segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobre dormir e acordar


Ela é rica. Sua família é estruturada. Tem o segundo grau completo. Tem o curso universitário. Tem pós-graduação. Tem mestrado. Ela é culta, se veste bem, tem traquejo. Viajada, fala inglês. Fala outra língua. Tem um namorado inteligente, articulado, interessante. Ela é linda. Todos admiram sua beleza e seu jeito meigo de se portar. (de longe)

Mas ela é chata. E não sabe ser engraçada.

Como é chata e sem graça, não é convidada. Como é chata e sem graça, não consegue sentar em um boteco e ser interessante. Como é chata e sem graça, não tem amigos. Como é chata e sem graça suas qualidades magníficas se apagam. Ela se resume a ser chata e sem graça. E assim vai enganando a todos, porque ninguém sabe de suas tantas qualidades.

Até quando vai ser chata e sem graça? Ser chata e sem graça está na superfície da profunda mulher extremamente interessante que se esconde ali, atrás da chatice e do seu jeito sem graça. Será que ser chata e sem graça é uma escolha dela? Será que lhe é insuportável ser assim, boa, inteligente, culta, educada, amável? Será que ela tem espelho em casa? Será que ninguém vai fazer nada quanto a isso?

Alguém: ensine uma piada pra ela.

Alguém: ensine a moça ser agradável.

Alguém: dê um abraço nela, olhe em seus olhos e diga: - tudo bem você ser assim, boa, bela, bacana. Ela está precisando acreditar nela.

Quando ela deita a cabeça no travesseiro, nem o namorado dela a vê chorar. Por sentir o quanto lhe é insuportável a dor de só ser chata e sem graça.

Dorme bem moça. E acorda amanhã.


Imagem em:

http://img.wallpaperstock.net:81/a-dark-starry-night-wallpapers_7302_1024x768.jpg

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ciça e Juliana


Ele parece se chamar Pedro. Ela, Ana.

Calma.

Ciça e Juliana estavam na mesa ao lado. O meu Pedro e a minha Ana, umas duas mesas pra lá.

Ela olhava pra ele como se não coubesse mais naquele corpo. Ela queria participar do dele, porque já não dava mais. Mais não cabia. Ela queria se dar pra ele. Tudo, toda, tuda, tanta, tonta. Seus olhos diziam, gritavam, suplicavam, não havia como negar.

E alheia a eles dois, Ciça.

Coça ela, Pedro. Arranca a roupa dela Pedro. Pede ela em casamento, essa noite, essanoitesempre, porque um olhar desse, nunca mais. NuncAMAis.

Porque você furou essas orelhas parecendo uma índia, Juliana? Vou enfiar o meu dedinho no buraco da sua orelha.

Ciça tem um cabelo anos oitenta. Franja. E me conta que tem que ser assim mesmo, impetuoso, audaz, impulsivo, passional. Seu peircing no meio do nariz não combina com sua fala. Quem ela quis furar com esse peircing? Será que ela queria só combinar com a Juliana?

Diz ela que se a Juliana tirasse a roupa, eu ia entender o tanto que a Juliana era mandona. Não, não é isso que você tá pensando. Eu é que não estou me expressando bem. Primeiro que já farto de entender o tanto que Juliana era mandona.

Deixa eu ver se me explico: a Juliana da mesa da Ciça tava com uma calça jeans meio desbotada, daquelas que tem umas poucas tripinhas brancas na barra da calça. E um allstar cool e um casaco e um cabelo preto, bem preto, com uma franja também, praticamente... uma franja desfiada, mas um cabelão pretovéumanto, que às vezes tapava a orelha e escondia a rebeldia.

Mas o mais interessante eram os olhos (eu ia escrever óculos, mas meu ato falho contou que fiquei impressionado com os olhos da Juliana).

Mas o mais interessante eram os óculos. Quadrados, gigantes, retrô pra caramba, em escala, pareciam de uma menininha bem comportada de colegial...

Que Juliana comportada. Que Juliana agressiva. Quando a Ciça disse isso, quis dizer que por baixo daquela menina, que parecia aquele brigadeiro com forminha branca na ponta da mesa de um aniversário de criança, tinha um monte de tatuagens de caveira...

Ah, sei lá, já tô pensando alto. Nem sei mais o que estou falando. Só sei que independentemente de eu amar e desejar o amor da Ana, o jeito de amar e o olhar incrivelmente sedutor da Anamorada, mesmo que eu não descubra nunca as tatuagens mais escondidas da Juliana, ainda que eu não saiba se a Ciça é mesmo aquela melhor amiga que alguém um dia sonhou ter, mesmo eu não sendo padrinho de casamento do Pedro, ainda assim, eu estava naquele café. E lá, fiz amor com o olhar da Ana, abençoei o Pedro, abracei a Ciça, beijei mil vezes a Juliana, e Encontrei, na minha mesa, minha eterna amiga irmã Nitiama.



imagem em:
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

¿ Quien soy ? Mira en tú corazón


Hoje foi que recebi um carinhoso presente de aniversário, que estava prometido desde o dia 01 de julho de 2009.
Sim, ganhei o livro que tem esta capa daí de cima.

Quem me deu ousou pedir ao autor uma dedicatória que falasse ao peregrino que aqui está, em busca da busca, de coração aberto.
Daí, Manoel escreveu:

"Ao Bernardo. Acreditando que a felicidade não é um lugar, mas um caminho. É no caminho que a gente se encontra.
Ânimo. - O Autor"

Acontece que o livro veio com uma camiseta. E, nela, escrito em vermelho:

¿ Quien soy ? Mira en tú corazón

Quando li os dizeres da camiseta, um sopro, uma música, um sonho, uma bomba, uma luz...

ANĬMUS. Ânimo = Alma: o que move; o próprio caminho.

Foi assim que veio o mote. Assim vi no espelho a minha alma. A alma da viagem.

O tempo da gente é uma coisa engraçada, não? Meu amigo, Ramiro, me convidou pra fazer essa viagem no reveillon, em Arraial d'Ajuda. Hoje foi quando me veio a resposta...




segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Me nina.


Ainda mágico, ainda certo, ainda assim, ainda sim, estou caminhando-me.

E volto pra olhar os passos, rastros na terra batida, tantos cacos, tantos sonhos. Vôo baixo, às vezes. Descanso, às vezes. Caio e me levanto, me levando, me lavando.

De vez em quando pálpebras cansadas, de vez em sempre pernas doendo, coluna com sobrepeso - Atlas que o diga... Mas gosto de acreditar na Menina Vento, que insiste: - você tem fôlego, não pára não, acredita... É tão bom quando ela aparece no meio de alguma corrida, tão serelepe - sim, o adjetivo é bem esse mesmo -, tão saltitante, tão leve e risonha e diz: - Oi!!!, com três exclamações infantis (num meio pulinho), com aquele jeito moleca e menina, de quem não sabe mentir, de quem não sabe do medo, de quem não sabe da perda... (quem dera, né Menina?)

É com esse jeito que ela vem me falar que eu consigo. E, por isso, acredito em mim.

Tento acompanhá-la um pouco, tonto, não consigo.

Por enquanto. Pôr enquando.

Quando um eu toma as rédeas, me saboto:

digo pra mim mesmo: - quem falou que você tem fôlego?, você mal caminha, volta a andar!...

Não gosto "desse" eu. Eleu não combina comigo. Com meu outro migo. Cominimigo.

Mas continuo caminhando. Vou continuar tentando correr, tantando correr. Mesmo que ela não veja, mesmo que o tempo passe, mesmo que eu nunca acorde, mas tantando sempre. E cantando. E, quem sabe um dia, encantando...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Menina colorida também ama


A Pequena Cris Guerra, menina colorida, postou mais uma coisa gostosa em um de seus blogs famosos, visitados, em voga. Procure em um destes, você vai curtir procurar. E eu escrevi o seguinte comentário:

simples mente, amor? simples minto a mando
O amor tem disso, daquilo dopurodoputo dapuradaputa... e movimenta.
Calo. E amo. E calo. E às vezes o calo dói.

Será?

mais 20 KM


No cadeosdoido.blogspot.com tem mais esse vídeozinho de nossas caminhadas.
Falta menos de um mês. Nenhuma expectativa, se não a vontade de que dê tudo certo e que o caminho nos mostre os movimentos possíveis pra quem precisa aprender e ir atrás do sonho... Vamos nessa...

domingo, 16 de agosto de 2009

Dreadlocks e flores branquinhas


Pedro e Alina se casaram. Fui muito feliz por ter sido convidado para suas bodas. Lá, ao som da melhor música, na presença de tão doces pessoas, degustando as delícias do Bouquet Garni, ou vi atento o discurso em inglês do pai da noiva. Ele, juntamente com uns outros 20 suecos, romenos, ingleses, australianos, enfim, vieram de muito longe pra compartilhar o sonho de um casal fruto da globalização, do amor que não tem fronteiras, do encontro de mundos, culturas, referências, poesias.

Ele daqui, ela de vinte e cinco mil quilômetros de distância daqui.

E seu pai foi muito feliz ao dizer que os dois se encontraram por um motivo. Que todos ali estavam nesse momento especial, por um motivo: os dois sabiam o sentido maior da palavra MOVIMENTO. Foi porque os dois sabem o valor da palavra, do significante, do significado sem-sentido-para-todos-os-sentidos movimento que os dois se encontraram. Que saíram de 25.000 km de distância para nenhum átomo de distância... e fizeram de suasnossas vidas encontro.

Obrigado Pedro, belo moço moreno de dreadlocks no alto da cabeça, físico e filósofo que sabe amar. Obrigado Alina, pequena branquinha de flores branquinhas no cabelo loiro anelado que sabe sorrir pro Pedro, pra vida, pra gente...

E me deu uma vontade de compreender movimento...


imagem em:

http://imagens.fotoseimagens.etc.br/flores-brancas-na-primavera_874_1600x1200.jpg

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sim, pudera! Cinderela era ela.


Transcrevo aqui, conto que ouvi, ipsis verbis: ...e no meio do assunto, Evo sorriu sem graça para seu melhor amigo: - única, totalmente (disse ele). Merecidamente graciosa. Sabe-se presença marcante, apresenta-se suplantando a elegância, diz-se tímida. Timidamente.

Alva, papel de arroz macio, onde se lê escrito o palimpsesto das histórias de tantos amores, tantos desejos, tantos receios. Tantas explosões de paixão que pulsam atrás da pele, incitam o olhar, pedem e podem querer...

Mulher de ver, que lençol cabelo. Mulher de olhar, que profunda gente. Mulher de amar, marmita quente. Sabe? É mesmo é gato preto enorme, que passatravessa estrada...

Ou medusa noviça, que agrada os sentidos, riso que não se contém no meio da missa? Copo de leite que enfeita, copo de leite antes de deitar, leite de coco na pele, lisa, pêlo caminho. Será escorregador de parquinho, que prata a vista ao sol e queima a bunda do menino?

Ah, menino... entenda moça, mas medite viço, compreenda abacate maduro, saiba pêssego entumecido: pomareiei-la que surge, sem saber a diferença de rúcula e agrião. Essa abóbora vira princesa... Mas cadê varinha de condão?


imagem da cinderela em questão em: http://farm1.static.flickr.com/177/370512618_0d2b474e4c_o.jpg

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Algodão-agridoce




"As Grandes Lonas do Céu", como disse o diretor de teatro Fernando Limoeiro. O circo e seus mistérios. Arrelias de plantão, incitem o imaginário quase arquetípico que trazemos desde a primeira infância! A imagem do Pagliacci, o palhaço que chora, da ópera de Ruggero Leoncavallo, parece retrato fiel da vida. Alegoria da existência, que pinta, borda, cai, faz rir e, ainda assim, é miserável. Êta, vida! São tantos picadeiros... A família, o trabalho, os amigos, o botequim, tudo nos parece chão batido com tábuas coloridas em volta, fazendo o círculo, arquibancada improvisada pra quem quiser sentar e apreciar. Números que representamos e que, às vezes, teimamos em não olhar. De onde vem tantos ensaios abertos? Pra onde vão nossos tantos malabarismos? Ainda ontem, me vesti de domador. Hoje, voltei a fazer graça. Nem todo circo é um Cirque du Soleil. "Alegria" às vezes distante, pra quem se coloca sob as luzes dos holofotes. Eu compraria ingresso pra ver o circo da minha vida. Dá um bom espetáculo. Tem até elefante... E corda bamba! Tem malabarista sem malabares, trapezista que tem medo de altura, palhaço sem nariz vermelho... bom, pelo menos não tem mulher barbada... E banda de música, e ingresso vendido, e ingresso devolvido, e ribalta, e olhos atentos... - Que rufem os tambores! Senhooooras e senhoooores! Com vocêêêês, o indizível... o indescritível... o inefááááááááável... ops!... me esqueci. Como é mesmo o nome dele?


imagem em: http://i.olhares.com/data/big/137/1370591.jpg

sábado, 8 de agosto de 2009

Fogonética Filosofágica


Dia 8 do 8 de 2008 lancei o 8, meu livroCD, já comentado aqui. Hoje, exatamente um ano depois, recebi duas manifestações simbólicas. Um de uma amiga que fiz ao longo desse um ano, uma pesquisadora francesa de La Rochelle, que faz comentários mais interessantes que os posts que publico aqui e que me mandou um email com o seguinte título: "espiral"...

Outro, de Eric Grazzini, primo de São Paulo, que me ligou: - Bê, hoje de manhã passei na casa da mamãe e bati o olho em um CD escrito seu nome... Peguei pra ouvir e fui e voltei da praia escutando... Cara, que bacana. Curti demais... e a Mari (esposa dele) também... Parabéns, cara! Saudade...

Sem querer prometer nada, preferi, hoje, só pensar um pouco sobre o que quis me dizer esse tempo:

Fogonética Filosofágica

Um ano.

Tempo?

É só juntar as partes e se descobrir caminho: umano


Foto por Borboleta do Mar

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

SAGRADO




me-ditei silêncio
quando ouvi
a despalavra




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De eus



silêncio existencial
no nada, potencialmente tudo
ente palavra, big-bang sutil
eu em dEUs
de eu e de outros eu
que vazio cheio de eus
e a busca e-terna do nós






imagem em: http://downloads.open4group.com/wallpapers/mundo-nas-maos-5bda4.jpg

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sensibilidade em alta

Que merda. Detesto excesso de sensibilidade. Tenho lutado contra essa tendência ao drama já há muito tempo... Será que existe alguma pesquisa indicando que o ser humano, assim como fica mais frágil em uma gripe na parte da noite, fica mais sensível na parte da manhã? Você já notou que quando está gripado, parece que à noite a gente sente mais? Ou será que sou só eu?

Sempre me sinto mais fraco à noite, quando estou gripado... Deve ser assim com a sensibilidade. Parece que a gente fica mais sensível de manhãzinha... Saco: foi só entrar o comercial de dia dos pais do Boticário e... pronto. Não vou falar que chorei, porque homem não chora. Foi só entrar o comercial do Mais Você com a Ana Maria Braga de cabelo vermelho e... pronto. Tem alguma coisa mais tocante que a Ana Maria Braga de cabelo vermelho? A sorte é que no Bom Dia Brasil tem também o cabelinho da Zileide Silva, pra dar aquela alegria na gente, liberar o sorriso, em contraposição ao triste cabelo vermelho da dona do Lôro... Cabelinho não, cabeninho. É uma graça, parece um ninhozinho.

Daí apreciamos a beleza da voz da Zileide, apreciamos a beldade quase exótica da Renata e pronto: equilibramos o sistema razão X sensibilidade. E vamo que vamo, pra mais um dia frio, chato, até nos sensibilizarmos de novo, amanhã de manhã...


link do filme: http://www.youtube.com/watch?v=ZcbhA6bemgY

sábado, 1 de agosto de 2009

Onde está você?


Querido Beto,

é como diz a música: "Onde está você? Choro nesse canto a sua ausência, teu silêncio e a distância que se fez tão grande e levou você de vez daqui... Velho companheiro, algo em mim também morreu, desapareceu, junto com você. E hoje esse meu peito mutilado bate assim descompassado, que saudade de você."

Queria entender um pouco mais das coisas todas. E olha que eu já vi a morte de perto. Eu estava lá, ao lado do leito da minha avó querida, no dia em que ela partiu. Foi um suspiro ao inverso, um sopro do destino, uma pausa no tempo. Em um demoradíssimo átimo de segundo ela se foi, deixando em todos nós um pedaço de vazio. Um cheiume de buraco. Ninguém entendeu nada, ninguém desentendeu nada, todo mundo sentiu o vento invertido que dessoprava no quarto, onde todos estavam de mãos dadas.

Penso que não pude estar com você quando partiu. Penso no atabaque, no tan-tan que você me deu de presente quando eu ainda era muito, muito garoto. Ninguém, se não você, poderia ter me dado um binóculo como o que você me deu. Se lembra? Foi na praia. Com ele entendi a alegoria de ver o mar, de enxergar longe, de buscar o por onde passa o caminho, de pesquisar possibilidades.

Quem vê ao longe, amigo Beto? Quem sabe do seu sofrimento? Quem vê o longe, amigo Beto? Quem sabe? Queria poder te abraçar, ouvir sua voz, reflexo da alma, seu sorriso amigo malemolente. Queria sentir sua presença e escutar seus queixumes, queria ouvir as confidências que não ouvi na idade que tinha quando você partiu. Hoje posso te escutar melhor, amigo. Já casei, já me separei, já sorri, já chorei. Já corri muito pra lá e pra cá e descobri que nada adianta descobrir, revelar, pesquisar, entender. O truque é o Saber, amigo Beto, compreender. E nada.

Resta o sentimento, resta a lembrança, resta o sono batido, o sonho lavado junto com os olhos ao amanhecer... e estamos. Todos. Nus e vestidos, olhando o muro da existência sem nos virar para trás para caminharmos rumo ao sol.