domingo, 30 de maio de 2010

Queda livre

Ainda machucado, levanta-se ao cair da janela.
Limpa o pó, bate a terra, tosse.
Inspira.
Está vivo.
Foi por pouco dessa vez. Muito pouco.
Pensou em pular da ponte, mas já estava em queda livre, caindo da janela.
Esfola as mãos, o peito, a boca, a bochecha e abaixo do pescoço, onde costumava haver carinho.
Inspira.
Inspira de novo.
Abre os olhos.
E não acredita no que vê: está no Caminho de Santiago, sua roupa agora é outra, seu peso agora é outro, sua força, sua bênção. Sabe que suas chagas serão curadas pelos primeiros peregrinos que passarem. Com cuidado, com zelo, com cuidado.
Reflete amor. E acredita. E sabe.
O perdão passa por ali, oferecendo ajuda.
Aceita.
E a dor vai embora no lombo vasto e tranquilo do perdão.
Começa a ouvir: e descobre atônito que é vida, pura e simples e sente saudades das coisas boas. Tudo levou até ali. Levou tudo até ali.
Lavou tudo até ali e sorri.
E decide Caminhar, para ver conjugado o verbo amar.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

livre arbítrio




uma abelha jataí pousou no meu peito
e resolveu fazer comigo todo o caminho



***

o silêncio não muda o amanhã.



***



suicídio responsável




quinta-feira, 27 de maio de 2010

Alerta


A correspondência passa por debaixo da porta.
E lá aguarda.
Pulo quando passo.
Não há passo que faça a consequência do existir atrair minha atenção.
Não para a correspondência.
A correspondência não corresponde.
Não aos meus anseios.
Ela quer me seduzir, bestamente, óbviamente, indignamente.
Nada novo,
contas, apelos, pedidos, perdidos, informação que não forma o que preciso.
Narciso.
Não ao que já conheço, vomito letras embaralhadas pela culpa culta do comunicante.
Amante.
Séquito de nada, revoltei-vos!
E compreendam de uma vez por todas que a explicação gigante da palavra ser no dicionário, nada tem a ver.
Por isso, fechem bem os olhos.
E estejam.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

a falta que faz

Sabe o que é?
É que a gente sai do trabalho com uma coisa importante pra falar. Aguma coisa que tá ali dentro da gente pedindo pra sair, e vencer a barreira, entende? Pra gente liberar mesmo e colocar pra fora. Ou uma muito ruim, ou uma muito boa. E tem aquele impulso: enfia a mão no bolso e pega o celular pra ligar. E quando a gente olha pra tela, ainda escura, pensa...
...
pensa
...
putz
...
pra quem mesmo eu vou ligar?
...
É melhor ir dormir.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Haikai do Hameulet


Too be or not, to bê?
That's the question.





para minha amiga Marcela

sábado, 22 de maio de 2010

lâmina


eu soul
alma de minha razão
fractal do desejo ardente
lodo limo
limbo da gente

ex tou
reverso do ser da palavra
silêncio que ocupa e mistura
espelho da sombra que vejo

velho
vejo e velo
velas içadas
salmão se debate
no asfalto da estrada
a sola dos pés descascada

um dois
bisturi que enfio no ouvido
gillette se corta
dedos e chama
no rio se vai
boiando a cama



terça-feira, 18 de maio de 2010

tento [Amar]


[Amar].

Sabe o que isso significa em Hebraico?

Não o que você está lendo, mas o que você ouve ao ler em voz alta a palavra AMAR:
Significa "Falar".

Explico (ou tento): fonéticamente, ao transliterar o verbo falar, em hebraico, o que ouvimos é Amar.

Explicado assim é difícil.

Mas quando lemos as letras, da direita pra esquerda Resch+Mem+Alef
(acrescidas das vogais respectivas que formam a palavra "falar")
a nossa leitura conduz a escuta de... AMAR.

Curioso? Concidência? Ouso perguntar:

Quem sabe falar amar?
Ama falar?
Quem conduz ao verbo?
Ama?
Quem sabe amar falar?
Fala amar?
Quem ao verbo ama?
Conduz?

Delícia as aulas de Hebraico. Bom ter ouvido hoje que em hebraico não existe o verbo "ser". Como na língua Tupi... É como se não fosse necessário ser. Apenas viver... Quem compreendeu, que durma com essa. Eu vou ali tentar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vírgula


Nem descobre um jeito
Nem guarda um segredo
Nem posso dizer nada
Nem posso dizer tudo
Nem sou seu tanto assim
Nem sou assim seu tanto
Nem escuta o meu pranto
Nem me entende um pouco
Nem conduz meu corpo
Nem mostra o carinho
Nem abusa do vinho
Nem vem quando canto
Nem te vi no meu sonho
Nem lê quando escrevo
Nem descobre onde falta
Nem falta descobrir
Nem me falta coragem
Nem medo que atrapalha
Nem basta de ser
Nem escuta o querer
Nem sabe de mim
Nem pontua o poema
Nem?

sábado, 15 de maio de 2010

diga trinta e três

Fui dormir 22:30h., depois de fazer um omelete de 3 ovos, pimenta biquinho, azeitona preta e carne moída.

Não me pergunte se estava bom.

Falei com um amigo que fazia aniversário ontem que eu iria comemorar com ele. Mas não consegui. Fui dormir.

Não gosto de acordar 3:25h. Nem ficar na cama até 4:00h com o olho mais estatelado que os ovos que joguei na frigideira. Fritei enquanto pude e levantei. Tinha uns emails me chamando.

O primeiro, da menina vento, que disse ontem às 10:00h que tinha entrado em trabalho de parto e que a menina brisa não tardava, que o médico tinha dito pelas características da gestação da menina vento e da menina brisa que podia ficar no trabalho até mais tarde pra depois ela chegar, como brisa...

O segundo, da minha amiga ilha farol do velho novo mundo, que ilumina de lá de longe perto, independentemente da tormenta. Em seu email, citou a palavra de sua mãe:

"se tiver que chorar, chora com um olho. Abre o outro e já vai vendo a solução."

Acho que com esse recado posso desligar o computador, agora que são 4:33h, e ir pra cama novamente.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tour d'amour


Tour de France, disse ela.

Mari sabia que Norberto tinha um sonho. E para o castelo que constrói junto dele, sabe da importência dos materiais. A relação com a construção foi aprendida em família.

Pro nosso castelo, sonhos como tijolos, ela diz.

Pro nosso castelo, uma torre de amor, uma cúpula de desejo, domo revestido de mãos dadas, um adro de tijolos amarelos, aberto de possibilidades. Por ele passam nossas crenças, nossas projeções, nossos sentimentos mais puros de união. É lá que trocamos experiências - projeta usando o verbo presente.

Muralhas fortes, ele diz. Sou eu quem coloca cada uma das pedras. Escolho-as no rio de nossa existência mútua.

Rio colégio Sto. Antônio, rio Sorveteria São Domingos, rio casa da avó. Rio primeiro beijo, rio de descobertas, rio de viagens.

Norberto anda com os pés dentro d'água. E tem um sonho de pedalar no velho mundo.

Mari sabe que os sonhos dele são importantes pra ela. Mari sabe que os sonhos dele são importantes pra ele. Mari sabe que os sonhos dele se tornaram dela, e serão contados, um dia, para os filhos que vierem, que já existem também em sonhos, comungados, ricos, rios, reais.

Quando deitam à noite, dizem um ao outro: seja bem-vindo. E dormem juntos, e passeiam de mãos entrelaçadas nos sonhos que brotam e se misturam, lugar onde está deitado o castelo que cresce a cada dia, a cada noite, a cada passeio.

Vai lá, Mari: Tira uma foto do Norberto no Tour de France durante a prova. Não importa se ele atravessar a linha de chegada. Vocês já estão no seu pódio a espera do grande prêmio...

No castelo dos dois, Um.

domingo, 9 de maio de 2010

Skilpadde


Ela deu sete voltas em volta do noivo.

A outra me ensinou uma palavra misteriosa: Kjærlighet.

Uma ficou com as bochechas sorriso no olhar, óculos de professorinha e encanto de aluna.

Outra pediu pra pagar tudo, que era a vez dela.

Esta não sabe dos de-signos do amor.

Aquela encontra ardente um jeito de ser minha, um jeito deu ser seu e chacoalha.

Tem uma que move, outra estaca, uma brinco de pérolas, outra sem brincos que tenho alergia.

No silêncio do ser, encontro espaço pra olhar pra dentro e contemplar a beleza ousada de suas presenças no mundo. Fiquei pensando:

- afinal, quem é que sabe Norueguês?!?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Haikai do Livre Arbítrio



Quem planta, escolhe.





segunda-feira, 3 de maio de 2010

trop peço


Salvo engano, en gaño?

Estaria eu disposto a entender o que se passa em mina mente?
Esta ria eu de posto a em tender o que se passem mim amém te?

***

A doro as pelavras (as palavras peladas)
Queimo-as sol.
D'ouro-as mel.
entreabro-las todinhas,
arre-ganho nas
travessavras-palavruras
lamboletras e misturas
e canto conto.
Encantro.
Obri gado por letras, toco meu rebanho
em sonho
e refaço sentidos despidos
dos mantos.
Es-cu-te-me. Afoite-se.
A-qui-e-te-se
e flôra-se.