quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Saudades de Paul

Minha caixa de mensagens não tem nada de importante, só lixo digital, comercial sem necessidade, convites para participar daquilo que não preciso.

Pensei duas vezes antes de postar essa foto. Porque não conheço essa menina, não sei seu nome, o nome de sua mãe, não tenho autorização para publicar...

Enquanto a disseminação, propagação, democratização dos multimeios digitais se molda, enquanto todos viramos produtores de conteúdo (seja lá que conteúdo for), caminha em paralelo a perda da ingenuidade, a relativização de uma suposta humanização da comunicação - ou algo do gênero, não sei definir (nominar) ao certo. Será certo não poder postar uma cena sem autorização, se ela traz uma menina linda, ruiva, tomando um sorvete, simplesmente, ao lado de uma fonte na Holanda, em uma cidade cujo nome não me lembro mais, mas que retrata a poesia do encontro, a ingenuidade do sabor de estar vivo, a necessidade de nos compreender ao mesmo tempo presos no passado e participantes do futuro, passageiros do tempo, fatias de gerações?...

A água, perene, não deixa de cair na fonte da Holanda, enquanto essa menininha acorda, vai pra aula, se alimenta, dorme, vive, ri, chora, cresce, e eu aqui, com saudade do tempo, das cartas de papel escritas de próprio punho, do sorriso de tudo, do desgosto de nada, do primeiro beijo, do último bacalhau, do choro incontido, do prazer do cinema de mão dada, da linha de chegada, do barulho dos passos no Caminho de Santiago, do quentume do abraço, da minha mão que se molhou nessa fonte depois de ter visitado o museu do semprinfinito Escher e de ter ouvido em uma igreja protestante um concerto de clarinete, violino e contrabaixo ao lado do meu muito muito muito irmão, pai, filho, amigo Peregrino Paul.

(Só para registrar: hoje é dia 8 de setembro. Há vinte anos eu entrava pela primeira vez no palco do teatro do SESI, na minha estréia artística profissional, num espetáculo cênico-musical de nome Manoel, o audaz. Esse tempo confuso, louco, intenso, também é tempo de comemoração...)

4 comentários:

Ana Cabral disse...

Também sinto uma nostalgia enorme
até meio "brega" para modernidade atual.
Tenho saudades do cheiro das cartas. Do envelope com selo!
Da ansiosa espera no portão pela passagem do carteiro.
Hoje só IMPRESSOS!
Lendo sua observação sobre Manoel, o audaz... meu cunhado Cristiano Salazar participou dessa peça.
E foi nesse espetáculo que ele conheceu minha irmã. Uma história de amor que dura até hoje.
Você o conhece?

Ana

Bê Sant Anna disse...

Participei dessa história de amor mais perto do que você pensa! Pergunte sua irmã... ou pergunte seu cunhado, meu amigo querido! Vivemos muitos bons momentos juntos!
Bê ijos pra família toda. :)

Ana Cabral disse...

Putz! bacana isso....
Mundo pequeno. Coincidências legais.
Vou falar com eles.

Ana

Renata Feldman disse...

Assisti à peça sem saber que você estava lá, Bê!...
Linda, linda, linda! (A música, então...)
Abraço, saudade!