sábado, 31 de dezembro de 2011

Nude




Naked.
Acordei às sete e pouco. Pelado, puxei o macbook para o meu colo antes de acender a luz do quarto. Depois de ver que haviam comentários na folha de rosto do meu iphone. Pelado, abri o email e descobri que não há resposta para a vida. Só perguntas. Quais, enfim, devo fazer? Talvez o truque seja esse.

QuAndo pergUntas peladas, deSejos dEspertos.

Seja esperto.

Esperto, me levanto. Pelado.

Acordado, saio andando pela casa, depois de fazer xixi, vou deixar pra escovar os meus dentes depois do café. Estou sozinho mesmo...

Entro pelado na cozinha e vejo a máquina de fazer pão. Comprei com vontade de fazer do meu café da manhã mais um ato de amor. E, de certo modo, fiz.

Os ingredientes pelados que coloquei ontem à noite, depois que cheguei da casa da minha professora de francês, que fez aniversário, viraram pão. E ele está ainda morno.

Morno e pelado como eu.
Morno e pelado, como eu.

Antes, faço um café. Com o pó de café que veio do sítio do meu pai. Os dez pézinhos de café todo ano se transmutam em safra, que meu pai presenteia gentilmente com pós de café pelados, com um rótulozinho de brincadeira, Café Matinha, safra 2011. Este ano, pude ganhar 4 saquinhos. Presenteei só duas pessoas. Espero que elas tomem este café peladas.

Aprendi a ficar pelado com o Amor. Nunca havia dormido pelado. Eu não sabia que podia ficar pelado. Eu não sabia que era permitido ficar pelado, me sentir pelado, encontrar pelado, abraçar pelado, ser pelado.

Um dia, há muito tempo, tentei cozinhar pelado. Achei que seria o momento de trangressão mais incrível do mundo, que minha companheira à época ia entender que eu queria que o mundo fosse pelado, que a gente se visse pelado, encontrasse pelado, se amasse pelado, fosse pelolado do amor.

Ela achou nojento cozinhar pelado. Sujo. E eu só estava pelado. Pelado e de avental, pra não espirrar coisa quente na coisa quente.

Bem depois disso, conheci de fato o que posso chamar de Amor. Antes, conhecia a dúvida e suas vestes. As vestes da dúvida, me diziam que o amor estava ali. Que mentira... Como num viés distorcido da fábula do Rei Nu, de Hans Christian Andersen*, que encomenda o tecido mágico, eu vestia uma peladeza mentirosa, até o dia que percebi que não era amor que vestia, era propaganda do amor. E, você sabe: propaganda é propaganda. Não é, de fato. Propaganda é só uma veste que imita o vestido, seja ele qual for.

Detesto macaco de imitação.

Hoje, aprendi dormir pelado. Aprendi acordar pelado. Aprendi cair, levantar, amar, chorar, sentir dor, esperar passar, voltar a rir, sonhar pelado. Fiz o Caminho de Santiago e ao final do caminho entrei pelado na Catedral. Foi incrível. E ousado. Pela manhã do dia 31 de dezembro, tomei o café mais pelado de 2011. Com o pão que fiz pelado, com o café que meu pai faz pelado, e que dá aos outros pelado. É bonito ver meu pai dando o café para os outros pelado. Apesar de sua brancura. Eu, moreno, comi meu pão, bebi meu café. Atendi o celular com minha tia do outro lado da linha apenas me desejando PAZ para o ano novo e: - "deixa o barco correr!" disse ela.

Vou, tia. Em 2012 vou navegar pelado. E, se der, aproveito pra nadar pelado. Sou grato ao Amor, que ensina a gente a andar por aí, nu.

Que você, que me lê nu, também possa navegar, nadar e amar pelado em 2012.



* vale ler o mestre Rubem: http://www.rubemalves.com.br/oreinu.htm
e conhecer Spencer Tunickhttp://www.spencertunick.com/

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do filho, do pai, pra mãe, do ano novo.










Mãe,
feliz ano novo.

Comi o bolo de chocolate que você deixou pra mim de presente quando viajou, o mesmo que você faz em todos os meus aniversários. Hoje tentei mais uma vez resolver as coisas todas, mas não foi possível. Nem sempre as pessoas sabem a importância da escolha em nossas vidas. Que as mesmas sementes quando plantadas, germinam ou não dependendo do terreno onde estão. Se tem água e luz.

Às vezes falta água, às vezes falta luz.

A iluminação é preciosa em todo o processo de germinação e crescimento.

Quantas escolhas erradas eu fiz, por falta de iluminação? Realmente não sei. Mas sei que todas as sementes que foram originárias das minhas escolhas, germinaram. Todas elas. As boas e as ruins. 

Não. Não estou dizendo que haviam sementes ruins. Estou dizendo que as escolhas foram boas ou ruins. As minhas. E isso fez toda a diferença, mãe.

Paro um pouco e imagino você fazendo o bolo de chocolate pra mim. Saiba que não ficou com pouca cobertura - como já imagino que você supôs. Hoje, quando compartilhei com todos os que comigo estavam, apenas disse do ingrediente mágico que você coloca em tudo que faz: seu carinho imenso. "Atenção para o ingrediente principal, que foi minha mãe quem fez!" - eu disse a eles.
E teve gente que achou que era chocolate. 

Só comi uma fatia, mãe. Precisei compartilhar, foi você quem me ensinou. Às vezes as pessoas não sabem a importância do compartilhamento na vida, mãe. Acham que compartilhar, é o mesmo que dar. Que dar e ficar sem. Não sabem que tem muita coisa na vida que quando a gente compartilha, 2 ficam com exatamente o mesmo tanto. Que multiplica. É assim com você e com meu pai. Compartilham o amor dos filhos. Os dois tem o mesmo tanto. Dobrado. Imagino como seria se vocês não pudessem compartilhar esse amor, o tanto que eu perderia com isso. Eu e minha irmã. Custei muito a entender que também podia compartilhar o amor de vocês com ela. Fui uma criança muito ciumenta. E esse ciume me prejudicou muito nas minhas escolhas, na minha vida. Perdi afetos, perdi sonhos, perdi amores verdadeiros por não saber compartilhar. 

Foi preciso ir para o Caminho de Santiago para que pudesse rever valores, entender o valor da escolha, descobrir o perdão, conhecer o pendão da vida. O que hasteamos e deixamos flamular conforme o vento. Me pergunto sobre a máxima de que a vida é o que nos acontece enquanto fazemos planos. Planos sim, escolhas não. A vida também é o que nos acontece quando fazemos escolhas. Escolhemos hastear nossos sonhos, valores, ritos, desejos, sabores. Eros que nos guarde. E que a alma nos conduza. Sempre, com bolo de chocolate. 

Na infância, na adolescência, na dor, na alegria, na fraqueza, na ousadia, no ciúme, no perdão, no entendimento, na compreensão, na compaixão, seu bolo de chocolate me fez companhia. Muleta semântica? Cajado poderoso? Viagra pro tesão de continuar vivo? Seu bolo de chocolate é mistério em mim, é reveillon, é apaziguar o aflito. É a virtude da doação, sem obrigação. Só comi uma fatia que me fez partilha. Só comi uma fatia que me fez parte. Só comi uma fatia que me faz pedaço de mim. Do mim tão seu, tão da minha filha, tão dos outros, tão mesmo uno com o mundo e com o desejo das coisas simples de viver... Vou viver Beatriz em meu colo, dedinhos de chocolate, os olhos de brigadeiro. "A luz do candeeiro"...

Só com o partilhar chocola-teia-se a alma, mãe. Teia enorme, que amplia-se em sonhos possíveis, sempre. Não vou passar o ano novo com vocês, mãe. Nem com minha irmã. Nem com minha filha. Nem com o amor da escolha. Mas escolho amar, independenteamante de qualquer coisa. 

Seu bolo é delicioso, minha mãe. Feliz dois mil e doce. Do seu filho, que é pai e filho.


Bê Sant'Anna.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O fim do mundo está próximo.



O fim do mundo está próximo. Digo, do ano.
Imagino se você parou por um momento e pensou: putz, o fim do mundano está próximo, será que fiz tudo o que eu podia?
Tudo bem, você não pensou isso. Só está lendo esse blog sem exatamente nenhuma implicação efetiva em sua vida e em seu cotidiano. Ok. Seu chefe viajou e mandou você ficar trabalhando. Por isso você está aqui, passando o tempo.
Tá, melhor eu continuar escrevendo algo que lhe desperte interesse, pra ver se você pelo menos termina a leitura.
Fim do mundo é assim (desculpa, do ano), você já imagina a lista dos desejos pro ano que entra. Aliás, tem vários ritos possíveis relativos a isso. Um básico, é escrever tudo - e assim poder conferir o que desejou, o que plantou e o que colheu no final do ano que chegou, passou voando e lhe tomou de assalto. Tranks. Eu não sei bem se isso é bom ou ruim. Não sei se isso é mais uma estratégia básica de coaching que minha amiga ninja Danielle Michel Serafim ensinou, porque tem pena da gente que não sabe administrar nem seu rumo, ou se isso é bom mesmo energeticamente falando.
Vamos ver... nesse ano eu vou:
Fazer uma maratona internacional;
Fazer um meio Iron Man (já entendeu qual vai ser o do ano que vem, se o mundo não acabar, né?)
Terminar os 3 livros que comecei escrever (tá fácil, um tá pronto e vou lançar em março);
Lançar pelo menos 2 deles (metade! Easy);
Voltar a estudar hebraico;
Voltar a estudar clarineta;
Ganhar na Mega Sena da Virada (deste ano pro próximo, não do próximo pro outro - que fique bem claro)
Ah, e sozinho.
Não, para. Deixa de ser invejoso.
Não, não sou egoísta. Quanto mais eu ganhar, mais vou poder ajudar aos outros.
Sério. Imagine: 10% de um milhão é bem menos que 10% de 170 milhões. Então, melhor que eu ganhe sozinho.
Sei lá, é como diz o amigo do Nelson (outra história, um dia falo disso).
Por não falar nisso, eu não sei o que faria se ganhasse sozinho na Mega Sena. Essas coisas que parecem o sonho de muito macho que quer ser alfa, do tipo comprar um ferrari, ou algo assim, acho bobo. Pequeno, pra dizer a verdade, tipo coisa de gente que não tem imaginação (ou que não sabe nem o que é macho alfa). Aliás, acho risível. Não exatamente preconceito. Só não é o que faria. Nem de longe.
Perguntei a um amigo, Ramiro Maia, no buteco, afogando as mágoas no dia 24/12: se você ganhasse sozinho na mega da virada, o que faria? Ele respondeu: "uma coisa eu sei. Ano que vem também estaria aqui, nessa cadeira, tomando uma cerveja com você."
Sorri.
Claro, a primeira coisa que farei é pensar na minha filhinha. Já separar o dinheiro da viagem pra Disney, da viagem pro Caminho de Santiago, da festa de quinze anos, do estudo fora do país, da festa de casamento, de um apartamento de presente de casamento, de uma poupança programada. Pensamento de gente que nunca teve dinheiro mesmo. Tô nem aí pra jacuzisse. No fundo, porque quero tirar essa coisa da cabeça. Tenho muitas outras coisas pra pensar. Quando isso não for questão, demandar tanta energia, sem dúvida, vou focar essa energia desperdiçada nessas coisas mundanas no que pra mim realmente importa... Finalmente estudar filosofia com profundidade, me dedicar a escrever sobre isso, voltar a fazer aula de dança, investir nos talentosos amigos que têm dificuldades de gravar seus CDs porque dependem de leis de incentivo...  Pensar em agilizar a editora de livros com essa caracterísitica colaborativa. Dar mais apoio ao Novo Céu (clique aí e conheça, deixa de ser preguiçoso), que minha amiga Ana Luisa Alves cuida com tanto amor e carinho. Pensar num doutorado em ComunicAção e, claro, na geladeira de gelar cerveja com porta de vidro na frente e com indicador de temperatura, por que a vida sem isso é um pouco chata - vamos combinar...



domingo, 25 de dezembro de 2011

Sonho de Natal



Evangélicos. Muitos, que cantavam e que batiam palmas. Alheios à revolução que acontecia, apesar da minha incompreensão. Dividindo a escola com os evangélicos, nós, refugiados, espremidos nas salas, vagando nos pátios, tentando localizar um ou outro, que havia sumido há dias.

Não consigo me levantar.

Na almofada amarela, me arrasto de um cômodo a outro, sem me preocupar por qual motivo me arrasto, ao invés de andar.

Quem eu menos espero vem pra me abraçar. Me olha com um olhar carinhoso e diz que apesar dela ter sumido, que ela está bem. Que teve notícias que ela está bem, que ela não teria sumido se não fosse por eles. Não sei quem são eles, mas eles a têm em cativeiro. Olho na tv, na parede da escola, e os desenhos animados, ao invés de historinhas infantis, estão dando notícia da revolução, de modo dramático, não de modo jornalístico.

Ela passa a mão na minha cabeça, me olha com aqueles cílios marcados, cola seu corpo em meu ombro, eu de joelhos, e diz que ela não sabe bem o que aconteceu, mas que não é culpa dela, não é culpa de quem sumiu.

Ouço um estampido e sirenes, todos se agitam, muito barulho e intranquilidade. Os evangélicos batem palmas, de costas para nós, angustiados. De repente, eles trazem um pai desmaiado, que sangra muito, enquanto acompanho toda a cena com o olhar. Não vejo seu rosto desacordado, ele está sendo levado. Deitado sobre ele, em seu peito que sangra, reconheço seu filho, que olha pra cima e pergunta aos quatro para onde estão levando seu pai. Eu sei quem é ele. Seu filho está bem, não sabe o que está acontecendo. Os evangélicos batem palmas e me acordam no dia 25 de dezembro de 2011.

No presépio que montei em minha casa, o menino Jesus continua bem pertinho do São José.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tem sido


No dia 30 de junho de 2010, escrevi esse post, depois de ir ao cinema com minha mãe. Às vezes, não ouvimos o recado. Pensamos tanto em falar menos e ouvir mais... mas o segredo está sim nos olhos. Não na boca, não nos ouvidos. Noutros sentidos. Comprei o filme, finalmente, que dizia da história. Quem sabe pra buscar uma pista, um conto, um toque, um sopro, um alento... Sim, vai ser complicado, ela diz. Que bom que ela sabe. 
Ele sabia. E estava mais do que disposto. Ele buscou a verdade. 
"Temo" - escreveu na noite. E o que queria dizer mesmo era outra coisa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Haikai sobre a morte.







A vida 
é ida.










domingo, 18 de dezembro de 2011

Bom fica.


Minha amiga disse que ela está bem. Há cerca de 70 dias, quando sua dona se foi, perdeu todas as folhas. amuou-se. Invernou de dentro pra fora.
Pedi socorro na mesma hora.
A Pequena Resedá  é um símbolo importante. A árvore é um símbolo importante.  Raiz, tronco, galhos, folhas. É preciso molhar. É preciso saber que não se poda à toa.
Talvez... seria mais fácil se as pessoas compreendessem o casamento, efetivamente, como um bonsai.
Sua poda bem feita não prejudica a árvore, pelo contrário, só faz com que fique mais bela, mais forte, mais vistosa. Não há porquê não podar. É justamente o contrário. Os limites não ferem. Exercem um poder importante para o crescimento, para a força. Ser integral apesar do limite é só uma questão de escolha. Não se perde por causa disso. A liberdade de crescer internamente, a liberdade de crescer dentro da relação, a liberdade de ganhar força, a liberdade de ganhar viço tem um aliado na poda. No limite.
Muita gente engana-se ao achar que retirando essa pequena árvore do pequeno vaso e da poda, ela vai crescer mais, poder espraiar seus galhos por onde quiser, ser mais feliz.
Eu não. EU acho que a liberdade sem limites é bem questionável.
Já parou pra pensar se você é como um bonsai em suas relações?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Katana




Olho no relógio e os números se repetem. Olho pra dentro e você se repete.
Não encontro conforto no olhar da minha mãe, não encontro acalento no abraço da amiga, no braço do pai, na palavra medida, no suspiro da irmã.
O mundo testa a gente. O caminho tem lama, tem trama, tem drama, tem brahma. Excessos que desmedem quem sou, até onde vou, até onde voo.
Lhememisturo. Sememisturo. Desmefaço. Desencontro.
O tempo passa. Minha filha cresce. O dente que me obrigaram a não ver nascendo, nasce. Em pé como não pude ajudar a levantar, fica. Sua chuquinha que eu não pude pentear, vira franja. Seu choro que não pude trasformar em riso, sufoca o peito partido.
Sentido. Estufa o peito.
O casamento se foi, a paixão se foi, o amor se foi, a amizade se foi, a infância se vai, o projeto de vida, a casa, a ferida...
Quando a infância finalmente se for, a leitura vai chegar. Com ela a cultura, a análise, outra ferida. A escolha.
O mar tem seus dias de ressaca.
Na noite vazia, reflete a lua que não é vista por nenhum casal. Seu barulho é de vai e volta. É de tomaládacá. É de espuma branca vazia. É de águas de segredos, não confessos, calados, colados, que não secam.
Eu vou morrer. Mas comigo não morre a verdade. Nem do meu amor perdido, nem do meu calor no umbigo, nem da honra insana de um samurai que lentamente enfia a katana no ventre com o passar dos meses, pra deixar escrito, pra deixar inscrito que existe verdade, existe amor, existe sonho além, muito além, de toda a dor.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Adam, Cronos e Kairós




Adam, do Peru, conheceu Eve, da Argentina, há aproximadamente 30 anos. Por cartas.

Tudo bem, ele não se chama Adam, não é do Peru e ela não é da Argentina e nem se chama Eve.
Whatever. A história é real.

Durante 4 anos se corresponderam. Ele e Ela nunca se encontraram. Aos 17 Ele pediu Ela em casamento. Por cartas.
Claro, o mundo era menos globalizado, as distâncias eram distâncias. Uma cidade do interior de minas não era exatamente na rota dos aviões que saiam da américa latina. Ele nunca a conheceu. Ela nunca o encontrou. Fisicamente falando.
Será que casou? Será que é feliz? Será que ainda tem suas cartas? Ele guarda sua foto, a foto de sua família, as fotos de 30 anos atrás. As mais de 50 cartas...
Pergunto: Mas você não tem interesse em finalmente encontrar com ela? Saber como vive, quem é, como está? Nunca procurou por ela no Facebook?
Afinal, o mundo agora é tão pequeno...
Não, disse ele. Quero guardar a lembrança dela, a da moça de 17 anos.
...
Imagino Ela, eternamente com 17 anos. Cronos e Kairós brincam juntos no jardim da lembrança do meu novo amigo.
Há Tempo para o amor?
Cuidado amigo... O Tempo que brinca encontro num mundo tão grande, brinca num mundo pequenino.
É que o Tempo continua sendo menino. Enquanto quiser.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

de Cachos



A sombra que vê, esconde a beleza de ser.
Como se configura, como se inscreve, como loucura?
Minha filha faz sombra no mundo, esconde a areia do sol, em meu peito anzol, faz sutura.
Beatriz se mistura.
Sei onde foram morar os meus cachos, já sei onde se encontra o meu sono, eu sei dos meus sonhos agora, tem água lá fora, corre que o boi já vem.
Eu sei do meu neném.
Por um triz já menina, me ensina a esperar novamente: Beatriz se gesta no mundo...
Um dia nasce em meu colo,
eu solo, espero.
Terra fértil, úmido de amor.
- Yemanjá, toma conta da Borboletinha do Mar.
Eu sem sonhar, durmo pra vida girar.
Tempo que a areia quis em mim, tempo, o barco navega afim, tempo, o tempo é molho do há mar.
É tempo de m'olhar.
Lambeatriz, Onda,
há mar.
Bebeatriz, Sol,
há mar.
Sobeatriz, Vida,
há mar de amor,
o mór que sou.
In finito.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Sobre os benefícios espetaculares dos bioflavonóides, ou quase isso.




Em vez de falar sobre o dia de chuva, sobre como a chuva caia na areia da pista de montaria do restaurante de comida mineira que serve as pessoas que pra lá vão produzidas, fingindo estar casuais, em vez de dizer o porquê deu insistir em ir lá comer torresmo, mexido, ovo frito e couve, em vez de dizer que acredito nas palavras da dona do estabelecimento que me chama de querido toda vez que vou lá, porque me conhece, porque vou lá sozinho, porque acho que ela deve imaginar porque vou lá sozinho, porque eu tenho um carinho especial por ela e pelo projeto dela, independentemente de ser um projeto pseudo-elitista, porque me parece sinceramente verdadeiro, em vez de dizer o gosto que tenho quando lá compareço a independer da companhia ou não que eu esteja, a independer da frequência ou do hábito, independentemente da qualidade da feijoada que lá é servida e, em vez de falar dela resolver falar de outra coisa, em vez dela e em vez da criança que chegou no carrinho e que fingi por um momento estar olhando pra ela para não parecer ousadia minha estar olhando para aquelas pernas maravilhosas que se colocavam ali na minha frente, inadivertidamente, em vez de falar do comprimento do vestido branco de um ombro só que tapava só o que tapava, independentemente deu, via de regra, ter um certo preconceito com vestido de um ombro só, achar barango, achar meio sem classe, independentemente da amiga dela usar uma bermuda jeans cortada e dobrada bem no alto da coxa e de ter uma bota gigante preta que vinha até quase o meio da coxa e usar os cabelos acima do ombro e uns brincos gigantes e um colar exagerado pra caralho, ter uma voz bonita mas parecer que estava fazendo uma homenagem ao Gato de Botas, em vez disso, e da menina da frente que estava sentada com o namorado estar com uns quilos a mais - tipo uns 8 - para os padrões excessivos contemporâneos e de sua blusinha creme com pequeninos babados não tapar o seu cofrinho quando se sentava no banquinho depois de pegar um prato de doce e de vir me olhando e pensando - Esse cara vai ver o meu cofrinho quando eu me sentar... - mesmo independentemente disso e, em vez de falar sobre isso, ou sobre como bateu aquele vento de chuva e os pelos de cima da bunda dela, na região do cofrinho, ficaram bem eriçados, ou sobre como eu ficava absolutamente alheio a isso tudo entretido no meu livro que eu gostaria de terminar de ler antes de ver o filme que já está em cartaz, mesmo assim, e em vez disso eu ter resolvido falar sobre outra coisa que não o fato de ter uma menina linda morena de vestidos compridos e eu estar absolutamente só, só, somente só, assim vou lhe chamar, assim você vai ver, como disse a música, mesmo assim, e mesmo eu tendo resolvido que ao invés de falar disso eu resolva que não é o caso de falar sobre estar aqui em casa deitado na cama, porta fechada, ouvindo o sino do mosteiro, pensando que nada e nem ninguém deve me tirar daqui nas próximas 16 horas, pelo menos, e em vez de falar que eu estou de meia, de boné, de cueca e óculos deitado na cama, em vez de falar que eu tô comparando a perna daquela gostosa com a perna de outra pessoa, em vez de falar que eu tenho dó, tanto do juninho que namora com aquela gostosa   de gosto duvidoso quando da gostosa de gosto duvidoso que namora com um juninho, que não deve saber nem tirar a meia, em vez de falar disso, acho melhor falar de outra coisa. Queria falar que eu comi a couve toda. Afinal, diz minha tia que couve é cicatrizante.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Detesto quando me matam





Quiseraeupoderfazerouvir.
Quemderaeuquelessemoqueescrevi.
Puderanósestarmossempreaqui.
Nodoceolharaondemeapreendi.

Coisa mais triste é velório de gente viva. 




quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Em bora.













Quando se história de amor, caso.
Caso contado, caso casado,
caso calado pra quem quer de fato ouvir.
Quando se história de amor, caso.

Caso contente, caso pingente,
um caso claro de casaragente.
Casei com os olhos,
o sorriso,
o cheiro erótico perturbamente.

Cá, sei com os olhos,
sei de ouvir por trás da boca,
sei o que chacoalha a alma.
Sei o que me acalma, o que me aquece e desestrutura.
Um caso clássico de casamentura.

Esse pau duro de cortar os pulsos, essa nudez que inocenta a gente,
o caso curo, mesmo delinquente.

Quando se história de amor, eu caos.
Eu caso caos, eu desmelinguotodo.
Eu mais que engodo, eu já refeito em ti.
Eu mesmo jeito, eu nunca estreito atrapalho. Eu ducaralho,
eu
superfeliz.

Eu quando caso, amor se história quando.
Eu quando caso, amor se historiandando.
Eu quando caso de amorsefondo, me findo todo pra me revestir.
Revisto tudo, revista toda, revista óculos, quero a partir.
Se Quando amor, eu me traduzo mundo,
quero que tudo me levante a ti.

O mundo é mais queas dores sintomuitoagora.
Bora?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

cold play

Ouço The Scientist.
Morro um pouco nas notas singelas do coldplay. Por sorte minha, liguei a televisão quando o Roberto Carlos estava no finalzinho da música de final de ano da Globo. Se não, o choro poderia ter sido catastrófico.
Em épocas quando se chora até vendo o Louro José (literalmente, não estou de sacanagem), não é aconselhado ver todo mundo lindo, vestido de branco, cantando de mãos dadas com o mundo lindo e maravilhoso hiperrealista da Globo.
Aposto que alguém ali estava com uma cueca furada.
Ou pelo menos com uma meia furada. Uma frieira. Uma meleca no nariz.

Sim, a vida tem meleca no nariz.

Me lembro de um diálogo interessantíssimo do Jack Nicholson com aquela bonitinha loira e o amiguinho gay viajando de carro. Dá vontade de abraçar a loirinha e o amiguinho gay. Mas o Jack Nicholson é quem tem razão. Ele é o real. Ele é quem diz pra gente que por mais que a gente queira encontrar o furo na cueca do outro, o furo está é na cueca da gente mesmo.

No body said it was easy.

Daí a gente fica tapando o sol com a peneira, tentando tapar a lata de Nescau com tampa de Coca-cola e dizendo pra todo mundo que fique tranquilo, que tá tampadaaaço.

Coração tem furo. E é por isso que sangra.

Sangra choro de neném, sentado no box do banheiro, pensando como alguém tem a capacidade de fazer isso ou aquilo. Traição, mentira, desrespeito, separação, invasão de privacidade. Sempre achei estranho privada ter esse nome.

No one ever said it would be this hard.

Mas fazer o quê? Oh, take me back to the start? Não, sinto muito. A vida não tem volta. As escolhas não tem volta. O foda do livre arbítrio é isso. Deus é Phoda. (no bom sentido, claro, e com PH) O Cara dá o presente mais ducaralho, mas você tem que pagar por ele à prazo. Este é o livre arbítrio. Por isso que eu disse em um Haikai: "Quem planta, escolhe."
Essa é a verdade, não adianta ficar a vida inteira pedindo perdão pelos erros que se repete.
Somos condenados a sermos Prometeus contemporâneos.
Prometeu, TEM que cumprir.
TEM PORQUE TEM. É assim.
É assim e pronto. O pecado só serve como aprendizado.

O frio toca meu coração. E ele só queria se sentir acolhido...


sábado, 3 de dezembro de 2011

Un`Altra Volta



Não faço ideia o que isso significa.
Uma outra volta? Meu português aproxima do italiano esperando um falso cognato.
Não entendo a itália. O máximo que sei da itália é Vovó Querida me mandando arquivos de fotos belíssimas da sua antiga Itália em Power Point. Lindas todas.
O macarrão com bacalhau estava com muito alho novamente. Muito.
Já não sei se perdi a referência, ou se o julgamento se deve à falta de outro ingrediente fundamental para o meu jantar no restaurante da Grão Mogol.
À esta altura, Grão, Mongol.
Sou um retardado existencial. Ouço Drão, me ilusiono, escuto Gilberto Gil me falando da ilusão.
Onde plantar?
Também não sei, Gil. Não me pergunte. A noite é muito mais escura do que eu posso supor, sempre. Semana passada fiz o que sempre pedi aos meus alunos: tomar banho de olhos fechados. Mais que um exercício para o cérebro, é um exercício de sensibilidade ímpar. Quero sentir a água molhada, Gil. Mesmo que os pecados sejam todos meus. Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão. Você tem razão. Aprendi o perdão no Caminho de Santiago. Hoje, a compaixão me acompanha de perto, de parto, de parto, de nascimento, crescimento, compreensão e entendimento.
Sempre tive mais facilidade em compreender do que em entender, Gil. Un`Altra Volta.
O restaurante quase vazio me falava do alho. Da dor de cabeça que sinto quando como muito alho.
De que quando se está junto, só comendo alho junto. De que quando se está só, o alho se multiplica, o olho se multiplica, olha-se pra dentro de dentro. Entro. E enxergo ao som do saxofonista do restaurante, que começa a noite tocando Jobim.
Não, ele não tocou Gil, por mais que fosse ficar interessante no final do texto.
O que ele tocou fui eu, só, olhando pra dentro, alh-ando pra fora.



http://www.unaltravolta.com.br/

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Flor ir

Filha,
olha a foto. Essa é a foto da primeira arvorezinha sua, minha borboletinha. Seu Bonsai que voltou a brotar.
Quando você se foi ela sentiu na hora. Cairam todas as folhas, ela secou, ficou triste, só. Daí eu pedi pra Rê e o Rock darem um jeito nela.
A Rê logo puxou a minha orelha, filha. Ela disse do tempo. O tempo que faz brotar. O mesmo tempo que leva, traz. O mesmo tempo que vem, passa. O tempo que dói, cura. O que amarga, adoça. O tempo é passageiro da vida, filha.
V ida.
V     ida.
V                 ida.
Sem volta, nos encontra na plataforma da estação. Onde chegamos, onde partimos.
Hoje partido, amanhã, chegando. Reparou bem nessa frase, filha? Ela é muito importante e muito certa, em suas várias formas de ler:
Hoje partIdo, amanhã, chegAndo.
Guardei minha expectativa no armário, filha. Que bom que você está há 56 dias na praia com a mamãe. Quisera eu tirar umas férias desse tempo todo também... Aproveita aí pro pai. E se lembra que longe é um lugar que não existe...