terça-feira, 29 de novembro de 2011

Noite

Não quero morrer hoje à noite.
Escrevi uma filha, plantei um livro, tive uma árvore. Mas tenho um pouco mais a fazer.
Não quero morrer hoje à noite. Quero tomar vinho com queijos em
Rennes, num banco de praça, quero amar sem medida uma mulher que escolhi e que me escolheu, quero rir andando de carro da Holanda, rumo a Paris, quero fazer uma maratona, quero ver minha filha, quero fazer o Caminho de Santiago.
Quero ter amigos, quero estudar em um mestrado, quero ser reconhecido profissionalmente, quero ir a Paris, quero ir até Cordoba, quero ir a Toledo. Quero visitar a Sagrada Familia.
Não quero morrer hoje à noite.
Quero ver a minha filha crescer um pouquinho, quero mar sem medida uma mulher que escolhi e que me escolheu, quero tudo e muito mais.
Ou não. Só não queria mesmo era morrer essa noite.

Presépio







No meu presépio, o menino Jesus fica coladinho no São José.







domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre colos, Sofhias e pai-xões.





Sofia, ontem, deitada no colo da mãe.
14 anos, maior que ela, Sofia se aninha pequenina no colo da mãe enquanto ouve o jazz de Chico Amaral e trio.
O colo da mãe é o mundo de Sofia.
Enrosca. Enlaça. Em laço.
É, o colo da mãe é o mundo de Sofia.
Mas, fora do mundo, quando estuda com as coleguinhas, coloca Frank Zappa, a pai-xão do pai de Sofia...

Já a pai-xão do pai de Sophia não é Frank Zappa. É Chico Amaral e todo o jazz na medida do sonho, na música interna que nos faz mais humanos, como dizze Chico com outraz palavraz.
O pai de Sophia sofre com o jazz. Encantado, dança o sofrimento, a luta, o sonho, a redenção da música. Enquanto Chico Amaral e banda se apresentam, Nelson sente a música. Em cada poro, em cada centímetro. Sentímetro.
E dança.
Dança sua dança mágica, seu sonho de música, seu tocar jazz com todo o corpo, todo o sentimento, se faz o próprio instrumento, todo o som presente em Nelsom. Ele toca jazz com todo o seu corpo.

Sophia escuta. Sofia escuta.

O pai só fia sua paternidade dizzendo a palavra amor. Dentro e fora do mundo, Sofhia.
Em todos os tons, em todos os sons, no andamento  da vida.


*Aos menos atentos:
Sofia é filha de Cláudio e Regina
Sophia é filha de Nelson e Myriam

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pra Bê do pai



Bê do pai,

cadê você? Cadê o encanto que move os dias, cadê o passarinho parado no ar, o meio do gole d'água, a sede que sacia, saci, fogueira e luar?
Estrelinhas miudinhas que brilham limpinhas na noite pretinha do meu neném...
Sou bobo, filha.
Poema no copo, maçã no pé, risada de gato, xixi de menino, sou pequenino diante de tal natureza de ser.
Docê.
Yemanjá tem me dado notícias suas,
nua,
na boa viagem da vida.
A areia do tempo escorre nos seus dedos como escorre nos meus, minha borboletinha, e é só encostar a orelha na concha que ouço o mar deitado em seu colo de menina. Vitamina.
Você já adorava cará na barriga da mamãe.
E o papai adora a sua aflição quando cheiro minha cria, barba que lhe-te-coça-nuca.
Ah, sabe o que você vai gostar? Monteiro Lobato, minha Narizinho.
Faço-me um ninho e aguardo você pousar.
A vida é esse marzão todo. A gente não vê: mas do outro lado do mundo, há bem, há bom e há belo a se descobrir pra viver, meu Bem. Tudo esperando você.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

do-ação

Meu amigo me perguntou há pouco: - ah, quando você se doou por inteiro? Quando ficou completamente tomado pela amada, quando ligou o foda-se e se jogou totalmente em um relacionamento?
...
Acho que ele me perguntava pensando que não haveria uma resposta.
Ele queria saber do ato de amor, de morrer nos braços da sua amada, nos seios, de se tornar nada, tudo, depois de ter-ser tor-nado o tudo, nada...
É melhor que eu diga!

Re-tornar, se fazer ver, valer, sentir. A-mar sem medida, sem medo, sem sentido. Sem hora pra começar, sem hora pra acabar. De dia, de noite, na hora do café depois do banho, já pronto pra trabalhar... amar sexo, amaremoto, amaré. "Amar é o que sei fazer melhor", como diz o poeta.

O sonho de amar amando é o sonho de sonhar-se em sonho.
Sem sentido, é o real mais quereal que bate à sua porta.
Aorta.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

sono

Só quero dormir um sono de amanhã.




segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Borboletinha e a fita.



Borboletinha do Mar, que sabe das ondas, tem em si o desígnio do existir. A presença animada, séria, calada, colada no tempo, espera. Sabe do passo, sabe do abraço, fica aflita quando beijo seu pescoço, fungada de pai que respira a cria.
É via.
Tenho pra mim, tenho por mim, tenho nada pra mim, tenho nada por mim. Voa vento, borboletinha, entre as estrelas do mar, peixe que é, espuma branca na borda da areia. Vi você no Campo das Estrelas. Entre as estrelas do céu, espreitando e sorrindo. Caminhando comigo, me dando a mão no deserto. Fui no seu colo, meu solo, chão seguro macerado no cajado. Você me sorri, do colo da mãe, e sabe do meu.
Mistura. Banho de banheira. Fita amarela.
Nas areias do tempo, você, empanada, me sorrindo o que só eu sei.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ainda sobre o natal

Tal isso, tal aquilo. Na tal.
É lá, onde encontros acontecem, desencontros acontecem, resoluções, verdades, sonhos. Fichas caem lá, na tal. Ou na reflexão de lá.
Flexiona de novo.
Dobra, se prostra, se curva, novamente: re-flexão.
Não há resposta certa para o natal. Não há meio de ter certeza, a vida não dá certezas. Só a gentileza, a delicadeza do gesto, a porção dadivosa da Nossa Parte.
Onde achamos que determinamos. Onde achamos que temos jeito. Onde achamos que depende de nós.
Nesse lugar.
Perdi entradas no caminho.
Perdi saídas no caminho.
Hoje, ando no mato, muitas vezes. E nem acho que seja por falta de sinalização. Acho que não estamos preparados para os sinais, volta e meia.
Meia de lã vermelha, meia de lã verde. Verdades de meias. Se deixamos, esfriam. Se deixamos, morrem secas.
Lá. Na tal.
Boa noite.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vontade de ser melhor

Amanhece escuro e ligo as luzes de natal da árvore nova que coloquei na sala.
O papai noel tem mais cara de papai noel desse jeito, não com aquela roupinha da Coca-Cola.
Sinto uma coisa boa.
Tenho todos os motivos desse mundo pra detestar o natal.
Mas escolhi os outros motivos que me fazem amar. O natal, quero dizer.
Esperança é um deles. Vontade de ser melhor. Vontade do ninho, um pouco de magia, daquilo que não se vê.
O Mistério da Fé é muito pouco explorado, hoje em dia. E nos damos ou com a auto-ajuda piegas ou com o entretenimento, o show pirotécnico da crença vazia.
"Eu SEI Deus", já dizia um pensador citado por meu professor no curso de extensão de Filosofísica.
Eu também.
Sei das luzes, do Mistério intangível da fé (pela via da razão), da alma, do sonho.
Sabedoria+Sonho+Entrega+Eros+Ânimus+Tempo+Graça+Eus+Silêncio=Mistério da Fé.
Ou algo parecido.
Comprei um livro novo sobre uma história de amor. Estou lendo dois com o mesmíssimo tema. Um clássico, um contemporâneo.
Neles, o indizível silêncio da minha sala em luz, espera e saudades de natal.

domingo, 13 de novembro de 2011

Haikai do viver aprendoendo




se lenço, choro.
silêncio, escuto
e espero




sábado, 12 de novembro de 2011

Haikai da dedicatória ao Amor inteligente




para ser
o primeiro livro
de uma nova estante



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As costas do Vazio



Ontem sonhei com você.

Que tinha certeza, que sabia de tudo, que ouvida de tudo, esperava escuta.

Auscultei.

O Vazio corre em mim e corre de mim. Não o alcanço. Corro, léguas, maratona, atravesso a linha de chegada no Rio de Janeiro pra provar que posso. Osso. Acho que o Vazio corre pra que eu não o alcance mesmo, para que não veja o seu rosto, para que não saiba como é de frente. Só vejo suas costas.
Aflitivamente corro e, tartaruga com lebre, ele foge ifinidefinidamente. Mente.

Mente que posso alcançá-lo.
Mente que me comandamente.
Mente que eu finjo que acredito.
E retorno, eterno até certo dia, até certo ponto, até o diamante azul dos meus sonhos, dos sonhos da gente, quando a gente sonhava.

Hoje, vi uma menina linda atravessando a rua. Ela não vive no mundo da maldade, no mundo que tem mentira, na maçã mordida, na cicatriz que sangra da costela de Adão. Seu Vazio tem frente, seu Vazio tem lado. Seu vazio tem lada.

Meu mundo foi tomado de mim. Porque deixei por enquanto. Porque tento transformar o lodo em ledo, o cerco em cerca, o olho em olha, o canto em canto.

Do meu canto vou cantar pra ti sua música. Quando canto sua música, o Vazio para um pouco. E escuta.
E quando ouvir, vai auscultar comigo os nossos corações.
Que, de tão sincronizados, silenciam juntos.