domingo, 24 de julho de 2011

Enjoy? Enjôo.


Candinho procura a mãe.
No encontro com Pirulito, na praça, à noite, divide um sanduíche. Pirulito não quer voltar pra casa, seu pai bate nele. Candinho tem dinheiro, mas não quer alugar um quarto na pensão. Ele quer dormir na praça porque gosta do céu, das plantas. Ele sabe que muié entra na frente, ao passar na porta. Ele não sabe da internet. Ele sabe só do burro Policarpo.
Candinho, o mundo mudou. Não se divide o sanduíche, não importa se a muié entra na frente, ao passar na porta, Candinho.
Candinho procura a mãe.
Bem, Candinho, a mãe talvez não faça mais sentido no mundo de hoje. Quando você não for mais preto e branco, quando colorir, virar HD, for filmado em 3D, tiver a experiência interativa da cross media, ninguém mais vai se importar se você quer ou não achar sua mãe. As pessoas vão dizer, Candinho, que você está na era da informação. É mentira, Candinho. Não caia nessa. Só um ingênuo mais ingênuo que Pirulito continua achando que estamos na era da informação. Que a Comunicação dita as regras. Mentira, Candinho. É o Consumo quem manda. Essa é a era do Consumo. Mas como é feio, melhor colocar a máscara da Comunicação na frente do Consumo. É como achar que o negócio do Ricardo Eletro é eletrodoméstico. Não é. Nunca foi. Bom, talvez fosse, quando ele começou. Hoje seu negócio é empréstimo de dinheiro. E sua desculpa é eletrodoméstico. Isso é muito mais bonito. Ele deveria ser amigo do Lula e da Dilma e de muito político que acha que o número de eletrodoméstico em casa é índice de qualidade de vida. Não é cultura, não é escola, não é hospital, não é emprego melhor, não é formação, não é diminuição da violência, não é poder dormir na praça se quiser, sem ser queimado vivo. Quando for dormir na praça de novo, Candinho, dorme com um olho aberto.
Ah, e entra no Facebook, Candinho. Posta umas fotos do burro Policarpo, vira amigo do Pirulito, cutuca ele e, quem sabe, você consegue encontrar sua mãe?

*Mazzaropi e Benedito Corsi fizeram Candinho e Pirulito em "Candinho", criado em 1926.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

filamento



Chegou em casa, parou o carro na garagem.
Desligou o carro, abriu a porta, a luz interna do veículo acendeu.
Fez-se silêncio.
Fez-se o silêncio.
Por um momento, se esqueceu de respirar.
Quando se lembrou, o fez calmamente, sem barulho.
Tudo fora era escuro. Só havia luz na parte interna do carro.
Imóvel, não sabia o que fazia.
Não descia, não fechava a porta, não pulava do veículo, não buzinava.
Não ligava o rádio, não olhava em volta, não suspirava, não estava.
Mexeu os olhos para baixo, viu os pés sombreados pelo volante, em baixo do painel.
Voltou a olhar para cima, só via escuro através do para-brisas.
Fungou.
Esperou até que algo acontecesse.
Talvez alguém aparecesse, talvez alguém viesse, talvez o portão eletrônico fosse finalmente acionado.
Não foi. Não era, não tinha, não vinha, não estava.
Engoliu saliva.
E esperou mais um pouco.
Se lembrou de quando era outro. Luzia.
Se lembrou de quando estava.
E desejou que alguém chegasse, viesse, acionasse, acontecesse.

Depois de mais de três horas, quando parecia que a luz interna finalmente ia fraquejar, saiu do carro, com medo da vizinha do oitavo andar.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Beira rio

Seu silêncio mata a noite.
Enlouquece a estrada,
é pedra, é nada, é cisco no olho.
Seu silêncio a Deus pertence.
A mente, omite, ausente, aos desígnios transcendentes.
Seus mistérios a Deus, minha gente.
Era seu, era só, era sinto
muito.
Pertencente, é só, pertensente.
Somente maçã, somente a vê lã, só mente a Deus quando passa da hora.
Vão bora?
Vão ali fazer festa que o povo vem chegando...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Assim, o Tempo em mim






sexta-feira, 8 de julho de 2011

Para a pequena resedá

Filha,
sua pequena resedá começou a brotar.
Tenho cuidado dela com carinho, coloquei na janela da cozinha, que lá é bem claro e húmido, imaginei que ela fosse gostar. Molho o máximo que posso, com cuidado de ver as raizes e o pequeno musgo que se encontra ao seu redor. Imagino que um dia vou ver sua mãozinha cheia d'água colocando um pouquinho de um lado e um pouquinho do outro; sonho ver você segurando seu vaso com as duas mãos, pra não cair.
Não sabia que seria tão lindo uma folha minúscula aparecer assim, em uma galha aparentemente seca.
Mas parece que a natureza está aí também pra isso, pra provar o contrário. Quem parece seco pode brotar.
Hoje, amanhã, um dia.
Talvez a espera não seja assim tão difícil de compreender.
Você brota no tempo da espera, não antes, não depois. Você semente. E eu, somente, a lhe esperar broto viçoso que maneia ao vento...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Haikai da grama verde


Até Ringo queria ser Paul.





terça-feira, 5 de julho de 2011

e só.

Quando subimos a escada, tocava "Eu sei que vou te amar" ao piano.
Eu, não sabia.
Vou dormir cedo e tentar sonhar com minha avó.
Talvez ela venha, talvez ela apareça a me dizer que está tudo bem, e que ela, de lá, pode ver as luzes.
Exatamente como a outra vez.
Durmo um cochilo entre uma linha e outra desse texto e percebo que é hora de ir dormir.
É hora de fechar a boca, os olhos, os ouvidos. É hora de sonhar só e só.