domingo, 8 de janeiro de 2012

chiliquinho de menina




Deitado na cama da filha com os pés encolhidos.

Abraça-a como pode, ela não está lá. Sente o cheiro da roupa de cama lavada, que nunca foi usada, estendido lençol, que gatinhos rosas. Bonequinha preta, bonequinha bege, bonequinha sentada, de brinco, de pano. O travesseiro do engano.

Deitado, encolhido, castrado, ferido, opta por ser objeto do quarto, decoração que adorna, no canto.

Ilustração que ganha vida, da parede olha com olhos de "o que você está fazendo aqui?"
Giz de cera verde, giz de cera bonino, o bom menino amanhece nos braços do coelhinho de travesseiro.

Olhos de botão, cruz de lã, é novelo que fia a confiança de saber do Caminho. Segue ela no labirinto! - diz o elfo do quarto, Desenrola a lã pra ela, que ela é pequenina!, sabe o tudo.

No porquinho de moedas, o cofrinho que guarda os ensinamentos da provisão. Pro visão do futuro, pra visão do maduro, pra visão de vê-la entrando e se medindo na régua do tempo, que o Amor deixou de presente.

Pressente. Sabe que a caixinha de música não vai tocar agora, que o ursinho não vai girar sobre si mesmo,  sob o olhar do encanto, todo, pergunta sem resposta. O mundo não é resposta, o mundo é pergunta.

E o adulto insiste em confundir-se.

O tapete de letras coloridas aguarda ser pisado, assim como o sininho de dentro da espuma do dado desenhado. Nunca rodopiou expectativa no céu da alegria.

Hoje, um dia.

E a cabeça rodando parada, deitada que nana, que nina, enquanto o dragão azul insiste em correr atrás da Chapeuzinho Vermelho.

O Santíssimo da porta é Portal, a espera da grande travessia, um dia, menininha que chilique a pular.


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