quarta-feira, 30 de junho de 2010

- vai ser complicado

disse ela.

Fui ver "O segredo dos seus olhos" com minha mãe.

O filme acabou e ela não olhou para mim. Só me deu a mão, na hora que eu disse: vamos? e se levantou e me puxou calmamente, respeitosamente, sem se virar para mim.

Talvez ela tenha percebido, meu ombro estava encostado ao ombro dela.

Certamente, mãe.

A elas, nossos ouvidos. A elas, nossos olhos. A elas, alguns dos nossos segredos. A elas, as ações que nos agridem, mesmo que não sejam nossas, as mães.

Por vezes, ocultamos a verdade, sempre por elas. Ela não tem culpa do filho que tem. Ela não tem culpa da filha que tem.

Todas, mães. E sofrem, e padecem no paraíso, e não olham para o filho quando choram. Só quando é preciso.

É preciso descobrir o segredo dos seus olhos, mães.

Preciso.

Daí, ser preciso quando choro, quando minto, quando moro, quando sinto, quando adoro, quando amo, quando ando, quando volto. Eu preciso chorar descobrir quando choro para me olhar descobrir revelar nos olhos secretos de minha muito muito muito mãe...

Como diz a moça, antes de fechar a porta, - vai ser complicado. Ainda bem que ele está disposto a não nunca perder mais o trem da sua íssima história.


domingo, 27 de junho de 2010

quando a lua nasceu na estrada hoje



Sat patim dehi parameshwara - disse minha prima.
Entendo bem o que você quer.

Desentendo o querer, baseado no ser. Desejo o estar e permanecer.
Entendo mais o silêncio e o perdão.
Desentendo o falso sentido do não.
Desejo o quemte, quente e somente tanto verdade.
Simplesmente.
Simplásticamente.
O olhar da menina me diz que lua, que sentido, que ouvido e balbucia.
Se inicia no somar.
Somalicia.
Todos os beijos daqui por diante vão indiscutivelmente falar de nós.
Êta agrura que desatina...



sexta-feira, 25 de junho de 2010

Solomino

Dínamo levantou cedo. Tinha sonhado com soldados. Sonhou também com fogo, a noite inteira. E que havia fogo embaixo do sofá. Talvez fosse em cima, Dínamo. E o fato de, no sonho, o chão ceder ao toque, ali mesmo na sala, só constata que ruiu, enfim, o que estava podre. Daí, pegou um lápis de cor, preto mesmo, e ousou:


SOLOMINO

ela merece
aquece
o meu sono de menino

ela padece
da prece
que envulva o meu olhar

ela enlouquece
enternece
nua presença no mundo

e faz de ludo
pro surdo
voltar a escutar

mas foi a dois
que o sonho
o mesmo sono de menino

se encontrou
distante
do sinto
(muito)

e se firmou
com força
com jeito de enforcar
e autorizou
defeito
no preceito
para amar

Refrão:
Como é que faz quando tudo acaba?...
Como é que faz quando tudo?...
Como é que faz quando?...
Como é que faz?...

terça-feira, 22 de junho de 2010

für die prinzessin

Não triste
não viste
o sabor do saber.
Não veja
só seja
o bom do querer.
Se, tudo,
diz, muda,
o que é o amar.
E estuda um jeito
sem jeito
de se conquistar.
Só sinto
um defeito
no jeito
de eu ser
de estar
de sobreviver.
Casulo de mim
moro no abraço
sem laço
com choro no ombro
que faço
ao lembrar de você.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

nova mente?

Pele.
de dentro e de fora.
Pêlo.
de dentro, do centro.
Aquilo que foi, não encontra motivo. Queria algo novo, diferente, somente.
Unicidade única.
Unipaís, unicontinente, unimundo, universo, Uni.
Única mente, infelizmente e lhe faz poído.
Arrasado, fudido.
Não encontra reflexo nos seus cacos.
Antes, via bolas de natal quebradas,
todas vermelhas, aos cacos e see via em todas elas...
E mesmo assim era natal.
Mesmo assim era bom, era belo, era sonho...
Hoje, só uma confusão de sentidos, humilhação do vazio,
fastio,
repugna ao toque, retoque, dê-lhe um desvio.
É muita dor de garganta.
É muita agressão a quem sonha.
Crudelíssima vida, que expulsa, faca afiada na língua,
joelho ralado nas manhãs sem mães.
Desencontro.
O circo vazio se encontra.
Ele, palhaço, no meio do picadeiro chora.
Esmola.
e a terra assola a vontade de voar novamente.

domingo, 20 de junho de 2010

medida da sorte

o filho que quero ter
se inspira no pai, de verdade
se vem
sabendo o perdão
descobre
a importância do amor
do pão, da fidelidade

o filho que eu quero
ter
revela, que cavalheiro
sabe do dom
da espera
confia no ato, na guerra
da paz
na crença que existe o a mais

amai
filho que quero
e me faz pai, de verdade
que só sou pai se és filho
meu
eu
de pra mim

que dor, de filho, de encanto
de fantasia termina
expectativa de tudo
onipresente desfeito

sorriso que tenho, eu sobrinho
Matheus, silêncio criança
que brinca no peito
eu menino
confio a ti esta dança

me pega na mão, Matheusinho
Theu riso, Theu sonho, Theu eu
e diz que sem giz, mundo finda
amarelinha sem céu

me diz MatheuZeus,
filho amado
que de galope em galope
se pode ouvir o silêncio
pode sonhar sem medida
e confiar nossa sorte...

*na foto, Bê e Matheus, filhos, primos, sobrinhos, muito queridos,
que sabem da importância e da verdade do silêncio que comunica mais que a palavra...


São João.



Atrás das bandeirinhas, a expectativa do sonho.
Atrás das bandeirinhas, o beijo roubado, o encontro esperado, a fogueira que queima, a troca de olhares.
Atrás das bandeirinhas, quentão.
Atrás das bandeirinhas, o casamento de mentirinha, a noiva pronta, o padre de brinquedo, o noivo iludido.
Atrás das bandeirinhas, festa, folia.
Atrás das bandeirinhas, mães correndo atrás de meninos, estalinho, meninos correndo atrás de meninas.
Atrás das bandeirinhas, uma janela se abre para a vida que se quer.
E o vento que passeia azul, laranja, vermelho, verde, amarelo...

...e Bárbara brinca, linda, colorida, bem na frente do meu sonho...
Êta, São João retado! Assim eu queimo!...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Haikai do retorno




Voltamos às palavras.
Paradoxalmente, o devir com gosto de saudade.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Deshaikai 1 - a restrição dos sentidos


Nem eu, nem você, nem nós.

Quando silêncio, as palavras ideais.

Quanto desejo, atento aos sinais.

A esperança nos fez cosquinha

e tornou-nus crianças: crentes, ingênuas, amantes.

Nada somos, mais nada.

Já fomos bem pelados, distintos, somados,

subsumidos, subsomados,

superunidos.

Alados.

A grama coça

quando se deita de costas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

paduanos


Se milagres desejais,
recorrei a Santo Antônio;
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido
rompe-se a dura prisão
e no auge do furacão
cede o mar embravecido...

Responso de Santo Antônio, que de vida, rumo e sonho, faz-se presente pra gente.
Que dá luz, reza graça, conduz. Que vigília, mistério, sério, critério. Monastério.
Induz.
Se fogueira, preto e sonho, se crepita, luz e fogo... neve de cinza que vira natal de menino e lembra que flâmula, bandeira.
É verde e vermelho, Seu Dotô. O amarelo sangrou.
Ê minha Dinha, sua bênção. Sua reza é forte, né? Queria esse olhar pra mim.
Olha pra ela, minha Dinha. E descobre, revela.
Já vi máscaras de carnaval. Nunca de São João, Santo Antônio.
Será que alguém vai guardar quentão pra mim?
Tava quase, o casamento na roça.
Quase-quase.





sábado, 12 de junho de 2010

para o céu


Arco Iris tras un día de inundaciones - diz o jornal embaixo do teclado do meu computador.

Não, não é um jornal do dia 12 de junho. É do dia 23 de outubro de 2009, dia dos namorados.

O verbo morar, que conjugado em namorados faz-se presente, deve ter papel de embrulho. Deve ter laço de fita, deve ter entusiasmo. Sim, entusiasmo, que vem de arrebatamento.
Entusiasmo é transar 3 vezes e querer mais. É enrosco de pernas, pele lambida, queixoroxo.

Entusiasmo é arrebêtamento, é lágrima que escorre, é riso incontido, são dedos que se entrelaçam. Entusiasmo é exagero do olhar, é fechar o olho pra lembrar, é lembrar de olho aberto olhando para o nada tudo que de nada vale.

Entusiasmo é quase entusiasno.

Arrebatamento que eu mereço, arrebestamente que me sacrifico.

Arrebostamente que tudo acaba.

Me acabo de ser poeta, me envocêsiasmo e me perco eu pra não mais me saber nós.

Me emaranhado de nós.

Arco Iris, flor do céu, que pede perdão pela tempestade louca: a água mata a sede do certo e do errado, traz a vida e leva e lava a des-graça.

Que leve só o prefixo. No dia de hoje, preciso muito muito muito de rir sem motivo... acho que vou ali olhar para o céu até que ele fique escuro de mim.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Saudade do passarinho do Caminho


Ganhei um livro de poesias completas de Manoel de Barros de uma pessoa linda. Minha bela chefe segurava o livro pra mim, enquanto eu pegava nossas malas na chegada do Galeão. Fizemos um evento incrível no Rio de Janeiro no feriado. Quando já tinha o que carregar, veio ela: você já chegou na página 322?

XII - página 322.

Bernardo é quase uma árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe.
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?)

O bom de ler poesia é ter a oportunidade de fazer dela sua. Acho que Manoel de Barros me perdoaria a ousadia da apropriação e a de sentir o que senti quando li este trecho e voltei ao Caminho de Santiago.

Manoel, o que guardo em meu baú são sonhos realizáveis. Quem já foi na minha casa sabe, já viu. É um baú lindo que tem mais de 100 anos de idade e fica no centro da minha sala...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ah


há uma pressão na alma,
falta de ar que suspiro,
há fatos
há flanelas sujas,
decanto,
desencanto
e sei sobreolhar

há um risco infinito na mente,
que faz meu vinil da cabeça voltar
há passeios pessoas,
pessoas passeios,
há regresso,
há anseios

há de haver,
há de ser,
a de ser,
há descer

há o verbo encontrar no lamento,
do tormento,
no meu caminhar

há balão azul,
ah, balão de oxigênio,
não me deixa sem ar!

há pro infinitivo,
há subjuntivo,
e imperfeito,
cega o olhar

ontem, vi a mar,
e nela não há
hoje, vi a mar,
e nela, turbilhão de desejos de arrebentação sem buscar praia

afogam-se os pensamentos,
esperança como bolha no fundo do oceano:
ninguém sabe ao certo se chega à superfície
ninguém sobe ao certo, se chega à superfície...

sou São Francisco dos peixes
que vivo, molhado,
não sei se bebo a água que serve de caminho para os que me cercam.