segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novo Céu.

Na foto, Ramiro e eu no Caminho de Santiago. Por minha amiga australiana Angela Phillips: http://www.designbyangi.com.au/


Há um novo céu.
Voltar do Caminho de Santiago é muito mais demorado do que parece. As coisas, todas, me parecem confusas. Olho as pessoas e vejo outra gente, outro jeito, é outro olhar. Não quero mais isso ou aquilo, estou paciente, estou feliz, estou mais tolerante. Espero que o meio de cá não me influencie tanto como o meio de lá. Ter experenciado o outro lado da face é um privilégio. Não digo "de poucos", como não digo "de quem queira". Não sei se é assim, não sei se tem regra. Posso dizer que, para mim, foi positivo na minha análise, e vivenciar tanto amor transborda.
Ainda bem.
Semana passada, fui convidado pela Ana para conhecer o Projeto Assistencial Novo Céu. Na verdade ela me convidou há muito tempo. Mas nunca tinha tido coragem de ir lá.
Sim, coragem.
Não é uma coisa fácil pra mim ver mais de 70 pessoinhas: crianças de colo, "adolescentes" de colo, "adultos" de colo. Todos precisam de colo. Exatamente como nós, que temos a graça(?) de acharmos que não precisamos de colo...
Aliás, Ana quer dizer exatamente isso: me parece que vem do hebraico e significa "cheia de graça". Pois sua graça se espalha ao entrar em cada um dos cômodos do grande espaço cedido pela Prefeitura de Contagem e construído com o suor, as lágrimas, o riso e com o amor de muitos "peregrinos" que sabem como importa amar.
Para mim foi muito difícil entrar em cada um dos espaços reservados para aqueles meninos e meninas, todos com paralisia cerebral, todos precisando de colo.
A certa altura, Ana, achando que isso ia me fazer um bem enorme e fazer um bem enorme ao Pedro, uma das crianças assistidas pelo Novo Céu, me disse: - senta aqui no colchão. E colocou em meus braços o Pedro.
Gostamos um do outro. Somos peregrinos de nós.
Acontece, a Ana não sabia que só pego crianças maiores de certa idade. Tenho muita aflição de pegar neném novo. Não pego, prefiro não, "não é meu", não posso deixar cair. Se tenho tanto medo de altura, quem sou eu pra pegar um neném novo... E não me senti bem com aquela situação. Cada um com seu limite, cada um com seu calo, cada um com seus medos. Me calo.
Quais serão os medos do Pedro?
Será que ele tem medo de eu nunca mais voltar lá?
Será que ele tem medo de perder a Ana?
Será que ele tem medo?
Eu tenho medo de altura, Pedro. E não quero te deixar cair. Por isso, vou te segurar do jeitinho que eu posso. E você sabe qual é. Com você, a comunicação passa por outra via, que não a da palavra. Por isso, quando eu olhei no fundo, bem no fundo dos seus olhos, enquanto você estava no meu colo, eu sei que você me entendeu.

Se você leu este texto até aqui, faça um bem enorme para o Pedro (e, quem sabe, pra você...): clique em um dos links do Novo Céu que coloquei aqui no texto. Não estou pedindo para você doar nada. Estou pedindo 3 minutos da sua vida. Dê de presente ao meu amigo Pedro, conheça o Novo Céu.

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