sábado, 31 de dezembro de 2011

Nude




Naked.
Acordei às sete e pouco. Pelado, puxei o macbook para o meu colo antes de acender a luz do quarto. Depois de ver que haviam comentários na folha de rosto do meu iphone. Pelado, abri o email e descobri que não há resposta para a vida. Só perguntas. Quais, enfim, devo fazer? Talvez o truque seja esse.

QuAndo pergUntas peladas, deSejos dEspertos.

Seja esperto.

Esperto, me levanto. Pelado.

Acordado, saio andando pela casa, depois de fazer xixi, vou deixar pra escovar os meus dentes depois do café. Estou sozinho mesmo...

Entro pelado na cozinha e vejo a máquina de fazer pão. Comprei com vontade de fazer do meu café da manhã mais um ato de amor. E, de certo modo, fiz.

Os ingredientes pelados que coloquei ontem à noite, depois que cheguei da casa da minha professora de francês, que fez aniversário, viraram pão. E ele está ainda morno.

Morno e pelado como eu.
Morno e pelado, como eu.

Antes, faço um café. Com o pó de café que veio do sítio do meu pai. Os dez pézinhos de café todo ano se transmutam em safra, que meu pai presenteia gentilmente com pós de café pelados, com um rótulozinho de brincadeira, Café Matinha, safra 2011. Este ano, pude ganhar 4 saquinhos. Presenteei só duas pessoas. Espero que elas tomem este café peladas.

Aprendi a ficar pelado com o Amor. Nunca havia dormido pelado. Eu não sabia que podia ficar pelado. Eu não sabia que era permitido ficar pelado, me sentir pelado, encontrar pelado, abraçar pelado, ser pelado.

Um dia, há muito tempo, tentei cozinhar pelado. Achei que seria o momento de trangressão mais incrível do mundo, que minha companheira à época ia entender que eu queria que o mundo fosse pelado, que a gente se visse pelado, encontrasse pelado, se amasse pelado, fosse pelolado do amor.

Ela achou nojento cozinhar pelado. Sujo. E eu só estava pelado. Pelado e de avental, pra não espirrar coisa quente na coisa quente.

Bem depois disso, conheci de fato o que posso chamar de Amor. Antes, conhecia a dúvida e suas vestes. As vestes da dúvida, me diziam que o amor estava ali. Que mentira... Como num viés distorcido da fábula do Rei Nu, de Hans Christian Andersen*, que encomenda o tecido mágico, eu vestia uma peladeza mentirosa, até o dia que percebi que não era amor que vestia, era propaganda do amor. E, você sabe: propaganda é propaganda. Não é, de fato. Propaganda é só uma veste que imita o vestido, seja ele qual for.

Detesto macaco de imitação.

Hoje, aprendi dormir pelado. Aprendi acordar pelado. Aprendi cair, levantar, amar, chorar, sentir dor, esperar passar, voltar a rir, sonhar pelado. Fiz o Caminho de Santiago e ao final do caminho entrei pelado na Catedral. Foi incrível. E ousado. Pela manhã do dia 31 de dezembro, tomei o café mais pelado de 2011. Com o pão que fiz pelado, com o café que meu pai faz pelado, e que dá aos outros pelado. É bonito ver meu pai dando o café para os outros pelado. Apesar de sua brancura. Eu, moreno, comi meu pão, bebi meu café. Atendi o celular com minha tia do outro lado da linha apenas me desejando PAZ para o ano novo e: - "deixa o barco correr!" disse ela.

Vou, tia. Em 2012 vou navegar pelado. E, se der, aproveito pra nadar pelado. Sou grato ao Amor, que ensina a gente a andar por aí, nu.

Que você, que me lê nu, também possa navegar, nadar e amar pelado em 2012.



* vale ler o mestre Rubem: http://www.rubemalves.com.br/oreinu.htm
e conhecer Spencer Tunickhttp://www.spencertunick.com/

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do filho, do pai, pra mãe, do ano novo.










Mãe,
feliz ano novo.

Comi o bolo de chocolate que você deixou pra mim de presente quando viajou, o mesmo que você faz em todos os meus aniversários. Hoje tentei mais uma vez resolver as coisas todas, mas não foi possível. Nem sempre as pessoas sabem a importância da escolha em nossas vidas. Que as mesmas sementes quando plantadas, germinam ou não dependendo do terreno onde estão. Se tem água e luz.

Às vezes falta água, às vezes falta luz.

A iluminação é preciosa em todo o processo de germinação e crescimento.

Quantas escolhas erradas eu fiz, por falta de iluminação? Realmente não sei. Mas sei que todas as sementes que foram originárias das minhas escolhas, germinaram. Todas elas. As boas e as ruins. 

Não. Não estou dizendo que haviam sementes ruins. Estou dizendo que as escolhas foram boas ou ruins. As minhas. E isso fez toda a diferença, mãe.

Paro um pouco e imagino você fazendo o bolo de chocolate pra mim. Saiba que não ficou com pouca cobertura - como já imagino que você supôs. Hoje, quando compartilhei com todos os que comigo estavam, apenas disse do ingrediente mágico que você coloca em tudo que faz: seu carinho imenso. "Atenção para o ingrediente principal, que foi minha mãe quem fez!" - eu disse a eles.
E teve gente que achou que era chocolate. 

Só comi uma fatia, mãe. Precisei compartilhar, foi você quem me ensinou. Às vezes as pessoas não sabem a importância do compartilhamento na vida, mãe. Acham que compartilhar, é o mesmo que dar. Que dar e ficar sem. Não sabem que tem muita coisa na vida que quando a gente compartilha, 2 ficam com exatamente o mesmo tanto. Que multiplica. É assim com você e com meu pai. Compartilham o amor dos filhos. Os dois tem o mesmo tanto. Dobrado. Imagino como seria se vocês não pudessem compartilhar esse amor, o tanto que eu perderia com isso. Eu e minha irmã. Custei muito a entender que também podia compartilhar o amor de vocês com ela. Fui uma criança muito ciumenta. E esse ciume me prejudicou muito nas minhas escolhas, na minha vida. Perdi afetos, perdi sonhos, perdi amores verdadeiros por não saber compartilhar. 

Foi preciso ir para o Caminho de Santiago para que pudesse rever valores, entender o valor da escolha, descobrir o perdão, conhecer o pendão da vida. O que hasteamos e deixamos flamular conforme o vento. Me pergunto sobre a máxima de que a vida é o que nos acontece enquanto fazemos planos. Planos sim, escolhas não. A vida também é o que nos acontece quando fazemos escolhas. Escolhemos hastear nossos sonhos, valores, ritos, desejos, sabores. Eros que nos guarde. E que a alma nos conduza. Sempre, com bolo de chocolate. 

Na infância, na adolescência, na dor, na alegria, na fraqueza, na ousadia, no ciúme, no perdão, no entendimento, na compreensão, na compaixão, seu bolo de chocolate me fez companhia. Muleta semântica? Cajado poderoso? Viagra pro tesão de continuar vivo? Seu bolo de chocolate é mistério em mim, é reveillon, é apaziguar o aflito. É a virtude da doação, sem obrigação. Só comi uma fatia que me fez partilha. Só comi uma fatia que me fez parte. Só comi uma fatia que me faz pedaço de mim. Do mim tão seu, tão da minha filha, tão dos outros, tão mesmo uno com o mundo e com o desejo das coisas simples de viver... Vou viver Beatriz em meu colo, dedinhos de chocolate, os olhos de brigadeiro. "A luz do candeeiro"...

Só com o partilhar chocola-teia-se a alma, mãe. Teia enorme, que amplia-se em sonhos possíveis, sempre. Não vou passar o ano novo com vocês, mãe. Nem com minha irmã. Nem com minha filha. Nem com o amor da escolha. Mas escolho amar, independenteamante de qualquer coisa. 

Seu bolo é delicioso, minha mãe. Feliz dois mil e doce. Do seu filho, que é pai e filho.


Bê Sant'Anna.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O fim do mundo está próximo.



O fim do mundo está próximo. Digo, do ano.
Imagino se você parou por um momento e pensou: putz, o fim do mundano está próximo, será que fiz tudo o que eu podia?
Tudo bem, você não pensou isso. Só está lendo esse blog sem exatamente nenhuma implicação efetiva em sua vida e em seu cotidiano. Ok. Seu chefe viajou e mandou você ficar trabalhando. Por isso você está aqui, passando o tempo.
Tá, melhor eu continuar escrevendo algo que lhe desperte interesse, pra ver se você pelo menos termina a leitura.
Fim do mundo é assim (desculpa, do ano), você já imagina a lista dos desejos pro ano que entra. Aliás, tem vários ritos possíveis relativos a isso. Um básico, é escrever tudo - e assim poder conferir o que desejou, o que plantou e o que colheu no final do ano que chegou, passou voando e lhe tomou de assalto. Tranks. Eu não sei bem se isso é bom ou ruim. Não sei se isso é mais uma estratégia básica de coaching que minha amiga ninja Danielle Michel Serafim ensinou, porque tem pena da gente que não sabe administrar nem seu rumo, ou se isso é bom mesmo energeticamente falando.
Vamos ver... nesse ano eu vou:
Fazer uma maratona internacional;
Fazer um meio Iron Man (já entendeu qual vai ser o do ano que vem, se o mundo não acabar, né?)
Terminar os 3 livros que comecei escrever (tá fácil, um tá pronto e vou lançar em março);
Lançar pelo menos 2 deles (metade! Easy);
Voltar a estudar hebraico;
Voltar a estudar clarineta;
Ganhar na Mega Sena da Virada (deste ano pro próximo, não do próximo pro outro - que fique bem claro)
Ah, e sozinho.
Não, para. Deixa de ser invejoso.
Não, não sou egoísta. Quanto mais eu ganhar, mais vou poder ajudar aos outros.
Sério. Imagine: 10% de um milhão é bem menos que 10% de 170 milhões. Então, melhor que eu ganhe sozinho.
Sei lá, é como diz o amigo do Nelson (outra história, um dia falo disso).
Por não falar nisso, eu não sei o que faria se ganhasse sozinho na Mega Sena. Essas coisas que parecem o sonho de muito macho que quer ser alfa, do tipo comprar um ferrari, ou algo assim, acho bobo. Pequeno, pra dizer a verdade, tipo coisa de gente que não tem imaginação (ou que não sabe nem o que é macho alfa). Aliás, acho risível. Não exatamente preconceito. Só não é o que faria. Nem de longe.
Perguntei a um amigo, Ramiro Maia, no buteco, afogando as mágoas no dia 24/12: se você ganhasse sozinho na mega da virada, o que faria? Ele respondeu: "uma coisa eu sei. Ano que vem também estaria aqui, nessa cadeira, tomando uma cerveja com você."
Sorri.
Claro, a primeira coisa que farei é pensar na minha filhinha. Já separar o dinheiro da viagem pra Disney, da viagem pro Caminho de Santiago, da festa de quinze anos, do estudo fora do país, da festa de casamento, de um apartamento de presente de casamento, de uma poupança programada. Pensamento de gente que nunca teve dinheiro mesmo. Tô nem aí pra jacuzisse. No fundo, porque quero tirar essa coisa da cabeça. Tenho muitas outras coisas pra pensar. Quando isso não for questão, demandar tanta energia, sem dúvida, vou focar essa energia desperdiçada nessas coisas mundanas no que pra mim realmente importa... Finalmente estudar filosofia com profundidade, me dedicar a escrever sobre isso, voltar a fazer aula de dança, investir nos talentosos amigos que têm dificuldades de gravar seus CDs porque dependem de leis de incentivo...  Pensar em agilizar a editora de livros com essa caracterísitica colaborativa. Dar mais apoio ao Novo Céu (clique aí e conheça, deixa de ser preguiçoso), que minha amiga Ana Luisa Alves cuida com tanto amor e carinho. Pensar num doutorado em ComunicAção e, claro, na geladeira de gelar cerveja com porta de vidro na frente e com indicador de temperatura, por que a vida sem isso é um pouco chata - vamos combinar...



domingo, 25 de dezembro de 2011

Sonho de Natal



Evangélicos. Muitos, que cantavam e que batiam palmas. Alheios à revolução que acontecia, apesar da minha incompreensão. Dividindo a escola com os evangélicos, nós, refugiados, espremidos nas salas, vagando nos pátios, tentando localizar um ou outro, que havia sumido há dias.

Não consigo me levantar.

Na almofada amarela, me arrasto de um cômodo a outro, sem me preocupar por qual motivo me arrasto, ao invés de andar.

Quem eu menos espero vem pra me abraçar. Me olha com um olhar carinhoso e diz que apesar dela ter sumido, que ela está bem. Que teve notícias que ela está bem, que ela não teria sumido se não fosse por eles. Não sei quem são eles, mas eles a têm em cativeiro. Olho na tv, na parede da escola, e os desenhos animados, ao invés de historinhas infantis, estão dando notícia da revolução, de modo dramático, não de modo jornalístico.

Ela passa a mão na minha cabeça, me olha com aqueles cílios marcados, cola seu corpo em meu ombro, eu de joelhos, e diz que ela não sabe bem o que aconteceu, mas que não é culpa dela, não é culpa de quem sumiu.

Ouço um estampido e sirenes, todos se agitam, muito barulho e intranquilidade. Os evangélicos batem palmas, de costas para nós, angustiados. De repente, eles trazem um pai desmaiado, que sangra muito, enquanto acompanho toda a cena com o olhar. Não vejo seu rosto desacordado, ele está sendo levado. Deitado sobre ele, em seu peito que sangra, reconheço seu filho, que olha pra cima e pergunta aos quatro para onde estão levando seu pai. Eu sei quem é ele. Seu filho está bem, não sabe o que está acontecendo. Os evangélicos batem palmas e me acordam no dia 25 de dezembro de 2011.

No presépio que montei em minha casa, o menino Jesus continua bem pertinho do São José.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tem sido


No dia 30 de junho de 2010, escrevi esse post, depois de ir ao cinema com minha mãe. Às vezes, não ouvimos o recado. Pensamos tanto em falar menos e ouvir mais... mas o segredo está sim nos olhos. Não na boca, não nos ouvidos. Noutros sentidos. Comprei o filme, finalmente, que dizia da história. Quem sabe pra buscar uma pista, um conto, um toque, um sopro, um alento... Sim, vai ser complicado, ela diz. Que bom que ela sabe. 
Ele sabia. E estava mais do que disposto. Ele buscou a verdade. 
"Temo" - escreveu na noite. E o que queria dizer mesmo era outra coisa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Haikai sobre a morte.







A vida 
é ida.










domingo, 18 de dezembro de 2011

Bom fica.


Minha amiga disse que ela está bem. Há cerca de 70 dias, quando sua dona se foi, perdeu todas as folhas. amuou-se. Invernou de dentro pra fora.
Pedi socorro na mesma hora.
A Pequena Resedá  é um símbolo importante. A árvore é um símbolo importante.  Raiz, tronco, galhos, folhas. É preciso molhar. É preciso saber que não se poda à toa.
Talvez... seria mais fácil se as pessoas compreendessem o casamento, efetivamente, como um bonsai.
Sua poda bem feita não prejudica a árvore, pelo contrário, só faz com que fique mais bela, mais forte, mais vistosa. Não há porquê não podar. É justamente o contrário. Os limites não ferem. Exercem um poder importante para o crescimento, para a força. Ser integral apesar do limite é só uma questão de escolha. Não se perde por causa disso. A liberdade de crescer internamente, a liberdade de crescer dentro da relação, a liberdade de ganhar força, a liberdade de ganhar viço tem um aliado na poda. No limite.
Muita gente engana-se ao achar que retirando essa pequena árvore do pequeno vaso e da poda, ela vai crescer mais, poder espraiar seus galhos por onde quiser, ser mais feliz.
Eu não. EU acho que a liberdade sem limites é bem questionável.
Já parou pra pensar se você é como um bonsai em suas relações?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Katana




Olho no relógio e os números se repetem. Olho pra dentro e você se repete.
Não encontro conforto no olhar da minha mãe, não encontro acalento no abraço da amiga, no braço do pai, na palavra medida, no suspiro da irmã.
O mundo testa a gente. O caminho tem lama, tem trama, tem drama, tem brahma. Excessos que desmedem quem sou, até onde vou, até onde voo.
Lhememisturo. Sememisturo. Desmefaço. Desencontro.
O tempo passa. Minha filha cresce. O dente que me obrigaram a não ver nascendo, nasce. Em pé como não pude ajudar a levantar, fica. Sua chuquinha que eu não pude pentear, vira franja. Seu choro que não pude trasformar em riso, sufoca o peito partido.
Sentido. Estufa o peito.
O casamento se foi, a paixão se foi, o amor se foi, a amizade se foi, a infância se vai, o projeto de vida, a casa, a ferida...
Quando a infância finalmente se for, a leitura vai chegar. Com ela a cultura, a análise, outra ferida. A escolha.
O mar tem seus dias de ressaca.
Na noite vazia, reflete a lua que não é vista por nenhum casal. Seu barulho é de vai e volta. É de tomaládacá. É de espuma branca vazia. É de águas de segredos, não confessos, calados, colados, que não secam.
Eu vou morrer. Mas comigo não morre a verdade. Nem do meu amor perdido, nem do meu calor no umbigo, nem da honra insana de um samurai que lentamente enfia a katana no ventre com o passar dos meses, pra deixar escrito, pra deixar inscrito que existe verdade, existe amor, existe sonho além, muito além, de toda a dor.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Adam, Cronos e Kairós




Adam, do Peru, conheceu Eve, da Argentina, há aproximadamente 30 anos. Por cartas.

Tudo bem, ele não se chama Adam, não é do Peru e ela não é da Argentina e nem se chama Eve.
Whatever. A história é real.

Durante 4 anos se corresponderam. Ele e Ela nunca se encontraram. Aos 17 Ele pediu Ela em casamento. Por cartas.
Claro, o mundo era menos globalizado, as distâncias eram distâncias. Uma cidade do interior de minas não era exatamente na rota dos aviões que saiam da américa latina. Ele nunca a conheceu. Ela nunca o encontrou. Fisicamente falando.
Será que casou? Será que é feliz? Será que ainda tem suas cartas? Ele guarda sua foto, a foto de sua família, as fotos de 30 anos atrás. As mais de 50 cartas...
Pergunto: Mas você não tem interesse em finalmente encontrar com ela? Saber como vive, quem é, como está? Nunca procurou por ela no Facebook?
Afinal, o mundo agora é tão pequeno...
Não, disse ele. Quero guardar a lembrança dela, a da moça de 17 anos.
...
Imagino Ela, eternamente com 17 anos. Cronos e Kairós brincam juntos no jardim da lembrança do meu novo amigo.
Há Tempo para o amor?
Cuidado amigo... O Tempo que brinca encontro num mundo tão grande, brinca num mundo pequenino.
É que o Tempo continua sendo menino. Enquanto quiser.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

de Cachos



A sombra que vê, esconde a beleza de ser.
Como se configura, como se inscreve, como loucura?
Minha filha faz sombra no mundo, esconde a areia do sol, em meu peito anzol, faz sutura.
Beatriz se mistura.
Sei onde foram morar os meus cachos, já sei onde se encontra o meu sono, eu sei dos meus sonhos agora, tem água lá fora, corre que o boi já vem.
Eu sei do meu neném.
Por um triz já menina, me ensina a esperar novamente: Beatriz se gesta no mundo...
Um dia nasce em meu colo,
eu solo, espero.
Terra fértil, úmido de amor.
- Yemanjá, toma conta da Borboletinha do Mar.
Eu sem sonhar, durmo pra vida girar.
Tempo que a areia quis em mim, tempo, o barco navega afim, tempo, o tempo é molho do há mar.
É tempo de m'olhar.
Lambeatriz, Onda,
há mar.
Bebeatriz, Sol,
há mar.
Sobeatriz, Vida,
há mar de amor,
o mór que sou.
In finito.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Sobre os benefícios espetaculares dos bioflavonóides, ou quase isso.




Em vez de falar sobre o dia de chuva, sobre como a chuva caia na areia da pista de montaria do restaurante de comida mineira que serve as pessoas que pra lá vão produzidas, fingindo estar casuais, em vez de dizer o porquê deu insistir em ir lá comer torresmo, mexido, ovo frito e couve, em vez de dizer que acredito nas palavras da dona do estabelecimento que me chama de querido toda vez que vou lá, porque me conhece, porque vou lá sozinho, porque acho que ela deve imaginar porque vou lá sozinho, porque eu tenho um carinho especial por ela e pelo projeto dela, independentemente de ser um projeto pseudo-elitista, porque me parece sinceramente verdadeiro, em vez de dizer o gosto que tenho quando lá compareço a independer da companhia ou não que eu esteja, a independer da frequência ou do hábito, independentemente da qualidade da feijoada que lá é servida e, em vez de falar dela resolver falar de outra coisa, em vez dela e em vez da criança que chegou no carrinho e que fingi por um momento estar olhando pra ela para não parecer ousadia minha estar olhando para aquelas pernas maravilhosas que se colocavam ali na minha frente, inadivertidamente, em vez de falar do comprimento do vestido branco de um ombro só que tapava só o que tapava, independentemente deu, via de regra, ter um certo preconceito com vestido de um ombro só, achar barango, achar meio sem classe, independentemente da amiga dela usar uma bermuda jeans cortada e dobrada bem no alto da coxa e de ter uma bota gigante preta que vinha até quase o meio da coxa e usar os cabelos acima do ombro e uns brincos gigantes e um colar exagerado pra caralho, ter uma voz bonita mas parecer que estava fazendo uma homenagem ao Gato de Botas, em vez disso, e da menina da frente que estava sentada com o namorado estar com uns quilos a mais - tipo uns 8 - para os padrões excessivos contemporâneos e de sua blusinha creme com pequeninos babados não tapar o seu cofrinho quando se sentava no banquinho depois de pegar um prato de doce e de vir me olhando e pensando - Esse cara vai ver o meu cofrinho quando eu me sentar... - mesmo independentemente disso e, em vez de falar sobre isso, ou sobre como bateu aquele vento de chuva e os pelos de cima da bunda dela, na região do cofrinho, ficaram bem eriçados, ou sobre como eu ficava absolutamente alheio a isso tudo entretido no meu livro que eu gostaria de terminar de ler antes de ver o filme que já está em cartaz, mesmo assim, e em vez disso eu ter resolvido falar sobre outra coisa que não o fato de ter uma menina linda morena de vestidos compridos e eu estar absolutamente só, só, somente só, assim vou lhe chamar, assim você vai ver, como disse a música, mesmo assim, e mesmo eu tendo resolvido que ao invés de falar disso eu resolva que não é o caso de falar sobre estar aqui em casa deitado na cama, porta fechada, ouvindo o sino do mosteiro, pensando que nada e nem ninguém deve me tirar daqui nas próximas 16 horas, pelo menos, e em vez de falar que eu estou de meia, de boné, de cueca e óculos deitado na cama, em vez de falar que eu tô comparando a perna daquela gostosa com a perna de outra pessoa, em vez de falar que eu tenho dó, tanto do juninho que namora com aquela gostosa   de gosto duvidoso quando da gostosa de gosto duvidoso que namora com um juninho, que não deve saber nem tirar a meia, em vez de falar disso, acho melhor falar de outra coisa. Queria falar que eu comi a couve toda. Afinal, diz minha tia que couve é cicatrizante.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Detesto quando me matam





Quiseraeupoderfazerouvir.
Quemderaeuquelessemoqueescrevi.
Puderanósestarmossempreaqui.
Nodoceolharaondemeapreendi.

Coisa mais triste é velório de gente viva. 




quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Em bora.













Quando se história de amor, caso.
Caso contado, caso casado,
caso calado pra quem quer de fato ouvir.
Quando se história de amor, caso.

Caso contente, caso pingente,
um caso claro de casaragente.
Casei com os olhos,
o sorriso,
o cheiro erótico perturbamente.

Cá, sei com os olhos,
sei de ouvir por trás da boca,
sei o que chacoalha a alma.
Sei o que me acalma, o que me aquece e desestrutura.
Um caso clássico de casamentura.

Esse pau duro de cortar os pulsos, essa nudez que inocenta a gente,
o caso curo, mesmo delinquente.

Quando se história de amor, eu caos.
Eu caso caos, eu desmelinguotodo.
Eu mais que engodo, eu já refeito em ti.
Eu mesmo jeito, eu nunca estreito atrapalho. Eu ducaralho,
eu
superfeliz.

Eu quando caso, amor se história quando.
Eu quando caso, amor se historiandando.
Eu quando caso de amorsefondo, me findo todo pra me revestir.
Revisto tudo, revista toda, revista óculos, quero a partir.
Se Quando amor, eu me traduzo mundo,
quero que tudo me levante a ti.

O mundo é mais queas dores sintomuitoagora.
Bora?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

cold play

Ouço The Scientist.
Morro um pouco nas notas singelas do coldplay. Por sorte minha, liguei a televisão quando o Roberto Carlos estava no finalzinho da música de final de ano da Globo. Se não, o choro poderia ter sido catastrófico.
Em épocas quando se chora até vendo o Louro José (literalmente, não estou de sacanagem), não é aconselhado ver todo mundo lindo, vestido de branco, cantando de mãos dadas com o mundo lindo e maravilhoso hiperrealista da Globo.
Aposto que alguém ali estava com uma cueca furada.
Ou pelo menos com uma meia furada. Uma frieira. Uma meleca no nariz.

Sim, a vida tem meleca no nariz.

Me lembro de um diálogo interessantíssimo do Jack Nicholson com aquela bonitinha loira e o amiguinho gay viajando de carro. Dá vontade de abraçar a loirinha e o amiguinho gay. Mas o Jack Nicholson é quem tem razão. Ele é o real. Ele é quem diz pra gente que por mais que a gente queira encontrar o furo na cueca do outro, o furo está é na cueca da gente mesmo.

No body said it was easy.

Daí a gente fica tapando o sol com a peneira, tentando tapar a lata de Nescau com tampa de Coca-cola e dizendo pra todo mundo que fique tranquilo, que tá tampadaaaço.

Coração tem furo. E é por isso que sangra.

Sangra choro de neném, sentado no box do banheiro, pensando como alguém tem a capacidade de fazer isso ou aquilo. Traição, mentira, desrespeito, separação, invasão de privacidade. Sempre achei estranho privada ter esse nome.

No one ever said it would be this hard.

Mas fazer o quê? Oh, take me back to the start? Não, sinto muito. A vida não tem volta. As escolhas não tem volta. O foda do livre arbítrio é isso. Deus é Phoda. (no bom sentido, claro, e com PH) O Cara dá o presente mais ducaralho, mas você tem que pagar por ele à prazo. Este é o livre arbítrio. Por isso que eu disse em um Haikai: "Quem planta, escolhe."
Essa é a verdade, não adianta ficar a vida inteira pedindo perdão pelos erros que se repete.
Somos condenados a sermos Prometeus contemporâneos.
Prometeu, TEM que cumprir.
TEM PORQUE TEM. É assim.
É assim e pronto. O pecado só serve como aprendizado.

O frio toca meu coração. E ele só queria se sentir acolhido...


sábado, 3 de dezembro de 2011

Un`Altra Volta



Não faço ideia o que isso significa.
Uma outra volta? Meu português aproxima do italiano esperando um falso cognato.
Não entendo a itália. O máximo que sei da itália é Vovó Querida me mandando arquivos de fotos belíssimas da sua antiga Itália em Power Point. Lindas todas.
O macarrão com bacalhau estava com muito alho novamente. Muito.
Já não sei se perdi a referência, ou se o julgamento se deve à falta de outro ingrediente fundamental para o meu jantar no restaurante da Grão Mogol.
À esta altura, Grão, Mongol.
Sou um retardado existencial. Ouço Drão, me ilusiono, escuto Gilberto Gil me falando da ilusão.
Onde plantar?
Também não sei, Gil. Não me pergunte. A noite é muito mais escura do que eu posso supor, sempre. Semana passada fiz o que sempre pedi aos meus alunos: tomar banho de olhos fechados. Mais que um exercício para o cérebro, é um exercício de sensibilidade ímpar. Quero sentir a água molhada, Gil. Mesmo que os pecados sejam todos meus. Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão. Você tem razão. Aprendi o perdão no Caminho de Santiago. Hoje, a compaixão me acompanha de perto, de parto, de parto, de nascimento, crescimento, compreensão e entendimento.
Sempre tive mais facilidade em compreender do que em entender, Gil. Un`Altra Volta.
O restaurante quase vazio me falava do alho. Da dor de cabeça que sinto quando como muito alho.
De que quando se está junto, só comendo alho junto. De que quando se está só, o alho se multiplica, o olho se multiplica, olha-se pra dentro de dentro. Entro. E enxergo ao som do saxofonista do restaurante, que começa a noite tocando Jobim.
Não, ele não tocou Gil, por mais que fosse ficar interessante no final do texto.
O que ele tocou fui eu, só, olhando pra dentro, alh-ando pra fora.



http://www.unaltravolta.com.br/

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Flor ir

Filha,
olha a foto. Essa é a foto da primeira arvorezinha sua, minha borboletinha. Seu Bonsai que voltou a brotar.
Quando você se foi ela sentiu na hora. Cairam todas as folhas, ela secou, ficou triste, só. Daí eu pedi pra Rê e o Rock darem um jeito nela.
A Rê logo puxou a minha orelha, filha. Ela disse do tempo. O tempo que faz brotar. O mesmo tempo que leva, traz. O mesmo tempo que vem, passa. O tempo que dói, cura. O que amarga, adoça. O tempo é passageiro da vida, filha.
V ida.
V     ida.
V                 ida.
Sem volta, nos encontra na plataforma da estação. Onde chegamos, onde partimos.
Hoje partido, amanhã, chegando. Reparou bem nessa frase, filha? Ela é muito importante e muito certa, em suas várias formas de ler:
Hoje partIdo, amanhã, chegAndo.
Guardei minha expectativa no armário, filha. Que bom que você está há 56 dias na praia com a mamãe. Quisera eu tirar umas férias desse tempo todo também... Aproveita aí pro pai. E se lembra que longe é um lugar que não existe...



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Noite

Não quero morrer hoje à noite.
Escrevi uma filha, plantei um livro, tive uma árvore. Mas tenho um pouco mais a fazer.
Não quero morrer hoje à noite. Quero tomar vinho com queijos em
Rennes, num banco de praça, quero amar sem medida uma mulher que escolhi e que me escolheu, quero rir andando de carro da Holanda, rumo a Paris, quero fazer uma maratona, quero ver minha filha, quero fazer o Caminho de Santiago.
Quero ter amigos, quero estudar em um mestrado, quero ser reconhecido profissionalmente, quero ir a Paris, quero ir até Cordoba, quero ir a Toledo. Quero visitar a Sagrada Familia.
Não quero morrer hoje à noite.
Quero ver a minha filha crescer um pouquinho, quero mar sem medida uma mulher que escolhi e que me escolheu, quero tudo e muito mais.
Ou não. Só não queria mesmo era morrer essa noite.

Presépio







No meu presépio, o menino Jesus fica coladinho no São José.







domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre colos, Sofhias e pai-xões.





Sofia, ontem, deitada no colo da mãe.
14 anos, maior que ela, Sofia se aninha pequenina no colo da mãe enquanto ouve o jazz de Chico Amaral e trio.
O colo da mãe é o mundo de Sofia.
Enrosca. Enlaça. Em laço.
É, o colo da mãe é o mundo de Sofia.
Mas, fora do mundo, quando estuda com as coleguinhas, coloca Frank Zappa, a pai-xão do pai de Sofia...

Já a pai-xão do pai de Sophia não é Frank Zappa. É Chico Amaral e todo o jazz na medida do sonho, na música interna que nos faz mais humanos, como dizze Chico com outraz palavraz.
O pai de Sophia sofre com o jazz. Encantado, dança o sofrimento, a luta, o sonho, a redenção da música. Enquanto Chico Amaral e banda se apresentam, Nelson sente a música. Em cada poro, em cada centímetro. Sentímetro.
E dança.
Dança sua dança mágica, seu sonho de música, seu tocar jazz com todo o corpo, todo o sentimento, se faz o próprio instrumento, todo o som presente em Nelsom. Ele toca jazz com todo o seu corpo.

Sophia escuta. Sofia escuta.

O pai só fia sua paternidade dizzendo a palavra amor. Dentro e fora do mundo, Sofhia.
Em todos os tons, em todos os sons, no andamento  da vida.


*Aos menos atentos:
Sofia é filha de Cláudio e Regina
Sophia é filha de Nelson e Myriam

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pra Bê do pai



Bê do pai,

cadê você? Cadê o encanto que move os dias, cadê o passarinho parado no ar, o meio do gole d'água, a sede que sacia, saci, fogueira e luar?
Estrelinhas miudinhas que brilham limpinhas na noite pretinha do meu neném...
Sou bobo, filha.
Poema no copo, maçã no pé, risada de gato, xixi de menino, sou pequenino diante de tal natureza de ser.
Docê.
Yemanjá tem me dado notícias suas,
nua,
na boa viagem da vida.
A areia do tempo escorre nos seus dedos como escorre nos meus, minha borboletinha, e é só encostar a orelha na concha que ouço o mar deitado em seu colo de menina. Vitamina.
Você já adorava cará na barriga da mamãe.
E o papai adora a sua aflição quando cheiro minha cria, barba que lhe-te-coça-nuca.
Ah, sabe o que você vai gostar? Monteiro Lobato, minha Narizinho.
Faço-me um ninho e aguardo você pousar.
A vida é esse marzão todo. A gente não vê: mas do outro lado do mundo, há bem, há bom e há belo a se descobrir pra viver, meu Bem. Tudo esperando você.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

do-ação

Meu amigo me perguntou há pouco: - ah, quando você se doou por inteiro? Quando ficou completamente tomado pela amada, quando ligou o foda-se e se jogou totalmente em um relacionamento?
...
Acho que ele me perguntava pensando que não haveria uma resposta.
Ele queria saber do ato de amor, de morrer nos braços da sua amada, nos seios, de se tornar nada, tudo, depois de ter-ser tor-nado o tudo, nada...
É melhor que eu diga!

Re-tornar, se fazer ver, valer, sentir. A-mar sem medida, sem medo, sem sentido. Sem hora pra começar, sem hora pra acabar. De dia, de noite, na hora do café depois do banho, já pronto pra trabalhar... amar sexo, amaremoto, amaré. "Amar é o que sei fazer melhor", como diz o poeta.

O sonho de amar amando é o sonho de sonhar-se em sonho.
Sem sentido, é o real mais quereal que bate à sua porta.
Aorta.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

sono

Só quero dormir um sono de amanhã.




segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Borboletinha e a fita.



Borboletinha do Mar, que sabe das ondas, tem em si o desígnio do existir. A presença animada, séria, calada, colada no tempo, espera. Sabe do passo, sabe do abraço, fica aflita quando beijo seu pescoço, fungada de pai que respira a cria.
É via.
Tenho pra mim, tenho por mim, tenho nada pra mim, tenho nada por mim. Voa vento, borboletinha, entre as estrelas do mar, peixe que é, espuma branca na borda da areia. Vi você no Campo das Estrelas. Entre as estrelas do céu, espreitando e sorrindo. Caminhando comigo, me dando a mão no deserto. Fui no seu colo, meu solo, chão seguro macerado no cajado. Você me sorri, do colo da mãe, e sabe do meu.
Mistura. Banho de banheira. Fita amarela.
Nas areias do tempo, você, empanada, me sorrindo o que só eu sei.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ainda sobre o natal

Tal isso, tal aquilo. Na tal.
É lá, onde encontros acontecem, desencontros acontecem, resoluções, verdades, sonhos. Fichas caem lá, na tal. Ou na reflexão de lá.
Flexiona de novo.
Dobra, se prostra, se curva, novamente: re-flexão.
Não há resposta certa para o natal. Não há meio de ter certeza, a vida não dá certezas. Só a gentileza, a delicadeza do gesto, a porção dadivosa da Nossa Parte.
Onde achamos que determinamos. Onde achamos que temos jeito. Onde achamos que depende de nós.
Nesse lugar.
Perdi entradas no caminho.
Perdi saídas no caminho.
Hoje, ando no mato, muitas vezes. E nem acho que seja por falta de sinalização. Acho que não estamos preparados para os sinais, volta e meia.
Meia de lã vermelha, meia de lã verde. Verdades de meias. Se deixamos, esfriam. Se deixamos, morrem secas.
Lá. Na tal.
Boa noite.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vontade de ser melhor

Amanhece escuro e ligo as luzes de natal da árvore nova que coloquei na sala.
O papai noel tem mais cara de papai noel desse jeito, não com aquela roupinha da Coca-Cola.
Sinto uma coisa boa.
Tenho todos os motivos desse mundo pra detestar o natal.
Mas escolhi os outros motivos que me fazem amar. O natal, quero dizer.
Esperança é um deles. Vontade de ser melhor. Vontade do ninho, um pouco de magia, daquilo que não se vê.
O Mistério da Fé é muito pouco explorado, hoje em dia. E nos damos ou com a auto-ajuda piegas ou com o entretenimento, o show pirotécnico da crença vazia.
"Eu SEI Deus", já dizia um pensador citado por meu professor no curso de extensão de Filosofísica.
Eu também.
Sei das luzes, do Mistério intangível da fé (pela via da razão), da alma, do sonho.
Sabedoria+Sonho+Entrega+Eros+Ânimus+Tempo+Graça+Eus+Silêncio=Mistério da Fé.
Ou algo parecido.
Comprei um livro novo sobre uma história de amor. Estou lendo dois com o mesmíssimo tema. Um clássico, um contemporâneo.
Neles, o indizível silêncio da minha sala em luz, espera e saudades de natal.

domingo, 13 de novembro de 2011

Haikai do viver aprendoendo




se lenço, choro.
silêncio, escuto
e espero




sábado, 12 de novembro de 2011

Haikai da dedicatória ao Amor inteligente




para ser
o primeiro livro
de uma nova estante



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As costas do Vazio



Ontem sonhei com você.

Que tinha certeza, que sabia de tudo, que ouvida de tudo, esperava escuta.

Auscultei.

O Vazio corre em mim e corre de mim. Não o alcanço. Corro, léguas, maratona, atravesso a linha de chegada no Rio de Janeiro pra provar que posso. Osso. Acho que o Vazio corre pra que eu não o alcance mesmo, para que não veja o seu rosto, para que não saiba como é de frente. Só vejo suas costas.
Aflitivamente corro e, tartaruga com lebre, ele foge ifinidefinidamente. Mente.

Mente que posso alcançá-lo.
Mente que me comandamente.
Mente que eu finjo que acredito.
E retorno, eterno até certo dia, até certo ponto, até o diamante azul dos meus sonhos, dos sonhos da gente, quando a gente sonhava.

Hoje, vi uma menina linda atravessando a rua. Ela não vive no mundo da maldade, no mundo que tem mentira, na maçã mordida, na cicatriz que sangra da costela de Adão. Seu Vazio tem frente, seu Vazio tem lado. Seu vazio tem lada.

Meu mundo foi tomado de mim. Porque deixei por enquanto. Porque tento transformar o lodo em ledo, o cerco em cerca, o olho em olha, o canto em canto.

Do meu canto vou cantar pra ti sua música. Quando canto sua música, o Vazio para um pouco. E escuta.
E quando ouvir, vai auscultar comigo os nossos corações.
Que, de tão sincronizados, silenciam juntos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

341

Essa é a postagem de número 341. Dificilmente alguém vai lê-la até o fim. Dificilmente alguém vai leila até o fim. Vai, Leila, até o fim. Por favor. Se você não leila, quem, então?
Eu estava lá quando minha avó morreu. Ao lado dela. Eu sei o que é isso.
Eu sei o que é presenciar a vida.
Eu sei que não duro pra sempre.
Sei que a qualquer momento posso faltar.
Sei que você que lê isso, fatal, mente.
O orgulho pulou do alto do esquecimento. E, porumomento, és, que cimento...
De cara para a postagem de número 341, me esborracho, me desapago, me desdeleto.
Desde Leto que anoite é clara. Com ela anoita-se, os sentidos.
Sem tidos. Sem sidos, sem nada.
Quero falar do amor, mas fui dormir mais cedo. Antes, me sentei no box, deixei a água cair março e anoitecer outubro, lembrando que a sede está, que o barulho do xixi da vizinha está, que seu silêncio está, que seu nada está, que a morte da minha avó está, que a morte próxima está, que o barulho da cama não está, que a lembrança está, que são tantos tidos que, sem, passam a não ser.
E o vazio, este seu mistério.
Quero chorar as noites agora, e deixar as manhãs sem lágrimas.
Melhor que pedir ajuda, é saber que alguém vai ouvi-lo.
Difícil.
Vamos pedir com cuidado.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sobre a vontade e a burrice

Burrice não mede as consequências.

Burrice se esquece que quem planta, escolhe - como eu disse num haikai.

Sim, porque "quem planta, colhe", é lei da física, não precisa explicar, defender, levantar bandeira pra ver se é entendido... Ação e REAÇÃO.

Burrice não se sabe burro. Burrice se esquece que o tempo passa, que o outro escolhe, que existe um norte, que existe um sul, um sudeste, o vento, o sopro, no ouvido, a noite, o dia, a morte, a sorte, o porte, o corte.

és. colha.

Porque perdoar é uma coisa. Esquecer, outra bem diferente.

As pessoas crescem. Independentemente da burrice. E da vontade.

Como diz meu amigo, Deus só limitou a inteligência.

sábado, 15 de outubro de 2011

Matheo.

Matheus pequenino, Deus menino, no colo do pai.
Brinca criança, acorda a lembrança de Eduardo e Elisa.
Em seu mundo, cavalo é coxa, escorregador é perna, braços trampolim. Mão que vira bichinho, mão cavalinho, mão passarinho.
Não é de muita fala, o Matheus.
Ele olha o pasto, conta a rês, inspira fundo. Sorri pra mãe, que pode contar o mundo.

Ontem, correu pro pai. E demonstrou ao que veio, foi ser muito humano, na pequenina grandeza de ser. Veio correndo. Ao conquistar o colo do pai, olhou nos olhos e perguntou:
 - Papai, quando você era pequeno você se chamava Matheus?
...

Eduardo ganhou o choro de presente, Elisa ganhou o choro de presente, eu ganhei o choro de presente. Não deve existir bem maior a um pai que o reconhecimento do filho, que o olhar do filho, que o " eu vou ser você quando crescer, papai?". Mesmo que enviesado, mesmo que poético, mesmo que no mundo mágico do nosso querido Matheus.

Olho pra minha filha e me vejo um pouquinho nela, no jeito de olhar e suspirar o mundo. No franzir questionador da testa, no silêncio de si. Quero ver minha filha conquistar meu colo, dar as mãozinhas ao primo Matheus e deixar que ele mostre o mundo pra ela.
Sou grato, Matheus.



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Hum ano.




Alguém suicidou pulando de cima de si.
E descobriu, ao cair, que era pequeno demais pra isso.
E resolveu viver, finalmente, o presente, desembrulhando-o.






segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sabia? O ovo azul do sabiá.

Ela está cada dia mais linda. Não há um dia só que não suspire, uma, duas, três vezes.
"-Ai, papai..."
Seu cabeludo topete, vassourinha desengonçada, dá um ar mais engraçado, divertido, ao seu jeitinho assim assim de ser. Sua impaciência e seu jeito aham-Cláudia-senta-lá, como diria a Xuxa-tv-Manchete, são de admirar. Nos resta a espera.
Do contato, da oportunidade, do abraço, do que me contou da última vez em que encontramos.
É o máximo ela falar "papai". E olhar com esses olhinhos aí de cima, esse topete aí de cima, esse pega rapaz que nem sou tão rapaz mais minha filha, essa boquinha de coração que eu sei de quem puxou.
Franze a testa mesmo, filha. Esse mundo é assim.
A gente tem todo tempo do mundo pra suspirar junto.
Olha, segue o ovo de sabiá que tinha no sítio neste final de semana e não pudemos ver juntos. Tirei a foto no celular pra lhe mostrar.

sobre o que fazer agora

 
"Basta um grau muito pequeno de esperança para que nasça o amor."
Stendhal (1822)

Acho que Marie-Henri Beyle, conhecido como Stendhal, me mandou um recado, que atravessou o tempo e atemporalmente me verdadeia os sentidos, todos, em estado de letargia e contemplação.

Quando o choro seca, o nada pergunta em grito.
Nado surdo por inteiro, não há cotonete nem toalha que ajude.
Meu balde é baldo.
Vou fazer um furo nele.
E plantar uma roseira.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

as crianças e as crenças crescem.

Nada como a certeza do amanhã.
O amanhã pode não me ter, pode não ter remédio, pode não ser, pode não ver, mas vem.
Diferente do hoje, amanhã hoje mudado, ontem de um dia que nem sei.
Amanhã melado, amanhã sou vivo, amanhã sou forte, amanhã já morto, amanhã talvez, um hoje ainda mais feliz.
Um hojunto, um hojentil, um hojusto, um hojá passou.
Amanhã espera amanhã.
Amanhã antes de um ontem que nem importa.
De mora.
Amora. A morada.
Lugar casa do quero estar.
Enquanto durar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Haikai do entendimento




depois de muito me-ditar
descobri que não sei ler.




sábado, 17 de setembro de 2011

foReVer





em forever

leio fever
leio ver
leio ore
leio for
leio rever

ouço forever

para ver é preciso prece, febre, reencontrar, para ser sempre. Forever.






Haikai de nós





Nós somos mais.
Nós nos fazem menos.
O querer desata um dos dois.




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

provocoração

Olha atentamente. Se maravilha com pouco. Sorri.
Espia o mundo, se espanta, questiona e suspira.

É muita coisa mesmo.

Espera um pouco, deixa eu prestar atenção no seu colar.
Eu conheço este símbolo.
Eu sei o que quer dizer.

Mexe os dedos das mãos lentamente, franze o cenho apertando o olho.
Os cílios esbarram no mundo. 
Expira.

Olha pra lá, olha pra cá, resolve. Quer experimentar.
Esse colar é meu, deixa eu colocar na boca. Deixa eu engolir, experimentar, deixa fazer parte do meu ser inteiro, deixa ser eu. 
Deixa, ser. Eu.

Eumundo. 

Eus. 

Deus.


Enquanto provoco minha filha, meu coração me provoca.


domingo, 11 de setembro de 2011

sobre passarinhos e respostas




Se você tem um sonho, tem que correr atrás dele.
Se você quer uma coisa, corre atrás. Ponto. - Diz Will Smith no filme.

Seu filho, no filme, pergunta: Pai, quando a mamãe vai voltar?

Ele não sabe, filho. É assim. Às vezes a mamãe vai, às vezes volta, às vezes não. Enquanto tomo um yogo e escrevo esse post, tem mãe partindo, mãe chegando, mãe querendo, mãe chorando. Tem pai que não sabe a resposta. Tem muita mãe no mundo.

A minha, feliz por ser avó, sofre com o filho. Ele não é dos mais fáceis. Ele é poeta. Acredita no sonho, corre atrás dele. Acredita no ponto do Will Smith. O inferno está cheio de boas intenções, alguns dizem. 

Prefere ir para o inferno acreditando no Will Smith. Prefere a verdade dolorosa. Apesar de alguns não suportarem a abstração da verdade. Prefere morrer poeta, prefere correr atrás. Pelo menos, corre.
Vou tentar resumir, que se não esse post vai demorar 38 anos pra ser lido:

Depois, quando lhe foi ensinado a andar, começou a correr. Daí, fez o Caminho de Santiago. Reconheceu o amor, finalmente, e entendeu porque o mundo lhe parecia de cabeça pra baixo. 

Falou todas as línguas.

Hoje, anda no mundo de cabeça pra baixo. Desajustado, o sangue lhe sobe à cabeça. Mas corre de vez em quando e anda de vez em quando. Ouve os passarinhos quando passa na Praça da Liberdade e fica procurando por eles. Presta atenção na vida. Pra ter o máximo de respostas quando a filha vier lhe perguntar. Mesmo sabendo que não vai ter todas as respostas. Nem pra filha, nem pro amor de sua vida.

Mas acredita. E vai morrer acreditando. Will, abraça seu filho. Olha ele no olho. Lá, bem no fundo, mora a verdade de todas as respostas sem perguntas.

sábado, 3 de setembro de 2011

Profile Picture




Aprendo a cada dia.
BuscANDO.
Estou morto, estou vivo, estou esperando você chegar.
Espero você passar na porta. Só.
Choro pelas manhãs, sinto frio de vez em quando.
Deito nos braços de tudo e tudo me acolhe. Coloco tudo no peito e me encaixo em seu manto de amor.
A vida tem sido brava comigo.
Nas noites, pulo na cama, viro, me debato. Sonointranquilo.
Misturo desejo com medo e medesejo melhor.
Penso em olhar pra porta e ver você entrar. Penso em estar em paz. Penso em rir de gargalhar.
Penso no quando somos parecidos, penso no quanto somos parecidos.
Ainda bem que tudo existe, ainda bem que tenho você na lembrança.
Ainda um bem que não está. Mas vai chegar.
A independer dos humores, boicotes, trotes, trecos, trucos, troças, traças, trincas.
Sempre há o trem. Meu trem é o do sonho. Nele, sou passageiro e maquinista.
Nunca duvide disso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Em canto.



Hoje eu me diverti com seu chorinho.
Não foi um chorinho assim chorinho. Foi mais como um chorinho assim reclamento.
É, sim, foi isso. Um chorinho assim reclamento, um beicinho  de choro e um lamúriozinho do tipo... hummmmquê que eu tô fazendo aqui?
Eu ri por dentro. E pensei no tanto que isso importa, no tanto que somos assim assim, iguais, mesmos, inteiros partidos, somados, subtraídos, e o tanto que isso realmente faz com que a gente reclameie um tanto. Hoje eu também quis fazer isso diversas muitas tantas vezes.
Hoje, ontem, antes de ontem, antes de ontem de ontem de ontem até chegar lááááá atrás.
E reclamar o lamúrio do quase choro, o bico sem jeito, o franzir do nariz e o cair do olho. A dó de si mesmo, ensimesmado com o mundo. Misturindochorando de si e de tudo, dizendo: hummmmmmm....
É só um sonzinho apertado que sai. E nem é hum. é i, é o+u+i, sei lá enfim o que é.
É um apertin na gargante de quem quer cantar e não deixam. De quem quer voar e não deixam. De quem quer calar e não deixam. De quem quer só correr e não deixam. De quem quer só querer e não deixo.
Eixo.
Sim é o que falta. o d eixo.
E o som de si que vem de dentro murmura canto, mas canto da sala, tiquim, cantin, encontro de retas que pra onde não sei.
Esquesei.
E, inexplicavelmente, me encanto até com seu chorin. Vai ser assim. Mas não só assim. Fica tranquila.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Os Cílios da Minha Filha




emocionado
saldoso 
clareia

iluminado
nadando
abarca
sereia

amar
amor
paixão
venceu

as raízes da árvoremar são os rios que mó navegam







terça-feira, 23 de agosto de 2011

sobre a água em abundância

É bom que se diga: tudo tem limite.
É bom que se entenda: a cegueira por escolha talvez leve à surdez, à falta de tato, de faro, de paladar, ao silêncio, à falta de sensibilidade.
Nem tudo tem volta, nem toda escolha tem jeito, nem tudo que sobe desce, nem tudo cai do céu, nada é eterno.
É bom que se lembre que se morre muito de sede no meio do oceano. Apesar de toda aquela água.
Pode-se morrer de amor, circundado de amor.
Pode-se morrer de tédio, de gripe, de susto, de frio.
Pode-se morrer até de inveja.
Seis meses passam tão rápido quanto 5 anos, 10 anos, 12. No tempo do pensamento.
Quem vive tanto e tanto, traduz na lembrança a expectativa do tempo, dos tempos, dos temos.
Tememos. Morre-se também de temor.
E o interessante dos filmes de terror é que o susto acontece quando não se espera.
Você está esperando?
Quem vê o filme também está. Adianta?


Espero que você tenha feito pipoca.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sobre o mundo dos pôneis

Vou dormir.
E sonhar com um mundo onde não exista polícia civil, investigação, ação criminal, burrice, esquina, escuro, breu, solidão, insegurança, elevadores que caem, tocaias à noite, ladrão, assassinatos, crimes aparentemente sem motivo, aborto ilegal, delações, cartas, provas, burrice, desgosto, juízas mortas, tráfico de drogas, burrice, corrupção, inveja, medo, susto, síndrome do pânico, dor de cotovelo, cerveja quente, polícia militar, bandido, doença, burrice, dor de cabeça, câncer, insônia, caco de vidro, bala perdida, ratos, baratas, cobras, burrice e outras coisas assim assim. Afinal, se até os pôneis são malditos... imagine as pessoas. E os pôneis nos parecem tão lindinhos, né?
Burrice pega?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Eles dois




Olho pra foto que tem vocês dois. Passado e futuro, a linha do tempo provando que o presente é o que importa. Por quanto tempo estaremos juntos? Eu sei a resposta. No tempo do hoje, o presente que desembrulho me faz descobrir. Revelo veloz a lentidão do momento.
A linha do tempo dá uma volta no meu dedo. Aperta com o fio de ouro e marca que corta. Fica. Significa. Olhamos nus.
Um sabe. Um espera. Uma respira. E faz da simplicidade da vida todo o motivo da existência sublime.
Sou grato por ser um elo do meio, mais uma vez ponte, no mistério indescritível da vida. Continuo esperando. Acho que vou esperar a vida inteira. E viver só da admiração da inefável escuta.
Ausculto.
O coração que recebi de graça em Finesterre tem o mesmo som de uma concha de um caramujo do mar. Como as belas conchas de Gaudi...

domingo, 14 de agosto de 2011

Haikai do passo


Mudo, me calo, me principio.
Findo, calejado, a fala do silêncio. 



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

As folhas e a Ana

Ana passou pela calçada e ouviu o vento chamando seu nome.
Imediatamente se virou e pode ver as folhas que corriam atrás dela.
Ela disse:
- Olha, as folhas estão correndo atrás da gente, gente!
E imediatamente começou a correr.
O vento que veio derrubou a casa, fez festa na menina, sacudiu poeira, cegou o moço da praça.
O vento que veio veio chamando as folhas pra brincar.
Ana sacudiu seu cabelo cacheado cheio de folhas, seus cachos dourados em contraste com o ocre.
Cicieira viu tudo. E saiu ventando levantando a Ana, levantanoaana, levantanaana, le ventana.
Do alto do infinito olhou para baixo e ouviu o silêncio do mundo: seu coração batia.
E decidiu voltar plainando, deitada em sua expectativa.
Você já viu as folhas dando tchau?
Eu já vi.

domingo, 7 de agosto de 2011

o broto da inspiração



Hoje corre.
Corro cedo, volto a correr. Talvez inspirado pela constatação de que não adianta nascer.
A pequena resedá precisa de poda. Quando Rock Junior me disse que eu não aguentaria vê-la por quase dois meses sem uma folha sequer, eu ri por dentro. Disse a mim mesmo: que bom, isso eu já aprendi.
E aprendi a ouvir.
Rock me disse que ela precisaria de poda quando viesse à tona, nascesse, chegasse, brotasse, encontrasse espaço no mundo de ser, do ser, vento que venta de dentro.
Começo a correr.
Ela nasce, cresce, e precisa de poda.
Hoje corro por onde passa meu pensamento. Hoje vento por onde nasce o meu momento. Escuto Vander Lee enquanto corro por dentro. Meu amigo é outro sonhador que sabe o valor do nascimento. Ele venta letras e músicas enquanto se oniapresenta no mundo. Ele, como o meu pensamento, está aqui, está lá, com a noiva que casa mês que vem, com o padeiro que acordou mais cedo, com a esposa que reforma a cozinha, com o garoto que anda de bicicleta.
Sua música passeia no mundo, como meu pensamento, como meu sonho, como meu gosto pelo nascimento, como a minha constatação de que falta um tanto ainda. E corro.
Hoje, levantei os joelhos o mais alto que pude.
Hoje, abri a passada.
Hoje, fiz a curva meio deitado.
Hoje, encontrei o sol quando fiz a volta no quarteirão.
Hoje, nasci e flori para o mundo que pede pra nascer de novo e, quem sabe, precisar de poda, crescer música do Vander Lee ou virar café da manhã na cama com gosto de amor amanhecido.

domingo, 24 de julho de 2011

Enjoy? Enjôo.


Candinho procura a mãe.
No encontro com Pirulito, na praça, à noite, divide um sanduíche. Pirulito não quer voltar pra casa, seu pai bate nele. Candinho tem dinheiro, mas não quer alugar um quarto na pensão. Ele quer dormir na praça porque gosta do céu, das plantas. Ele sabe que muié entra na frente, ao passar na porta. Ele não sabe da internet. Ele sabe só do burro Policarpo.
Candinho, o mundo mudou. Não se divide o sanduíche, não importa se a muié entra na frente, ao passar na porta, Candinho.
Candinho procura a mãe.
Bem, Candinho, a mãe talvez não faça mais sentido no mundo de hoje. Quando você não for mais preto e branco, quando colorir, virar HD, for filmado em 3D, tiver a experiência interativa da cross media, ninguém mais vai se importar se você quer ou não achar sua mãe. As pessoas vão dizer, Candinho, que você está na era da informação. É mentira, Candinho. Não caia nessa. Só um ingênuo mais ingênuo que Pirulito continua achando que estamos na era da informação. Que a Comunicação dita as regras. Mentira, Candinho. É o Consumo quem manda. Essa é a era do Consumo. Mas como é feio, melhor colocar a máscara da Comunicação na frente do Consumo. É como achar que o negócio do Ricardo Eletro é eletrodoméstico. Não é. Nunca foi. Bom, talvez fosse, quando ele começou. Hoje seu negócio é empréstimo de dinheiro. E sua desculpa é eletrodoméstico. Isso é muito mais bonito. Ele deveria ser amigo do Lula e da Dilma e de muito político que acha que o número de eletrodoméstico em casa é índice de qualidade de vida. Não é cultura, não é escola, não é hospital, não é emprego melhor, não é formação, não é diminuição da violência, não é poder dormir na praça se quiser, sem ser queimado vivo. Quando for dormir na praça de novo, Candinho, dorme com um olho aberto.
Ah, e entra no Facebook, Candinho. Posta umas fotos do burro Policarpo, vira amigo do Pirulito, cutuca ele e, quem sabe, você consegue encontrar sua mãe?

*Mazzaropi e Benedito Corsi fizeram Candinho e Pirulito em "Candinho", criado em 1926.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

filamento



Chegou em casa, parou o carro na garagem.
Desligou o carro, abriu a porta, a luz interna do veículo acendeu.
Fez-se silêncio.
Fez-se o silêncio.
Por um momento, se esqueceu de respirar.
Quando se lembrou, o fez calmamente, sem barulho.
Tudo fora era escuro. Só havia luz na parte interna do carro.
Imóvel, não sabia o que fazia.
Não descia, não fechava a porta, não pulava do veículo, não buzinava.
Não ligava o rádio, não olhava em volta, não suspirava, não estava.
Mexeu os olhos para baixo, viu os pés sombreados pelo volante, em baixo do painel.
Voltou a olhar para cima, só via escuro através do para-brisas.
Fungou.
Esperou até que algo acontecesse.
Talvez alguém aparecesse, talvez alguém viesse, talvez o portão eletrônico fosse finalmente acionado.
Não foi. Não era, não tinha, não vinha, não estava.
Engoliu saliva.
E esperou mais um pouco.
Se lembrou de quando era outro. Luzia.
Se lembrou de quando estava.
E desejou que alguém chegasse, viesse, acionasse, acontecesse.

Depois de mais de três horas, quando parecia que a luz interna finalmente ia fraquejar, saiu do carro, com medo da vizinha do oitavo andar.