segunda-feira, 27 de setembro de 2010

luz e sombra


Lentamente, me dito.
me estou.
me situo.
me vou.
me sinto.
me perdôo.
me loucamente angustiado.
As janelas da alma têm vidros antigos, que centenas de anos vividos, escorrerem um pouco, liquefazendo a paisagem de fora. Como tantas catedrais européias que visitei...
Em todas, mistério, silêncio, orações, dúvidas e algumas lágrimas. Por um motivo ou por outro.
Minha alma é uma catedral?
Devo ver de dentro da alma? Devo dentro pra fora? Devo fora pra dentro? Devora? Deventre?
As profundezas da alma têm um pouco de limo. Lá, onde a luz quase não alcança, escuro do ser, verdades ocultas.
Hoje acordei lanterna. E quero ir dormir farol.

sábado, 25 de setembro de 2010

macacos na janela

Acordei sentidos.
Coloquei uma música que me fez chorar por dentro. De bem, de bom, de belo. Flores que brotam de fora pra dentro. São muitas, muitas mesmo. Passo a mão em todas elas e as sinto balançar, exalando verde, a pureza do toque. Quero um abraço profundo de mim. Quero mais que entendimento, quero compreensão. Quero o mar da esperança que navega macio sem cobrança, dança, me faz delirar: amena presença no mundo. Quero deslocar. Aos poucos, de leve, com os olhos no novo, com os olhos em quem me vê e caminha comigo. Os macacos pulam de uma árvore pra outra sem fazer barulho no nascer do sol no sítio dos meus pais. Os vejo da janela do banheiro enquanto tomo um banho quente. A fumaça sobe e turva o vidro que me quase deixa ver o sol por entre as árvores e os macacos que me vêem desconfiados. Só o barulho da água caindo no box. E das flores se ajeitando dentro de mim, voltando para seus lugares. O café me espera. A mandioca, o pão, minha toalha. Fecho os olhos e tomo um pouco mais de banho. A música pede pra tomar banho comigo. Suspiro e escuto, é hora de terminar o banho e começar o dia.
Como diria Gilberto Gil em uma música que eu aposto que você não conhece:
"Dia, dia, diá! Ê mininê, ê meniná!"...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Vivo?

Conceitos que regem o mundo. Idéias que marcam. Marcas. Por que precisamos tanto de idéias, conceitos, enunciados, ordens? "Fidelidade". "Conexão como nenhuma outra". "Presença". "Feito para você". Será que está todo mundo nessa carência existencial toda?
Será que não vamos entender definitivamente a palavra solidão de outra forma?

Sólido. Muito sólido. Solidão.

Sozinhos estamos, sozinhos somos, sozinhamos sempre, iludidos. A experiência do encontro pode ser experimenciada viventidamente na senticitude do limite entre o ser e o estar. Na comunhão com o outro. Mas só.
(nos dois sentidos - no sentido de "apenas" e no sentido do "sozinhamente alone")
Vamos parar com essa coisa besta de aguardarmos os ditames da moda, do mudo, do capitalismindividualistedonistegoístico, se é que você me entende.
É só saber que nossa construção, sólida e somente e solamente, se dá primeiro no encontro com o eu. Se for difícil, olha no espelho. Durante 5 longos minutos.
Depois volta aqui no blog e me conta o que aconteceu.



terça-feira, 21 de setembro de 2010

Harley Davidson Sportster Iron

O sonho pede passagem. A escolha pede, acolhida.
O manto do dever ser pede licença. E me abraça, irresponsável.
Sim, quero ser, me mostrar sendo, escolhendo, aprendendo a ousar os 50% de chances de erros e acertos de cada diaescolha.
Só isso, bestagem.
Só vontadezinha boba de querer e topar ser livre um pouquinho pra decidir o que se quer, assim assim.
Só poder sentir um pouco mais o vento e sabê-lo Deus, manifestação nas coisas todas.
O momento não pede?
Nunca é tarde pra se fazer o que se quer de verdade... nem o que precisa ser feito.
Acreditar nisso é o primeiro passo pra incorporar definitivamente a atitude.
Afinal, eu sei onde está meu passaporte, como disse num post um pouco abaixo deste...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pensamento que move (se realmente quisermos)

Para algumas pessoas queridas que estão precisando. Inclusive eu.



"Quem só conhece seu lado do caso pouco sabe dele."
John Stuart Mill




sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Talvez haja


Talvez não haja o que ler. Talvez haja.

Sonhei esta noite, durante muito tempo. Depois de 6 semanas sem final de semana, consegui dormir 3 horas na parte da tarde, o que me fez ir dormir mais descansado ontem. Engraçado, parece que quando estamos muito cansados, dependendo do tipo de cansaço, temos um sono intranquilo, o que nos faz ficar mais cansados ainda. Bom, pelo menos é a minha impressão.

Sonhei. Muito. 

Em minha viagem, no sonho, eu havia perdido o meu passaporte. Eu tinha dois documentos que provavam, comprovavam quem eu era, mas a minha sensação de ter perdido a minha identidade me tomava de assalto. 

Curiosamente, eu sabia onde estava o meu passaporte. Meu passaporte, minha identidade, estavam no fundo da mochila que me acompanhou no Caminho de Santiago.

Talvez haja uma interpretação óbvia para este sonho.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quando ouvir faz toda a diferença.


Dis Quand Reviendras-Tu ?


Voilà combien de jours, voilà combien de nuits,
Voilà combien de temps que tu es reparti
Tu m'as dit: "Cette fois, c'est le dernier voyage"
Pour nos cœurs déchirés, c'est le dernier naufrage
Tu m'as dit : Au printemps, je serai de retour
Le printemps, c'est joli pour se parler d'amour
Nous irons voir ensemble les jardins refleuris
Et déambulerons dans les rues de Paris!"

Dis, quand reviendras-tu?
Dis, au moins le sais-tu
Que tout le temps qui passe
Ne se rattrape guère...
Que tout le temps perdu
Ne se rattrape plus!

Le printemps s'est enfui depuis longtemps déjà
Craquent les feuilles mortes, brûlent les feux de bois
À voir Paris si beau en cette fin d'automne
Soudain je m'alanguis, je rêve, je frissonne
Je tangue, je chavire, et comme la rengaine
Je vais, je viens, je vire, je tourne, je me traîne
Ton image me hante, je te parle tout bas
Et j'ai le mal d'amour, et j'ai le mal de toi

REFRAIN
J'ai beau t'aimer encore, j'ai beau t'aimer toujours
J'ai beau n'aimer que toi, j'ai beau t'aimer d'amour

Si tu ne comprends pas qu'il te faut revenir
Je ferai de nous deux mes plus beaux souvenirs
Je reprendrai la route, le monde m'émerveille
J'irai me réchauffer à un autre soleil
Je ne suis pas de ceux qui meurent de chagrin
Je n'ai pas la vertu des femmes de marins

REFRAIN

Veja quantos dias, veja quantas noites

Veja há quanto tempo você partiu

Você me disse: desta vez é a última viagem

Para nossos corações rasgados, é o último naufrágio

Você me disse: na primavera eu estarei de volta

A primavera, é bonita pra se falar de amor

Nós iremos juntos ver os jardins floridos

E vagaremos nas ruas de Paris

Diga, quando você volta?

Diga, pelo menos você sabe quando?

Que todo o tempo que passa

Quase não se agarra

Que todo o tempo perdido

Não se agarra mais

A primavera se foi há muito tempo

Quebram as folhas mortas, queimam as lenhas

A ver Paris tão bela neste fim de outono

Subitamente eu me esvaeço, eu sonho, eu arrepio

Eu vacilo, eu reviro, é como o refrão

Eu vou, eu venho, eu viro, eu giro, eu me arrasto

Tua imagem me assombra, eu te falo baixinho

Eu sofro do mal de amor, eu sofro do mal de ti

refrão

Por mais que eu te ame ainda, por mais que eu te ame sempre

Por mais que eu ame somente a ti, por mais que eu te ame de amor

Se você não compreende que é preciso que você volte

Eu farei de nós dois minhas mais belas lembranças

Eu retomarei a rota, o mundo me encanta

Eu irei me aquecer em um outro sol

Eu não sou daqueles que morrem de tristeza

Eu não tenho a virtude das mulheres de marinheiros

refrão

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pingando


Parte de mim se parte no canto do meu existir.
Dói se tranformo em arte a dor que só faz consumir.
O verbo, no infinitivo, medita passado, medida presente.
Futuro, que incerta escolha, turva o olhar sempre atento.
Lá, lamento do estar. Aqui, minha palavra se muda.
Ouço o som da construção e luta meu bom coração.
Estou tranquilo e só. Gestando, sonhando, Mar Morto.
O vento espera de sacudir as velas.
Mas sei que está.
Quem vai me trazer toalha?


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

res posta

- Bê, qual foi a última vez que você chorou?
me perguntou Brenda, na frente da outra apresentadora da campanha e da maquiadora.
Parei de escrever por um momento e me perguntei sua pergunta. Eu sei a resposta. Mariana, a outra apresentadora, fez algum comentário que não ouvi, Zizi, a maquiadora, replicou outra coisa que também não dei atenção, Brenda emendou algo que também não foi registrado. Eu sei a resposta.
- Já sei! (ela disse pra todo mundo) Semana passada o Bê chorou comigo aqui no corredor, falando sobre o Caminho de Santiago...
Eu sei a resposta.
Ontem, chegando em casa, minha amiga me chamou no skype, ela estava com um choro preso no travesseiro e resolveu deixar o travesseiro resolver o assunto, ele mesmo. Eu sei como é isso, travesseiro.
É difícil explicar o amor, coisa sem explicação. É difícil entender o tempo, rival do amor, medida do pulo da ponte, charada zen-budista. Mas eu sei a resposta.
Tirei os olhos da Brenda e voltei os olhos pro teclado do meu computador. Mesmo sabendo a resposta.
Ontem à noite, tentei dizer pro travesseiro da minha amiga que ajudasse de todas as maneiras, que a abraçasse, que a fizesse chorar, e que ele bebesse seu choro, sal da gente, que precisa sair do nosso mar que transborda em ressaca... Que droga, eu sei a resposta.
Falei pra ela do Vento que não se vê, do olho da gente ventando, do nosso coração que inVenta, Deus em com-provação do muito existir. Pedi a Deus que ventasse seus travesseiros, e que as penas de ganso viessem salvá-la do silêncio da noite, dançando no quarto, envolvendo menina, ninando em carinhos, dando colo, pintando estrelas, tocando caixinha de música, árvore que balança, berço que balança... Afinal, não adianta: eu sei a resposta.
E com tantas respostas indizívies, só me resta a pergunta, cadenciada, quase em silêncio, que o travesseiro se faz:

Chora
quem mora
em Maceió?

Na foto, no Caminho de Santiago, uma lanterna de um peregrino que tentava iluminar seu travesseiro, digo, seu caminho, enquanto ele passava por mim no escuro, no meio da floresta que me fez enxergar minha noite...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Saudades de Paul

Minha caixa de mensagens não tem nada de importante, só lixo digital, comercial sem necessidade, convites para participar daquilo que não preciso.

Pensei duas vezes antes de postar essa foto. Porque não conheço essa menina, não sei seu nome, o nome de sua mãe, não tenho autorização para publicar...

Enquanto a disseminação, propagação, democratização dos multimeios digitais se molda, enquanto todos viramos produtores de conteúdo (seja lá que conteúdo for), caminha em paralelo a perda da ingenuidade, a relativização de uma suposta humanização da comunicação - ou algo do gênero, não sei definir (nominar) ao certo. Será certo não poder postar uma cena sem autorização, se ela traz uma menina linda, ruiva, tomando um sorvete, simplesmente, ao lado de uma fonte na Holanda, em uma cidade cujo nome não me lembro mais, mas que retrata a poesia do encontro, a ingenuidade do sabor de estar vivo, a necessidade de nos compreender ao mesmo tempo presos no passado e participantes do futuro, passageiros do tempo, fatias de gerações?...

A água, perene, não deixa de cair na fonte da Holanda, enquanto essa menininha acorda, vai pra aula, se alimenta, dorme, vive, ri, chora, cresce, e eu aqui, com saudade do tempo, das cartas de papel escritas de próprio punho, do sorriso de tudo, do desgosto de nada, do primeiro beijo, do último bacalhau, do choro incontido, do prazer do cinema de mão dada, da linha de chegada, do barulho dos passos no Caminho de Santiago, do quentume do abraço, da minha mão que se molhou nessa fonte depois de ter visitado o museu do semprinfinito Escher e de ter ouvido em uma igreja protestante um concerto de clarinete, violino e contrabaixo ao lado do meu muito muito muito irmão, pai, filho, amigo Peregrino Paul.

(Só para registrar: hoje é dia 8 de setembro. Há vinte anos eu entrava pela primeira vez no palco do teatro do SESI, na minha estréia artística profissional, num espetáculo cênico-musical de nome Manoel, o audaz. Esse tempo confuso, louco, intenso, também é tempo de comemoração...)

domingo, 5 de setembro de 2010

a única foto que tenho dela


Olho que vê. Dente que dói.

"Quando o cabra tá com dor de dente, ele fica macambujo mesmo, não importa o tamanho do homem..." - disse o Dr. 

Ele sabe, tem uns quarenta anos que mexe com isso de dente. É uma anestesia, esse existir de dor. Olho por olho, se a gente deixar. 

Escrevi o verbo deixar agora e me lembrei: tinha uma menina que eu amava, que vestia uma blusa que se parecia com uma mesa de cantina italiana (não, ela nunca leu esse blog). Ela adorava uma cena de um filme que a menininha virava e dizia: - deixa!, deixa!

Ela achava isso o supra-sumo da doçura, da graça infantil. Essa, que eu conheci, sempre foi diferente das outras. Interessante como as pessoas são sempre diferentes umas das outras. Umas das ostras. Humos das outras. Enfim... são apenas divagações sem sentido, do olho que se deixa levar pela dor de dente que mora no peito, defeito, ar rarefeito de rara feição.

Ainda quero encontrar com ela, sabe? Não, não estou falando da vestida de mesa da cantina que não tem encontro, dos colares de contas que não mais me contam, do amor que mofou no canto do armário. É que meu calcanhar ainda dói como o dente do peito. É que amor sem medida transborda conceitos e a "alma imoral" se joga todos os dias da ponte do desejo...