segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

João Bosco é quem tem razão


Tenho muito a dizer sobre o Cobra Coral. 

Minhas palavras não serão tão impactantes como as de João Bosco, impressionadíssimo com o som afinado e costurado do quarteto, mas vão dizer mais do que sobre o bom gosto que acompanha o grupo. O conjunto, melhor dizendo. Termo mais próprio, levando em conta sua unidade sonora e o zelo coletivo com que elaboram, tecem e apresentam suas tantas qualidades em cena.

Já não sei mais se devo ser breve e por isso atingir um número maior de leitores, ou se me detenho mais minuciosamente, com medo de, sendo breve, não deixar claro o quanto a qualidade individual e a soma de suas cores são festa em meus sentidos, e nos sentidos de quem os dá a oportunidade do encontro.

Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna, Pedro Morais - na ordem da foto. 

Do Flávio, posso dizer de suas composições consistentes, seu poder sutil de articulação artística - quem é do ramo pode entender - , sua harmonia elaborada e seu bom gosto estético-musical, pra ficar só na cobertura do bolo. Já se encontra no andar onde moram os medalhões da mpb brasileira, com humildade e continua apaixonado pelo Caminho. Capitão da equipe?

Da Mariana, posso dizer de sua voz aveludada e precisa, sua graciosidade cativante, seu toque erótico-angelical no grupo - se é que essa fusão é possível. Peter Pan não seria nada sem a Sininho, isso é fato. Quando joga o cabelo pro lado, tombam todas as cabeças do mundo, deitados em hipnose num travesseiro de capim dourado de madeixas, ao som de uma voz inexplicável de gostosa. Sinto muito, mas o adjetivo melhor é esse mesmo. É um trem. 

Do Kadu, posso dizer, sem sombra de dúvida, que é um dos maiores talentos que vi nas últimas décadas. E, me desculpem os que acham que estou exagerando, mas eu tenho conhecimento acima da média, trabalho com isso desde 1990 e sei bem o que estou falando: não tiro uma vírgula do que acabei de dizer. A última pessoa que me impressionou como o Kadu, foi Vander Lee, bem antes de ficar conhecido, reconhecido e famoso nos circuitos que nos interessam. Kadu é sábio musicalmente. E sabe aplicar sua sabedoria e bom gosto. Se Flávio é o capitão, ele é o artilheiro. E quer saber? Sabe como ninguém somar em conjunto, se preocupa com o time. Passa a bola, mesmo quando está na cara do gol, pra que o jogo fique mais atraente e prazeroso. Foda (leia pausadamente, pro impacto ser maior, vou repetir: FO-DA. Foi mal, mas a palavra é essa mesmo.

Do Pedro, posso dizer que seu talento impressiona. Ritmo, potência, qualidade vocal, swing, são sua assinatura. É o "menino prodígio" da parada. Seu timbre é um caso, muito sério, à parte. E o cara nasceu pro palco. Encaixa igual dedo no nariz. Ao lado da Mariana, trazem uma dicotomia Yin Yang pro conjunto equilibrada em ondas de força e sutileza, mordidas e sopros sonoros. 

Posso falar do show e posso falar do CD - que já está quase todo vendido. Mas vai ficar meio grande isso aqui. Por isso, só vou dizer uma coisinha de cada: do show, digo que quem sabe, faz ao vivo. Por mais bobo e batido que possa parecer. Ah, e que o clima de bate-papo envolve a gente mesmo. Delícia. E sobre o CD, putz, vai escutar, vai. Porque eu já tô ficando chato de tanto elogiar. 

Se Deus pudesse me ouvir, queria que ele mostrasse duas músicas pra uma pessoa. A 7 e a 8 do CD. A 7, coloco a letra aqui. Linda. Deve ser do Magno Mello, filósofo contemporâneo da melhor qualidade. Vou até grifar um pedaço que puxa minha perna toda noite, desde que o ouvi pela primeira vez. E a 8... porra, vê se faz alguma coisa e entra em contato com o Cobra Coral pra saber onde você consegue comprar o CD, né?
clique em Cobra Coral

QUALQUER PALAVRA
Kadu Vianna / Pedro Morais / Magno Mello

Qualquer palavra diz
Toda palavra diz
Ou quer dizer
Algo em você

Qualquer distância é
Maior distância até
Para esquecer ou se esquecer
Lembra daquela dor
Se transformou em outra dor, mas
Outra cor revela o claro do céu
E isso é viver
Toda saudade traz
Uma vontade a mais
Tudo que não se perdeu
Nenhuma lágrima
Pode desarrepender
Só ser o novo relicário de alguém

Nós ainda temos desse amor o medo
Que faz o que nenhum outro querer se atreve
Quem sai em busca dessa ilusão desvenda
Sem mais, te deixo aqui um beijo e me despeço

Qualquer palavra diz
Toda palavra diz
Ou quer dizer algo em você




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre medos e campainhas




Ontem à tarde, passei no BH Shopping para olhar alguma coisa para o natal.

As pessoas já em clima de festa, de compras, a ansiedade de alguma forma no ar.

De repente, de roupas vermelhas com detalhes brancos, cabelo comprido, barbas longas e brancas, botas pretas, ele, o Papai Noel! Vinha caminhando lentamente pelo mall do shopping. Me chamou a atenção, tanto pelas duas "noeletes" que o acompanhavam, cada uma segurando um dos seus braços, como também o terço de madeira em suas mãos. Ele vinha lentamente, acredito que se elas não lá estivessem, viria um tanto debilitado.

E foi como um impulso. Pensei: acho que não vou ter outra chance! Ele já tinha dobrado a esquina do mall quando eu toquei seu ombro, gentilmente, e o diálogo seguinte se deu:

Papai Noel!, Papai Noel, com sua licença...

Ele se voltou, ainda de braços dados com as moças que o acompanhavam, e com um sorriso no rosto me ouviu indagá-lo.

Me desculpe, Papai Noel, mas eu poderia lhe fazer um pedido?

Sim. O que você quer? - disse o bom velhinho.

Papai Noel, traz minha filha pra mim? 

...

E Papai Noel franziu finalmente o cenho, acompanhado pelas noeletes:

Onde ela está? - ele perguntou.

Em Recife, Papai Noel.

Então é fácil: você me dá o seu cartão de crédito, a sua senha e eu compro uma passagem pra ir lá buscá-la pra você. - disse o bom velhinho.

...

Sorri, agradeci, ele se virou e voltou a caminhar.

Eu fiquei ali, só, parado e me lembrei do meu último encontro com ele, em Brasília, quando eu tinha apenas 5 anos de idade. Toca a campainha, eu escondo debaixo da mesa. Minha mãe me convence a abrir a porta. Com muito medo, é o que faço. E pra minha surpresa, Papai Noel não mais estava. Apenas um saco vermelho quase do meu tamanho, que eu trouxe com certa dificuldade pra dentro de casa e que espalhei pela sala de estar, enquanto abria tantos presentes.

Não sei bem se tenho sido um bom menino... Mas vai ver que é assim: Só com uma cartinha se pode pedir algo ao Papai Noel.

De qualquer forma, vou ficar atento neste natal. Vai que a campainha da minha casa toca?


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Rubi



quando
descobriu que amor
era tarde
demais
quando
descobriu que amor
era tarde
dê mais
não há pacote que sustente o vazio
há dor por um fio
o rito de perder-se pode ser
se
e somente se
se
mentir
a bordar sem ti
mentes
nos furos do pano que a linha atravessa
as cicatrizes que se colorem
marcas vermelhas
azuis
ama, relas
atesta consentido o que o toque apela
os pontos marcados pelas linhas que escolhemos
traduzem nudez, os nossos caminhos
por mais que haja tesoura
por mais que haja tempo
imprimem-se histórias, bordados, nossa memória
há sempre uma linha sem nó
a irritar os sentidos
solta
que sinos desfaz
desmancha
apaga
some
quero apagar os caminhos das linhas
que se embolaram por traz dos panos
desenganos
desencantos
nus
cantos escondidos da linha da vida
um dia
vou raiar agulha de amor
vou conduzir linha de luz
e mergulhar no pano do perdão
tecendo com gosto
o amor verdadeiro que espero
ponto que não desata
há mar
ela
a seta
desenha novo
coração rubi








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Já à venda



Já à venda:


Livraria Mineiriana

Livraria Floriano

Livraria Canto do Livro



Valor: R$25,00 reais. Mesmo valor do lançamento.

Aproveite.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De finições ou de iniciações



Senti que é de perdas, porque acumulou muito
É de sobras, porque se doou demais
E só tem sobras quem não se guarda em nada
Só tem para dar quem nunca se negou
E vive do bem e do mal de se entregar.
Se entrega permanentemente, mesmo que em vão,
para não ficar no guarda-roupa feito roupa de frio em tempo de calor
Para não virar mofo em gavetas de sobrevivência
Se entrega para não virar passado
Quem sabe quantos passos?
Quem sabe se não foram nos passos perdidos que se encontrou?
Quem sabe se não foi ao se perder que se capturou? 

Quando você planta muita estrada pelo caminho
É natural que colha algumas lições.
São nas passadas que imprimimos nossa marca.
Ás vezes, os rastros são de asas em vôos que inventamos na viagem
Por outras, deixamos palmos impressos no chão,
Trechos percorridos
Passo a passo, como convém a quem anda todo dia.
E anda todo dia atrás do seu próprio sonho sem parar.
E aprendeu a amar a estrada, a viagem, a caminhada.
Foi amando como quem não sabe o roteiro, mas seguindo a viagem
Foi sangrando sentimentos,
Abrindo trilhas, desenhando atalhos.
Caminhará sempre porque esse é seu jeito de não ficar cansado.


Assim me definiu, com um só encontro.
Assim me definiu com muitos textos lidos.
Quantos somos? Quem somos? Quantos eus nos acompanham?
Conversamos sobre dEUs, sobre o nada, sobre o vazio, sobre o medo.
Conversamos sobre o encontro dos dedos.
"Rapte-me, camaleoa", diria Caetano Veloso sobre este encontro sutil.
De certo modo, raptou. Com sentimento.
Quando abrimos nossa caixinha de pandora, descobrimos: era só caixinha de música.
O encontro com o som, as pálpebras naturalmente abraçaram os olhos e a noite se fez, campo das estrelas.
O vento alisa as estrelas, vento do espaço.
A resignação nos faz lembrar quem partiu, declarando nunca mais voltar. Com sentimento.
Quando o dia amanhecer, vai ser mais uma estrela que vai brilhar nos meus sonhos, acordados ou não, de cor, certamente, e colorida como o reflexo dessa bola de sabão de nome Encontro.

(ilustrando o bilhete e meu comentário, um petisco do talento de Kadu Vianna - músico, mágico, artista sensível e antenado, pai, ser muito muito muito humano)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Voo



Quando cheguei a Santiago de Compostela, em 2009, imaginava que meu segundo livro seria sobre o Caminho. 80 páginas depois, descobri que não. Que ainda havia muito a caminhar para que esse livro fosse escrito.

2012: dia primeiro de novembro, dia de todos os santos, dia do lançamento de V ENTE, meu segundo livro, esse de poemas. Uma emoção muito forte toma conta de mim.

Dois meses antes, recebo um email que mudaria tudo, que me indicaria um novo caminho a seguir, o Caminho do Coração.

O lançamento de V ENTE foi muito bacana. Até o final dessa semana, ele chega a algumas livrarias de Belo Horizonte:

Floriano - Av. Cônsul Antônio Cadar, 147, Santa Lúcia.
Livraria Belas Artes - Café Belas Artes Liberdade, R. Gonçalves Dias, 1581, Lourdes.
Canto do Livro - Ponteio Lar Shopping.
Mineiriana - Rua Paraíba, 1419, Savassi.
Livraria Ouvidor Savassi - R. Fernandes Tourinho 253, Savassi.

(por enquanto!) E até o momento, 310 livros vendidos, o valor dos 500 livros doados ao Novo Céu, muitos emails, telefonemas, matérias de jornal e revista positivas... tá que tá ventando!

Nesse último final de semana, iniciei minha Odisséia. Ulisses mambembe, passarinho que mora na gaiola aberta por opção, quer voar, acorda 5:20h. Amanheci. Raiei com o sol, peguei minha mochila que fiz o Caminho de Santiago, minha velha e boa bota que percorreu comigo 830km à pé, meu ânimo que estava no fundo da terceira gaveta, do lado direito do armário, e fui ter com a vida, ser com a estrada, sentir que ainda há tempo. Não foram precisos nem 2 km para que a emoção tomasse conta de mim, na ladeira que levava ao hospital de nome São Francisco...

Sim, coincidências não são à parte pra quem já fez ou faz Seu Caminho. Fazem parte. Participam. Caminhei 13km em 2 horas e meia, percurso muito íngreme. Ao voltar, me troquei e corri 6km. Preciso perder algum peso e tenho pouco tempo pra isso. Tenho pouco templo pra isso. A viagem está marcada na minha cabeça.

Serão mais de 2.500km caminhando. O Caminho de Assis, o Caminho de Santiago e o elo entre os dois: Eu. Serão três meses de caminhada: o Caminho do Coração. No domingo, a foto tirada revela que o horizonte é belo, o céu azul, e que, por mais morros, vales, rios, travessias, fronteiras que tenha, não há limite para o que traduz o suor de meu rosto. Sabe, não me interessam as cicatrizes, não são elas que me movem. No meu peito bate um Coração de Peregrino.

Como bem disse Robert Frost, duas estradas divergiam no bosque no outono. Como ele, decidi trilhar a menos percorrida. Afinal, sou só um único viajante. Confesso, espero que isso também faça a diferença, poeta.

Você é convidado a acompanhar a preparação dessa saga pessoal. Quem sabe quais sementes irão ser deixadas ou encontradas no Caminho?

Voo com Deus. Vento.




segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Alinhavando Histórias



Meu pai é o décimo quinto filho.

Se criaram doze. A mais velha dos doze, Tia Milita, teve doze filhos. Quando meu pai nasceu, ele já tinha, portanto, dois sobrinhos.

Do lado da minha mãe, são quinze netos, contando comigo e minha irmã. Do lado do meu pai, acredite, são cinquenta e quatro netos, a terceira geração de Vô Marú e Vó Fifide.

Já estamos na sexta geração, me parece, a contar de meu avô e minha avó. São muitas histórias de uma família interessante que tem no encontro sua principal força. Alguns "desafetos" declarados, é verdade, mas a maioria absoluta se dá bem (também, são tantas pessoas!!!). Eu, pra dizer a verdade, só não gostava de uma pessoa. Mas essa pessoa já foi nessa, que Deus lhe guarde.

A vida é assim: uns partem outros chegam. E nós, na plataforma, alinhavando histórias. Pois foi justamente esse nome escolhido pelas mulheres da família pra criarem um grupo no Fakebook. Nele, seguem as fotos, comentários, curiosidades, chats sobre a nova proposta familiar feminina: fazer uma toalha de mesa que contasse um pouco da história da família e de cada um, seu núcleo, os sonhos compartilhados e as intercessões familiares... A cada novo ponto, uma nova história. Um caso tirado do baú pelos mais antigos, uma novidade posta à mesa pelos mais novos. Todos, entusiasmo. A que mora mais distante veio da Itália para participar. Esse final de semana teve um novo encontro.

Me dei conta que minha filha, Beatriz, é a mais nova da quarta geração (minha irmã é a mais nova da terceira). E, como ela tem um ano e nove meses, ainda não sabe bordar. Ok, mexer no Iphone ela já sabe, melhor que eu - pra dizer a verdade - mas bordar, ainda não. Por isso, decidi: até que tenha idade para participar, represento-a no que posso. Foi assim que comecei a fazer aulas de ballet clássico. Mas isso é outra história... nessa, fiz o croquis, pedi ajuda pra Nana, a bordadeira profissional da família, pedi ajuda pra Nyara, a minha tia mais velha, que tomou posse como avó interina, pedi ajuda pra Vera, que tomou posse como minha madrinha - depois que sua mãe também virou estrelinha - e pronto! Estou pronto pra, em nome de Beatriz de Castro Maia e Sant'Anna, participar como "Alinhavante"!




Avante, minha filha! Que as histórias todas da nossa linda família não podem esperar! Você já faz parte dela. E agora toma parte, com o exemplo que sempre tivemos de amor, fé e dedicação. A maioria dos quadrados bordados por cerca de quarenta e cinco mulheres da família já está pronto! Mas o seu espaço está reservado, seu croquis finalizado e hoje começo a bordar em seu nome. O que eu posso, eu faço, filha. Ou tento...

passo 
a linha através do pano 
não me engano 
teço com fé o encanto que represento
nosso momento
navegando 
porque há mar
conto em terços o que a seta há de indicar
e que o infinito nos banhe
Borboletinha do Mar 
que baila 
Miserinha a descer e subir as ondas
alegremente
de dia e de noite
levando a flor do nosso encontro familiar
vamos tem amor no meio
e filha, por mais que ilha
há mar, por todos os lados


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Gonzaga - de Pai pra Filha



Ainda não sei como vou construir meus comentários sobre Gonzaga - de Pai pra Filho.

Talvez diga da dificuldade que um dia tive com meu pai. Talvez diga da saudade que tenho de minha filha. Talvez diga da minha filha sentada em meu colo, tomando açaí. Talvez diga que açaí nunca mais vai ter o mesmo gosto para mim.

Talvez comece apenas citando:

"Se a gente lembra só por lembrar / Do amor que a gente um dia perdeu / Saudade inté que assim é bom /  Pro cabra se convencer / Que é feliz sem saber /  Pois não sofreu... / 

Porém, se a gente vive a sonhar / Com alguém que se deseja rever / Saudade intonce aí é ruim / Eu tiro isso por mim / Que vivo doido a sofrer..."

Ou talvez não. Só diga que 60% do filme passei transbordando o há mar que faz ondas em mim.

Breno Silveira foi bem feliz em Dois Filhos de Francisco, acho. Até acredito que, filmicamente, é mais interessante que Gonzaga. Principalmente na questão estética. Mas Gonzaga tem uma verdade que é fatal, ou Natal, melhor dizendo. Vive-se ao ver Gonzaga.

Acho que é um filme mais pra homens do que para mulheres: porque desenvolve questões que, mesmo sendo universais, tangenciam muito mais o universo masculino que o feminino. As questões humanas estão presentes, mas o homem, o filho, o pai, nossos papéis, nossos encontros e desencontros, nossos medos e coragem são abordados de modo verdadeiro, muito humano, aberto... No começo do filme, o lettering "baseado em fatos reais" anuncia. No entanto, quando se mescla algumas cenas reais, fotos reais, e enredo, surge uma espécie de "teatro-documentário" na cabeça do espectador... Acho que meu querido tio José Tavares de Barros, crítico e cineasta que muito me inspirou e orientou nos caminhos da imagem, teria concordado com esse termo...

A verdade e o sentimento nu e cru me parecem que foram colocados em primeiro lugar no filme. E, acredito, seu mérito fica ainda maior por isso.

Penso, portanto, em indicar esse filme apenas:

  • para homens
  • para mulheres que querem entender os homens
  • para pais
  • para filhos
  • para mães que queiram entender os pais
  • para homens que sabem o que é o amor (e para os que querem saber)
  • para mulheres que querem amar de verdade
  • para os que sabem, há mar
  • para quem não sabe o que é a Verdade
  • para quem quer saber da Verdade
  • para mães que cerceiam o encontro dos pais com seus filhos
  • para meu pai
  • para minha filha
  • para o amor que se foi
  • e pra você, que teve a paciência de ler até aqui.





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Entrelinhas e laudas

(CLICA NA MÚSICA PRA LER O TEXTO)

Sentado no Baltazar, na Serra, depois da segunda cerveja do domingo, ela interrompe o namorado e me diz:

"Mas Bernardo, me conta! Tem 20 anos que a gente não conversa!!! 
Me conta uma coisa, o que você achou da sua vida, desses últimos 20 anos?!?"

... branco...

Putz, pensei... Como é que eu vou responder isso?

Virgínia foi minha colega de faculdade. (pára de fazer conta, gente! Ninguém tem nada a ver com o fato deu ter entrado na faculdade com 14 anos...)

Conheci Virgínia, mesmo, de um modo muito interessante. No mínimo, curioso. Nem sei se ela se lembra disso. Primeira semana de aula, a gente praticamente não tinha conversado ainda. Indo para a PUC, passando na Via Expressa, bairro Padre Eustáquio - acho - em Belo Horizonte. Vi uma batida de dois carros e alguns alunos ainda meio atordoados. No meio deles, a Virgínia. Eu nem sabia o nome dela. Mas a reconheci no ato: "vixe, acho que aquela menina ali é da minha sala, melhor eu parar pra ver se eles estão precisando de alguma coisa..."

Desço. E vou oferecer meus préstimos.

"Ei, você está se lembrando de mim? Sou seu colega de Publicidade na PUC. Deixa eu lhe ajudar?"

Peguei Virgínia desarmada. E assustada. Acho que só estava esperando isso. Ela nem respondeu, me deu um abraço tão forte (que até me desarmou) e começou a chorar no meu ombro.

"Desculpa, eu tô nervosa... É que eu assustei muito com a batida..." - disse ela enxugando as lágrimas com cara de panda.

Pronto. Daí pra frente, foi uma amizade super bacana. Claro, virei confidente. Me perguntava sobre o que devia fazer com fulano e beltrano, que queria namorar fulano, sempre apaixonada com beltrano, com quem se casou, de fato um dia, e patati e patatá. Vivemos bons momentos juntos. Peça raríssima. Engraçada, espirituosa, sarcástica. Hoje, mais mulher, mais vivida. Andou bons pedaços em estrada de terra.

Como eu, acha que está melhor, bem melhor, do que há vinte anos. (talvez você tenha se perguntado: mas há outra alternativa?) Acho que sim. Não sei se é comum nos perguntarmos isso, fazermos essa avaliação dessa forma. Acho que avaliamos ao longo do tempo, "paulatinamente", ... mas de uma tacada só, pode nos causar espanto. Em alguns casos, é como a batida do carro na via expressa.

Ontem, quando Virgínia me perguntou, não sabia se respondia, ou se tinha a atitude dela, quando nos conhecemos. Mas não porque tenham sido ruins os vinte últimos anos. Mas porque foi muito, muito intenso...

Na hora, procurei elencar alguns marcos:
minha primeira viagem à Europa, em 1998, que me impressionou e sacudiu...,
meu casamento em 2002, que me impressionou e me sacudiu...,
minha separação em 2006, que me deixou sem perguntas...,
minha viagem com 2 amigos pra Europa em 2007, que também tinham separado naquele mesmo ano, a primeira corda que consegui segurar...,
o encontro com algumas pessoas especiais ao longo desses anos, que não vem aqui ao caso...,
meu primeiro livroCD em 2008...,
o Caminho de Santiago em 2009, onde aprendi o perdão...
o nascimento da minha filha em 2011, que dispensa comentários...,
e meu novo livro, agora, em 2012... Ufa.

Bom, essas são as linhas. Mas as entrelinhas, essas sim, dão alguns livros... Virgínia, vou lhe responder. Você tem tempo?




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Metade do Boi

Aponto meu dedo para Deus.
El  responde.
Peço. Eco.
Ecoa minha voz que pede na rês posta por Deus.
"Boi", diz minha filha apontando pra Fera. A Bela é ela.
Sou rês posta. Sou eu mesmo. Reverbero o que Deus responde no mim que pede.
Me ni mim. Meninin.
Criança pai que balança conforme o cacho balança. "Cabêio", ela diz. É cacho.
"Papai", ela diz. O moço.
Estranho conhecido que é a cara da falta. O real bate logo à porta dela. Ela se defende. Não quer estar ali. Mas quer. Não quer se haver com isso, mas quer.
"Eu só queria que meu pai pudesse estar aqui comigo sempre que a gente quisesse", ela não diz.
Mas sente. E sabe, e quer.
Sua filha merece duas metades da maçã. Quem seria tão equivocado a ponto de só dar uma?


*auto-retrato, por Beatriz.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Deus é danadinho


Ainda estou de férias. Na verdade, feriado. Até 15 de novembro, apenas de plantão.

De ressaca do lançamento do livro V ENTE, que chegou no Memorial Minas Gerais Vale, em 01/11/2012.

Ressaca boa, devo dizer. Contabilidade feita, foram mais de 150 pessoas no lançamento, Vendemos cerca de 280 livros contando a pré-venda e a venda no dia do lançamento. Quando voltar a BH, vamos agilizar a venda do V ENTE nas livrarias. Ser só é bom mais é ruim, é ruim mas é bom, depende. E nunca se está só de fato, quando se escolhe caminhar no H Á MAR.

Foram tantos amigos que ajudaram que não há como, exatamente, agradecer. Manifestei meu agradecimento lá, no dia do evento, mas nada é realmente suficiente pro tanto que foi lindo, todo mundo de mãos dadas, pensando em alegria, doação, amizade, amor, carinho. É brega. Mas é verdadeiro. Flor, arco-íris, azul, dourado, sorriso, tudo é brega, O amor é brega. A alegria é brega. Mas é ducaralho (e isso não é palavrão, é força de expressão contemporânea).

Estou aqui, em uma sala de embarque de um aeroporto fechado, aberto pra dentro de mim, voos que vem e que vão, de agradecimentos, de toques sobre o trabalho, de comentários sobre o livro, de encontros meus com leitores, de gente que nem me conhecia e que manda email curtindo, perguntando, ou querendo comprar... O mundo dá voltas. E nós, nele.

Ouso silenciar-me, querendo me escutar. Me-dito. E decido caminhar.

Ainda não estou com o recibo do Novo Céu, mas a doação chegou inteira, e foi bem recebida, com carinho por todos. Agora, cabe a mim vender os livros que faltam. Ainda bem que faltam. Quanto mais falta, mais Deus. Demorei muito pra descobrir isso. Antigamente eu achava que Deus era tudo. Feliz, descubro o contrário. Deus é um menininho danado mesmo...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CON VITE


E como diria Gustavo Capanema sobre hesitar e pelejar,
"Enquanto os outros hesitam, avancemos sem perda de tempo!"



domingo, 28 de outubro de 2012

Quero-Quera



Quer o mel do amor do seu olhar.
Quer sem cessar.
Quer querer, quer gostar.
Quer a alegria batendo na porta pelo lado de dentro, doida pra sair.
e ver as casas, e ver as ruas,
veros jardins.
Quer, de adubar.
Quer querer, de melar.
Quer de deixar roxo.
É que querer pode, e não depende da lua.
E nem depende do sonho, nem do pesadelo.
Nem nada.
É mais fácil ganhar asas antes de pular da ponte.
É mais fácil subir, que descer,
um monte.
Fácil é desistir, fácil entregar os pontos, fácil cair, chorar, ralar o joelho.
Fácil sorrir. Difícil é estar mesmo alegre.
Mas quer. Continua querendo.
Conte, nua, querendo, que eu acredito.




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O beijo



Ela escreveu, no final do texto: "beijos sextafeirísticos".

Fiquei pensando o que significa. Não sei bem se pra ela ou pra mim.

Escolhi colher os melhores beijos que a sexta-feira pudesse me dar.

Beijos como os que dei, beijos molhados, beijos apaixonados, beijos agressivamente sutis e enamorados.

Beijos alucinados, beijo de amantes, beijos roubados.

Beijos que batem as costas no batente da porta, beijos que passam pra outro estágio do onde, perco-me beijos a  me esfolar sem sentido, destituído de forma, dor, compaixão.

É o beijo o distúrbio do não?

Beijo sem ei, sem be e sem jo, beijo logo no início, do amor.

O beijo que aproveito, o beijo que me faz desfeito, o beijo de língua, de jeito, mão, nunca, curva das costas, penugem do lombo.

O beijo é um tombo.

O beijo que me faz morder, o beijo que me faz entender, o beijo que aprecio, um bom beijo no cio.

O beijo vinho, espumante, cerveja, o beijo de ser, de quem viceja.

O beijo que é janela pra alma.

O beijo que me faz perder a calma.

O beijo anuncia: sou noite e sou dia.

O beijo que sou, nas profundezas vermelhas e ardentes do amor.

Bom, fico com esses beijos. Afinal, ela não especificou qual.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

microhaikai do silêncio



calo
qu'ando 
dói





segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Fique em dia com os últimos acontecimentos da minha vida



Liguei no feriado para falar com minha filha. Muito tempo sem uma notícia.

Fui educado: mandei mensagem antes, pra perguntar se podia ligar. A mãe disse que não, que ia dar banho nela. Você sabe, uma criança de 1 ano e 7 meses quando pega o telefone com um pai a 2.200km de distância, fica quase 2 horas e meia batendo papo. É muuuito assunto, muuuuuuuito vocabulário, muuuuuuuuuuuuita vontade de jogar conversa fora. Ia atrapalhar todo o esquema, atrasar os horários, toda uma série de eventos em efeito dominó, que provavelmente culminariam na destruição do universo. Não só da terra, como previam os Maias. Por isso, a mamãe da minha filhinha deve ter achado melhor eu não ligar. 

Achei que ela tinha tomado banho por duas horas e meia, porque a mãe não avisou quando acabou. Fiquei com medo do dedinho dela estar enrugado igual de véio, mas não, ela dormiu depois do banho - eis a explicação - e por isso eu não pude, evidentemente, ligar depois, enquanto estivesse dormindo. 

Bom, príncipes de plantão, encilhem seus cavalos brancos. Descobri que minha filha é mesmo uma princesa. Porque ela deve estar dormindo até agora. Que sonhe comigo!

***



Sobre o lançamento do meu segundo livro, tudo caminhando bem, graças a Deus. Aproveito para lembrá-los do serviço:

Bate-papo e música, com Bê Sant'Anna (eu, no caso).
No lançamento do livro "V ENTE"
Dia 01 de novembro (não sei escrever primeiro com aquela bolinha na frente)

Porquê especial? Porque vai ter um pocket show no lançamento!

Tabajara Belo - Arranjos, violão e guitarra (se bobear, um bandolim - to tentando convencê-lo);
Fernando Netto - Violão de aço e viola caipira (sim!)
Pamelli Marafon - Teclados e voz;
Ricardo Cheib - Percussão;
Henrique Santana - Voz;
Euzinho - Voz;

Acho que vai ser bem gostoso: um bate-papo entremeado com música. E de quebra, uma surpresa, quem for vai entender a brincadeira.

Quanto a venda antecipada, ainda aguardamos seu coraçãozinho aberto, assim como as crianças do Novo Céu, que serão beneficiadas com toda a venda das primeiras 500 unidades do livro. Já vendemos 40. Faltam 460. E tenho certeza que vamos conseguir.

***


Bom, deixa eu ver se tem mais alguma novidade... hum... tirei a barba mas já decidi voltar com ela: com ela eu só tava pegando resfriado, sem ela, nem isso... resolvi comprar uma misteira nova, hoje é dia de pagar cartão de crédito, já tomei banho hoje, a nova diarista aqui de casa está indo bem, minha nova peregrinação no ano que vem (cerca de 2500km, acredite) ganha reforços importantes - breve novas sobre isso - , resolvi que vou de novo no filme Intocáveis pra fazer uma resenha sobre ele aqui no blog. Quê mais... ah, estou planejando suicídio (no facebook, claro) Mas antes disso devo matar muita gente que não conheço e algumas que conheço (no facebook também, claro). A livraria Mineiriana vai fazer uma oficina de desenho muito massa no sábado. Quem tem criança não pode perder. Veja aqui. Ah, e ainda não fechei a data do lançamento do meu livro em Olinda, mas vamos lançá-lo na feira de livros de Araxá. Hummm... O coração vai bem, obrigado. Acho que só ele entendeu o regime que estou fazendo. É a única parte do meu corpitcho que emagreceu! 

Ah, boa semana, gente! Depois falamos mais.

Aproveito pra aprender com a Laura:





sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Rotativa insólita





seu nome 
gravado no título do meu jornal
matéria de capa 
sem foto
é cerne de toda notícia
especulação
confabulação
estrutura
meandro 
tecido
sem ter sido
cerzido
ta na estampa
ta na cara
obviedade ululante
somente
espera
e a rotativa se aquece esperando uma nova notícia 
enquanto vendo espaço pra mais um anunciante temporário







terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Rosa Intocável




Entrei no quartinho que fiz pra minha filha e deixei sobre a cama uma rosa pra ela.

Ela nunca entrou no quarto dela. Ainda não viu as bonecas em cima da cama, ou as fotos ampliadas sobre o travesseiro. Nem os conjuntos lindos de lençol que estão ali para embalar seus sonhos. Ela não tocou no Horácio pai, sequer encostou no filhotinho dele. Um a cara do outro. O jeito igual de ser diferente. A rosa de Maria deitou na cama da minha filha. Fiz minha prece. Ela vai esperar por ela. Ela.

É lá, aonde se é, femininamente pequena, sutilmente menina, docemente me nina enquanto durmo de olhos abertos na minha espera. É como no lindo filme Intocáveis.

O sorriso muda o mundo. A palavra encanta e promove a dança.

Sou só um observador a chorar sozinho em uma sala escura. Um ninguém de quem nunca vão ouvir falar, um que sonha.

Meus sonhos, sim, são mágicos. Meus sonhos, sim, transformam o mundo e fazem florir. Nos meus sonhos, minha filha entra pela porta, me abraça num abraço de urso, de bear, de bearnardo, e sorrindo diz meu nome: "papai". Daí levanto da minha cadeira de rodas, daí levanto da minha cadeira de rosas e corro com ela em nosso jardim.

No jardim dos sonhos que fiz pra minha filha, tem Ipês, de todas as cores. Tem as quaresmeiras que florescem pra ver quando passo correndo, tem caramanchão com parreiras e pergolados com maracujás doces. No meu jardim dos sonhos a grama não coça. Os peixes me esperam. E o sabiá faz um ninho, pra Beatriz olhar admirada pros seus ovinhos, fazendo biquinho, enquanto arregala os olhos emoldurados por seus cílios que envolvem seu pai jardineiro.

Não há espinho que macule a beleza envolvente de uma rosa no travesseiro da filha de um pai sonhador.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Peixes




Há um poço tão fundo que não vejo o fundo. Há um silêncio guardado, um suspiro. Há sem medida, um barco a deriva. Um horizonte sem referência, um barulho de água lambendo o casco. O sol perdeu seu rumo, não morre nunca mais, assim, nunca, cadê minha lua? De tão fundo o poço, comecei a jogar as moedas todas, fazendo pedido, olhando-as... somem, como somem, subtraem-se do meu olhar. Moedas sem valor. Pedidos perdidos no poço dos desejos.
Posso dos desejos?
Mas estou ali, no poço, no fosso, no barco, na deriva do eu que bóia pra não afogar. Acho que não sei nadar. Tudar? Não. Nado-me.
Só, sou casco a deriva salgado, no fundo da água morna que se evapora ao sol, que rodopia esquecido no céu.
Em que fundo estará o cardume pro-me-tido?



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dia das Crianças


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Venda Antecipada

V ente

Um livro que caminha entre o sagrado e o profano de um modo poético e humano.

No dia 01 de novembro (horário a confirmar) lanço o meu segundo livro no Memorial Minas Gerais Vale. O livro V ente. É um convite a ventar.

O valor da venda das primeiras 500 unidades será doado INTEGRALMENTE para o
Projeto Assistencial Novo Céu.



O preço do livro é R$25,00. E você pode comprar antecipadamente pelo depósito em conta:

Banco Itaú
Agência 3828
Conta Poupança 05899-4/500
CPF 941.959.946-91
Bernardo Moura de Sant'Anna

Comprando antecipadamente e enviando o comprovante do depósito por mensagem no facebook/besantanna ou pelo email besantanna@gmail.com você doa R$25,00 para o Projeto Assistencial Novo Céu, e recebe o livro, no dia do lançamento, já com dedicatória.

Aqui no Blog, no Twitter e no Facebook, semanalmente, você vai acompanhar a venda e o valor arrecadado para as crianças do Novo Céu.

Saiba mais sobre esse projeto clicando aqui.

No dia do lançamento, um bate-papo, um brinde e um pocket show com presenças e convidados especias...

Vale aguardar.


Foto divulgação: Marco Pomarico

domingo, 30 de setembro de 2012

Mesmo




Meus escritos
não são belos como a Gabriela, inteligentes como a Serpa, mágicos como as histórias da Guiomar, fortes como a minha irmã. Não são amantes da vida como o Mastrocola, sensíveis como a Raquel, indignados como a Rachel, exemplos como o Wernek. Nem de longe coloridos como a minha mãe, audazes como o meu pai, profundos como a Izabelle, ricos como o Eike. Não são pops como o Michael, jazzísticos como o Nelson ou brasileiros como o Adelson. Meus escritos não são páreo para o humor da Laura, não são filosóficos como Rubem, não são densos como Zezito. Ou rápidos como a Menina Vento, ou céticos como a Yara, ou frágeis como as flores do meu bonsai... Meus escritos não conseguem captar o hiato das viagens criativas de Beatriz, minha filha de um ano e sete meses. Meus escritos não são nada se não o amor perdido. Escrevo para encontrá-lo. Escrevo como quem corre uma meia maratona para ganhar a oportunidade de um namoro. Escrevo para ser evo, o eterno, o masculino da eva, a completude da beleza feminina, a faca no queijo, o leite no café, o ovo no pão, o azeite no tomate. Meus escritos não são nada. Nem sei porque leu até aqui. Meus escritos são o desejo da beleza indizível da Gabi, da perspicácia ousada da Serpa, da fantasia expansiva de Guiomar, da potência firme da minha irmã. Meus escritos querem alcançar o amor da vida do Mastrocola, a sutileza equivocada da Raquel, a indignação impossível da Rachel, a beleza do pai Wernek. Meus escritos queriam ser o lápis de cor da minha mãe, queriam ser o jeep do meu pai, o lago da Izabelle, o iate do Eike. O Billie Jean do Michael, a Ella do Nelson, o brinquedo de linha e latinha do Adelson. Meus escritos queriam ser a picância da Laura, a velhice do Rubem, a sabedoria do Zé Coelho. Queriam meus escritos ter os pés e o coração da Menina Vento, os cabelos da Yara, a seiva do amor de um pai que dói. Meus escritos são para Beatriz ler. Meus escritos são minha peregrinação pelas palavras me dadas por Deus. Que compilo, que empilho, que empalho, que, paspalho, só sei chorando escrever.

Nas páginas em branco, meu amor consegue ser ainda maior. Mas muito mesmo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Você joga xadrez?




Deus parece que joga xadrez, eu disse.
Ela respondeu: se é xadrez que ele joga, tem um adversário.

Detesto gente inteligente, porque eu amo gente inteligente. O bom do amor é que ele é diferente da cesta de laranja. Quando a gente distribui laranja, a cesta esvazia. A cesta do amor parece que enche.

Com quem Deus joga xadrez? Ela falou que é com o "Não-Sei-Que-Diga*". Será? Será com a gente?

Ou será que sou só peão?

Eu, peão, vou pro embate. Morro primeiro. Eu, peão, não tenho problema em ficar no quadrado branco ou preto. O problema do eu, peão, é que não sei voltar.

Eu, cavalo, não ando reto. Passo por cima, mas não sigo o mesmo caminho. Mudo sempre pra outra direção, difícil saber onde minha estrada vai dar.

Eu, torre, não sou flexível. A cruz do meu caminho é ir pra frente ou pra trás, pra um lado ou pro outro. Sou muro. Escudo, sou vulnerável.

Eu, bispo, tangencio. Meu olhar enviesado não vê o mundo de frente.

Não sou rei, muito menos rainha. Não sou fim. Nem meta.

...

Não, Deus não joga comigo, muito menos contra mim. Pensando bem, sou eu, o tabuleiro.

Assim, cabem as perguntas: você estaria na parte branca ou preta? E como você se move?

Ops.... espera: quem move é você?




*um dos tantos nomes do Coisa-Ruim por Guimarães Rosa.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para Fernando Netto


A bela e delicada maquiadora pingou uma gota em cada olho. De olhos fechados, elas bem que puderam se multiplicar um pouquinho, sem causar curiosidade ou estranheza.

Mais cedo, no elevador panorâmico, colou no vidro e levantou os dois braços até o teto. A subida induziu a lembrança. A lembrança da fantasia trouxe a emoção correlativa, incitando a saudade. Se lembrou do carnaval de 1977, vestido de Batman, quando reconheceu o seu melhor amigo, o Superman. Não, não era o Robin. O Superman tinha um redemoinho na testa, cabelo escorrido e nariz de batatinha, uma alegria pacífica, mar em calmaria que induz o sorriso.

Ainda bem que existe o John Williams pra orquestrar as músicas tema dos sonhos infantis, que não se resumem a cantigas de roda. A grandiosidade sinfônica alcança, na ponta do pé, quase pulando, o tamanho do sonho de menino.

Pensar na lembrança, se entregar de corpo e alma, é volver ao sonho, se conectar com o clima, fazer amor com a saudade. Re-viver.

A saudade também tem o seu valor. Pra isso, ela serve bem. É farta, terra fértil. Quando a gente molha a  terra preta da saudade, brotam sentimentosementes, avivam, florescem. O menino corre atrás da pipa, cai de bicicleta e rala o joelho, pique-pega, rouba-bandeira e gato-mia. A polícia e ladrão sacode o escondido em nós: a inocência da primeira namorada, as mãos dadas podem dedos entrelaçar... O tempo do crescimento, da construção, das folhas que caem e que se renovam. Os amores que vem pra ficar. Os que se foram e o que ainda esperamos. No tabuleiro do ludo da vida, somos pininhos coloridos olhando pro dado que anima-se à revelia do nosso plano-secreto de ser super-herói.

Nas crianças que nascem, a clara vontade da perpetuação da amizade eterna amante nossa.

Sabe? Somos eternidade em sonho e desejo. E voamos como o Superman.







segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Metonímia




Rubem Alves é um pai. Tipo. Ou um avô.

Adoro ler seus livros. Adoro seu jeito de falar sempre a mesma coisa, de maneira diferente. Um Alfredo Volpi das palavras. Suas palavras são bandeirinhas coloridas na minha mente. Não, não mente. Fala a verdade. Flamulam. Um Amílcar de Castro que me desgeometriza geometrizando. Se é que isso é possível.

Já li uns 6 livros dele. Gostava de citá-lo em sala de aula. Meus alunos se lembram disso (espero). Ganhei de presente de um sonho de amiga um livro dele de aniversário. Aliás, ganhei 2. Já li os dois. Acho que são 8, agora, os livros que li dele. Hoje cedo, me lembrei dele no café da manhã. Diz o Rubem Alves que o peso de papel da escrivaninha dele faz lembrar seu pai. Era o peso de papel do pai dele, claro. Como diz ele, não podia ser metáfora, que o peso não se parece com o pai. É metonímia.

Me lembrei dessa passagem do seu livro "Ostra feliz não faz pérola" quando peguei duas fatias de queijo minas e coloquei mel.

Dos 11 aos 14 anos, por aí, meu pai trabalhava na ACESITA. O escritório era em Belo Horizonte,  mas ele ia com muita regularidade a Timóteo, no Vale do Aço. Lá, em Acesita, como a gente chamava, tinha um hotel só de funcionários. Nele, um café da manhã. Eu ia dizer "um café da manhã gostoso, farto, bacana", mas acho que nem era. Só que o julgamento da gente é quase sempre balizado pelo humor. Não devia ter nada demais naquele café. Devia ser um lugar simples, com um café simples, com uma mesa sem muita variedade. Mas na minha cabeça era especial. Antes de viajar com meu pai, eu já me lembrava do queijo minas que eles serviam em fatias grandes e que a gente colocava KARO - nem mel era - toda vez que tomávamos café lá naquele hotel. E ia pra Acesita com expectativa do café, do queijo e do KARO. O queijo era realmente gostoso. Tanto que descobrimos o fornecedor e parávamos na estrada pra comprar o queijo, antes de voltar pra casa. Mas o que era caro pra mim, o que realmente tinha valor, era viajar com meu pai. Sozinho. E receber um pouco da sua atenção. E eu não imaginava que o queijo com KARO era só uma metonímia do Encontro.

Toda vez que me sinto só em Uberlândia, como queijo minas com mel. Fico pensando quantas formas de nos aproximar verdadeiramente de quem amamos temos, fico pensando no quanto somos privilegiados por poder estabelecer pontes que nos são verdadeiramente caras, mel da nossa existência, proteína das relações.

Cuido do Bonsai da minha filha, de um ano e sete meses (amanhã) quem não vejo desde maio. Entro no quartinho dela todo dia. Ando de escada rolante e quando coloco a mão no corrimão, me encontro com minha irmã (caso nosso...). Durmo com a colcha de tricot colorida e me encontro com minha madrinha. Vejo as cores do mundo e me encontro com a minha mãe.

Assim eu sento no box, escovo os dentes, ponho um segundo travesseiro no meu peito, cozinho, danço, faço supermercado, leio, ouço música, caminho... assim eu vivo. Dando rasteiras no sofrimento. Sou mais esperto que ele.

Como Rubem, Volpi, Amílcar, decidi amar sempre, e de maneiras diferentes.




P.S.: Às vezes, me pergunto quais pontes minha filha vai encontrar pra me levar até ela.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ondas do mar, do há mar do meu pai







Pai,
olho do mar de mim. Atravesso. Escuto o barulho das ondas. Sei do abraço, sei do laço, sei do querer. Foi me dada a faculdade de ver. O vento balanceia meus cabelos. Meu olhar é lânguido assim, sou assim, pai. Essa sou eu. Atrás do vidro, atrás da rede de proteção, atrás da grade, atrás do seu olhar estou. Você vai chegar pelo mar? Da barriga da mamãe eu escutava você cantar. Quando chega a noite, procuro a estrelinha da música, a que você vai trazer pra mim quando eu crescer e você comprar um avião. Você vem, afinal, de avião ou barco, papai? É você ali, correndo na areia? Onde você está agora? Trabalhando? Pensando em mim? Sentado no box? Querendo um abraço? Há mar dentro de ti, pai. Posso sentir. Há mar dentro de mim, posso sentir. Por isso que quando a gente chora de saudade, nossa lágrima é salgada. É um pouquinho do há mar que transborda, em ondas que ouço, barulho das ondas revoltas, há mar, nós dois. O vento atiça as ondas do seu peito, pai. Daqui lhe vejo. Daqui lhe sinto. Seu barco pequenino que sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce sem medo do há mar. Miserinha do Mar é seu nome. - Capitão Bogeder, venha me buscar! Vai e vem... vai e vem... vai e vem... é molhada a expectativa. E minha boca, seca. Tento palavras, tanto, mas a sopa de letrinhas faz tempestade indizível no prato fundo de mim. Da próxima vez que escrever na areia, escreva algo que o mar apague, mas o há mar deixe inscrito, pra sempre, na sua areia de ser. O perdão é como o mar na areia, pai. Olho do mar de mim. Escuto o arrulho das ondas. São pombas espumas, milhares que voam do há mar de mim, pombas peixes de águas salgadas que molham seus sonhos à noite, e brincam, e pegam, e rolam vento e aspergem cosquinha na sua nuca, areia de ser. Mergulha pra sempre, papai. Fura as ondas. No oceano de nós, desatamos à vontade, brindamos com nossos corpos copos, cheios de há mar e alegria. Nus, cirandas, cantigas de rodas, transbordamos. Na banheira da vovó Lili, também aprendi que "esperança é uma menina de trança". Seu pensamento, meu nome, vem dito baixinho em uma bolha de sabão, pai. E seu trejeito é meu jeito, nosso, sempre, brinco no espelho de te achar enquanto você não chega.
- Adê? Assô!


por Beatriz.





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Vamos ventar juntos?



V ente.

Este é o título do meu livro 2, que já está na gráfica. Hoje, pela manhã, a terceira revisão foi feita, pela Trema, que tem nas mãos a prova da gráfica, e aprovada pela Designlândia. Vamos rodar!

Dia 01 de novembro de 2012, o lançamento no lindo Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, que faz parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade (conheça!!!). O horário eu conto depois.

Encomendei 1.000 cópias iniciais.

E fico feliz de ter recebido um email da Karina Militão, do Novo Céu, aceitando gentilmente a parceria que propus, em nome da Beatriz, Dudu e Clara.

O valor das primeiras 500 cópias vendidas do livro serão revertidas integralmente ao Projeto Assistencial Novo Céu. Poderia fazer assim: 50% pro Novo Céu, e 50% para os custos. Mas dessa forma, destinando 100% do valor das primeiras 500 unidades, temos mais chance de realizar essa ajuda da Beatriz, do Dudu e da Clara.

Pelos cálculos, o livro teve um custo unitário de R$ 12,50 reais a unidade.
(Só de gráfica, R$ 8,50)

Isso quer dizer que vou vender o livro a R$ 25,00. Metade para tentar cobrir os custos de produção e metade para ser doado integralmente ao Projeto Assistencial Novo Céu.

Karina me foi apresentada por um anjinho que é locutora e jornalista da Rádio Guarani FM, a bela Ana Luisa Alves. Em sua delicadeza costumeira, me enviou uma referência de custo do que representa R$ 12.500,00 (doze mil e quinhentos reais) ao Projeto (valor que Beatriz, Dudu e Clara querem doar com a nossa ajuda para instituição).

A cada mês, o Novo Céu gasta R$ 2.500,00 reais só com medicamentos;
R$ 6.000,00 reais só com plano de saúde;
R$ 30.000,00 reais com folha de pagamento para 40 cuidadoras;
R$ 1.000,00 só com luvas de procedimento;
e R$ 3.000 reais com dieta alimentar;

Ou seja: cada criança tem o custo mensal de aproximadamente R$1.500,00 reais mensais.

Visto assim, R$12.500,00 reais pode parecer pouco. Mas pergunte às crianças que podem, com esse valor, se sentir assistidas com seu plano de saúde por 2 meses o que isso significa. Ou ter uma alimentação saudável por 4 meses o que isso significa. Ou ter garantidos 5 meses de seus medicamentos...

Vou fazer uma pré-venda do livro aqui pelo blog, facebook, twitter e email. E o Novo Céu vai me ajudar na divulgação. Quem sabe não nos surpreendemos e conseguimos vender as 1.000 unidades? Isso faria com que fizéssemos mais 1.000... e quem sabe mais 1.000... e mais 1.000...

Pra quem não sabe, Beatriz é minha filha de um ano e seis meses. O nome "Beatriz", além de ser "a viajante" é "aquela que traz felicidade". Viajar ela ainda não viaja, só na maionese. Mas trazer a felicidade, ela já nasceu fazendo isso pra minha família. Mas ela quer mais. E agora, com a ajuda dos amiguinhos Dudu e Clara e de todos os amigos e leitores do papai, pode trazer um pouco dessa felicidade pros anjinhos do Novo Céu.

Aguardem os detalhes. Para saber mais, acesse os links do Novo Céu que coloquei nesta página ou escreva para novoceucomunica@yahoo.com.br

Ou pra mim, que respondo com o maior prazer! besantanna@gmail.com

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

#brotoquesou

foto*


Árvore ceifada na copa.
É tronco.
Perde suas folhas, perde seus galhos, perde seu viço.
Dá broto.
Cadê o balanço que estava aqui?
Cadê a sombra, cadê o vento, cadê as folhas que caem mansas?
Cadê o ninho, cadê forquilha, cadê os líquens, cadê o musgo,
cadê gato?
Árvore ceifada na copa é tronco.
Dá broto.
O tronco que bóia na água é balsa. Abarca.
Pensamentos que correm molhados nas margens de mim.
Eu rio, eu tronco, eu árvore ceifado na copa.
Broteu.
Nasce broto, meu plexo solar.
Rompe pendão, meu dedo de viver.
Raízes se espalham em mim, capilares que envolvem meu coração.
Cresce pendão,  meu dedo de viver.
Deus me aponta, sou tronco quase seco de um broto só.
Floresta desejo, gramíneas vicejo,
orquídeas dependuradas nas minhas esquinas.
Brota, na grota, o profundo do ser.
É lodo molhado, caverna pingando, ecoo lamento, eu sinto muito.
No dedo que tenta, a seiva do amor não desiste, em si. Insiste?


*na foto acima, o bonsai de Beatriz, comprado logo que minha filha nasceu, de férias na casa da tia Rê, do Terra Bonsai, cuidada com carinho pra pequena do pai, enquanto estou fora...



Beatriz, cuido todos os dias da sua árvore, até que possa cuidar você mesma, filha. Sua árvore é bem mais forte do que a do papai. Suas raízes, firmes, tronco forte, o vento balança você por dentro. Estou em sintonia constante, meu bem. Flôre-se.



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Olhe dentro do armário quando for dormir




Posso falar sobre a solidão?
Sólida ida, hão de dizer, para sem-pre-ferida instalada na alma da gente.
A gente sente. Que há outro. Couro. Canto. Choro.
Meu couro curtido não curte. Terra batida não mente. O sol seca o caminho por onde passo. É quente o solo, é quente eu solo. Solo que trinco nas beiradas do ser, no encontro com o outro. A água escorre entre nós sem que saibamos molhar-nos-nus, revestidos da chita da ingênua incompreensão.
Meu pensamento é uma cortina de fuxico. Não sei se abro. Não sei, se abre.
Há um pedaço de mim no mundo que cresce sem que eu estrague.
Há um vazio no mim profundo que eu sem medida-de-ser.
Há um jeito de olhar no caminho que diz: pais agem.
Ficar parado nunca foi fazer nada.
Ouço passar, todos os dias, os passos que a levaram para de mim distante, para sempre.
E o berço vazio grita na noite sem bicho-pai-pão.








sábado, 8 de setembro de 2012

O estribilho do amor




Já comentei aqui sobre o diálogo de Jodie Foster e Matthew McConaughey (putz, conferi 3 vezes o nome desse famigerado pra escrever aqui no blog - imagino ele aprendendo a escrever o nome na escola, tadinho). Ele, reverendo. Ela, cientista. O embate entre ciência e religião posto à mesa. Zapeando, depois de suspirar com a Sharapova, caio justamente na cena que já vi várias vezes:

Festa, filme Contato, ele diz:
- Não imagino viver num mundo sem Deus.
Ela: - eu preciso de provas
Ele: - provas? você ama seu pai?
Ela: - sim, muito.
Ele: - prove.

É assim. Amor não se prova. Deus se prova. Tem gosto de amor. Amor se prova. Tem o tempero de Deus.

No filme, dentro da máquina espaço temporal em que faz a viagem extra terrestre, ela finalmente encontra galáxias, vislumbra o espaço, toda a criação, o uni-verso palavra de Deus, prova o sabor de saber além da crença, e diz:

- deviam tem mandado um poeta! eu não tinha ideia!...

Não, ninguém tem. Porque não passa pela ideia, pela razão, pelo raciocínio: o discurso lógico. A linguagem final mente, falta. E só o poeta, o músico, o artista plástico, só a arte, a poesia, a música. Só na fronteira entre a linguagem e o etéreo, a linguagem e o amor, a linguagem e Deus...

O ET conversa com ela. E diz que é assim. Que a vida é assim. São só sonhos e pesadelos. E que o vazio insuportável da existência só se cura com o Outro. E tudo termina em um beijo. Nesse caso, na testa dela. Me lembrei da dona Rosinha. Morava sozinha em um barracão no meio da estrada de terra indo para o meu sítio. A gente parava lá, minha mãe levava comida, biscoito, suco. E dona Rosinha despedia dela dizendo: dá um beijo na testa do seu marido, em sinal de respeito. Fico pensando se dona Rosinha assistiu Contato. Ou se o roteirista de Contato conhecia dona Rosinha.

A noite vem, e finalmente eu sonho. No sonho, minha avó paterna. Meu avô paterno (o poeta). Minha madrinha e meu padrinho. Meu padrinho me ajudava a reformar minha casa. Ele arrancava a janela principal. Peço ao meu avô: - o vô, faz um verso pra mim? E ele responde: - um verso não, um estribilho...

A diferença dos dois é que o estribilho também é um verso, mas uma espécie de refrão. Um que se repete ao longo do poema, que dá o tom, que retorna ao tema, que induz o ritmo, um mantra dentro do poema, acho que posso assim definir.

Sim, vô. Me faz um estribilho. Pedi a bênção pra minha madrinha com um beijo na testa, enquanto meu padrinho me ajudava a refazer a minha casa. Nela, um pé direito alto, sem paredes externas, aberta para o mundo.

No estribilho da construção poética da minha casa, a prova de Deus é o tempero do amor.

E a vida segue, seus mistérios.




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

One for two



Osso esse ofício de agradar, eu disse a ela em uma de nossas conversas.

Difícil "ter que".

Se superar a todo instante, difícil esperar, difícil querer, difícil escolher, dofícil amar.

Quando Pessoa anuncia, meu dia amanhece.

Fiz um Haikai pra Laura Barreto, a amante dona do blog Ócio do Ofício:

Haikai para Laura

Na lua da Laura
respiro.

Eu dizia desse jeito de ser meio alegrefusivo, que no meu caso, muitas vezes, vem com aquele dizer: -– - Suas balas não me atingem! Meu humor é como uma couraça de aço!
Mas essa é uma história compriiiiida, que não vem ao caso aqui...

Conheci Laura - ela não sabe - por "indicação".  A melhor amiga de uma paquerada no Verde Mar me mandou o link ("Vai sair hoje? Não, vou pro Verde Mar!"), por ter achado divertido ter acontecido comigo e com a amiga dela algo semelhante ao que Laura divertidamente anuncia em seu blog. De outra vez, ela usou uma foto minha em um post dela. E eu não a conhecia, já a reconhecia, trabalhamos em áridas afins.
...
Ainda não conheci Laura. Pessoalmente.
Pessoal mente. Quero a verdade. Quem sabe não deveria conhecê-la? E ficar só com minha impressão não impressa, mas marcada, minha não expectativa, minha relaxada sintonia ideativa?

No post do primeiro link acima, de 4 de setembro, "Keep the faith", o que ela cita Pessoa, me encontro.
Me encontro em vários posts dessa moça. Mas sobre esse específico, ouso responder a Laura duas coisas em desafio...

Uma que a prendi com Gilberto Gil: "Andar com Fé eu vo-ou, que a fé não costuma a faiá!".

Outra, que me dito e anuncio, quando depois de ler seu post. Segura que lá vai:

O Apego é gêmeo bivitelino da Expectativa.

Mas a Expectativa nasce primeiro. O fórceps do desejo é dispositivo crudelíssimo. Quando vemos, está em nossas mãos. Já diria aquele moço budista que anda com aquela camisola laranja e lança um monte de livro que o desapego é o caminho da felicidade. A desexpectativa deve ser o caminho da paz.

Pimenta: sobre o Keep the Faith, o comentário machista (sim, machista!, pensa aí) que a autora se refere, dizendo que

"...o cara vai fazer você se apaixonar, te usar e depois, quando cansar da novidade, te largará...",

acho cheio dos gêmeos referidos. A versão masculina machista poderia ser:

"...a mulher vai te seduzir, te colocar um anel no dedo e depois, quando você tiver caido nessa, se entregar ao desleixo da dona de casa e se esquecer da sedução..."

Ou quem sabe a versão masculina feminista:

"... a mulher vai te seduzir, fazer você se apaixonar, te usar e depois, quando cansar da novidade, vai te colocar um (um?) par de chifres..."

Qualquer um dos comentários acima são cheios da brega dupla sertaneja. A "Jane e Herondi" do pseudo-amor, a "Expectativa e o Apego". Talvez, minha amiga virtual tenha, justamente, que meditar um pouco sobre a Expectativa, assim como tenho tentado, não sem uma boa dose de dificuldade, declarar independência do seu irmão mais novo, o Apego.

De qualquer modo, antes de pensar se vamos todos escolher escrever de forma feminista ou machista, cabe nos lembrar que "Leves you, darling, if you don't care for it" e, é sempre bom grifar na alma que "One life you got to do what you should"... Por isso, uso o mesmo vídeo para servir de taça de vinho e brinco de brindar com minha amiga, até que o encontro se faça, o dia 01 de novembro chegue (dia do lançamento do meu novo livro, quando sua presença já foi confirmada), ou decidamos por algo realmente inovador e inesperado:


Vou encerrar, fazendo outro Haikai aqui, Laura, já que você disse que "sobre beijos e abraços" dava um bom post filosófico (prometo render na frente...):

Haikai do encontro 2

o beijo é a fruta da árvore do abraço








segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre a maravilhosa propriedade farmacológica do picolé de milho verde



Ingredientes: Água. Do mar. De todo o oceano. Com seus peixes, arraias, tartarugas marinhas, golfinhos, monstros do mar. Com suas tormentas e sua calmaria. Com um novo dia. Com lua brotando molhada, riscando de luz nossa estrada líquida, nítida, mística, cíclica. Açúcar. Doce do mel das mãos de minha avó. Suas unhas vermelhas que confeitavam o bolo. Olhar de bala puxa-puxa. Maçã espetada no palito esperando do lado do fogão pra caramelada-se-ar. Um pouco de amar. Polpa do seu bumbum durinho de menina, cheirinho de neném de fraldinha, me um-milho verde, cru, pai de primeira viagem.
Vi. Agem. Também ajo. Parar e esperar é diferente de não fazer nada. Acho. Ajo. Gordura vegetal, êita que a natureza tá precisando de um regime. Nem sabia que vegetal tava gordinho. Leite em pó das tardes de menino, misturado com Nescau pra jogar seco na boca e fazer confusão, quando via desenho sentado no puf. Pluft, o Fantasminha. Onde tudo começou. Já tinha vocação pra Tio Gerúndio... Xarope de glicose pra grudar a gente, criança só sabe apontar pro coração, mesmo quando aponta uma estrelinha. Olha a luz... Luz! Maltodextrina-me que desnorteado, sou um ignorante de profissão. Sigo meu coração. Soro de leite. Só vi mamar na mamadeira. Mas dormiu em minha mão, na barriga da mamãe. Estabilizantes goma jataí e carragena, muito prazer, Bernardo Sant'Anna. Sou o pai de quem me chama, enquanto aponta o dedinho, minha foto no celular do vovô Toi. Tenho excesso de estabilizante. Sou seu, amante, caminhante do Campo das Estrelas onde nos conhecemos. Emulsificante mono e diglicerídeos de ácidos graxos, pra brincar de lambuzar. Aromatizante e corantes tartrazina e ponceau 4R, se é que você me entende, minha flor. Não contém glúten, seja lá o que isso represente pra nós.
Curado. Eu também estou.
Jaboatão dos Guararapes - PE. Pe ou pé? À pé, se vai ao longe.
Não contém quantidade significativa de gorduras trans e fibra alimentar.
O Picolé de milho verde colorido artificialmente. Contém aromatizante sintético idêntico ao natural. Não sabia que o aroma natural de milho verde tinha cheiro de biscoito maizena.
Somos assim. Conectados pra sempre. Enquanto saudoso de minha filha, faço pontes com seus gostos, energia pura, artificial-mente em cantos, superficial-mente, que é profundo, que nos une em sonhos, nos  gestos, nos trejeitos, dos jeitos de ser e de estar, um no outro. Remédio poético transcende a distância, filha. Somos unidos, nosso castelo de pauzinho de picolé*.
Curiosamente, na embalagem diz: sabor do coração.


*de madeira de reflorestamento