sábado, 28 de janeiro de 2012

Carpinejar é quem tem razão



Hoje acordei com minha filha.
Fiz carinho nela, até que abrisse os olhinhos vivos e amendoados. Cílios que beijo.
Ela acorda lentamente. Ela acorde maior, na escala da vida.
Levantamos juntos, fizemos café, ela tomou café com leite desnatado comigo, colocou a roupa de corrida em mim, a minha filha. Juntos escovamos os dentes, descemos as escadas, chegamos ao bairro Belvedere. Não imaginava que ela fosse aguentar correr 16 km comigo, no mesmo ritmo, com apenas onze meses de idade. Deve ser um recorde mundial, imagino. Suamos juntos, juntos bebemos água. Pegamos o carro e ela dirigiu no meu colo até o Minas Tênis Clube. Minha filha já sabe nadar.
Nadamos 1.500 metros, sem bóia, sem afogar. Juntos brincamos com um e com outro, que ali estavam treinando na piscina olímpica. Tomamos banho, ela e eu, óleo de amêndoas. Cheirosos e de mãos dadas chegamos à mercearia do Lili para esperar a chuva, que veio. Ela se comporta enquanto leio Herder, ela ri enquanto escrevo poemas sozinho esperando a chuva que chega vento.
Chega um amigo, chega uma amiga, se vai uma amiga, se vai um amigo, ela ali, pernas balançando na estação do encontro. Bebe mais água, filha, fizemos muito exercício pra nós hoje. Café expresso na Alessa, xícara de gatinho. Sorvete de chocolate pra adoçar sua espera. Vamos pra casa, filha?
Um cochilo juntos e estamos prontos para ir ao supermercado. s o s.
Compramos um sashimi e minha filha escolhe um Ades de maracujá, que o chá que é bom pra nossa memória nem tem. Como lembrar?
Voltamos pra casa a tempo de ouvir Fabrício Carpinejar contar pro Antônio Abujamra que vida "é respirar baixo pra esperar o vento"...
Deitados na cama, pensando em Carpinejar, Capinando e Velejando, recebemos finalmente o telefonema de Anthonio, contando e cantando que a música que fizemos pra Lua ficou do jeito que a gente queria.
Desligo.
Beatriz me sorri. Já podemos dormir, que o dia nos fez carinho.
2.500 km não separam o amor.
116 dias não são capazes de separar o amor verdadeiro.
Nem o medo, nem a saudade, nem a desculpa, nem a idade, nem o tempero, nem a maldade. Nem as músicas de não ser. Respirando baixo, ela fecha os olhinhos. E venta no meu quarto para sempre, amém.


7 comentários:

Rachel Sant'Anna Murta disse...

Agora você pode fazer um haikai do vento do amor que sopra pra lá e pra cá ao longo de 2.500km, ininterruptamente, durante 116 dias.

Brenda Ligia disse...

A coisa mais linda que li, meu amigo. Te amo. Você escreve com o coração, não pare nunca. E a Beatriz é um pedaço de Bê. SAUDADE. Vem pro Recife, pra gente. Vem...

Branca disse...

Você escreve de uma forma tão ...linda!
Não isso não é escrever
É respirar
É oxigenio de tão leve

Bê Sant Anna disse...

Que grato sou pelos comentários!
Rachel, aceito o desafio.
Branca, nunca recebi um elogio tão bonito e que sintetizasse de maneira tão própria o que sinto e não sei dizer.
Escrever é assim mesmo. Voltei a respirar. E você quem viu. Um bê ijo especial pras duas leitoras que me fazem querer crescer nas palavras.

Renata Feldman disse...

Coisa mais linda, Bê.
Sim, meu amigo, não é preciso estar fisicamente junto para estar tão inteiramente perto. Tão dentro. Tão forte. Tão sempre.
Mesmo quando a distância é grande, o coração se faz ninho, colo, janela aberta pro sol entrar.
Abração!

Bê Sant Anna disse...

querida Rê, seus comentários são sempre lindos como você, amiga especial que conheço há ... anos (hehehe). Adoro seus comentários, assim como seus posts no http://renatafeldman.blogspot.com/ .
Sua sensibilidade encanta. Sou grato por ter lhe conhecido e por ter convivido contigo por um tempo tão bom... quem sabe ainda vamos ter a oportunidade desses caminhos se cruzarem novamente???
Sonhar é bom e é grátis! :)

Renata Feldman disse...

Sintonia é isso, Bê. Uma boa e velha amizade se escreve assim.
A gratidão é minha também.
Idem, idem.
Bj