dá, mesmo das estrelas, todo santo dia...

Minha avó gosta de gatos.

Curioso é pensar que ela partiu no dia 25 de fevereiro, curioso é pensar que foi no final da tarde, depois de passar o dia com a gente, quando foi levada por meu avô, Hélio, que já tinha partido há muito... Eu estava lá, ao lado dela, e acompanhei sua partida. Dei tchau, sentado na estação. Curioso é saber que foi levada no dia do aniversário do meu avô Hélio, dia 25 de fevereiro, também no mesmo dia de nascimento da minha bisavó do outro lado e, mais curioso ainda, o dia que minha filha nasceu. Quando a médica da mãe da minha filha disse que a marca dela era 8 de março, eu já sabia: dia 25 de fevereiro é o dia que ela chega. Afinal, a vida é muito curiosa.

Hoje, vou comemorar o aniversário da minha avó, que está muito presente, independentemente de ter partido. Vou de mãos dadas com ela amanhã pra Recife, encontrar minha filha que está em outro planeta. Afinal, com 11 meses, ela ainda não entra no Skype. Vai ser bom viajar com minha avó no coração, com a mesma alegria dela, repartindo sorrisos com o mundo, me divertindo levemente por estar vivo, por participar, por estar.

Vovó gosta de manga, de tomatão, de bife acebolado temperado com orégano, de bolo, de manjar branco, vovó gosta do meu abraço. Ela diz que o meu abraço é o melhor abraço de todos os netos. É o abraço que vou dar na minha filha quando conseguir vê-la depois de 130 dias. Minha avó adora o mar, assim como minha filha. As duas são garotas do mar, borboletas do mar, espuma das ondas.

Da Suiça, minha avó puxou só gosto do chocolate. Ela é assim, gostosa, doce, e faz a gente feliz.
Exatamente igual a minha filhinha de 11 meses, que me espera na torre do castelo.

Mesmo com 100 anos, vovó galopa comigo pela floresta, num cavalo tordilho, raios de sol e libélulas.




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Do Canto, da gente.



Sem ela e sem ela.
Sem os sonhos reais.
Somente os re-ais
que dóem.
De novo,
curtidos sem curtição.
Pele seca, sem colágeno,
rugas que se acumulam em dó.
Ainda riso,
sempre precisa,
volta a acreditar.
Mas dói e incomoda.
Sabe-se glosa sem mote,
trote,
sabe-se com pouco tônus,
compota de doce sem açúcar.
Vontade do gosto.
Não consegue explicar os desejos,
só ensejos do bem, que conta.
O querer toma conta do grito.
Aflito,
quer um abraço.
E mudo, calado, o fado de ais.
As belas dores do mundo
inspiram mais
quando são só cantos.




*na foto, a bela Mafalda Arnauth. http://www.youtube.com/watch?v=OOFe4Krv048

Vale conhecer: http://www.youtube.com/watch?v=DNllEchNyL4&feature=related


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Só nessas horas.




Quando escovo os dentes,
quando não uso escova,
quando tomo banho,
quando demoro um pouco,
quando cabelo no box,
quando água fervendo na pele,
quando cheiro de amêndoas,
quando toalha vencida,
quando toalha novinha,
quando passo perfume,
quando sinto perfume,
quando faço café,
quando saio correndo,
quando bandeja nova,
quando suco de laranja,
quando chá, quando ades,
quando um pouco de zona,
quando o dever me chama,
quando peixe cru,
quando sakê, quando pé,
quando falta de pêlo,
quando deitado, em pé,
quando falta de zelo,
quando zeloso com idoso,
quando estou em família,
quando estou nem aí,
quando nunca estive,
quando bebo cerveja,
quando converso com alguém,
quando sou só escuta,
quando desço uma rua,
quando entrando na garagem,
quando guardo meu carro,
quando arrumo a casa,
quando penso uma casa,
quando sei de mim,
quando me esqueço,
quando só foto,
quando só lembrança,
quando vinho, quando dança,
quando vou levantar,
quando acabo de deitar,
quando meu travesseiro,
quando penso solteiro,
quando penso em casar,
quando penso em amar,
quando sei do hiato,
quando rio,
quando mar,
quando moto, quando ar,
quando relógio, quando arco-íris,
quando chuva, quando sol,
quando francês ou espanhol,
quando penso e parto,
quando nunca fui,
quando corro, quando ando,
quando padaria,
quando comida árabe,
quando qualquer cozinha,
quando está gostoso,
quando tá bom aqui,
quando quero feliz,
quando todo dia hoje,
quando sempre penso em nunca,
quando amo,
quando odeio,
quando sou por inteiro,
quando eu,
quando só você,
quando queijo de cabra,
quando azeite, deleite,
quando sim e quando não,
quando meu pão,
quando carne grelhada,
quando chopp gelado,
quando abro janela,
quando pego estrada, quando criado-mudo,
quando vestido,
quando saia,
quando pingente,
quando encaixe,
quando rúcula, quando provisório,
quando planejo um sonho,
quando sonho um plano,
quando estou num avião, quando contra-mão,
quando ponho sandália de couro,
quando camisa rosa,
quando cueca nova,
quando susto, quando prosa,
quando sem camisa e sem calça,
quando nunca fui vestido,
quando carência, quando dormência,
quando gripe, quando dor de garganta,
quando canto,
quando estou no canto,
quando durmo pelado,
quando agora, neste momento,
quando palavra, quando ponto,
quando vírgula,
quando cachorro porque gato,
quando pelado na cozinha,
quando fecho a cortina,
quando abro a cortina,
quanto chego,
quando delicadeza,
quando queria que fosse só beleza,
quando bem, quando bom, quando belo,
quando é só farelo,
quando mais forte que tudo,
quando armário, quando computador,
quando email, quando celular,
quando nada disso, aí que lembro mesmo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

...






...





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Atropelado




Faltam 2 dias para um casamento cancelado.
2 dias para um quase amor eterno.
2 dias para um sonho que acordou no meio.
Faltam 3 dias para o ex-primeiro dia do resto de suas vidas.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sou biruta, Michelle.



Michelle Loreto, quer se casar comigo?
Você não é a moça do tempo?
O tempo brinca com a gente, Michelle. Não passa. Está sempre aqui. O tempo sempre. O clima muda. Mudamos pra não envelhecer. A chuva nos molha, o sol esquenta e o vento faz cócegas na expectativa do moço, que vê a moça atravessar a rua de saia. Você me dá bom dia enquanto penso no hoje, apesar do clima, independentemente dele. Biruta.
Você se dá bem com o tempo, Michelle? Aos 32 anos, ele se mostrou carinhoso contigo. Nem o sol de Recife, nem o alótropo triatômico de São Paulo deram conta da sua beleza. Assim como eu e minha poesia.
Acordo de acordo contigo. E escuto o que me espera no clima de hoje. Quero andar à pé, sou amigo da chuva, mas quero a dica da moça do tempo. Talvez me diga que a previsão não é de sol, é de riso, talvez me diga que o frio que envolve o corpo não arrefece a alma, que o agora é o tempo do somente, que a neve no Japão só serve para virar haikai no espírito de Matsuo Bashô.
Não há casaco para o outro clima, Michelle. É dele que espero ver você falando no meu ouvido, colada ao meu pescoço, não através do cristal líquido, do tubo de imagem, das ondas eletromagnéticas. Nosso magnetismo podia bem ser outro. Droga, já caí na tentação de pensar um futuro possível, Michelle. "Podia ser". Como se o futuro pudesse ser algum dia.
Estar ou star, Michelle?
Você, do tempo, sabe que o futuro não existe, Michelle. É como a morte. Caminhamos inexoravelmente para a morte sem nos desvencilhar da vida. E da expectativa da morte. A dicotômica noção nos dá as mãos enquanto caminhamos, uns mais lentamente que os outros. Caminhamos inexoravelmente para um futuro que não existe, colados no hoje. O presente a ser eternamente desembrulhado enquanto pensamos que o eternamente existe.
Quero suas dicas, Michelle. Quero que vá para fora das casas comigo e a gente possa olhar juntos o tempo.  A tarde que cai, a expectativa que cai, a máscara que cai, até a gente decidir se amar sem tempo pra acabar, já que o hoje finalmente vai ter mostrado sua cara pra nós. Com seu clima verdadeiro, sem mapas, sem previsões, sem projeções, sem gráficos. O tempo do olhar. O tempo da gente de mãos dadas, olhando o tempo, sentindo o vento, avermelhando a tarde e escurecendo a noite. A gente podia anoitecer num abraço, Michelle. E se casar só hoje. Enquanto o hoje existir e o tempo for bom, infantilmente leve como uma bolha de sabão.