terça-feira, 31 de março de 2009

Fátima ouviu a cítara

*primeira das fotos encontradas quando se googla Willian Bonner





No livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, "Palavra e Verdade - na filosofia e na psicanálise" - coisas que, sinceramente, me intrigam -, fui surpreendido logo de início. Diz o livro: aedo, poeta-profeta da Grécia arcaica, possuia a palavra portadora da alétheia, da verdade.

Fiquei pensando: quem seria o aedo dos dias atuais? 

Quem tem a cara do Orfeu contemporâneo?

Willian Bonner? Bem ele não toca cítara e não canta, pelo menos na televisão... em compensação, é cheio de filho. E pra ter muito filho, só sendo poeta. Meu avô era poeta. Teve 15 filhos. Aliás, minha avó quem teve 15 filhos. Se tem alguém que está de parabéns, em termos de poesia, esse alguém é definitivamente minha avó. Putz, 15?!? E notem que escrevi quinze em numeral, pra ficar mais dramático, coerente com o jeito da minha família.

Vô Marú sim, foi um aedo. De verdade. E ele não tinha a Rede Globo no lugar da cítara... 

Quem é responsável pela alétheia da palavra do aedo Bonner? Ele, que é editor chefe das matérias, ele, que apresenta o jornal, o dispositivo Rede Globo, com seus artifícios técnicos para que a imagem seja transmitida, ou você, que comprou e ligou a televisão no canal dele, na hora dele, e sentou na sua frente?

(aliás, quando ele se despede, você responde:  "- Boa noite."?)

Em tempo: ainda na página 7, primeira do livro citado, lê-se..."...vamos encontrar a psicanálise ainda à procura de sua alétheia e, para ela, a verdade fundamental é a verdade do desejo."
Ao que tudo indica, vovó e vovô eram beeeem verdadeiros para a psicanálise. Também..., não tinha televisão naquela época...  ;)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Amor ao Ser Tão

(Essa é uma gravura de um artista incrível que conheci em Rennes, FR. Mas, evidentemente, ele é do sertão da Bahia. Seu trabalho encantador fez com que eu mudasse o foco do meu mestrado... Em uma parte dele vou analisar uma de suas exposições. 
Vale conhecer seu trabalho: procurem no google Juraci Dórea. Mas vamos ao textinho. Juraci só veio pra nos brindar com uma linda ilustração e ser boa dica pros mais atentos...)


É quase(?) heresia. Mas o amor precisa da ousadia sem limites. Espalhafatoso, meto o pé pelas mãos e coloco na caçarola Guimarães Rosa, não sem derramar um pouquinho, e tempero com Maquiavel. Na hora de servir, um clássico...

Guimarães:
"Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

..."o amor pode vir assim do demo?"..."um-que-não-existe?"...

..."Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta."...

Maquiavel:
"Estou disposto a sustentar que a sina é o árbitro de metade de nossas ações, mas que ela nos deixa o controle da outra metade."

É... como diria o filósofo Roberto Carlos: 
..."por isso corro demais, sofro demais, corro demais só pra te ver meu bem"... 


(Ficou mais ou menos como macarrão com arroz com feijão - que por sinal eu adoro, ainda mais com um ovo frito - . Mas a fome é o melhor dos temperos...)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Diadema



Noite aberta, é só entrar
No peito, a luz da tela do computador, que não me deixa mentir
O silêncio da madrugada espanta a minha alegria
O medo da morte é uma luzinha no teto...

Não olha pra ela quando for deitar
Não olha pra ela quando for deitar
Não olha pra ela quando for deitar
Não olha pra ela quando for deitar

Descubro a trilha do desconhecido
E só faço olhar, olhar
Daqui tudo é impreciso
Daqui tudo eu preciso
Do som, do toque, do beijo

Daqui preciso descobrir a música da minha alma
Pra tocar por aí numa noite dessas
Pra sair por aí numa noite dessas
A viajar nas estrelas dos sonhos alheios



Esse é mais um poema letra, ou letra poema, que tem uma música dentro... um dia ela desperta e vem adornar. As cabeças, os cabelos, as madeixas...
(ilustração vetorizada feita por um ex-aluno... quando lembrar, coloco seu nome)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Nada contra um bom REMIX

video
A morte devia dar uma espécie de bônus pra muita gente, né? 

Remixar anos, dons, vôos e apostas.

Linkar esperança com chutes em baldes, transmutar o "dia-a-dia" em "uma noite apenas" (interessante que esse último termo em inglês é bem mais dramático). 
A morte deveria dar ao cantor um show a mais, ao poeta, uma noite a mais de amor, ao sonhador, mais um pôr do sol, à criança, mais uma tarde no balanço... 

Acho que, antes de morrer, vou pedir a ela mais um torresmo, uma cerveja gelada, uma pinga enquanto ouço um CD inteiro do Gil. E do Queen, se ela me der uma forçinha. 

Bem, só posso dizer o que já disse no lançamento do 8... A música é o sonho da palavra. 

domingo, 22 de março de 2009

Indico "A alma imoral" e "Ter ou não ter, eis a questão!"




Fazer Mestrado em Comunicação tem me deixado bem perplexo. 
Procurei uma palavra e achei: "perplexo". É uma boa palavra. 
Acho que ela casa bem com essa pseudo-introdução... 

Quero ler Gilles Lipovetsky.
Quero lê-lo e não achar que a publicidade é sem sentido, sem motivo, sem razão. Quero dar sentido à minha vida publicitária enferma. A "sociedade do hiperconsumo" - como ele diz - deveria ler Nilton Bonder. O líder espiritual rabino Bonder, sabe que ser também é ter...

Olha o rabino aí:
" Não só a carência física dará valor às coisas do mundo, mas também as carências emocionais, intelecturais e espirituais. As prioridades e as limitações da existência terão grande impacto sobre essas decisões do ter e do não ter. É na profundidade e precisão destas valorações que se manifestará a qualidade da experiência de 'ser'".

Mas valor? Aiaiai. Estão pedindo demais de mim. Estão pedindo demais do outro. Quem falou que somos capazes de estabelecer Valor?

Arnaud Desjardins, guru entrevistado por Jean Biès em seu livro O Caminho do Sábio, adverte: "A raiz de todos os nossos males advém do sufocamento do ser pelo ter." e completa: "A via do conhecimento é uma via do ser; somos aquilo que conhecemos."

Agora, numa boa, ter que também entrar nessa que conhecimento é esquecer o que sabemos pra nos tornarmos sábios, como diz Barthes, Tao Te Ching e uma galerinha ligada à sabedoria oriental,... pô! Me ajuda aí!: valor, virtude, certo, errado, bom, belo, ser e ter são, pra começo de conversa, abstrações conceituais que dão nó em muito Dalai Lama de plantão... Se somos aquilo que  conhecemos, me deixa conhecer a Europa! Quero ir nos países que ainda não fui; dar voltas nos mercados e ver as gentes nas praças, empurrando carrinhos de bebês, passando de bicicleta e regando as plantas... e, pra ir, preciso de grana, de sociedade de hiperconsumo, de publicidade, de minha crise de consciência comunicativa.

- Quem quer ir comigo à Europa levanta a mão! (E compra um livro do Nilton Bonder pra eu me sentir menos culpado.)

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Lada Palavra


Em 2001 comecei a sintonizar um show de nome "do sonho da palavra", ou "da palavra do sonho"... 

Na verdade, era um "título uróboro" meio autofágico, meio geração espontânea, uma palavra comendo o próprio rabo, transmutada em movimento. Foi como os shows que antecederam o lançamento do meu livroCD 8, mais uma preparação... 

O show só foi pros palcos em 2002. Apresentei em BH, Nova Lima e Divinópolis, com as presenças sempre marcantes de Anthonio e Sílvia Behrens. 

Nessa época, letras e textos surgiram, como a letra abaixo, que não entrou no show porque só foi finalizada este mês... Pode-se dizer que faz parte de uma parte do lemniscateano 8... E, breve, terá música da pianista Pamelli Marafon. Vale aguardar: uma letra de música sem música é como uma foto do pôr do sol.

A palavra é pá escavando a alma
A palavra foi pala do dia-a-dia
A palavra tem(,) lá, um outro sentido
A palavra buscada: lavra do entendimento
A palavra, escada de quem se preza
A palavra palavra é pá sem lavra
A palavra sem lavra é só a pá
A palavra sem pá, lavra perdida
A pá que a palavra empunha agora
Pele palavra, tatooao sol
Livro pesado que empena a estante
Força tarefa rumo ao punhal
Alaranjei, chuvalagando em mim
Escutei vi-vendo e percebi
Sem rumoleste nordeste o norte
Distributruí sem piedademim
Fiz de nós s'a sociedadenfim
Encontreistância de buscarofrendo
E emburreci quanvique "Mãos Dadas"
É lavra, é palavra
só do coração de Drummond

domingo, 15 de março de 2009

NASCIMENTO

Quem nasce para a música sabe.
Desde cedo, fui nascido para a música. E foi amando aos poucos e cada vez de um modo diferente, que me descobri um amante ímpar. Talvez por isso, quando, ainda na década de noventa, fiz meu teste vocacional e deu: Músico, eu tenha escolhido seguir: Publicitário. (Ahn?)
É que não é uma escolha fácil seguir o que se ama...
Sabe por quê? Porque a magia meio que acaba. 

Eu já ouvi um quilo de vezes: 
"- você sabe, né?!?: a gente não casa com o grande amor de nossas vidas..." 
Sinceramente? Acho que tem TOTAL relação com isso. É como a escolha por Ser Músico. Escolher ser músico implica em desmitificar o sonho, revelar o possível, descobrir o limite, encontrar a falta. Ou seja, a música passa a ser não mais o prazer puro e simples, o tesão incontido, o amor sem fronteiras. Ela se transforma em nossa frente e vira algo palpável, real, finito, limitado, questionável, imperfeito.
Mas o Grande Amor É perfeito. Por isso é muito perigoso casar-se com ele...

Entretanto, o mistério é tão grande que, vez em quando, surge um cavaleiro, um poeta, um sonhador, um trovador desavisado e insiste em deixar o coração bater. E quando o coração bate, é como o romper da semente, como encontrar o sol entrando pela janela nos pegando desprevenidos pelos pés, deitados por cima do cobre-leito! 
Acontece o óbvio inesperado: o Nascimento.

Aí, a escolha não tem mais sentido. Não há nada o que escolher. 
Há o ser, o que é, e pronto. Há o amor, há a música, há a paixão, há. 
Dois, um, sons, suns, uns. E tudo.

Com Nelson Nascimento foi assim. Foi quando o Jazz chegou em sua vida. E ele não precisou escolher. Era. E quem o viu fazer 51 anos cheio de jazz, soube.

Ah, amigo Nelson... que o grande amor desembarque em minha vida assim como a música. Mas que eu não escolha fazer dele minha segunda opção... 
Já é sofrido pra mim demais ter feito isso uma vez.

terça-feira, 10 de março de 2009

"EIS" ou "A fonética é uma coisa interessante"


Nada bom pode surgir às 00:30h.
Nada bem pode surgir às 00:30h....
O nada incomoda. Nada in cômodo. Nada em como dou.
Não há oferta do vazio. Não há oferta de nada. 
E, cá pra nós, não é de nada. É obrigado.
O brigado.
Cá. 
Pra nós. Não é de nada. É de tudo.
Tu, dou.
Mas como posso dar pra tu, se tenho nada?
É tudo ou nada.
É tu dou nada.
É tu, dona da.
Ethos do nada.
Como eu já disse uma vez pra minha tia filósofa: ser ou não ser? EIS é a questão.


(Legal essa ilustração do Adão. Apareceu quando "googlei" insônia pictures...)

segunda-feira, 9 de março de 2009

SUGESTÃO




O Capitão do ligadon.blogspot.com me deu uma ótima sugestão. Ou não - como diria Caetano Veloso...
O certo é que decidi ouvir. Claro, em parte. Quando eu achar que tem propósito. Mas vamos à sugestão:
todo texto, segundo meu amigo Wagner Lanna, deveria vir acompanhado de uma breve introdução. Algo que o defina. Algo que o pinte. Algo que o esclareça. Algo que o coloque em Xeque. Enfim, eu deveria falar um pouquinho sobre ele antes mesmo de sua publicação aqui no blog.
Por um lado, pode induzir o caminho de possíveis reflexões. Por outro, pode gerar discussões. 
Decidi, portanto, aceitar. Se você reparar o que publiquei antes desse, o "15" já coloquei uma introduçãozinha antes. Mas, vamos combinar, quando eu achar que tem sentido. Pois, como diria Rubem Alves (claro, com palavras mais bem escolhidas), "a gente não explica uma árvore; a gente se deita à sua sombra..."
Meu desejo é esse: que os textos desse blog sejam cochilos de alguns minutos sob a sombra dessas palavras, depois do almoço, antes de sair para aquele compromisso, para aquele encontro...

QUINZE


Este texto é de junho de 2001. 
Na verdade, ele surgiu como uma letra de música, mas não tem música ainda. A música, como muitas que ainda estão em algum lugar entre o significante e o significado, ainda não se materializou. Tenho muitas letras assim. Sinto suas músicas pulsando internamente em suas letras, mas nem eu e nem ninguém ainda abriu a porta do sonho pra que elas desembarquem em nossas vidas e nossos ouvidos. Quem quiser que ouça a sua música dentro desta letra... até que eu ache o parceiro ideal pra ela:


quinze vezes
esperei quinze dias.
em quinze anos passados
passam muitas luas cheias.
cheia, branca é iluminada.
no mar, indica a estrada
e traça com linha perfeita
limita o que desconheço.
céu nos envolve
terra sobre os meus pés
(mundo pra ser preciso)
e medo, o desconhecido.
estudo uma fórmula grande
que decifra grande parte
do que procuro saber.
e sem ter nada a temer
morro de medo da vida.
pessoas que me circundam
representam sempre algo.
são dôces, amargas, sem gosto.
são, simplesmente
e passam.
às vezes dói quando passam.
nunca fui bom em matemática.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Paris

Quem conhece Paris sabe. Dá pra imaginar uma Paris nada romântica? Eu conheci essa Paris de perto. Foi na primeira semana do ano de 2006:


Do norte do meu coração
A árvore mais seca começa a ventar sozinha
De longe se percebe o bailado
De longe se reconhece o ballet
De perto ninguém é normal
E de dia o sol ainda esfria
Olhei pro Sena de cima da ponte
E o reflexo não me deixava ver o fundo do rio
As águas correm como os metrôs subterrâneos
Artérias ocultas
Sementes que nascem e não perguntam porquê
A vida nos parece gelada
O sol nos parece apagado
Mas tudo continua ali:
O gato, a foto, o parto
O gosto da neve na boca
E o fardo de ter que ser feliz

terça-feira, 3 de março de 2009

RED ME


Houve um dia em que o céu ficou vermelho. Um vermelho meio vinho. Quase cor de sangue. As pessoas não entenderam bem o que aconteceu. Lembro que eu passava na curva do Ponteio e, de repente, foi como se estivéssemos em um filme comercial, uma propaganda te TV. O efeito inicial era esse: o céu, que estava alaranjado-tarde sob efeito de uma ilha de edição de Deus, se transformara em poucos frames em um céu vermelho-agressivo, nuvens cinza, cinza-escuro, que andavam em uma alta-velocidade não compatível com o vento...
Temi por mim.
Sério.
Impressionante a influência do tempo na vida das pessoas. Do clima, do tempo, do meio... Hoje me lembrei de um tempo em que o tempo passava mais lentamente e que a gente tinha tempo de nos sentir mais parecidos com a gente mesmo.
Nesse dia de céu vermelho, fiquei com medo de ficar agressivo, com medo de não responder por meus atos, com medo do vermelho existente em cada uma das pessoas.
Por que será que a gente associa tanto a paixão e o ódio com o vermelho?
Os extremos. É isso. Os extremos.
Curioso que o vermelho é incômodo. Esse vermelho forte, puxado pro vinho é muito incômodo. E as pessoas amam e odeiam, enfim, trabalham o sentimento sob o efeito desse vermelho...
Talvez o vermelho seja então a cor da vida, a cor do que dá expressão maior ao amor.
Pulsão.
Passarela poste cimento torres fios prédios prédios favela placas outdoor lixo cinza azul vermelho amarelo cinza verde cinza fio luz placa fio placa cinza poste poste poste poste poste posteasfalto buraco asfalto buraco rechadura buraco asfalto luz sinal vermelho e vermelho de novo. Mas antes tenho que falar da favela, do alto do morro, das casas de tijolo meio vermelho, meio alaranjado, meio sujo, meio sem cor, meio sem cor, telhados irregulares e depois dizer o que é vermelho em cada um de nós...
O sentimento é de revolta. De ser uma pergunta e não ter resposta. Ou será que é de não ter tido resposta pra pergunta que eu sou?