sábado, 25 de julho de 2009

Máquina do Tempo






Quem disse que não há?

O Minas Tênis Clube tem o cheiro do meu avô.

Entro pela portaria de baixo e, toda vez, tenho a impressão que vou encontrar uma piscininha de criança do meu lado esquerdo. Agora a piscina de criança e os brinquedos ficam do lado direito. Mas a construção onde fica o imponente Relógio do Minas - tem que ser com letra maiúscula - permanece. E me transporta ao princípio da década de 80, quando minha mãe parava o carro na frente da portaria da rua da Bahia e pedia:

- Meu filho, vai lá buscar o vovô.

Foram poucas vezes. Mas era interessante entrar no restaurante, chegar até aquela mesa cheia de velhos (na minha cabeça, à época) e chamá-lo, sem nunca deixar de ser apresentado por ele aos seus colegas de copo, sócios também remidos, senhores de outra época, cavalheiros como os que existiam na época em que o cavalheirismo era coisa de homem com agá.

- Ô, bacanão! - dizia meu avô toda vez que encontrava um neto.

Eu tinha medo dele. Na vedade, tinha também ciúmes.

Eu era um neto qualquer, o sexto neto homem da família. Já não representava nada exatamente novo ou interessante ter um neto pra ele quando eu nasci. E meu pai era cruzeirense, o que o deixava mais desconfortável com a situação: ele, tendo sido presidente do Clube Atlético Mineiro. Por mais que eu tenha me descoberto atleticano, isso já não fazia exatamente diferença na cabeça daquele ex delegado da polícia civil, que cuidava de carimbar os passaportes e resolver soluções às vezes nada ortodoxas para os da tradicional família mineira.
Uma coisa era desagradável. Ele sempre se levantava da mesa, e pra continuar equilibrado, depois dos copos extra, segurava com aquela mão de delegado em nossos pescocinhos finos de menino - onde dava a altura ideal pra seu equilíbrio - fazendo a gente praticamente sufocar, ficar com marcas de dedos como colar, muletas infantis com sonhos de criança.
...
Essa semana recebi do Primo um email com um link ótimo. Muitas dezenas de capas da Playboy de 1997 pra cá. É só clicar nelas que as internas das revistas respectivas aparecem em tamanho ideal. Nos fundos da garagem da rua São Paulo, 1883, onde hoje há uma Casa Maia, se encontrava sentado meu avô, olhando os transeuntes, escutando rádio, sempre com um queijo canastra picado e temperado numa vasilhinha branca de cerâmica e uma Brahma gelada (era a que ele tomava), e um copo ao lado. Ele se sentava em uma almofada verde. Por baixo da almofada, escondido dos netos, a última revista playboy que tinha saído nas bancas. Era o tempo de 2 cervejas: ele se levantava pra fazer xixi e um dos netos passava lá, pegava a revista e deixava a almofada no mesmo lugar. Íamos pro Quartão, o quarto de cima da casa que dava pra uma varandinha, onde se via a rua São Paulo, e revelávamos o erótico que havia em nós, pela descoberta de menino do proibido, do que ainda não conhecíamos... Depois da farra, era só esperá-lo ir novamente ao banheiro fazer xixi e voltar com a revista pra mesma posição...
Ainda hoje temos certeza absoluta que ele nada percebia.

Aham... ;)

Acho que era a educação sexual possível que o vovô Hélio Soares de Moura nos dava nos idos de oitenta...

O email teve o mesmo mágico transporte que a máquina do tempo do Minas Um.

O título do email do Primo? "Salve, salve, Dr. Hélio..."

3 comentários:

Morena disse...

Tá aí um texto que mexe comigo, Meu avô! Sinto sua falta até hoje, e olha que já se passaram 13 anos desde que ele "se encantou". Cara porreta,com pouca cultura mas fiel ao " Jornal Estado de Minas" e ao "Diário da Tarde", meu ídolo, meu querido, não frequentava o Minas tenis não, mas era um "amor" Comigo principalmente, sua primeira neta. E a primeira à lhe dar dois bisnetos. Em varios momentos foi meu "Pai"e "Mãe" também. Quando não estava no Brasil mandava-me "cartas" sim pelo correio sempre me dando forças, e me incentivando. "Oh vô João" quanta falta me faz!!!!!!!! Saudades do senhor João Baptista Filho..... Nunca foi doutor, para os outros, porém para a Morena serás sempre, muito mais que doutor será para ela um " Mestre" querido, que jamais esquecerei..............

Branca disse...

Que lindo! Tudo que nos remete a nossa querida infância é poético. "Aurora da vida"!

Tenho doces lembranças de meu avô paterno. Eu era a neta caçula e fui criada praticamente na casa dele. Eu filha única do filho caçula dele, desfrutei do seu colo e de sua ternura durante toda minha infância. Ele faleceu eu tinha quinze anos. Em mim ele vive ainda, assim como meu pai que também já se foi. Eu sou uma pessoa de sorte por ter tido homens tão valorosos em minha vida.

Riqueza material nenhum dos dois nos deixaram, mas imprimiram para sempre em mim um sentimento de amor e hombridade os quais não se podem avaliar.

Bê Sant Anna disse...

Que delícia, Branca! Putz, tenho até umas coisas pra falar disso... mas isso é outro post... ;)
Bê ijos!