quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eu vejo você.


Talvez não haja nada a dizer hoje, se não, "eu te vejo". Poderia ser eu te sinto, eu te percebo, eu te estou, eu te tu, etu eu... mas nada que as palavras não traiam os sentidos, sentidos, sentidos.

Estou em casa, olhando pra trás, olhando pra frente. Vejoooaagora e percebo que já é natal.
Em nós, em tudo.
Quero viver na floresta, quero a natureza do ser, quero poder, simplesmente. Naturalmente.

Eu Caminho.

Caminha. Cameu. Caminho.

Peço um tempo apenas. Vou voar ali e já volto.
Tenho que escrever o livro novo, que está dentro fora, no coração e na mente, verdade. São mais de 1.500 fotos, mais de 8 motivos, mais de 8 centos quilômetros... e tudo, no nada escondido atrás da palavra.

Sim. Vou tirar uma espécie de férias do blog. Pra resolver isso. Lá pra segunda quinzena eu estou de volta, eu pouso. Quando inicia minha nova viagem.

Um feliz natal feliz; um novo ano novo.

Eu um, no céu, no mar, no ar, viajando e-levando meu baú de sonhos realizáveis.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Para em tender ao diz curso



"l'anglais c'est la langue pour parler des affaires
le français c'est la langue pour parler d'amour
et l'espagnol c'est la langue pour parler à Dieu."



Tantico de inglês, pouquinho de francês, bocado de espanhol.
Ouso acre-ditar: a palavra, do oral, na língua.

Na ponta da língua.

A boca que beija, que fere, maltrata, nela brota semente,
do discurso, diz o curso, fala fel.

Oramor, orador, que sentimente e trai, se trai, resvala palavra.

A pá da lavra.

Garimpeiro de letras, embrenhado em sufixos, superlativos de nós, que classificam desatinos.

Destinos.

Tino pra continuar seguindo.
Procurando, pró-curando, pro cur ando e pro cor ando...
caminhando, palavrando, desatando. Palavreando.

Ajoelho nas letras, me cubro com frases e aguardo o silêncio:

O tempo é amigo da palavra.
O tempo, palestrante dos sentidos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

D'eus.


Bem, eu não vou fazer apologia a nada.

Eu gosto de natal e pronto. Acho que se for esta a maneira das pessoas ficarem mais sensíveis, uma oportunidade de fazer do encontro uma espécie de marco, já vale.

Bom saber que há o brinde, há a entrega, há o olho no olho, a vontade de ver e celebrar. O poder do rito novamente se faz presente, presente num dia cheio de simbolismo, pra quem acredita no tipo de amor que renova, que faz deslocar, que sem querer nos toma de assalto.

Meu amigo Paul, da Holanda, me disse já faltando uns 150km pra chegar em Santiago que ele estava abismado. Nunca imaginou que um dia diria que Jesus transformou sua vida.

Ele era desses céticos, desses difíceis de dobrar, sabe?

Mas se transformou sem que pudesse prever, por ter encontrado uma energia diferente no amor que vivenciou no Caminho de Santiago. E olha que analisava tudo com a máxima lógica, a máxima métrica, a razão máxima, mesmo ao tratar do Caminho, sua história, sua essência.
Mas Paul não pode com o amor que desloca. O amor que chacoalha e arrebata, o sentimento que é puro por natureza, é verdade inquestionável e faz o ser humano ser mais humano, mais livre, mais integrado a um sentimento de união que não dá pra explicar com palavras.

Meu professor de física do colégio Pitágoras, Ênio, me disse uma frase uma vez, em um curso de filosofísica que fiz no terceiro ano científico, que me marcou para sempre:

- "Eu sei Deus."

Não só entendi na hora, como compreendi na hora. Porque não passa só pela razão. Passa pelo coração saber Deus. Questionar "se eu acredito em Deus" é como questionar se eu acredito no amor que sinto, por exemplo, por minha mãe. Talvez a pergunta seria "você acha que Deus existe?" Mas ninguém me perguntaria "você acha que sua mãe existe?". Quando me perguntam se eu acredito em Deus, entendo que estão me perguntando se eu acho que Deus fala a verdade ou não, se posso acreditar no que Ele me diz. Porque, para mim, não existe sequer a pergunta sobre a Existência ou não. Talvez seja necessário uma espécie de explicação mais profunda sobre essa questão tão simples na minha cabeça. E vou começar, apenas, indicando o Caminho que sigo, e que é estrada de tijolos amarelos.

Pra começar, Deus é Linguagem.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Rotunda branca


E com o brilho no olhar habitual, a menina me contou em tom de confidência o que ele havia dito pra ela, no dia em que se conheceram...:

-Eu já quase te amo!

Fiquei pensando sobre isso. Sobre se, quantas vezes pude dizer eu já quase te amo...

Bem verdade que eu já disse eu te amo.
Poucas vezes. Alguma sem sentir. Outras, deixei de dizer.

Amar é instante. É sempre, é infinito. Como tudo, não morre, transmuta. Para mais e para menos. Para um lado, para outro, para-quedas, para-raio. Pára tudo. Slow motion do existir.

São interessantes, as confissões sem medo, sem sentido, sem pudor. São boas as que representam confiança, entrega. Entregar-se é um ato de amor. Entregar-se é o primeiro ato de amar. Até quando a coxia?, até quando aguardar nos camarins de luz apagada, ao som da platéia que entra no teatro?

Ouso ouvir o segundo sinal, enquanto o lápis de olho é colocado sobre a mesa e o espelho me fita inclemente, dizendo do tempo, da escola, da luta da vida, da sombra e da luz.

- Eu também quase te amo.


*na foto do pula-pula, a brincadeira infantil que não tem tempo nem hora e que me fez lembrar de quem gosta desse brinquedo...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Frost na mochila


"...os alunos, ao final, disseram que meus olhos brilhavam!..."
Foi assim que me descreveu sua experiência, ao sair da palestra que fez essa semana.
Ela é uma pessoa doce, sensível, amável, e forte. Muito forte.
O CARPE DIEM se aplica bem à ela.
Ela sofre, como Robert Frost, por não poder pegar as duas estradas na floresta. Esse texto é lindo*, acho que vocês conhecem.
Como diria ele, "in three words I can sum up everything I've learned about life - It goes on".
É um pouco assim mesmo, minha amiga. Com esses olhos brilhando fazemos as coisas...
Eles brilham de encantamento, pelo envolvimento, pelo dom, pela graça divina. E brilham de tristeza, de lamento por não podermos seguir as duas estradas e ser só um viajante... Enquanto servirem de inspiração, para alunos, poemas, transformações, movimento, vale à pena.
Vale à pena, vale a dor, vale o medo ser livre e escolher a estrada da direita ou da esquerda. E sentir que os olhos brilham tanto ao ver as árvores novas que aparecem no caminho, como de saudade do caminho que não conheceremos...

*traduzido:
"Duas estradas divergiam no bosque amarelo.
E, triste, não pude seguir as duas
e ser só um viajante..."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Enquanto digo sim


Sim, chegou dezembro.

E com ele a sensação de já acabou, de agora temos que esperar pro ano novo começar.

Mas e o presente? E se hoje for o último dia da minha vida? Quando falei com minha prima sobre acordar todo dia e dizer: "Eu vivo hoje o meu presente", tentei falar um pouco da necessidade que tenho agora de agora. De ver o novo hoje como presente, mas presente mesmo, gift, dádiva, bênção, espécie de regalo de Deus. Pra quê ficar esperando um mês pra ser feliz, pra dizer "eu te amo", pra dizer "putz!, foi mal, mas não vai rolar", "obrigado", "desculpa", "me dá um aumento", "estou farto disto", "estou de saco cheio daquilo", "sinto muito"...

Espere a morte do dia, espere a morte da semana, espere a morte do mês. Quem sabe assim, você não aprende a esperar outra morte?

Ou apenas aprenda a dizer "não" pra espera, "sim" para o movimento, "vamos!" para a vida.

- Vamos!?!

*na foto, uma flor que conheci ao dizer "sim" para um domingo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Onde dentro



É uma pena que não posso contar onde é esta cachoeira.
A peregrinação do domingo, dia 29 foi muito especial.
Seis pessoas com vontade de re-conhecer a natureza, encontrar o saudável, o bom, o belo, dar espaço para a poesia visual.
É uma pena que não posso contar onde é esta cachoeira.
De jipe, calango nas rochas e terra da estrada, subimos e descemos rumo ao lá longe. Onde não há. Onde é dentro, em nós, brotando água e irrigando sonhos. Poços de esperança em um mundo onde não se pode contar onde é esta cachoeira. Mas vale procurar. Nas reentrâncias dos morros, onde a paisagem faz curva, detrás da expectativa, em baixo da cama do cotidiano.
Procure lá, no aqui de dentro de si.

*Veja o vídeo...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

La montagne et le garçon


Faço aulas de francês.
Gosto muito. Comecei a fazer as aulas antes de entrar no mestrado porque sabia, de um modo ou de outro, que meu trabalho de mestrado ia passar pela França, só não sabia como.
Intuí.
Cíntia, minha professora, cabelos curtos, olhos atentos, mente aberta, simpatia em pessoa, é culta. E gosta do que faz. É interessada, procura coisas que se parecem com os alunos para enriquecer suas aulas, faz por onde, faz por merecer. Atualmente, minhas aulas têm sido às quartas, de sete às nove da manhã.
Hoje, propus uma coisa talvez interessante, talvez diferente, talvez rica, talvez minha para minha amiga professora Cíntia: fazer a aula de quarta-feira que vem, de 5:30 às 7:30 da manhã, aproximadamente.
Sim.
Vou pegar minha amiga Cíntia e subir uma montanha próxima a Belo Horizonte, na saída para o Rio de Janeiro, para ver o sol nascer fazendo um piquenique.
Cíntia topou na hora.
Em plena quarta-feira, dia de trabalho comum, normal, dia como outro qualquer.
Sim.
Há mais ou menos dois ou três anos atrás, eu quis comemorar o dia do meu aniversário desta mesmíssima maneira, só que não era dia de semana, era em um final de semana, era o meu aniversário, dia considerado ótimo para programas considerados "exóticos"- se é que posso definir assim, tendendo ao senso comum...
Pois meus amigos não quiseram me dar este presente de aniversário.
À época, pensei: ou troco o meu presente, ou troco os meus amigos.
Decidi trocar de presente.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Na Corcunda do Dragão

Domingo, dia 22 de novembro, fiz uma caminhada na Serra da Moeda. Convidado por Thiago Barros, que na foto se encontra à esquerda, ao lado do Zen Betão e do Mestre de Yoga Manjit, subimos o "Topo do Mundo" vindo lá de baixo, de onde lá de cima só se vê do tamanho de formiguinhas. Betão nos convidou a subir a imponente montanha passando por dentro de sua casa, dentro de sua fazenda, dentro de seus sonhos, onde futuramente será a instalação de uma linda pousada com vários chalés pra quem gosta do verde, da paz e da alternativa viável de ser feliz no mundo contemporâneo.
Caminhamos não mais do que 10km. Se não fosse o sol inclemente e a subida muito íngreme, seria uma caminhada fácil. Mas as dificuldades se apresentaram para nós como desafios, e não como problemas, fazendo com que o Caminho do domingo se tornasse estimulante ao invés de se tornar um fardo.
Foi delicioso beber água pura da fonte, ver o céu azul com vários navegadores que saltam do topo do mundo rumo ao desconhecido, rumo a alegria sem medida. Foi muito bom brindar com meus dois primos e meus três amigos o motivo de estar vivo, a experiência enriquecedora de ser e experimentar com consciência e satisfação umas tantas belezas do mundo.
Uma lagarta incrível, uma minúscula flor azul, um raminho de flor alaranjada, uma graciosa flor laranja, o pêlo da montanha em forma de vegetação rasteira, verdinha, sedutora... A corcunda do dragão adormecido da montanha que os cavaleiros templários de Minas ousaram subir e tentar domar, escalando cada escama, ousando acreditar...
Uns decidiram dormir até mais tarde no domingo passado. E levantaram de suas camas uma hora da tarde. Nós levantamos de nossas camas às seis horas da manhã. E decidimos sonhar até a uma da tarde...
Obrigado peregrinos.
Talvez eu deva contar um segredetalhe da nossa expedição deste domingo: quando coloquei a mesma roupa que eu caminhava em Santiago de Compostela para me encontrar, e encontrar com vocês, senti uma emoção que me fez chorar por dentro...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Orinoco flow


Eu vou ao Orinoco.
É difícil ir ao Orinoco. Muitos não conseguem. Muitos não tem como.
São bonitas as pessoas, como são bonitas... Elas todas e suas calças jeans, seus vestidos, seus batons, seus penteados. Todas olham no espelho para os outros. Quando vão olhar para si?
São tantos os encontros e a vontade de ser, tantos amores e a vontade de se dar, se entregar, se envolver. Temos tanto medo de tudo e deixamos de lado o amor de verdade, escapando água, escorrendo frio, sumindo fantasma no meio do tudo.
A vida não dá trégua, ela quer coragem, como já disseram. A vida agridoce se expande sabor na gente deitando. Quem é que acha que pode deitar pra dormir? Quem é que acha que pode deitar pra viver? E sonhar e sonhar...
A entrega se dá na medida da dor, a entrega se dá na medida do amor.
Quantos nós rasgamos a cada dia, desfazendo, refazendo, refazenda?
Vamos fazer uma caravana para o Orinoco, gente. Vamos dar vazão ao rio da nossa alma. A terceira margem de Guimarães não é dele. É de cada um dos eus.
"Dos eus". Notou a semelhança?
Basta dizer em voz alta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Para Gabriela


O amor é.
Pedra de gelo, o meu sonho.
Balde de prata?

Talvez isso ajude a minha irmã. Talvez não. Explicar poesia é como contar o fim da piada. Como diria de um jeito poético Rubem Alves, a gente não explica uma árvore. A gente se deita à sua sombra.
Minha irmã não entendeu nada desse "haikai tratado". E, por mais que eu dissesse à ela que não é pra entender, é pra ler e sentir o que rola, isso não a convenceu.
Tudo bem. É assim que as coisas são.
A experimentação do Haikai sem pontuação torna mais aberta a interpretação para o ousado, enquanto afroxa o gosto do reto de espírito.
Meu espírito é como minha tatuagem. Como a capa do meu livroCD que está aí na gravura no alto deste blog. Uma trama de oitos. Só que esta trama é um pouquinho diferente...
Meu espírito ganhou novos planos no Caminho de Santiago. E agora experimenta novos sentidos, novas emoções, circula, vagueia, s0be em espiral e transcende em amor e alegria.
O amor é, Gabriela.
Essa é uma das chaves para se entender poesia, esta poesia, a vida da poesia, a poesia da vida.
O meu sonho sim, é pedra de gelo. Não me importo se derrete. A vida derrete sob nossos olhos. O mistério da vida é também morrer a cada dia, tornando o sopro que ainda resta mais vivo, mais vida, mais essencial. Se o futuro é uma ilusão e o passado apenas um livro de fotos, que se abraça de olhos apertados ou se joga fora no entulho do tempo, só nos resta a dádiva do presente, a pedra de gelo que gela, que sai fumaça, que produz arrepio, que não se pode segurar, engaiolar, conter... Existiria mesmo um balde pra isso, Gabriela? E, sigo pensando(?): até quando nossa ilusão vai se ater na prata do balde, se nem balde pra isso me parece haver...
Vou continuar caminhando. Alegre, feliz, amando, gelado, quente, sonhando.
Quem quer caminhar comigo? Você, Gabriela?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tratado sobre o amor




o amor é
pedra de gelo
o meu sonho
balde de prata



Deus sabe o que faz



ainda bem que minha dentista
não é proctologista



domingo, 15 de novembro de 2009

O tudo e o nada de Carlos


Carlos elogia os filhos para se sentir bem.
Só Carlos pode ter filhos tão bonitos, tão talentosos, tão inteligentes, tão astutos, tão desbravadores.
Afinal, eles são filhos de Carlos.
Carlos nunca elogia seus filhos. Para eles mesmos, é claro: ele os elogia para outras pessoas. É, os outros têm que saber que Carlos tem filhos como aqueles.
Nas reuniões de seus filhos, Carlos quer mostrar suas fotos. As fotos dele, de Carlos. Não, as fotos dos seus filhos não podem ser tão interessantes como as fotos de Carlos. As coisas todas de Carlos, sim, devem ser mostradas nos eventos de outras pessoas, para que ninguém se esqueça do tanto que Carlos é interessante. Você sabe, ninguém pode ser mais interessante que Carlos. Sim, suas blusas, suas calças, seus sapatos. Seus chapéus. A música que Carlos ouve, a música que Carlos toca. Tudo é mais digno de atenção. Porque tudo é de Carlos. Aliás, Carlos é tudo.
Acontece que Carlos não precisa de ninguém.
Como ele é tudo, tem tudo, sabe tudo, faz tudo, o nada - que são os outros e as coisas dos outros - perdem seu valor, perdem seu sentido, perdem-se por nunca poderem ser achados. Perdem-se por nunca poderem ser vistos.
O nada dos outros é nada. Por isso, nada não importa. Nada é desinteressante. Não se importe com o nada, não. Carlos não se importa.
Por isso, Carlos é tudo mas é só.
Tudo sem nada começa a ser vazio. Começa a ser sem sentido, começa a se transformar em nada.
Talvez um dia, quando Carlos for nada, tiver nada, ver nada, aí sim, tudo se mostre à sua frente e ele possa ver o tudo que são os outros. O tudo que os outros são.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

somente


para lembrar que o amor existe
para lembrar que não sou triste
para lembrar que o bem persiste
para lembrar que o bom assiste
para lembrar, sofrer é chiste

se rirmos de nós
se rirmos dos nós
a dor nos faz cócegas
a pedra escada
se rirmos dos nós
se rirmos de nós
é impropério viver
no mistério das tramas
oblíquas
criadas por nós
nós?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O som que bate à porta


Acabo de ouvir uma bomba.
Não sei se um escapamento, não sei se um fogo de artifício aqui da favela, do lado da minha casa. Não sei. Ouvi uma bomba.
Ouço carros que passam na chuva, ouço uma moto que também passa, gritos das crianças da vizinha. Uma mulher, deve ser transeunte. O som das castanhas do pará de dentro do meu crânio.
Hoje, mais cedo, ouvi meu coração.
Deitado na mesa de tratamento da fisioterapeuta que me coloca no lugar uma vez por mês, ouvi meu coração que batia forte. Ele dizia que eu estou caminhando, mesmo deitado, mesmo longe da Espanha, mesmo parado. Ele dizia da saudade do Caminho, da saudade da descoberta de um amor puro como parecia não haver, da saudade de olhar nos olhos de mim mesmo no reflexo em movimento, no lago em que me banhei por tantas vezes no Caminho.
Talvez todos esperassem uma mudança brusca. Talvez todos esperassem mudança nenhuma.
Eu, a independer da espera, resolvo o passo, passo, atravesso, e me encontro no eucaminho.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novo Céu.

Na foto, Ramiro e eu no Caminho de Santiago. Por minha amiga australiana Angela Phillips: http://www.designbyangi.com.au/


Há um novo céu.
Voltar do Caminho de Santiago é muito mais demorado do que parece. As coisas, todas, me parecem confusas. Olho as pessoas e vejo outra gente, outro jeito, é outro olhar. Não quero mais isso ou aquilo, estou paciente, estou feliz, estou mais tolerante. Espero que o meio de cá não me influencie tanto como o meio de lá. Ter experenciado o outro lado da face é um privilégio. Não digo "de poucos", como não digo "de quem queira". Não sei se é assim, não sei se tem regra. Posso dizer que, para mim, foi positivo na minha análise, e vivenciar tanto amor transborda.
Ainda bem.
Semana passada, fui convidado pela Ana para conhecer o Projeto Assistencial Novo Céu. Na verdade ela me convidou há muito tempo. Mas nunca tinha tido coragem de ir lá.
Sim, coragem.
Não é uma coisa fácil pra mim ver mais de 70 pessoinhas: crianças de colo, "adolescentes" de colo, "adultos" de colo. Todos precisam de colo. Exatamente como nós, que temos a graça(?) de acharmos que não precisamos de colo...
Aliás, Ana quer dizer exatamente isso: me parece que vem do hebraico e significa "cheia de graça". Pois sua graça se espalha ao entrar em cada um dos cômodos do grande espaço cedido pela Prefeitura de Contagem e construído com o suor, as lágrimas, o riso e com o amor de muitos "peregrinos" que sabem como importa amar.
Para mim foi muito difícil entrar em cada um dos espaços reservados para aqueles meninos e meninas, todos com paralisia cerebral, todos precisando de colo.
A certa altura, Ana, achando que isso ia me fazer um bem enorme e fazer um bem enorme ao Pedro, uma das crianças assistidas pelo Novo Céu, me disse: - senta aqui no colchão. E colocou em meus braços o Pedro.
Gostamos um do outro. Somos peregrinos de nós.
Acontece, a Ana não sabia que só pego crianças maiores de certa idade. Tenho muita aflição de pegar neném novo. Não pego, prefiro não, "não é meu", não posso deixar cair. Se tenho tanto medo de altura, quem sou eu pra pegar um neném novo... E não me senti bem com aquela situação. Cada um com seu limite, cada um com seu calo, cada um com seus medos. Me calo.
Quais serão os medos do Pedro?
Será que ele tem medo de eu nunca mais voltar lá?
Será que ele tem medo de perder a Ana?
Será que ele tem medo?
Eu tenho medo de altura, Pedro. E não quero te deixar cair. Por isso, vou te segurar do jeitinho que eu posso. E você sabe qual é. Com você, a comunicação passa por outra via, que não a da palavra. Por isso, quando eu olhei no fundo, bem no fundo dos seus olhos, enquanto você estava no meu colo, eu sei que você me entendeu.

Se você leu este texto até aqui, faça um bem enorme para o Pedro (e, quem sabe, pra você...): clique em um dos links do Novo Céu que coloquei aqui no texto. Não estou pedindo para você doar nada. Estou pedindo 3 minutos da sua vida. Dê de presente ao meu amigo Pedro, conheça o Novo Céu.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

BOB and I

"- ...até as árvores tão com uma cor diferente!...", disse o Ramiro, ao comentar comigo sobre o que está sendo voltar do Caminho de Santiago.
Eu não sei, Ramiro.
Tudo me parece diferente agora. Preciso de um tempo, preciso de um espaço. Olho para as pessoas à minha volta e elas me parecem outras. É como a música "Lente do Amor" de Gilberto Gil. Olhar o novo é simples. Olhar de novo pode ser complexo. Ainda mais se se tem um novo olhar. Estava tudo aqui. Estava tudo ali. Mas algo mudou...
Maravilhar-se com as coisas simples tem um gosto especial. Olhar as árvores e percebê-las com novas cores tem um sabor indescritível.
Quem quer olhar o novo? Quem quer olhar de novo? Quem deseja um novo olhar?
Inspiro, agora mais forte, e caminho. Continuo. Contínuo.
Até lá, no Caminho de Santiago, é possível fincar o novo como se fosse uma bandeira do descobrimento... Quando comprei em uma festa popular um balão do BOB ESPONJA e decidi caminhar com ele, muitos peregrinos que me viram se espantaram. É bom o espanto saudável. E em alguns casos, MUITO engraçado...
Tente. Não precisa estar no norte da Espanha pra fazer isso. Você pode se surpreender.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma ponte entre Belo Horizonte e Roncesvalles


Voltei?
Deixei um saco de arroz no Caminho de Santiago. Deixei muito mais do que isso. Deixei coisas que nem sei. Permiti que se fossem. Abri caminhos, cumpri sonhos, estabeleci metas e, em todas elas compreendi a importância do passo.
Eu passo. A meta passa.
Somos, apenas e acreditamos na importância das coisas, tantas, que nos pesa a existência. A materialidade sem sentido de matérias e materiais. Não sei se alguém vai me ler mais no blog. Na inexorável temporalidade da ferramenta midiática, a fugacidade das coisas. Sou substituível. Meus textos, descartáveis, minhas idéias, como vapor, meus ideais, sopro.
Meus sonhos, não. Estes, assim como meus sentimentos, críveis ou não, são ferro. São fogo. São tanto e tanto que transbordam, e me fazem mais importante do que nunca antes fui. Me importam minhas idéias. Me importa o ser, ou melhor, o sou.
Ontem, uma pessoa que eu ainda não conhecia me disse:
- "Você me deu o melhor presente que eu ganhei na minha vida!..." E isso fez toda a diferença.
Quando ele me ouviu falar que tinha feito o Caminho de Santiago, se sentiu chamado. Quando tirei do meu bolso uma pequena seta, flecha amarela em forma de Pin e coloquei em sua mão direita extendida, eu apenas disse:
- "Esse presente estava contado... Mas tem alguma coisa me dizendo aqui que, na verdade, um destes eu trouxe pra te dar. Abra a Mão. Esta é a primeira flecha amarela do seu Caminho de Santiago..."
Aconteceu na Mercearia Lili, no Santo Antônio, um boteco de Belo Horizonte. Rodrigo, o novo amigo em questão, estava sentado sozinho (?) no balcão quando me ouviu falando que eu tinha caminhado quase 900 km à pé. Quando descobriu que era o Caminho de Santiago quis saber mais. Havia mais de 15 anos que "queria fazer", mas não encontrava apoio, não tinha o estímulo ou a companhia... Ontem, ao deixar o boteco, foi até minha mesa e me disse novamente que tinha sido o melhor presente que ele tinha ganhado em toda a sua vida. E me pediu:
- "Por favor, posso te dar um abraço?"
Claro, Rodrigo, eu disse a ele.
Ele ainda não sabe. Mas este foi o primeiro abraço que ele deu em Santiago. O próximo vai ser lá: no Campo das Estrelas...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

contatos durante o caminho

Estou em Roncesvalles.
Amanhã começo o Caminho de Santiago. Se quiserem contatos ou notícias:
cadeosdoido.blogspot.com ou besantanna@gmail.com
Té já.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Fui?


Férias de mim. Ou férias comigo?

É tchau ou adeus?

Na terça feira parto pra Santiago de Compostela. E só volto(?) uns 40 dias depois, mais ou menos. Rito de passagem, busca pessoal, tratado religioso, não importa. Importa é que vou ficar longe perto, com vontade de mim, espero. Sinto necessidade de ir. Isso é mais do que vontade. Isso é lemniscata, pulsão, elétrons no átomim.

A cada casquinha tirada, o dodói fica mais seco, diriam. Não esquece de beber água, aconselham. Vai pela sombra, menino! Pode até ser. Ou não, como diria o outro. Se cuida, meu filho, devo ouvir na terça.

E vamo que vamo. Como diz minha amiga mais internacional, vai fundo que a lagoa é rasa!

E quem quiser viajar comigo, que tente me acompanhar, quando for possível pra mim, no cadeosdoido.blogspot.com.

Té já.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Faltam oito dias. "8"...


Aproxima-se o dia da viagem. Ontem faltavam 9 dias, hoje, 8... E assim vai.
Como SEMPRE, rumo ao desconhecido.
Viajar com o Ramiro é sempre engraçado. Guardamos um resquício da oitava série do colégio Pitágoras, o clima, as brincadeiras, em muitos casos as mesmas piadas.
O Ontem se confunde com o Hoje e, na mistura, molda amanhã.
Presente sempre, na rica experiência de ser, conviver, encontrar e, agora, porque não dizer... buscar...
Ah, fomos almoçar no Quintal, na pampulha à pé, claro. Quem já foi sabe como é gostoso...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Odissou


Terminei ontem de ler o livro "COMPOSTELA - Muito Além do Caminho de Santiago", de Beto Colombo e Manoel Mendes, livro que ganhei de uma pessoa especial, absolutamente carinhosa e atenciosa.

E, de ontem pra hoje, sonhei pela primeira vez com o Caminho.

Confesso que me emocionei muito com algumas passagens específicas e duas delas me fizeram chorar. E olha que homem não chora.

Já começo a sentir uma espécie de saudade de tudo que vivi antes do Caminho, como se o que hoje presentifico fosse se mostrar distante após minha experiência de viagens... Tenho refutado com muita veemência a idéia de que algo vai mudar substancialmente, de que vou descobrir uma resposta pra alguma pergunta oculta em mim, de que vou me iluminar em algum nível, enfim... Isso porque não quero me decepcionar. Não quero fazer do Caminho um rito obrigatório de passagem, um modelo mítico manjado de caminho do herói, que volta renascido, renovado, temperado pelas batalhas. Ulisses crescido, mais próximo (?) dos tantos deuses presentes em nossa construção arquetípica...

Acontece que sou assim.

E, do dramático romântico, sonhador infantil, rebrota a vontade do mágico, do fantástico, da incrível fantasia presente no suor do meu travesseiro... Não é à toa que, da minha primeira viagem à Europa, à cidade de Toledo, eu trouxe uma espada de samurai e coloquei na parede, em cima da minha cama. Sei que quando pensonho o Caminho vejo o menino de Kichute, com o cadarço amarrado na canela, em cima de alguma pedra, capa de pano de forro de mesa e a música tema do Homem de Seis Milhões de Dólares tocando em Back Ground. Quando pensonho o Caminho, conto com a motoquinha do homem-aranha, o cinto de utilidades, o grito Shazan, o sabre de luz e, claro, meu chapéu...

Como diz meu novo velho amigo Manoel Mendes, o Mano, - Ânimo!...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

be good, get good


Na ausência de significado, a resposta.

A potência da resposta representa a totalidade de significados possíveis.
Se a vida que não for analisada não vale à pena ser vivida, como diz Sócrates, têm-se na análise, e não na resposta, o motivo.

Motivo vem de mover. Mo-ver, meu ver, meu olhar.

Poder observar meu caminho é tender à possibilidade transformadora do movimento.

Me lembro do episódio JOGOS da quarta temporada de HOUSE, quando ele diz:

- Há três escolhas nesta vida: ser bom, tornar-se bom, ou desistir. A resposta simples é: se você não tentar, não vai falhar. É simples. Se não está feliz do avião, pule!
(...) a vida é perigosa, complicada...
(...) prefere imaginar que pode escapar em vez de tentar, porque, se falhar, não terá nada. Então desiste de algo real e se agarra à esperança...
É que a esperança é para os covardes... acontece.

imagem em:
http://www.ojm.pt/fotos/menus/areia_1216720854.jpg

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobre dormir e acordar


Ela é rica. Sua família é estruturada. Tem o segundo grau completo. Tem o curso universitário. Tem pós-graduação. Tem mestrado. Ela é culta, se veste bem, tem traquejo. Viajada, fala inglês. Fala outra língua. Tem um namorado inteligente, articulado, interessante. Ela é linda. Todos admiram sua beleza e seu jeito meigo de se portar. (de longe)

Mas ela é chata. E não sabe ser engraçada.

Como é chata e sem graça, não é convidada. Como é chata e sem graça, não consegue sentar em um boteco e ser interessante. Como é chata e sem graça, não tem amigos. Como é chata e sem graça suas qualidades magníficas se apagam. Ela se resume a ser chata e sem graça. E assim vai enganando a todos, porque ninguém sabe de suas tantas qualidades.

Até quando vai ser chata e sem graça? Ser chata e sem graça está na superfície da profunda mulher extremamente interessante que se esconde ali, atrás da chatice e do seu jeito sem graça. Será que ser chata e sem graça é uma escolha dela? Será que lhe é insuportável ser assim, boa, inteligente, culta, educada, amável? Será que ela tem espelho em casa? Será que ninguém vai fazer nada quanto a isso?

Alguém: ensine uma piada pra ela.

Alguém: ensine a moça ser agradável.

Alguém: dê um abraço nela, olhe em seus olhos e diga: - tudo bem você ser assim, boa, bela, bacana. Ela está precisando acreditar nela.

Quando ela deita a cabeça no travesseiro, nem o namorado dela a vê chorar. Por sentir o quanto lhe é insuportável a dor de só ser chata e sem graça.

Dorme bem moça. E acorda amanhã.


Imagem em:

http://img.wallpaperstock.net:81/a-dark-starry-night-wallpapers_7302_1024x768.jpg

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ciça e Juliana


Ele parece se chamar Pedro. Ela, Ana.

Calma.

Ciça e Juliana estavam na mesa ao lado. O meu Pedro e a minha Ana, umas duas mesas pra lá.

Ela olhava pra ele como se não coubesse mais naquele corpo. Ela queria participar do dele, porque já não dava mais. Mais não cabia. Ela queria se dar pra ele. Tudo, toda, tuda, tanta, tonta. Seus olhos diziam, gritavam, suplicavam, não havia como negar.

E alheia a eles dois, Ciça.

Coça ela, Pedro. Arranca a roupa dela Pedro. Pede ela em casamento, essa noite, essanoitesempre, porque um olhar desse, nunca mais. NuncAMAis.

Porque você furou essas orelhas parecendo uma índia, Juliana? Vou enfiar o meu dedinho no buraco da sua orelha.

Ciça tem um cabelo anos oitenta. Franja. E me conta que tem que ser assim mesmo, impetuoso, audaz, impulsivo, passional. Seu peircing no meio do nariz não combina com sua fala. Quem ela quis furar com esse peircing? Será que ela queria só combinar com a Juliana?

Diz ela que se a Juliana tirasse a roupa, eu ia entender o tanto que a Juliana era mandona. Não, não é isso que você tá pensando. Eu é que não estou me expressando bem. Primeiro que já farto de entender o tanto que Juliana era mandona.

Deixa eu ver se me explico: a Juliana da mesa da Ciça tava com uma calça jeans meio desbotada, daquelas que tem umas poucas tripinhas brancas na barra da calça. E um allstar cool e um casaco e um cabelo preto, bem preto, com uma franja também, praticamente... uma franja desfiada, mas um cabelão pretovéumanto, que às vezes tapava a orelha e escondia a rebeldia.

Mas o mais interessante eram os olhos (eu ia escrever óculos, mas meu ato falho contou que fiquei impressionado com os olhos da Juliana).

Mas o mais interessante eram os óculos. Quadrados, gigantes, retrô pra caramba, em escala, pareciam de uma menininha bem comportada de colegial...

Que Juliana comportada. Que Juliana agressiva. Quando a Ciça disse isso, quis dizer que por baixo daquela menina, que parecia aquele brigadeiro com forminha branca na ponta da mesa de um aniversário de criança, tinha um monte de tatuagens de caveira...

Ah, sei lá, já tô pensando alto. Nem sei mais o que estou falando. Só sei que independentemente de eu amar e desejar o amor da Ana, o jeito de amar e o olhar incrivelmente sedutor da Anamorada, mesmo que eu não descubra nunca as tatuagens mais escondidas da Juliana, ainda que eu não saiba se a Ciça é mesmo aquela melhor amiga que alguém um dia sonhou ter, mesmo eu não sendo padrinho de casamento do Pedro, ainda assim, eu estava naquele café. E lá, fiz amor com o olhar da Ana, abençoei o Pedro, abracei a Ciça, beijei mil vezes a Juliana, e Encontrei, na minha mesa, minha eterna amiga irmã Nitiama.



imagem em:
http://downloads.open4group.com/wallpapers/chicara-de-cafe-64b87.jpg

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

¿ Quien soy ? Mira en tú corazón


Hoje foi que recebi um carinhoso presente de aniversário, que estava prometido desde o dia 01 de julho de 2009.
Sim, ganhei o livro que tem esta capa daí de cima.

Quem me deu ousou pedir ao autor uma dedicatória que falasse ao peregrino que aqui está, em busca da busca, de coração aberto.
Daí, Manoel escreveu:

"Ao Bernardo. Acreditando que a felicidade não é um lugar, mas um caminho. É no caminho que a gente se encontra.
Ânimo. - O Autor"

Acontece que o livro veio com uma camiseta. E, nela, escrito em vermelho:

¿ Quien soy ? Mira en tú corazón

Quando li os dizeres da camiseta, um sopro, uma música, um sonho, uma bomba, uma luz...

ANĬMUS. Ânimo = Alma: o que move; o próprio caminho.

Foi assim que veio o mote. Assim vi no espelho a minha alma. A alma da viagem.

O tempo da gente é uma coisa engraçada, não? Meu amigo, Ramiro, me convidou pra fazer essa viagem no reveillon, em Arraial d'Ajuda. Hoje foi quando me veio a resposta...




segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Me nina.


Ainda mágico, ainda certo, ainda assim, ainda sim, estou caminhando-me.

E volto pra olhar os passos, rastros na terra batida, tantos cacos, tantos sonhos. Vôo baixo, às vezes. Descanso, às vezes. Caio e me levanto, me levando, me lavando.

De vez em quando pálpebras cansadas, de vez em sempre pernas doendo, coluna com sobrepeso - Atlas que o diga... Mas gosto de acreditar na Menina Vento, que insiste: - você tem fôlego, não pára não, acredita... É tão bom quando ela aparece no meio de alguma corrida, tão serelepe - sim, o adjetivo é bem esse mesmo -, tão saltitante, tão leve e risonha e diz: - Oi!!!, com três exclamações infantis (num meio pulinho), com aquele jeito moleca e menina, de quem não sabe mentir, de quem não sabe do medo, de quem não sabe da perda... (quem dera, né Menina?)

É com esse jeito que ela vem me falar que eu consigo. E, por isso, acredito em mim.

Tento acompanhá-la um pouco, tonto, não consigo.

Por enquanto. Pôr enquando.

Quando um eu toma as rédeas, me saboto:

digo pra mim mesmo: - quem falou que você tem fôlego?, você mal caminha, volta a andar!...

Não gosto "desse" eu. Eleu não combina comigo. Com meu outro migo. Cominimigo.

Mas continuo caminhando. Vou continuar tentando correr, tantando correr. Mesmo que ela não veja, mesmo que o tempo passe, mesmo que eu nunca acorde, mas tantando sempre. E cantando. E, quem sabe um dia, encantando...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Menina colorida também ama


A Pequena Cris Guerra, menina colorida, postou mais uma coisa gostosa em um de seus blogs famosos, visitados, em voga. Procure em um destes, você vai curtir procurar. E eu escrevi o seguinte comentário:

simples mente, amor? simples minto a mando
O amor tem disso, daquilo dopurodoputo dapuradaputa... e movimenta.
Calo. E amo. E calo. E às vezes o calo dói.

Será?

mais 20 KM


No cadeosdoido.blogspot.com tem mais esse vídeozinho de nossas caminhadas.
Falta menos de um mês. Nenhuma expectativa, se não a vontade de que dê tudo certo e que o caminho nos mostre os movimentos possíveis pra quem precisa aprender e ir atrás do sonho... Vamos nessa...

domingo, 16 de agosto de 2009

Dreadlocks e flores branquinhas


Pedro e Alina se casaram. Fui muito feliz por ter sido convidado para suas bodas. Lá, ao som da melhor música, na presença de tão doces pessoas, degustando as delícias do Bouquet Garni, ou vi atento o discurso em inglês do pai da noiva. Ele, juntamente com uns outros 20 suecos, romenos, ingleses, australianos, enfim, vieram de muito longe pra compartilhar o sonho de um casal fruto da globalização, do amor que não tem fronteiras, do encontro de mundos, culturas, referências, poesias.

Ele daqui, ela de vinte e cinco mil quilômetros de distância daqui.

E seu pai foi muito feliz ao dizer que os dois se encontraram por um motivo. Que todos ali estavam nesse momento especial, por um motivo: os dois sabiam o sentido maior da palavra MOVIMENTO. Foi porque os dois sabem o valor da palavra, do significante, do significado sem-sentido-para-todos-os-sentidos movimento que os dois se encontraram. Que saíram de 25.000 km de distância para nenhum átomo de distância... e fizeram de suasnossas vidas encontro.

Obrigado Pedro, belo moço moreno de dreadlocks no alto da cabeça, físico e filósofo que sabe amar. Obrigado Alina, pequena branquinha de flores branquinhas no cabelo loiro anelado que sabe sorrir pro Pedro, pra vida, pra gente...

E me deu uma vontade de compreender movimento...


imagem em:

http://imagens.fotoseimagens.etc.br/flores-brancas-na-primavera_874_1600x1200.jpg

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sim, pudera! Cinderela era ela.


Transcrevo aqui, conto que ouvi, ipsis verbis: ...e no meio do assunto, Evo sorriu sem graça para seu melhor amigo: - única, totalmente (disse ele). Merecidamente graciosa. Sabe-se presença marcante, apresenta-se suplantando a elegância, diz-se tímida. Timidamente.

Alva, papel de arroz macio, onde se lê escrito o palimpsesto das histórias de tantos amores, tantos desejos, tantos receios. Tantas explosões de paixão que pulsam atrás da pele, incitam o olhar, pedem e podem querer...

Mulher de ver, que lençol cabelo. Mulher de olhar, que profunda gente. Mulher de amar, marmita quente. Sabe? É mesmo é gato preto enorme, que passatravessa estrada...

Ou medusa noviça, que agrada os sentidos, riso que não se contém no meio da missa? Copo de leite que enfeita, copo de leite antes de deitar, leite de coco na pele, lisa, pêlo caminho. Será escorregador de parquinho, que prata a vista ao sol e queima a bunda do menino?

Ah, menino... entenda moça, mas medite viço, compreenda abacate maduro, saiba pêssego entumecido: pomareiei-la que surge, sem saber a diferença de rúcula e agrião. Essa abóbora vira princesa... Mas cadê varinha de condão?


imagem da cinderela em questão em: http://farm1.static.flickr.com/177/370512618_0d2b474e4c_o.jpg

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Algodão-agridoce




"As Grandes Lonas do Céu", como disse o diretor de teatro Fernando Limoeiro. O circo e seus mistérios. Arrelias de plantão, incitem o imaginário quase arquetípico que trazemos desde a primeira infância! A imagem do Pagliacci, o palhaço que chora, da ópera de Ruggero Leoncavallo, parece retrato fiel da vida. Alegoria da existência, que pinta, borda, cai, faz rir e, ainda assim, é miserável. Êta, vida! São tantos picadeiros... A família, o trabalho, os amigos, o botequim, tudo nos parece chão batido com tábuas coloridas em volta, fazendo o círculo, arquibancada improvisada pra quem quiser sentar e apreciar. Números que representamos e que, às vezes, teimamos em não olhar. De onde vem tantos ensaios abertos? Pra onde vão nossos tantos malabarismos? Ainda ontem, me vesti de domador. Hoje, voltei a fazer graça. Nem todo circo é um Cirque du Soleil. "Alegria" às vezes distante, pra quem se coloca sob as luzes dos holofotes. Eu compraria ingresso pra ver o circo da minha vida. Dá um bom espetáculo. Tem até elefante... E corda bamba! Tem malabarista sem malabares, trapezista que tem medo de altura, palhaço sem nariz vermelho... bom, pelo menos não tem mulher barbada... E banda de música, e ingresso vendido, e ingresso devolvido, e ribalta, e olhos atentos... - Que rufem os tambores! Senhooooras e senhoooores! Com vocêêêês, o indizível... o indescritível... o inefááááááááável... ops!... me esqueci. Como é mesmo o nome dele?


imagem em: http://i.olhares.com/data/big/137/1370591.jpg

sábado, 8 de agosto de 2009

Fogonética Filosofágica


Dia 8 do 8 de 2008 lancei o 8, meu livroCD, já comentado aqui. Hoje, exatamente um ano depois, recebi duas manifestações simbólicas. Um de uma amiga que fiz ao longo desse um ano, uma pesquisadora francesa de La Rochelle, que faz comentários mais interessantes que os posts que publico aqui e que me mandou um email com o seguinte título: "espiral"...

Outro, de Eric Grazzini, primo de São Paulo, que me ligou: - Bê, hoje de manhã passei na casa da mamãe e bati o olho em um CD escrito seu nome... Peguei pra ouvir e fui e voltei da praia escutando... Cara, que bacana. Curti demais... e a Mari (esposa dele) também... Parabéns, cara! Saudade...

Sem querer prometer nada, preferi, hoje, só pensar um pouco sobre o que quis me dizer esse tempo:

Fogonética Filosofágica

Um ano.

Tempo?

É só juntar as partes e se descobrir caminho: umano


Foto por Borboleta do Mar

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

SAGRADO




me-ditei silêncio
quando ouvi
a despalavra




quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De eus



silêncio existencial
no nada, potencialmente tudo
ente palavra, big-bang sutil
eu em dEUs
de eu e de outros eu
que vazio cheio de eus
e a busca e-terna do nós






imagem em: http://downloads.open4group.com/wallpapers/mundo-nas-maos-5bda4.jpg

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sensibilidade em alta

Que merda. Detesto excesso de sensibilidade. Tenho lutado contra essa tendência ao drama já há muito tempo... Será que existe alguma pesquisa indicando que o ser humano, assim como fica mais frágil em uma gripe na parte da noite, fica mais sensível na parte da manhã? Você já notou que quando está gripado, parece que à noite a gente sente mais? Ou será que sou só eu?

Sempre me sinto mais fraco à noite, quando estou gripado... Deve ser assim com a sensibilidade. Parece que a gente fica mais sensível de manhãzinha... Saco: foi só entrar o comercial de dia dos pais do Boticário e... pronto. Não vou falar que chorei, porque homem não chora. Foi só entrar o comercial do Mais Você com a Ana Maria Braga de cabelo vermelho e... pronto. Tem alguma coisa mais tocante que a Ana Maria Braga de cabelo vermelho? A sorte é que no Bom Dia Brasil tem também o cabelinho da Zileide Silva, pra dar aquela alegria na gente, liberar o sorriso, em contraposição ao triste cabelo vermelho da dona do Lôro... Cabelinho não, cabeninho. É uma graça, parece um ninhozinho.

Daí apreciamos a beleza da voz da Zileide, apreciamos a beldade quase exótica da Renata e pronto: equilibramos o sistema razão X sensibilidade. E vamo que vamo, pra mais um dia frio, chato, até nos sensibilizarmos de novo, amanhã de manhã...


link do filme: http://www.youtube.com/watch?v=ZcbhA6bemgY

sábado, 1 de agosto de 2009

Onde está você?


Querido Beto,

é como diz a música: "Onde está você? Choro nesse canto a sua ausência, teu silêncio e a distância que se fez tão grande e levou você de vez daqui... Velho companheiro, algo em mim também morreu, desapareceu, junto com você. E hoje esse meu peito mutilado bate assim descompassado, que saudade de você."

Queria entender um pouco mais das coisas todas. E olha que eu já vi a morte de perto. Eu estava lá, ao lado do leito da minha avó querida, no dia em que ela partiu. Foi um suspiro ao inverso, um sopro do destino, uma pausa no tempo. Em um demoradíssimo átimo de segundo ela se foi, deixando em todos nós um pedaço de vazio. Um cheiume de buraco. Ninguém entendeu nada, ninguém desentendeu nada, todo mundo sentiu o vento invertido que dessoprava no quarto, onde todos estavam de mãos dadas.

Penso que não pude estar com você quando partiu. Penso no atabaque, no tan-tan que você me deu de presente quando eu ainda era muito, muito garoto. Ninguém, se não você, poderia ter me dado um binóculo como o que você me deu. Se lembra? Foi na praia. Com ele entendi a alegoria de ver o mar, de enxergar longe, de buscar o por onde passa o caminho, de pesquisar possibilidades.

Quem vê ao longe, amigo Beto? Quem sabe do seu sofrimento? Quem vê o longe, amigo Beto? Quem sabe? Queria poder te abraçar, ouvir sua voz, reflexo da alma, seu sorriso amigo malemolente. Queria sentir sua presença e escutar seus queixumes, queria ouvir as confidências que não ouvi na idade que tinha quando você partiu. Hoje posso te escutar melhor, amigo. Já casei, já me separei, já sorri, já chorei. Já corri muito pra lá e pra cá e descobri que nada adianta descobrir, revelar, pesquisar, entender. O truque é o Saber, amigo Beto, compreender. E nada.

Resta o sentimento, resta a lembrança, resta o sono batido, o sonho lavado junto com os olhos ao amanhecer... e estamos. Todos. Nus e vestidos, olhando o muro da existência sem nos virar para trás para caminharmos rumo ao sol.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

noitô


Flávia já havia me advertido.
Preciso aprender e apreender dizer não.
Quantos rumos, tantos caminhos. Vivo sonhos impossíveis cheio das verdades que só existem aqui dentro. E sofro. Resolvo resolver. E sofro. Quando a escolha antecipa o sujeito e anula o eu, não há escolha, há saída. Caminhos revoltos, folhas que caem quando passo em câmera lenta. As árvores balançam, mas não sinto o vento. Estou ali longe, noutro lugar distante de mim, do eu, do ser, do estar, do permanecer, do ficar. Caixinha de fósforo com um besouro dentro. Mariposa na lâmpada que escuta o rádio valvulado. Luz amarela. Cheiro de café.
E destôo de mim na noite que não cessa, não atravessa, não tarda, não falha.


imagem em:http://media.photobucket.com/image/barulhos%20noturnos/joaobbbb/Belem/S2020057.jpg

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Se



Se

onipotento
oniconsigo?
re-velando, tudo, multiplurestandoencantado.






imagem em:http://www.guiapetecia.com.br/admin/novo/Racas/Guia-Pet-bbecf4fb24

terça-feira, 28 de julho de 2009

ssssilêncio...


No mundo da palavra, no mundo imagético em que vivemos, o over tá presente. É tudo demais, é tudo muito, é tudo tanto. O capitalismo incita, a gente aceita. E quando quem dá as regras são os norte-americanos (pelo visto, por enquanto...), aí o negócio engrossa. É como aquele programa que eu acho ridículo: extreme makeover, reconstrução total. Tá, é legal fazer casa pra quem tá precisando. Mas eles tem que fazer A melhor, A maior, A mais bonita, A isso, A aquilo. Eles deviam mandar fazer um monte de "As" pra pregar nas testas deles... - porque não tô querendo ser radical hoje, eu teria dito algo bem mais grosso. O que conta é o conto de fadas ao extremo, hiperrealista, não a finalidade usada como desculpa. Se não, podiam fazer um programa aqui no Brasil, no nordeste, na Somália, sei lá onde... Mas o bom é ficar um monte de retardado que quer aparecer na televisão gritando desvairadamente enquanto os mais mais se exaltam e curtem o gozo. Aliás, eu não tenho nada que ver com isso. Eu mudo de canal, que não aguento esse excesso específico... O Luciano Hulk faz isso muito bem, sem deixar que o artifício, a forma, o próprio dispositivo suprima o conceito. Fica bom de ver.
Mas o que fez me lembrar isso foi o fato de gritarem quando deveriam sussurrar - já que estariam teóricamente falando de um ato de carinho, de amor, de ajuda ao próximo... E olha que estou malhando mesmo sendo publicitário, um comunicador que estuda as estratégias tantas de manipulação do dispositivo midiático...
Na verdade foi por isso que me lembrei: a Branca escreveu um post lindo no seu blog esses dias, que se chama Perto Longe (deve ter se lembrado do meu, com o mesmo título, de abril). Dizendo ela da necessidade que acabamos tendo em gritar com o outro, quando estamos aborrecidos ou irritados. E que quando estamos juntos por algum tipo de amor, acabamos por sussurrar um com o outro. Acho linda essa imagem que ela pintou no blog dos corações distantes gritando um pro outro e dos corações pertinho sussurrando... Acho que temos que tentar silenciar (diferente de calar) nossos corações. Talvez seja quando eles se tornam um...
No silêncio se encontra o maior mistério da comunicação.

imagem em: http://l.yimg.com/l/tv/us/img/site/07/02/0000050702_20080806173105.jpg

sábado, 25 de julho de 2009

Máquina do Tempo






Quem disse que não há?

O Minas Tênis Clube tem o cheiro do meu avô.

Entro pela portaria de baixo e, toda vez, tenho a impressão que vou encontrar uma piscininha de criança do meu lado esquerdo. Agora a piscina de criança e os brinquedos ficam do lado direito. Mas a construção onde fica o imponente Relógio do Minas - tem que ser com letra maiúscula - permanece. E me transporta ao princípio da década de 80, quando minha mãe parava o carro na frente da portaria da rua da Bahia e pedia:

- Meu filho, vai lá buscar o vovô.

Foram poucas vezes. Mas era interessante entrar no restaurante, chegar até aquela mesa cheia de velhos (na minha cabeça, à época) e chamá-lo, sem nunca deixar de ser apresentado por ele aos seus colegas de copo, sócios também remidos, senhores de outra época, cavalheiros como os que existiam na época em que o cavalheirismo era coisa de homem com agá.

- Ô, bacanão! - dizia meu avô toda vez que encontrava um neto.

Eu tinha medo dele. Na vedade, tinha também ciúmes.

Eu era um neto qualquer, o sexto neto homem da família. Já não representava nada exatamente novo ou interessante ter um neto pra ele quando eu nasci. E meu pai era cruzeirense, o que o deixava mais desconfortável com a situação: ele, tendo sido presidente do Clube Atlético Mineiro. Por mais que eu tenha me descoberto atleticano, isso já não fazia exatamente diferença na cabeça daquele ex delegado da polícia civil, que cuidava de carimbar os passaportes e resolver soluções às vezes nada ortodoxas para os da tradicional família mineira.
Uma coisa era desagradável. Ele sempre se levantava da mesa, e pra continuar equilibrado, depois dos copos extra, segurava com aquela mão de delegado em nossos pescocinhos finos de menino - onde dava a altura ideal pra seu equilíbrio - fazendo a gente praticamente sufocar, ficar com marcas de dedos como colar, muletas infantis com sonhos de criança.
...
Essa semana recebi do Primo um email com um link ótimo. Muitas dezenas de capas da Playboy de 1997 pra cá. É só clicar nelas que as internas das revistas respectivas aparecem em tamanho ideal. Nos fundos da garagem da rua São Paulo, 1883, onde hoje há uma Casa Maia, se encontrava sentado meu avô, olhando os transeuntes, escutando rádio, sempre com um queijo canastra picado e temperado numa vasilhinha branca de cerâmica e uma Brahma gelada (era a que ele tomava), e um copo ao lado. Ele se sentava em uma almofada verde. Por baixo da almofada, escondido dos netos, a última revista playboy que tinha saído nas bancas. Era o tempo de 2 cervejas: ele se levantava pra fazer xixi e um dos netos passava lá, pegava a revista e deixava a almofada no mesmo lugar. Íamos pro Quartão, o quarto de cima da casa que dava pra uma varandinha, onde se via a rua São Paulo, e revelávamos o erótico que havia em nós, pela descoberta de menino do proibido, do que ainda não conhecíamos... Depois da farra, era só esperá-lo ir novamente ao banheiro fazer xixi e voltar com a revista pra mesma posição...
Ainda hoje temos certeza absoluta que ele nada percebia.

Aham... ;)

Acho que era a educação sexual possível que o vovô Hélio Soares de Moura nos dava nos idos de oitenta...

O email teve o mesmo mágico transporte que a máquina do tempo do Minas Um.

O título do email do Primo? "Salve, salve, Dr. Hélio..."

sexta-feira, 24 de julho de 2009

à poetisa preguiçosa


à poetisa preguiçosa

Se se põe a ser poema,
sol poente, amanhã.
Que hoje descubra a trema
do universo, anciã.

Mesmo modelos melífluos
tem sua pungente pulsão.
Só se ultrapassa o venífluo
se for suspensa a razão.

Por isso, finque a bandeira,
do status, apodere;
nem que o espelho queira
lhe mostrar o que lhe fere...

Em compassada passada
rumo ao saber sem limite,
tomada sua estrada,
não titubeie, grite!