sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As quaresmeiras da rua Zuzu Angel


Quem desce a rua Zuzu Angel no Belvedere andando ou correndo tem o privilégio desse encontro. Já percebi que quanto mais cedo melhor, pra se ter uma luz adequada ao rosa chamativo das quaresmeiras, que lá estão de plantão, à espera de mais um desavisado que passa e se surpreende.
Os corredores frequentadores do bairro, que forem um pouco mais atentos, certamente sabem onde elas estão. Uma fila de 5 ou 6 quaresmeiras, todas rosas, que chamam a atenção de quem gosta das surpresas simples (?) da mãe natureza. 
Poderia fazer um link aqui com o fato da rua se chamar Zuzu Angel. Iria explorar o bordado, o ponto de cruz, as cores, o grito da linha, o furo da agulha.  Veria os dedos sangrando, pensaria nos nós. Teria como cor a semente, brotaria em meu texto uma flor menos rosa, mais pálida, sujaria de terra as palavras bonitas. 
Mas não posso. Não sou mãe. Não estou preparado para o rosa, para o buquet, para a coroa. Só posso passar correndo e admirar o fato da maioria das quaresmeiras estarem grandes e floridas, enquanto uma delas, pequena, cumpre seu tempo e espera a hora de florir um dia...
Vou continuar passando correndo pelo Belvedere. Até o dia em que ela vai florir pra mim.

Obs.: Esqueci de dizer. Vale ver o filme, com a belíssima e graciosa Patrícia Pillar, o amigo talentoso Daniel de Oliveira e uma trilha que... bem... veja e depois me conte.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Escolha você mesmo a ordem deste título: para quem vai / ler um poema / dá medo mesmo



Sinto falta de você, ao acordar sinto falta
Tenho medo de sentir, ao lhe dizer sinto falta
Não entendo o que vivi, a intensidade, a confusão, o sorriso
Cabelos na testa, produção de sentidos
Efusão de significados, ebulição de motivos
Vontades que se confundem, amores que se completam
Olhares intensos, profundos, horas a fio de olhares
Gillette que risca o cristalino do olho
Vejo um coração aberto, apertado, sofrido
O medo de amar dominando o aflito
A busca incessante pela memória do cheiro que esconde a profusão de sentidos
Acorda pra vida, vem sofrer, vem amar
Vem aventura de viver e gostar, e gostar, e gostar
Estremeço e não julgo mais
Amanheço e não me iludo mais
Entardeço e não procuro mais
Reconheço e espero os sinais
Viva te tudo, de tudo, tu dedo
Apontado pra árvore que brota na lua...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O título pode ser "Curto House". Ou "House Curto"



House (enfático): - Se não está feliz do avião, pule! A vida é perigosa, complicada... E a queda é grande.

Paciente (assustado): - Você tem medo de mudar?

House: - Você é que tem. Prefere imaginar que pode escapar em vez de tentar. Porque, se falhar, não terá nada. Então desiste de algo real e se agarra à esperança. O problema é que a esperança é para os covardes...

Poderia acrescentar a esta pinçada que fiz na quarta temporada da série de TV House, um pensamento de David Hume:

"O hábito pode nos levar a crenças e expectativas, 
mas não ao conhecimento, 
e menos ainda à compreensão das relações legítimas."

Ou algo de Sêneca:

"Pelo fogo se prova o ouro; pela adversidade, os fortes."

É bom perceber que um bem cultural de massa pode ser interessante, inteligente, instigante. 
A Sociedade do Espetáculo, como bem cunhou o pensador Guy Debord, tem surpresas interessantes pra quem souber selecionar. Dominique Wolton - outro pensador da Comunicação - em seu livro "É preciso salvar a comunicação" chama atenção: "...transmitir não é comunicar." Segundo esse autor, as elites consagraram uma equação errônea, mas extremamente confortável: sociedade de massa = cultura de massa = mídias = comunicação = baixa de nível. 
A mesma sociedade que nos traz um volume grande de dados, informação e bens de consumo nos reserva escolhas. Que bom que as temos. É só saber escolher.
Quem sabe?

EM TEMPO! Vale conferir esta e outras ilustrações bacanas do Mauro Lira no http://maurolira.blogspot.com/ O cara manda bem!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Três pontinhos


Posso passar horas aqui escrevendo.
Posso passar dias. 
Mas não quero. 
Quero simplesmente falar o que ouço. Talvez não haja nada legitimamente novo ou original a ser dito, que precise ser garimpado dos recônditos de minha alma, de meu verso, de meu verbo. Novamente vem aquela passagem bíblica... "e o verbo se fez homem e habitou entre nós" (JOÃO 1:14). Acho sinceramente isso extremamente bonito. Não quero convencer ninguém disso, ou fazer apologia à poesia bíblica ou à poesia de fé, mas é preciso ser dito. 
Talvez porque já ouvi... Ou isso seria original?
Quis muito te encontrar, pra dizer de meus medos, agonias, fantasias, mas me encontrei. E finalmente disperso em pensamentos que, acho eu, me farão prolixo demais pra um encontro, outro encontro, novo encontro, seja ele de que natureza for...
Detesto colocar três pontinhos em textos. Fico pensando que esse é um artifício manjado, utilizado pelos fracos, pra entregar a outros a responsabilidade pela construção da história, da narrativa, do fato. Deixar a cargo de outrem "a mão que balança o berço", o click da partida, o apertar de um botão. 
Por que deixar que outro complete aquilo que está indefinido em sua idéia? 
Por receio? 
Só neste texto, que comecei falando de uma outra coisa diferente (e de certa forma, complementar), eu coloquei a porcaria dos três pontinhos três vezes. Como Pedro negando Cristo. É: talvez eu não tenha mesmo aptidão pra Judas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Miserinha


Entrei na igreja. 
Fiz valer minha fé.
Curei enfermos, impus a paz, renasci melhor. 
Renovado. 

Renoivado.
Apaixonado pela vida, em consonância com O som - se é que essa alegoria é possível.
Broto que rompe a semente, broto que rompe, casulo rasgado - nesga de sol.
Deito sem compromisso e me ponho a velejar, meu barco imaginário brincante das águas possíveis:
Miserinha do Mar é seu nome.
Sobe e desce.
Desliza fácil por sobre as cristas, corte de navalha que não fere nunca, só escreve letras gigantes no mar. Suas curvas, perfeitas. Seu traço é firme. Seu barulho inconfundível.
É Miserinha do Mar a cortar o vento, faca quente no pote de manteiga.
Meu pão se fecha.
Dou uma mordida no corpo de Cristo, bebo o vinho, faço sinal da cruz, me abençôo e meus familiares...
Vão com Deus, gente!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

No vê-lo


Novelo.

Alegoria mítica, instrumento usado por Teseu para achar o caminho de volta no/do labirinto do Minotauro. 
Instrumento? 
Talvez eu devesse usar a palavra dispositivo, ao invés de instrumento. 
Nas minhas associações semióticas sem compromisso, vejo o novelo como dispositivo, lembro do termo decisivo na estrutura do pensamento do Foucault: 
"Conjunto de resoluções heterogêneas que compõe o discurso, as instituições, instalações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, anúncios científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas... em resumo, tanto o dito quanto o não dito: eis os elementos do dispositivo. É uma rede que se estabelece entre elementos e tem uma função estratégica dominante. É uma manipulação de forças, invenção racional, sempre inscrito no jogo de poder."
(retirado dos meus estudos revisados por minha professora de francês do texto Qu`est-ce qu`un dispositif?)
Interessante... e paradoxal!
Como uma imagem tão confusa de um novelo pode se associar à resolução, como diz o conceito acima? 
Sem dúvida, um paradoxo filosófico alegórico - seja lá o que isso for (ou pareça ser)...
É justamente com o novelo, aquilo que é expressão maior da confusão, da desordem, do sem sentido, que Teseu conseguiu sair do labirinto do Minotauro, um lugar confuso, desordenado, sem sentido... 
Eu, hein?!? Isso mais me parece um Koan (uma espécie de charada zen-budista que intenta promover a iluminação)...
Por falar em iluminação, uma pessoa iluminada acaba de me chamar aqui no MSN. E, curiosamente, ela perguntou:
- Ocupado?
e eu:
- Tô escrevendo um textinho pro blog inédito... mas tá dando trabalho. Fui cair numa idéia e fiquei preso nela...
e ela:
- Será que uma idéia prende a gente?

É... Tá aí.
Se agora eu tivesse um novelo pra me guiar de volta, talvez eu conseguisse sair desse texto sem começo, sem fim, sem mapa, sem medo. 
Aliás, poderia até aproveitar essa última frase pra acabá-lo aqui. Mas faltaria uma observação importante, ligada à idéia que me fez trazer à tona o dispositivo: sim, o novelo deu PODER a Teseu: a SABEDORIA (neste caso, portanto, PODER=SABEDORIA).
Foi desenrolando o novelo que ele SOUBE o caminho de volta...
Mas existem dois detalhes que também não podem ficar de fora:
  1. ele sabia onde estava a ponta do novelo;
  2. ele foi desenrolando aos poucos;
Ah!, e também o ACASO, sem dúvida. Ítem que parece importantíssimo nos jogos filosóficos: Por que será que essa pessoinha iluminada entrou justamente agora no MSN pra me perguntar se  "Será que uma idéia prende a gente?"...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

No cantinho


As cores despertam na praia. Se rendem ao sol, todo poderoso.
Há sombras, há tonalidades, matizes que brincam com minha percepção. A areia que queima o pé me faz lembrar o sorriso menino de uma menina. De hábitos diurnos, é também dourada. Se apresenta e se esconde.
Ela venta.
Sopra encantos possíveis na minha natureza já explorada. Pouco deve haver em mim a desbravar. Mas o vento é criança. Pega no pé do inconcebível e atravessa as fronteiras do estipulado. 
Fui pêgo.
Na gaiolinha de bambu, frágil, poética, ouço o estalar seco de seus finos arames de pau. Rangem ao meu movimento. Parecem dispostos a partir, a romper a um sinal.
Mas não quero.
Quero esperar o jiló.
Quero o banho na vasilhinha que tem lôdo no cantinho. Quero sentar meus sonhos no puleiro do alto e descobrir em qual prego a gaiola vai se pôr.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Mais uma sobre o amor


Amor tem isso. Tem aquilo. Você sabe...
Tem jeito novo de ser, maneira estranha de pensar, tem um pouco de sobreviver. 
Amor tem dessas coisas. 
Não é blindado, não é terno, não é feio nem bonito. É reflexo, é vermelho.
Está nas coisas e cala.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mar Verde


Ela olha, tenta descobrir. Revelar o que lhe parece possível. Olhos distantes, fixos. Morde os lábios involuntariamente e acredita estar chegando a algum lugar. Brincos pequenos, biquini marrom, laranja, amarelo e branco. Discreto também. Discreto e "contido". Ela está bem. Observa o mar e encontra sentido em seu rabo de cavalo, em seu foco, em suas dúvidas simples de jovem mulher. 
Seu namorado é sério. Gosta dela. Exprime sua rebeldia em cores vivas em seus dois braços fortes. 
Ela sabe de sua sensibilidade e atravessa o mar de mãos dadas a ele. Para ela não é difícil nadar. Para ele é extenuante. Mas ele acredita. E faz do ofício seu modus vivendi
Ela é caprichosa. E vai cuidar pra que não afoguem nunca. Nem quando o mar parecer salgado demais, a água estiver gelada demais, o sol presente demais, tudo. Tudo desse jeito doido de ser. Ela já cuida dele. 
E experimenta a cerveja gelada de seu copo pra dizer que sabe compartilhar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Praia de Sândalo


Acordei para o pôr do sol. Vestido roxo, o sol refletindo o rio e uma embarcação pobre atravessando o reflexo. É paz, é ano novo, é esperança. A cada marola, um pedido, um encanto, um desejo de mudança pra melhor. 
São peixes que saltam da mente, em direção ao rio de sonhos e realidade.
Cerveja gelada, uma mesa de jovens, garotas adolescentes exercitando a confiança em si, transeuntes de cangas. A areia suja todos os pés. Meu pê éfe tarda, e a barcarola de nome "Atum" é visitada pelo dono, que recolhe o saco de cebolas. Faltam o pente de ovos, as latinhas de cerveja e as latinhas de coca-cola. Não importa mais o merchandising. A bela Isabela ri ao meu comentário. E seu colar de sândalo exala toda a beleza da juventude na ingênua praia onde não existe rapto, corrupção, mentira, medo. Só existe o sol acima do rio que corre, ao sabor de nossas marés. E seu barulho poético indescritível...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Idílico e lúdico


Além do sol, atrás das nuvens, por sobre as montanhas, depois do terreirão de café, vazio, lá não estou. Aqui me encontro a observar o terreirão, as montanhas, as nuvens, a tentativa do sol aparecer. Sou fato. E atravesso a paisagem com o olhar de quem, daqui, tem coragem de desbravar. A gameleira não podia ser mais bonita. O coqueiro não poderia estar em melhor lugar. O restolho de mata atlântica que cobre o mar de morros não pode ser mais real, mais preservado, mais adequado, mais compassado com meu coração de herói. O verde faz sua graça, e tenta sair por entre os tijolos do terreirão, a natureza agradece o esforço. O sabiá irrita de tão bonito. Seu canto desafia. Chama para a batalha e vence. Não há perdedor. Há o sabiá, a gameleira, o terreirão, o verde, o coqueiro, a mata, as montanhas, as nuvens, o sol, o caderno, a caneta, e eu.