quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma ponte entre Belo Horizonte e Roncesvalles


Voltei?
Deixei um saco de arroz no Caminho de Santiago. Deixei muito mais do que isso. Deixei coisas que nem sei. Permiti que se fossem. Abri caminhos, cumpri sonhos, estabeleci metas e, em todas elas compreendi a importância do passo.
Eu passo. A meta passa.
Somos, apenas e acreditamos na importância das coisas, tantas, que nos pesa a existência. A materialidade sem sentido de matérias e materiais. Não sei se alguém vai me ler mais no blog. Na inexorável temporalidade da ferramenta midiática, a fugacidade das coisas. Sou substituível. Meus textos, descartáveis, minhas idéias, como vapor, meus ideais, sopro.
Meus sonhos, não. Estes, assim como meus sentimentos, críveis ou não, são ferro. São fogo. São tanto e tanto que transbordam, e me fazem mais importante do que nunca antes fui. Me importam minhas idéias. Me importa o ser, ou melhor, o sou.
Ontem, uma pessoa que eu ainda não conhecia me disse:
- "Você me deu o melhor presente que eu ganhei na minha vida!..." E isso fez toda a diferença.
Quando ele me ouviu falar que tinha feito o Caminho de Santiago, se sentiu chamado. Quando tirei do meu bolso uma pequena seta, flecha amarela em forma de Pin e coloquei em sua mão direita extendida, eu apenas disse:
- "Esse presente estava contado... Mas tem alguma coisa me dizendo aqui que, na verdade, um destes eu trouxe pra te dar. Abra a Mão. Esta é a primeira flecha amarela do seu Caminho de Santiago..."
Aconteceu na Mercearia Lili, no Santo Antônio, um boteco de Belo Horizonte. Rodrigo, o novo amigo em questão, estava sentado sozinho (?) no balcão quando me ouviu falando que eu tinha caminhado quase 900 km à pé. Quando descobriu que era o Caminho de Santiago quis saber mais. Havia mais de 15 anos que "queria fazer", mas não encontrava apoio, não tinha o estímulo ou a companhia... Ontem, ao deixar o boteco, foi até minha mesa e me disse novamente que tinha sido o melhor presente que ele tinha ganhado em toda a sua vida. E me pediu:
- "Por favor, posso te dar um abraço?"
Claro, Rodrigo, eu disse a ele.
Ele ainda não sabe. Mas este foi o primeiro abraço que ele deu em Santiago. O próximo vai ser lá: no Campo das Estrelas...